Sofia Benson entrou em casa após uma longa noite de trabalho.

Ver o seu deslumbrante rosto olhar para o meu após cinco meses me deixou emocionalmente abalado bem mais rápido do que eu temia.

Me levantei do sofá enquanto a via fechar a porta. Meu coração já não aguentava mais bater de forma tão acelerada, mas ele não conseguiu evitar repetir o feito. Mamãe estava em minha frente. Estava linda, bem e viva, me encarando.

Meus olhos umedeceram mais uma vez e a lágrima percorreu o meu rosto. Eu já não tinha mais controle da minha vida, muito menos das minhas emoções. Não sei de onde saiam tantas lágrimas. Meu corpo suava e não percebi nesse momento que eu nem mesmo conseguia piscar meus olhos. Mamãe me observou por um momento, preocupada, obviamente não entendendo o meu estado de choque.

— Thomas, o que houve? — perguntou enquanto se aproximava de mim.

Não consegui responder. Foi, no mínimo, impactante demais escutar a voz dela novamente, e verbalizando o meu nome.

Eu não pensava mais na viagem temporal ou no outro Thomas. Para mim só existia ela agora.

— Thomas? — Chegou em mim e senti o seu perfume doce preencher a sala. Era exatamente como eu me lembrava. Ela pôs a mão em meu ombro, me olhando tão de perto. Ela tocou em mim e eu ainda não acreditava. Logo em seguida enxugou a lágrima em meu rosto com o dedo indicador.

— Eu te amo! — A abracei forte apoiando minha cabeça sobre o seu peito. Seus braços hesitaram, mas logo os senti me abraçar. Tudo era tão real e possível.

Um milagre.

Pensava eu, enquanto Thomas cortava meu cabelo, que quando isso acontecesse eu poderia voltar tranquilo para a minha linha do tempo, mas eu não queria sair do abraço e nem da presença da minha mãe.

— Eu também amo você, meu menino. — Deu um beijo em minha cabeça. — Mas me diga o que está acontecendo. Não acho estranho receber o seu amor, mas acho estranho estar acordado as cinco e meia de uma manhã de domingo. E chorando. Não vai me dizer que alguém morreu?

Não consegui evitar o riso. Ela sempre soube tirar a minha seriedade.

Sofia era uma mulher alta, então, ainda a abraçando, tive que olhar para cima para ver o seu rosto de perto e em detalhes. Estava cansado. Apresentava olheiras de uma noite em claro e cheia de tarefas, mas ainda muito belo.

— Não aconteceu nada. — Ah se ela soubesse... — Eu só não consegui dormir e fiquei com muita saudade. Queria passar a noite terminando aquele anime que a gente começou semana passada.

— Meu bem, isso me cheira a carência. Recomendo um namoro. — Ri mais uma vez enquanto ela me largava. Fiz isso também, mesmo achando péssimo me separar dela por poucos centímetros. — Vou tomar um banho e já que está acordado vai preparando o café enquanto isso. Depois eu vou dormir igual a uma defunta.

— Não fala assim! — a adverti com mais seriedade do que imaginei.

— Ok, o que está acontecendo aqui? — Mamãe cruzou os braços e começou a bater silenciosamente o pé direito contra o chão. — Eu estou cansada, com sono e menstruada. Não posso ficar nervosa, Thomas! Meu Deus, a minha labirintite...

— É só o sono mexendo com a minha cabeça, mãe, fica tranquila.

— Não vem com essa, meu filho, você sempre soube mentir bem.

— Só não sei a quem puxei esse dom.

— Puxou ao seu pai, aquele por... co... Ainda bem que morreu!

— Mãe! Não fala essas coisas!

Ela logo virou as costas para fugir do sermão e foi caminhando ao banheiro, quando parou de andar por um segundo, olhou para trás, para mim, com um ar de zombaria e falou:

— É só o sono mexendo com a minha cabeça, filho, fica tranquilo.

E entrou no pequeno cômodo.

