Naruko

10 Capítulo X


Notas iniciais
Perdão, houve um equívoco. Postei o capítulo 11 sem ter postado o 10, então hoje irei atualizar tudo.

Passei a noite em claro pensando sobre o que vivi ao lado de Orochimaru, na conversa frustrante que tive com ele e o que Naruto me disse. Eu nunca fui alguém de pensar demais... E agora me vejo querendo as respostas que não tive por uma vida inteira.

Por que eu cresci com o Orochimaru? Se ele me sequestrou, por que já não levou o Naruto junto? Tudo que eu fiz até hoje foi errado?... Será que a Vila me vê como uma espécie de vilã? Eu seria uma pessoa muito diferente se tivesse crescido em Konoha?... Se o Uchiha não tivesse ido para o nosso lado eu nunca saberia do meu irmão?

Respirei fundo e fechei os olhos tentando afastar esses pensamentos... Já estou delirando em coisas que ninguém pode me dar a resposta. Olhei para o céu e o sol brilha intensamente, sem nenhuma nuvem em seu caminho para ofuscá-lo... Deve estar perto da hora do almoço.

Levei a mão à barriga, esperando que isso a faça parar de roncar, e me levantei... Tencionei ir em direção à Konoha para almoçar, mas estagnei antes mesmo do primeiro passo. Acho que ainda não tô a fim de voltar não! Virei-me para a direção oposta e comecei a correr entre as árvores em busca de qualquer lugar para comer algo.

Parei ao dar de cara com o que acredito ser um izakaya* meio acabadinho no caminho... Deve de ser um lugar que os ninjas param entre as missões, porque só tem essa casa velha em quilômetros.

Entrei e, para minha surpresa, o local estava cheio. Ignorei os olhares sobre mim e me sentei em frente ao balcão. Esqueci de roubar mais dinheiro do Uchiha, então tirei o pouco que restou e coloquei sobre o balcão.

— Quero qualquer coisa pra comer que dê pra pagar com esse dinheiro. – Um homem de meia idade e expressão carrancuda pegou o dinheiro e olhou pra mim com certo desprezo antes de sair... É, eu sei que é pouco dinheiro.

Alguns minutos depois ele retorna com um Teishoku* bem meia boca... Gohan, peixe, sunomono e um missoshiru ralo... Ah, tá bom.

Logo que comecei a comer, um cara estranho se sentou ao meu lado. Olhei-o de canto e o ignorei, voltando a comer, mas o desgraçado literalmente se virou e ficou me assistindo. Terminei meu almoço virando o missoshiru de uma vez e só então me virei para ele.

— Posso ajudar? – Ele sorriu.

— Eu posso te pagar uma bebida? – Olhei-o dos pés à cabeça... Era um cara de uns 40 anos, usava a bandana de Suna, o que significa que eu não esbarraria com ele tão cedo, tinha um rosto bem cansado e acabado, então não deve fazer sucesso nenhum com as mulheres. Eu sorri de volta... É o cara perfeito pra extorquir.

— Irei aceitar, mas só uma, pois não tenho costume de beber...

...

Sempre ouvi falar que beber faz você ver as coisas de forma distorcida ou esquecer de coisas ruins... Mas depois desses, hm... Dois, quatro, seis, sete... doze?? Copos vazios parece que esse cara ficou ainda mais feio... Pera, tem mais de doze? Isso é tudo meu ou ele tá colocando os copos vazios dele aqui pra algum tipo de jogo mental? Deixa eu contar de novo… Um. Dois. Três. Quatro-Cinco. Seis.

— Daisuke... Traz mais dois pra mim e minha nova amiga aqui. – Se eu beber mais dois eu fecho em 20? – Ou melhor... Traz uma garrafa! – Agora estamos conversando!!

É impressão minha ou esse idiota tá cada vez mais perto? Ah... Pera... Não é possível! Esse cara realmente acha que só porque está pagando uns 3 copos ele pode me tocar?! Só pode ser brincadeira!

