Eu poderia esperar mais uns minutinhos antes de jantar, mas um banho me pareceu mais apropriado e relaxante a princípio.

Liguei o chuveiro e antes de qualquer outra movimentação, percebi o quão aliviado eu me sentia após o desabafo com o Thomas. Não duvidei em nenhum momento da sua capacidade de acolhimento, pois eu já tinha feito o mesmo pelos meus amigos. Lisa precisou muito de mim no ano anterior, o que me fez lembrar que, por eu estar no ano anterior, possivelmente ela ainda estivesse em sua prisão sentimental.

Tentei relaxar ao sentir a água fria percorrer o meu corpo e estava conseguindo tal feito, não em sua totalidade, porque a possibilidade de ver mamãe novamente me deixava em constante apreensão.

Logo saí e fui diretamente ao quarto onde Thomas me esperava sentado sobre a cama. Ele me olhou de cima a baixo ao notar que eu estava nu. Eu não tinha o porquê esconder qualquer coisa dele.

— Olha, por estar assim, sabe, mais magro, não tenho dúvidas que as roupas ainda cabem em você — disse ele.

— Eu sei. Faz tempo que não compro qualquer coisa nova e vou usando as velhas mesmo. Para de olhar! — Sorri constrangido ao notar que ele observava o meu pênis. Ele sorriu também. Não tinha o porquê esconder nada dele...

— É que até nele enxergo uma diferença. Muito bom! Preciso comparar!

— Não! — Peguei logo as peças de roupa que ele separou para mim e vesti a cueca rapidamente. — Não é tanta diferença assim, dá um tempo! Quase nada.

Thomas deu de ombros, se levantou e foi à porta, por onde ficou observando a minha parte traseira e soltou:

— É, você precisa comer.

— Obrigado pela sua observação..., Thomas, mas eu já notei por mim mesmo que não tenho mais o seu corpo.

— Você hesitou. Está achando estranho me chamar de Thomas? — perguntou todo curioso.

— Tudo está estranho..., Thomas.

— Tem razão, Tom... — Notei a sua expressão devassa.

— Não! — Vesti enfim minha camisa. — Se for assim, eu sou o Thomas, você fica com o apelido. Nasci primeiro, então eu comando as coisas aqui. — Pisquei um dos olhos tentando demonstrar superioridade.

— Pode ser, Tom! Mas esta é minha casa e você apenas a visita. — Ele piscou de volta. O desgraçado venceu. — Eu sou o Thomas.

Ficamos nos encarando até que resolvi me aproximar. Pus minhas mãos em seus ombros, os acariciando, passei elas pelo seu pescoço até que as deixei em sua face. Pela primeira vez eu o admirava tão atentamente. Seus olhos ainda brilhavam e acredito que os meus estavam assim também. O silêncio era apropriado para o momento. Eu era lindo.

— A ficha ainda não caiu para mim. Olha isso! Olha você! Aqui. Eu. Como isso é possível?

— Loucura, não é?! Eu sei! Eu sou o cara mais sortudo do mundo! Uma pena não poder te mostrar para ninguém. Ficaríamos ricos! — Thomas se calou por um momento e sua boca voltou a se abrir bem devagar, prestes a sugerir algo. Ao que parece, a cabeça dele funcionava a mil também com tantas novidades. — Ei... Você trouxe alguma numeração premiada da loteria?

Eu ri com a pergunta ambiciosa, porém ingênua, dele, respondendo que não.

— É como eu te falei, foi do nada. Nem o meu celular eu levei.

— Para onde?

Eu não queria falar para ele sobre o abismo. Claro que Thomas sabia sobre o local, mas nem se passava em sua cabeça a vontade de ir lá e era melhor que permanecesse assim.

Tirei minhas mãos dele, não conseguindo disfarçar que queria mudar de assunto.

— É melhor a gente ir jantar.

— Está bem... Coisas secretas do futuro e tal, entendo... A gente vai comer agora e depois limpamos a casinha da árvore para o senhor. Precisa ficar lá. Mamãe não entra nela há muito tempo, então só tem que ficar quieto.

Assenti em concordância.

Jantamos em seguida e começamos a arrumar a casinha, ambos em silêncio porque prometi que apenas depois lhe contaria algumas revelações sobre o futuro, entre elas, os enredos de alguns filmes que foram lançados em 2020. Ou melhor, que serão...

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Forramos um colchonete e sobre ele um lençol. Levamos um cobertor e um travesseiro também. Eu já sabia que faria muito frio na casinha, mas eu precisava aguentar. Eu queria ver mamãe, mas antes disso precisava pelo menos cortar o cabelo. Claramente eu não era exageradamente diferente de Thomas, mas eu precisava ficar o mais idêntico possível para não levantar suspeitas.

Eu e ele estávamos sentados encostados em uma das paredes sob uma janelinha. Ele me mostrava o seu celular e o que estava acontecendo no mundo naquele momento e o que já havia acontecido nesse 2019, para me deixar melhor situado. O mundo estava em sua normalidade: catedrais pegavam fogo e os loucos governavam nações. Lá no espaço sideral um buraco negro foi enfim fotografado, pelo menos. Já em novembro não estava acontecendo nada de muito impactante.

Ainda faltavam boas horas para chegar a madrugada, poderíamos ficar dentro de casa enquanto isso, mas eu queria ficar na casinha desde cedo. Em outro momento, para subir na árvore eu teria que ser rápido e tomar cuidado para ninguém do quintal vizinho me ver, principalmente se eu subisse com o Thomas.