Permaneci olhando para o nada, incrédulo. A ficha de nada parecia ter caído ainda. Eu não sentia mais a mínima vontade de chorar. Pelo contrário. Eu tinha tudo o que queria. Eu tinha minha vida de volta.

Ainda pensava que a qualquer momento voltaria para o meu futuro e isso começava a me dar medo...

Não importava! Eu tinha minha mãe comigo.

Olhei para cima, fechei os olhos e soltei um suspiro.

Sofia era real.

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Ela tomava o seu café com delicadeza e despreocupação, como se não houvessem problemas no mundo, principalmente após ela me perguntar dezenas de vezes se realmente não havia acontecido nada comigo para a receber daquela maneira chorosa.

Eu estudava novamente cada detalhe do seu rosto enquanto me alimentava. Vê-la pessoalmente depois de passar cinco meses a observando apenas por fotos era outra experiência.

— O café está bom? — perguntei preocupado. Era a primeira refeição que eu fazia para ela após tanto tempo. E ainda eram a sobras do meu café com Thomas minutos atrás.

— Thomas, é o seu café. Não tem a menor possibilidade de ser ruim — respondeu e eu corei. Senti minhas bochechas queimarem.

— Obrigado, mãe! Como foi lá no trabalho? — Mordi um pedaço do sanduíche de queijo quente.

— Em questão de movimento, foi a mesma coisa que nos outros dias. Fabrício foi de novo com a amante para o quarto oito. Parece que nem faz mais questão de esconder isso de ninguém, nem mesmo da esposa, coitada! Mas quando lembro de mim... — Ela deu uma pausa e percebi seu semblante se alterar. Estava mais séria e pensativa. — Senti um aperto no peito a noite toda e não me pareceu um sentimento ruim.

— Como assim? — Senti calafrios.

— Não vou saber explicar direito. Eu tinha a estranha sensação que alguma coisa estava acontecendo. Eu queria sentir mais disso.

Fiquei sorrindo para ela. Me senti bastante importante com o seu relato, porque interpretei como se tivesse ocorrido por conta da minha chegada. Talvez fosse mesmo um sinal dos tempos conectando nós dois.

— Acho que vou dormir agora. — Ela se levantou e empurrou a cadeira para debaixo da mesa. — Quando eu acordar te ajudo com o almoço. Só não comece sem mim.

— Sim senhora!

Quando ela virou as costas um flash passou pela minha cabeça

Eu marquei de ir com o Thomas ao abismo após o café e que talvez, se o portal ainda estivesse lá, eu voltaria para a minha linha temporal. Eu ainda não tinha decidido nada, mas achava melhor dar um outro abraço em Sofia. Nunca seria demais.

Não resisti e me levantei, a acompanhando até o quarto. Quando mamãe se deitou, deitei ao seu lado. Ficamos olhando para o teto. Eu queria apenas olhar para ela, mas ela não deveria notar mais qualquer coisa suspeita, não importa o que fosse. Eu ir ao quarto já foi mais do que suficiente.

Eu me sentia em paz. Eu me sentia bem.

Mamãe estava salva e tranquila. Apesar de não ter desejo de voltar ao meu futuro, sentia que se isso acontecesse nesse momento, eu ficaria feliz. Thomas teria um bom destino ao lado da pessoa certa.

Tudo ficaria bem.

Olhei para ela finalmente e mamãe já estava dormindo. Me inclinei um pouco e pude notar o seu rosto possivelmente pela última vez. Quando eu fosse ao abismo com Thomas, provavelmente voltaria para casa, então era a minha chance.

Me aproximei e dei um beijo suave em sua testa.

Levantei com calma para não acordá-la.

Fui à porta e a observei por mais um momento. Novamente eu não sentia vontade de chorar. Eu estava aliviado e com a sensação de dever cumprido. Sofia estava salva, era o que importava. Eu precisava agora tomar uma escolha difícil: voltar ou não para casa.