Só por estar com a mão na minha coxa eu já vejo como motivo suficiente para quebrar todos os ossos das duas mãos dele, falange por falange, nem com as células do Zetsu branco ele voltaria a mover esses dedos nojentos... Só um movimento e consigo enterrar essa carreira de ninja meia boca.

E ainda sou uma mulher misericordiosa por não estar cogitando matá-lo... Olha, uma garrafa novinha!! O carinha aí do balcão abriu a garrafa e nos serviu.

Sorri e aceitei a outra dose do sakê, já virando o líquido quente... É tão gostoso... Com esse já são... 16 copos? Acho que se tivesse mochi seria mais gostoso... Será que existe mochi alcoólico? Se eu cozinhar o arroz de mochi no álcool e depois... Não, não... Talvez se, depois de pronto eu deixar o mochi dez minutos dentro do copo ou... Rechear o mochi com sakê? Será que ia vazar tudo?... Ou talvez...

Ele tá subindo a mão pela minha coxa? Sério?

— Melhor você nem tentar nada. – Eu precisaria estar muuiito mais bêbada pra ele ter a mínima chance... E ainda sim seria capaz de eu rejeitá-lo. Respirei fundo contendo minha vontade de matá-lo e com isso apenas peguei a mão dele e a afastei de mim delicadamente... Ainda quero beber mais um pouco.

— Sabe... Estou pagando bebidas a tarde toda e você quer me dizer que não mereço nada em troca?... Como ninja eu poderia tomar o que quero à força, mas sou um cara legal, então estou indo com calma. – Ignorei-o e conforme fui terminar minha bebida, ele pareceu se irritar, colocou novamente a mão na minha coxa, desta vez com um pouco mais de agressividade, apertando-me.

Com cautela, coloquei meu copo sobre o balcão e minha mão sobre a dele, segurando-o com força.

— Sabe... Pelo que eu me lembre você chegou e se ofereceu para pagar bebidas porque quis... Eu nunca ofereci dar nada em troca... Mas se quiser, eu posso aplaudir sua generosidade. – Ele tentava puxar a mão de volta, mas eu apenas o segurava com mais força. – E embebedar alguém para conseguir o que quer não o torna um cara legal. – Mais um puxão que ele deu tentando se soltar e o puxei para a direção oposta, torcendo ou quebrando o pulso dele, vai saber.

Ele gemeu um pouco de dor, frouxo, devo ter ouvido ele dizer algo como "sua vadia" antes de se levantar de súbito e dar um passo para trás, ele parece extremamente irritado... Dá pra ver uma veia saltando em sua testa... E eu achando que não dava pra ele ficar mais feio.

Todos no local parecem ter parado o que estavam fazendo e, aos poucos, bem baixinho, comecei a ouvir um coro.

— Briga!... Briga!... Briga! – O coro foi ganhando força e ficando mais alto e isso me animou bastante! Levantei-me rapidamente também, mas o mundo parecia estar balançando ao meu redor e tá um pouco dificil de me manter em pé. Será que ele usou algum jutsu de confusão mental?

Sentei-me no chão... Ou caí pra trás, quem sabe? O que importa é que mato esse tipinho aí sentada e com uma mão amarrada nas costas... Ele começou a fazer alguns selos com a mão e eu fiquei só o encarando e esperando pra ver o que virá.

Mas... Tudo ficou quieto de repente, um silêncio quase assustador... E o idiota estagnou em um selo, parece que todo mundo foi paralisado... Olhei para as minhas mãos e pernas pra ver se não deixei o chakra da Kyuubi escapar... Parece que tá tudo certo.

Encarei o babaca e ele ainda está ali parado, parece estar... Suando? Percebi que ele olha por cima de mim, apoiei as mãos no chão e levantei a cabeça... Reconheci o Uchiha mesmo de ponta cabeça. Que merda ele tá fazendo aqui?? E por que ele interrompeu minha primeira briga de bar??? Esse Uchiha sem braço vai ter que me dar uma ótima explicação pra cortar o meu barato... Desgraçado.