Após ele me relembrar a situação desse planeta Terra tão cheio de surpresas, permanecemos ainda lá dentro. Da janelinha era possível ver as estrelas entre as copas da árvore. O céu estava lindo e brilhante. A Lua Nova se fazia presente naquele espetáculo visual de tão fácil acesso. Foi rápido para mim lembrar de cara do meu abismo e do meu futuro.

— Eu fico pensando em Lisa e em tia Rosa. Para elas eu desapareci, e eu estou morando com ela, a propósito — revelei.

— Lisa ou tia Rosa?

— Tia Rosa.

— Ela continua chata?

— Você não faz ideia. Estou morando com ela há quatro meses e não consegui me acostumar ainda. Mas sinceramente, passei a entender toda a situação envolvendo ela nas últimas horas...

— E Lisa? Ela ainda namora o merdinha do Enzo?

— Não.

— Menos mal!

— Você ajudou ela, Thomas, e ela sempre tentou me ajudar. Foi a única que estava verdadeiramente ao meu lado.

— Única? — Thomas estranhou. — Mas e Hugo?

— Ah... A gente não tem mais uma amizade. Ele se afastou de mim depois que eu adoeci. Acho que enchi demais a cabeça dele com lamentações.

— Talvez foi algum mal-entendido, né? Ele não é assim... Foi só isso mesmo? Ele se afastou e pronto?

— É — respondi. — Simples assim, mas eu não o julgo. Sei que estou errado em julgar qualquer pessoa porque não tenho mais essa moral.

— Enfim, isso não importa, Tom. Você acabou de me dizer que adoeceu e já imagino o que seja. Vou tentar arrumar um dinheiro para ao menos poder fazer algumas consultas com um psicólogo.

— Não vou precisar. — Sorri para ele com certo alívio. Tudo finalmente estava para acabar! — Eu já lhe contei o que vai acontecer no futuro, então você vai mudar a minha história. Mamãe não vai mais morrer e não terei mais depressão. Juntamos o útil ao agradável.

Ele baixou a cabeça e ficou olhando para os próprios pés. Percebi que pensava em alguma coisa. Seu semblante estava estranho, ele se incomodou com algo.

— O que foi? — estranhei.

Ele voltou a olhar para mim seriamente falando:

— Tem algo de errado nessa história toda, você não acha? — ele sugeriu e logo pensei que a premissa em si de uma viagem no tempo acontecendo comigo já seria suficientemente errada, mas eu sabia que não era nesse ponto que ele queria tocar.

— Tipo?

— Use a cabeça, Tom. Essa coisa de viagem no tempo é complicada, mas existe sentido. Veio para cá de forma acidental, não foi?

— Ah... Eu não tenho certeza. Me sinto confuso sobre muitas coisas.

— Mas a sua depressão em decorrência da morte de mamãe foi um dos motivos que te trouxe aqui? Porque se foi e você me contou tudo e agora estou disposto a mudar e sei que vou, ela não vai morrer, logo eu não irei adoecer e não virei ao passado no dia de hoje.

Foi uma martelada na minha cabeça. Isso não podia estar acontecendo, não podia! Eu já havia entendido onde ele queria chegar, mas o deixei continuar, porque eu estava perplexo demais para interromper qualquer coisa. Senti uma pontada em meu crânio. Foi um baque!

Ele continuou com sua linha de raciocínio:

— E se tudo dá certo no meu futuro, não vou precisar viajar e como a viagem nunca vai acontecer, você não deveria estar mais aqui, porque seu futuro, você e seus pensamentos seriam apagados e restaria apenas os meus.

— Não! — Pus as mãos sobre a cabeça. Eu pensei que tudo estava resolvido, mas foi engano. Eu estava errado. — Então mamãe ainda pode morrer. Você vai continuar vivendo em um inferno. Thomas! — levantei a voz para ele e segurei forte em seu braço, o que lhe assustou. — Você não pode deixar nada acontecer com ela, não pode ir ao lago e nem se aproximar do maldito abismo!

— Abismo?

— É para lá que eu vou quase todas as noites. Foi lá que eu voltei no tempo. Você não pode se aproximar de nada disso, me prometa!

— Está bem! — Ele disse mostrando as mãos, fazendo sinal para eu me acalmar. — Eu juro que não vou. Eu prometo a você!

Esperei. Eu não sumi da existência. Eu não desapareci. Então pensei que Thomas ainda faria alguma burrada para que tudo já não estivesse concertado, ou...

— Não existe jeito de mudar o meu futuro. — Acalmei minha voz. — Não há como... Thomas... Acho que mamãe vai continuar morta no meu futuro. Nada nele foi alterado.

— Por favor, não me diz que é o que eu estou pensando! — Ele parecia ler minha mente.

— Então não existe mais uma única linha temporal. Ao vir para cá eu criei outra. Eu interferi no seu futuro e apenas no seu. No meu nada mudou. — Eu estava espantado e sem esperanças de mais nada dar certo. Não havia escapatória, chances ou tempo que pudesse consertar o que eu fiz no meu universo.

Eu estava preso em outra linha temporal. Eu estava preso nos meus próprios erros.

Percebemos que mudei o futuro de Thomas, mas o meu ainda permanecia catastrófico.

Notas finais
Até segunda-feira, pessoal e MUITO OBRIGADO pela companhia!