Já era madrugada e cheguei ao 10 de novembro de 2019. A essa altura eu já sabia que não ia conseguir dormir, Thomas também não iria. Ele se encontrava ainda bastante agitado pelas possibilidades que surgiram comigo e eu sentia o mesmo, mas ansiedade acima de tudo.

Thomas cortava o meu cabelo na sala de casa porque resolvemos entrar para que eu não levasse tanta frieza. Ele afastou o sofá e pôs uma cadeira no centro do cômodo. Fiquei sentado nela enquanto ele tentava deixar o meu cabelo do tamanho do dele. Eu estava sem camisa para os fios não ficarem presos no tecido.

O plano era simples: eu me passaria por ele com o novo velho penteado e usaria uma jaqueta folgada para disfarçar meu corpo mais magro e alto. Tudo concluído, veria mamãe uma última vez e iria ao abismo conferir se o portal ainda estaria lá. Caso não tivesse, voltaríamos para casa e começaríamos a procurar um meio de se comunicar com o senhor Levi, agora morando em um país vizinho. O jeito depois era permanecer escondido até que o portal aparecesse.

— Acho que está ficando bom — disse Thomas passando a tesoura em meus cabelos desajeitados. — Pelo menos espero que fique bom. Sei que não ficará igual, não sou nenhum cabeleireiro, mas mamãe chegará com sono e não vai notar qualquer diferença.

— Ela é esperta, pode notar.

— Não seja pessimista. Não é esse o exemplo que você quer me passar, não é mesmo? — Thomas deu uma tapinha nas minhas costas.

— Eu tenho o direito de ser pessimista, tenho um passado e um futuro triste. — Me arrependi de ter falado isso assim que fechei a boca. Não saiu exatamente dramático como eu queria.

— Quando você voltar poderá ter um futuro bom ainda. Basta querer e agir. Também me dê o exemplo de que serei um batalhador. Quero ser um grande homem um dia.

— Eu não sei se quero voltar... — Senti ele parando de mexer nos meus cabelos. Eu sabia que ele estava curioso com o que eu tinha para falar. — Aqui eu tenho a pessoa que eu gosto. Se a gente falar a mamãe sobre minha chegada, talvez ela aceite ficar cuidando de mim também...

Eu fiquei pensando nessa possibilidade a todo o tempo. Haviam inúmeras possíveis possibilidades sobre o meu futuro no passado e elas pareciam melhores. Eu iria viver escondido de todos, mas dividiria uma vida com Thomas. Além de tudo havia um fator que eu e ele tínhamos conversado antes de voltarmos para a sala: por causa do dia em que cheguei somado a agitação dos agentes na data, o portal provavelmente só se abria em todo 09 de novembro. Ou seja, eu teria obrigatoriamente que esperar no passado durante um ano inteiro.

— Eu também prefiro que você não volte... — Ele deu a volta na cadeira para ficar em minha frente, me olhando de cima. Ainda segurava a tesoura. — Em poucas horas e por razões óbvias demais, foi fácil chegar à conclusão que você é a coisa mais importante que já aconteceu na minha vida. Eu não quero perder isso tão rápido, Tom. Eu estou na minha frente e isso não tem preço. Isso não acontece com todo mundo.

Thomas pôs a mão em meu rosto, me acariciando com seus dedos macios. Ele novamente olhava para mim como se eu fosse uma obra de arte. Era encantador o ver encantado. Confesso que fiquei feliz nesse momento ao saber que era essa doce imagem que as pessoas viam em mim.

— Fica! — ele pediu com os olhinhos brilhando. — A gente pode fazer muita coisa ainda. A gente pode assistir Stranger Things juntos, podemos tomar banho juntos, podemos dormir juntos. Eu quero muito isso. Quero aproveitar a minha oportunidade.

— Eu vou pensar com calma antes do amanhecer. Ok, talvez “com calma” seja um pouco demais para o meu psicológico. Eu vou pensar! Estou bem confuso ainda.

— Imagino. Mas pense direitinho. — Ele tirou sua mão de mim. — Lembre-se que vai poder tomar banho comigo. Podemos ficar em pontos diferentes da rua para Lisa achar que fui rápido demais quando passar por ela. Ela nunca vai saber o que a gente tramou! — Ele sorria para mim tão contente. Eu carregava uma bagagem de sofrimento em minhas costas enquanto Thomas carregava ainda a pureza de uma vida boa e agora a sorte de eu estar com ele para mudar tudo, afinal, eu tinha criado uma outra linha do tempo, então o mínimo que eu podia fazer era...