Apoiei-me na cadeira que estava sentada, usando-a como auxílio para me levantar e ali me sentei novamente, encarando-o. Ele ainda olhava para o babaca que me apalpou... Tinha o Sharingan ativo, aquela expressão mais carrancuda que o normal, como se estivesse com raiva e um olhar questionador... Por algum motivo, isso é muito sexy. Ele virou o olhar para mim e um arrepio percorreu meu corpo... E não foi um arrepio muito inocente não.

— Vamos embora. – Ah é... Quase esqueci que a personalidade dele é isso aí... Revirei os olhos e me virei novamente para o balcão, ignorando-o.

— Você não me dá ordens, Uchiha. – Olhei novamente para os meus... 15... 17... Copos vazios e sorri ao lembrar da garrafa cheinha à minha frente. Peguei-a e virei um gole ou dois, direto do gargalo.

— Naruko! – Esse insuportável ainda tá atrás de mim? Que merda, viu... Virei para ele com a garrafa na mão e sorri, mas de alguma forma ele parece mais mal-humorado que o habitual... Como pode ser tão bonito e tão chato?

Ele arqueou uma das sobrancelhas, como se soubesse que estou o amaldiçoando em pensamentos e eu bufei, irritada. Tomei mais um gole ou dois do gargalo, encarei o tal ninja que ainda nem se movia com medo de morrer, sorri para ele e ergui a garrafa, como uma despedida.

— Obrigada por pagar a conta. – Estendi a mão livre para o Uchiha e ele ficou me encarando sem fazer nada... Mais alguns segundos em silêncio, balancei a mão em sua direção até ele finalmente segurá-la e me ajudar a levantar. Qual a dificuldade, hein?

Cambaleei por um momento, pois tive certa dificuldade para ficar de pé, mas logo me apoiei no Uchiha e saímos do local. Já na porta, parei de súbito ao ver degraus na saída... Degraus? Isso estava aqui desde o começo? Só podem ter colocado agora, não tem como! Segurei o corrimão e estagnei ali, mas o Uchiha prosseguiu... Ele parou apenas alguns passos depois e se virou para mim, esperando uma explicação.

— Isso parece meio alto, né? Eu segurava o corrimão com força em uma mão e a garrafa na outra mão.

— São dois degraus. – Não tem como tudo isso ser apenas dois degraus, não! Ouvi-o respirar fundo, como se estivesse perdendo a paciência.

Estiquei a perna com cuidado para dar um passo a frente e... Caí sentada no chão... De novo! Pelo menos a garrafa tá intacta, então vamos beber mais um pouco, né? Como acho que não vou conseguir me levantar tão cedo, posso aceitar minha sina e ir acabando com essa garrafa enquanto isso.

Comecei a encarar o céu conforme bebia... Será que eu tô bebada? Eu cheguei por qual direção mesmo? Se eu estiver bêbada, será que dá pra perceber? Como que eu faço pra ir embora? Queria comer mochi.

— Por que você está me encarando? – Caralho, é mesmo, o Uchiha tá aqui!

— Hã? Eu tô te encarando? – Desde quando?

— Sim, tá há uns 05 minutos olhando pra minha cara e rindo sozinha igual idiota. – Como eu não percebi?

— Posso te contar um segredo? – Ele fechou os olhos e respirou fundo antes de responder.

— Pode.

— Acho que eu tô um pouco bêbada... Mas não conta pra ninguém! Dá nem pra perceber!

— Se você não tivesse me dito acho que não teria reparado mesmo!

— Viu só? Eu disse! É sutil, mas eu te contei porque você é meu amigo... – Amigo, engraçado... Nem parece que ele matou meu “pai” uma vez.

— Eu sou seu amigo, é?

— É sim! – Eu sorri, acho que o mau humor dele passou... Vou continuar sendo legal pra animá-lo um pouco. – Eu fico pensando em uma coisa... – Ele até chegou a abrir a boca, mas desistiu do que ia falar, tadinho, acho que tá tímido... Tomei mais um pouco de sakê enquanto ele parecia me esperar... Melhor eu falar logo.

— Não é justo você ser tão bonito, sabia?

— OI?

— Eu fico muito irritada com isso às vezes... Você é um cara lindo, é forte, tem sempre um monte de mulher correndo atrás de você...

— Sabe que eu vou lembrar disso amanhã, né? – Ah que fofo, acho que ele gostou do elogio. – Por sinal, você pode escrever isso?

— Escrever? – Ele fala engraçado. – Eu não sei escrever!

— Pelo menos eu tentei... – Tentou o que?

— Mas então... Eu tava falando que eu pensei aqui, né... Você é todo bonitão, é um dos ninjas mais fortes que existe, tem quase uma horda de mulheres atrás de você... Então eu fiquei procurando um defeito, além da sua personalidade, é claro... E cheguei à conclusão de que você deve ter um pau pequeno... – Ele fechou os olhos, levou as mãos para a testa e parecia estar dizendo algo, mas eu não conseguia escutar, acho que peguei num ponto sensível pra ele, tadinho... Após se recompor, ele prosseguiu.

— É, eu devia esperar que você ia mandar uma dessas... – Ele se aproximou com calma e tirou a garrafa da minha mão, acho que ele quer beber para esquecer dos problemas... Tudo bem... Eu divido meu sakê, Sasuke... Só que a garrafa já está pela metade.

Ele... JOGOU FORA!? DESGRAÇADO!

— Mas... Mas... Por quê?

— Vamos embora agora. – O mundo ficou de ponta cabeça e eu estou me movendo, será que é um jutsu novo? Ah não, acho que o Uchiha me jogou nas costas e está me carregando.

...

Após alguns minutos de caminhada, o mundo de ponta cabeça começou a rodar muito, está me deixando meio tonta.

— Acho que vou vomitar. – Menos de um segundo e me espatifei no chão. Até a náusea passou na hora. Ele... Me largou? Sentei-me no chão, buscando me ajeitar, e só então percebi que já está de noite e estamos na floresta próxima a Konoha, a mesma que eu dormi ontem.

— Está me levando pra Konoha?

— Não, vamos ter que acampar aqui porque alguém não pode entrar bêbada na Vila. – Ah é... Ri por um momento... Só porque eu queria um banho quentinho e uma cama agora.

— A Hokage alcoólatra me proibir de ficar bêbada parece com algum tipo de piada sem graça. – Deitei no chão aonde estava mesmo e bocejei... Acho que hoje vou conseguir dormir numa boa.

Fechei os olhos e pouco tempo depois senti um vento gelado atravessar meu corpo e arrepiar até meu último fio de cabelo. Sentei-me imediatamente e só então reparei no Uchiha sentado frente a uma fogueira a poucos metros de mim. Levantei com um pouquinho de dificuldade e me aproximei devagar, sentando em um tronco ao lado oposto dele, mas ainda próxima da fogueira.

— Sabe que você não precisa acampar aqui, não né? Pode ir pra sua casa dormir em uma cama quente. – Se não vai ficar jogando na minha cara depois.

— Você não é de confiança. – Arqueei uma sobrancelha e cruzei os braços.

— Você tá querendo brigar, é? — Ele lançou um daqueles sorrisos irônicos que me deixam irritada antes de se pronunciar.

— Você mal dá conta de ficar em pé, Naruko! Uma coisa é encarar um bêbado num bar, outra é encarar um Uchiha nesse estado. – blá blá blá Uchiha...

— Eu acho que estou na vantagem... Bêbado não cai em genjutsu, ele já vive em um... – Sorri para ele.

Silêncio... Ele me encarou por alguns segundos, acho que não gostou da piada, o que não me surpreende, ele não tem senso de humor mesmo e logo que desviou o olhar, o assunto se encerrou. Acomodei minhas costas no tronco da árvore atrás de mim e comecei a observar o trepidar do fogo. De certa forma, estou apenas repetindo tudo que fiz na noite anterior... Sentada no meio da floresta, com essa estranha sensação de solidão e um monte de perguntas sem resposta. A diferença é que ontem estava realmente sozinha e não estava com tanto frio.