— Thomas — chamei a atenção dele, não conseguindo demonstrar toda a sua mesma alegria. — Veio uma coisa na minha cabeça agora. Se outras pessoas já tiverem vindo mesmo para essa sua linha temporal, então quer dizer que eu não criei nada ao chegar aqui. Apenas entrei na linha temporal de alguém que já a criou antes de mim.

— Acredito então que a primeira pessoa a passar por aquele portal fez isso há um bom tempo. Quem sabe não foi há séculos? Isso só fica melhor a cada segundo. Eu nunca amei tanto ser eu!

— Termina logo esse cabelo, vai! — ordenei antes que ele se perdesse em suas euforias e esquecesse do que deveria fazer. Entendo o que ele sente, mas eu precisaria de foco para me concentrar em meus pensamentos e tentar enxergar o que era bom ou não a se fazer.

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Thomas estava por detrás de mim esperando ansioso o meu veredito sobre o corte. Eu me analisava em frente ao espelho do meu quarto e assenti com a cabeça para lhe dar o sinal de que havia ficado semelhante ao dele. Talvez mamãe não notasse nada de estranho em mim, porque ela não ia deduzir que eu era outra pessoa, até porque eu não era.

— Para um primeiro corte ficou legal. Você tem talento.

— Eu sei — ele concordou sorrindo.

Continuei me olhando quando foquei no meu corpo. Eu sabia que magreza não era sinônimo de doença, é só que eu era o Thomas. Eu tinha o que ele tinha e sentia saudades de ser como ele era. Ele percebeu o que eu imaginava. Do reflexo eu notava sua empatia.

Thomas tirou a sua camisa também e ficou ao meu lado. Seus braços e peito estavam um pouquinho maiores que o meu, além de sua pele melhor cuidada.

— Não estamos exageradamente diferentes. Com um pouquinho de tempo você consegue de volta o que é seu e apenas se realmente quiser, porque não há nada de errado ou feio no seu corpo. Fica tranquilo — ele voltou para trás de mim e segurou em minha cintura —, ainda está lindo — sussurrou em meu ouvido.

Eu o entendia encostado em mim como uma forma de carinho e sensibilidade para com as minhas dores, o que me deixava exatamente do jeito que Thomas queria: confortável. Suas mãos leves perto da minha barriga deixavam meu corpo arrepiado. Eu queria mais disso e ele estava certo sobre as oportunidades que nós tínhamos. Eu devia aproveitar e eu iria.

Eu aproveitei.

Me virei para ficar de frente a ele e senti de imediato a sua respiração em meu rosto.

— Agentes, viajantes do tempo, datas... Foram tantas teorias, mas a gente sabe que tudo o que falamos pode não ser real, então, pelo menos por um momento quero esquecer de tudo isso e me concentrar onde não foquei como deveria, no que é verdadeiro; você, Thomas. — Pus minhas mãos delicadamente em sua cintura também e comecei a acariciá-la. A subi para o seu peito em seguida, sentido os seus músculos e explorando cada parte de seu corpo. — Eu preciso sentir você.

O abracei forte sentindo o seu corpo quente junto ao meu, passando as mãos em suas costas enquanto eu recebia reciprocidade. Seu pescoço era cheiroso e seus ombros convidativos, então deitei minha cabeça em um deles.

Thomas estava nitidamente à vontade com a situação.

Eu senti, após muito tempo, um carinho por mim, uma vontade de estar comigo, uma admiração, uma excitação.

Eu senti o meu abraço.

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O sol começava a clarear a manhã de domingo e mamãe estava perto de voltar da pousada. Sentia certo mal estar por conta da ansiedade em saber que em minutos eu a veria. Eu já estava devidamente vestido com as roupas longas e folgadas. Thomas e eu preparamos um café da manhã para não ficarmos com fome e deixando o suficiente para mamãe também.

Eu não tinha mais unhas para roer.

Thomas estava escondido na casinha da árvore com o seu celular enquanto esperava mamãe na sala de estar, sentado no sofá. Tudo já estava organizado, pois eu já havia limpado os fios de cabelo que estavam no chão.

Meu pé batia contra o solo repetidas vezes e eu notava o meu corpo esquentar. Ela estava quase chegando. Era como se eu pudesse senti-la cada vez mais próxima a cada segundo. Minhas mãos suavam frio.

Eu não tirava os meus olhos da porta esperando a maçaneta girar. Eu veria mamãe de novo. Eu a veria! Foi então que finalmente aconteceu.

Ouvi sons de passos.

Vi a maçaneta girar.

Vi a porta ser aberta.

Eu a vi chegar.