Claro que, como cresci em Otogakure não tive exatamente uma família feliz, unida e amorosa, mas eu não me lembro de me sentir esquisita assim antes, como se eu estivesse perdida e sozinha. Eu sei que hoje tenho o Naruto e que ele faria tudo por mim, mas de alguma forma, isso parece tão errado... Arrepiei brevemente com um vento frio e estagnei quando percebi que o Uchiha me jogou um casaco longo.

— Naruto pediu para te entregar. – Permaneci encarando o casaco em minhas mãos sem dizer nada. – Ele me pediu para vir te buscar porque disse que você precisava de espaço e eu a conhecia há mais tempo.

Ri da ironia... Às vezes eu acho que o Uchiha lê mentes... É exatamente por esse tipo de atitude que eu não consigo me aproximar do Naruto.

— Eu não mereço o Naruto. – Desabafei e sorri, ainda olhando para o casaco.

— Nenhum de nós merece. — Levantei o olhar tentando ver o Uchiha, só que a fogueira entre nós me impedia de olhá-lo diretamente. – Mas ele não liga pra isso.

— Verdade. – Vesti o casaco e voltei a olhar para as chamas à minha frente. – O problema é que eu ligo. – Talvez a errada dessa história seja apenas eu... Vivo discutindo e teimando que faço tudo que um ninja deveria fazer, orgulhosa de ter sido fiel às ordens que recebia, mas agora o próprio Orochimaru quer seguir o caminho de Konoha e largou tudo pra trás... Ele estava errado todo esse tempo? Eu fui conivente a esses erros?

— Uchiha... – Não consigo ver exatamente se ele está me olhando, mas sei que está me ouvindo. – Você acha que sou uma pessoa ruim? – Por um momento ele pareceu surpreso com a pergunta e ponderou um pouco antes de me responder.

— Não. – Incrível resposta... Me explicou muitas coisas, obrigada. Ele parecia perdido em pensamentos... Espero que me explique algo. – O que aconteceu para ontem eu deixá-la com o Orochimaru e hoje ter que vir te buscar bêbada fora da Vila? – Oporra, quero respostas, não mais perguntas! Respirei fundo e tentei pensar na melhor forma de respondê-lo.

...

Após divagar um pouco, resolvi me pronunciar novamente.

— Discuti com o Naruto ontem e isso me trouxe algumas dúvidas... Mas falar com Orochimaru só piorou a situação.

Mais alguns momentos de um silêncio desconfortável até eu me sentir a vontade para prosseguir.

— Eu fico me questionando se tudo que fiz até hoje foi em vão... Ou errado. – Respirei fundo. – Sempre tive orgulho de ser uma grande ninja com 100% de aproveitamento, missão dada era missão cumprida, não importa o que eu tivesse que fazer, não importa se alguém sofreria, mesmo que fosse eu mesma. Mas agora convivendo com o Naruto, quando eu lembro de tudo o que fiz e passei, eu me sinto meio "suja" para estar ao lado dele... Fico com a sensação de que meu lugar não é aqui, mas também não quero voltar ao que era, me sacrificando todos os dias... – Ponderei alguns momentos antes de prosseguir. – Eu estou com raiva de tudo porque sinto que fui usada durante a minha vida inteira... E não consigo entender por que isso aconteceu comigo!

— Você precisa encontrar o seu caminho.

— Eu sei disso! Todo mundo fica me dizendo para eu viver uma vida normal, ficam me perguntando o que eu quero fazer agora, dizendo para eu achar meu jeito ninja, meu caminho, perguntando meus desejos... – Engoli seco na esperança desse nó na minha garganta se dissipar. – ..., mas eu não sei fazer isso. Passei a vida inteira seguindo ordens e, por incrível que pareça, não é tão simples quanto apenas obedecer a alguém cegamente... É mais algo como sufocar a pessoa que você poderia ser.

Aguardei para ver se ele diria ou perguntaria algo, mas ele ficou em silêncio. Suspirei cansada, apoiei a cabeça no tronco da árvore e voltei a encarar a fogueira. Já que comecei a falar, vou falar tudo.

— Sabe quando te contei que quebrei as duas pernas treinando taijutsu aos 05 anos? – Ele não respondeu, e nem precisa, só quero falar e ele é o melhor ouvinte que conheço. – Eu só quebrei uma... Quando comecei a chorar, Orochimaru-sam... Orochimaru.Quebrou a outra pra eu parar... E disse que se eu continuasse fazendo birra, quebraria os braços também... Um pouquinho antes de você chegar eu comecei a fazer vigília dia sim, dia não... Seis meses antes disso começaram a me treinar, se eu pegasse no sono, eles me davam um choque... – Parei para respirar um pouco e engolir seco novamente... Talvez eu precise de um pouco de água. Mas vou falar tudo que tenho pra falar primeiro. – Tive minha menarca aos 11 anos de idade... E aos 12 saí para uma missão onde deveria me fazer esposa de um cara de 30 e poucos... Ou seja, caso ainda não tenha ficado claro o suficiente, eu fui vendida pra pegar informações e tive que ser o brinquedo sexual dele por uns oito meses até obter o que queria... Um mês após eu voltar, Kabuto teve que me operar para fazer um aborto.

Mesmo através das chamas, percebi ele se movendo, parecia desconfortável, mas ainda não dizia nada.... Nem sei se ele saberia o que dizer.

— O que eu quero dizer com tudo isso... É que eu vivi por aquele velho e por Otogakure no Sato... E agora... Ele quer se aposentar, viver uma vida tranquila e me manda ter uma vida normal. – Ri da ironia. – Ele não me ensinou isso!! Tenho muita dificuldade para dormir, só consigo quando estou extremamente cansada... Ou, descobri recentemente, bêbada! – Saudades da garrafa que ele jogou fora. – Queria muuito chorar enquanto te conto tudo isso pra ver se esse... Nó na garganta sairia junto..., mas eu não consigo. — Sorri por um momento, incrédula com essa ironia. – Às vezes eu me sinto indiferente a tudo e ao mesmo tempo me imagino como um ser humano horrível por não me importar com nada..., mas... Eu não consigo ser diferente, por mais que eu me esforce... Eu só queria que alguém me desse respostas ao invés de mais perguntas... Então me diz... Por favor, me diz... Como que eu vou ter uma vida normal?

Para a surpresa de zero pessoas Sasuke não disse nada..., mas, inacreditavelmente, levantou-se e se sentou ao meu lado.

— Infelizmente têm coisas que só nós mesmos podemos responder. – Caramba, ele falou! – O que eu acho é que não existe uma vida totalmente normal para ninjas e que você precisa encontrar algo que te faça bem para conseguir se manter firme. – Desviei meu olhar da fogueira a fim de olhá-lo nos olhos antes de responder.

— E o que te faz bem?

— Também estou tentando descobrir. – Faz sentido... Por um momento esqueci que ele também possui muitos demônios internos que o atormentam desde novo e, dessa forma, permanecemos alguns segundos nos olhando em silêncio, cada um perdido em seus próprios pensamentos..., mas, pouco tempo depois, recostei minha cabeça no ombro dele, me sentindo cansada.

— Será que um dia vamos descobrir o que queremos? – Ele não se incomodou por eu ter me apoiado nele, então fui relaxando aos poucos e bocejei algumas vezes antes dele responder.

— Acho que você está se preocupando demais com algo fora do seu controle. – Ele deu uma pausa, parecendo ponderar se iria prosseguir com sua fala ou não. – Você deveria apenas fazer o que te der vontade. – Levantei um pouco o rosto para olhá-lo diretamente e sorri.

— Sabe que esse conselho pode ser bem perigoso, né? – Ele baixou o olhar em minha direção e lançou aquele meio sorriso irônico que me deixa irritada.

— Eu não retiro o que eu disse. – Ri por um momento antes de bocejar novamente, me ajeitei um pouco mais próxima dele, deitei novamente minha cabeça em seu ombro, de uma forma que me deixasse mais confortável e sussurrei antes de pegar no sono.

— Que bom que eu tenho você.

Notas finais
Capítulo mais longo que o normal. ♥