Narcisos
4 Afastamento
09 de novembro de 2020.
Tive uma boa conversa com Lisa durante o fim de tarde anterior. Saímos do parque um pouco depois que a noite caiu. Eu não tinha problemas com o horário para chegar em casa, já que tia Rosa se acostumou a me ver sair quase todas as noites, só não fazendo ideia do meu destino. Saí do parque diretamente para casa. Não fui ao abismo.
Fiquei na cama refletindo sobre a conversa que tive com a minha amiga, principalmente quando ela me disse que eu deveria me amar mais, mas amor era algo distante para mim naquele momento. Não amei muita gente durante a vida. Amei mamãe, Lisa, Hugo... Paixões da adolescência foram poucas, nenhum sentimento muito forte. Depois da bola de neve desgovernada que minha vida virou, não tive muita paciência para focar em amar.
Eu disse que amava Lisa, mas as vezes tinha minhas dúvidas. Não está escrito que devemos amar aos outros como a nós mesmos? Como amar alguém se eu não nutria mais esse sentimento por mim primeiro? Nem eu sabia o que eu sentia por mim de verdade. Pensava que poderia ser realmente ódio ou, quem sabe, pena.
Eu estava perdido, deslocado. Lembrei da parte da fala de Lisa sobre me amar, mas não levei a sério, não por achar graça, mas por não conseguir me importar verdadeiramente. Eu sabia o que deveria fazer para tentar amenizar o que eu sentia. Eu sabia do que precisava. Eu sabia no que deveria focar. Eu só não queria nada disso. Eu merecia ruir. A essa altura conselhos me deixavam irritado, só não deixava o sentimento transparecer.
Me amar... Talvez eu nunca tenha me amado. Amei meu rosto e meus cabelos escuros, amei a vaidade, mas nunca parei para analisar como eu era por dentro, se eu amava meus sentimentos, se eu amava meus pensamentos. Apenas cuidava da minha vida sem me importar com o amor, pois eu já o tinha do meu lado e esse amor jamais iria embora.
Eu estava tão errado...
A Terra nunca para de girar. Percebi isso um pouco tarde. Sofia se foi, minha vida mudou, mas o mundo não. A vida humana ainda era a de sempre. Os pobres permaneciam pobres, os ricos permaneciam ricos, as indústrias não pausaram suas atividades, o jornal local noticiou uma pequena nota apenas. Seria o mesmo se eu partisse. Catástrofes acontecem a todo o tempo e o mundo gira. Isso está certo, mas por que eu achava tão injusto? A vida precisa continuar, independente do que aconteça, mas é impossível não se prender ao que acontece em nossa volta. É difícil aceitar tão rápido que certas coisas, certas pessoas, por mais valiosas que possam ser, sejam importantes apenas para você.
Eu ainda não enxergava muita coisa.
Não enxergava o mundo como ele era, não enxergava um futuro e não enxergava uma vida.
Era difícil, não que a essa altura do campeonato você já não tenha percebido isso.
Mas enfim, me empolguei e divaguei demais. Voltarei ao que interessa.
Era manhã de segunda-feira e eu tinha aula. Estudava pela manhã e era tedioso estar diariamente lutando contra o sono. Mal comi. Tia Rosa ainda dormia, então nem cheguei a ver seu rosto antes de sair. Pus a mochila nas costas e montei na bicicleta para chegar rápido à escola.
Demorei a me levantar, o que resultou no meu atraso. Não sentia mais vontade de frequentar, mas meu ensino médio estava quase acabando, então ok fazer essa forcinha, fora que seria legal pelo menos finalizar os estudos antes de tudo, talvez.
Prendi a bike no portão da escola por uma correntinha com cadeado. Todo dia ela ficava lá, levando sol e chuva.
Ao entrar de fato no prédio, considerei estar diante de mais um dia repetitivo. Conversas misturadas por todo o canto e ninguém entendia nada além dos papos de suas respectivas rodas. A minha panelinha era formada apenas por mim e Lisa. Antigamente eu falava com muita gente, conhecidos acumulados desde o primeiro ano, mas não mais nos últimos meses. Fui me afastando dos colegas quando percebi que a minha derrota me tomou um amigo: Hugo, o menino dos cabelos castanhos.
Após a morte de mamãe eu sofri igual a um condenado. Não conseguia me comunicar tão bem. Não conseguia ficar feliz ao me encontrar com os meus amigos. Nada me deixava feliz. Hugo me apoiou até certo ponto. O garoto ficava comigo pela escola o tempo todo até que ficou cansativo para ele.
Costumávamos criar algumas brincadeiras juntos, tirávamos inúmeras fotos para nos sentirmos bonitos no Instagram, mas durante o meu luto eu não queria fazer mais nada. Hugo parecia me entender a princípio.
Ao ver que eu não o correspondia como antes, ele começou a se afastar gradualmente. Ainda me questionava sobre os meus sentimentos e sobre os meus dias, mas eu sentia que ele não estava mais interessado nas minhas respostas. Acho que o sobrecarregava demais, não sei, mas eu falava tanto das minhas dores que o esgotei, acredito. Seus olhos verdes não lançavam mais brilho para mim.
Eu não era mais o amigo legal e descolado. Para Hugo eu deveria ser algum depressivo desinteressante.
Mas ele estaria mesmo errado se pensasse assim?
Hugo arrumou novos amigos, desenvolveu amizades promissoras para ele e chegou em um momento que falávamos apenas “oi” pelos corredores. Um dia nem isso mais.
Resolvi não puxar assunto porque eu sabia que eu seria um incômodo. E como no caso da minha tia, tentava não culpá-lo por isso, afinal “comigo ‘ninguém’, contra mim até eu”. No caso dele eu conseguia, no de tia Rosa, não. Acredito que tenha sido por causa da convivência constante.
Por mais um dia Hugo passou por mim. Ele estava lindo como sempre, e acompanhado por dois amigos. Lembrei quando eu, ele e Lisa éramos um trio. Foi a minha era de ouro do ensino médio.
Ainda hoje sinto saudades.
Não éramos da mesma turma. Lisa que era da minha, então foi difícil essa amizade acabar, mas eu até tentei... Fui me afastando dela aos poucos, mas ela sempre vinha atrás de mim. Ela não me entendia bem, mas via que eu estava mal e que, teoricamente, precisava de companhia. Eu não queria causar nenhum mal-estar a ela como fiz com Hugo, mas Lisa era teimosa e não desistiu de mim, infelizmente.
Eu queria, sinceramente, que ela estivesse tão emocionalmente distante de mim que não precisasse chorar com minha ida, lhe pouparia sofrimento. Essa menina não merecia passar por algo semelhante ao que passei. Foi por essa razão, somado ao provável mal-estar de Hugo ao ficar do meu lado, que me afastei da grande maioria dos meus colegas. Não queria ser um peso para ninguém.
Ela, porém, ficou do meu lado. As vezes falando demais, as vezes sem saber o que falar, mas sempre do meu lado.
Eu a vi sentada em uma das cadeiras quando entrei na sala de aula. Lisa sorriu para mim. Dei um pequeno sorriso de volta e sentei ao seu lado. Seria uma manhã de aula tediosa, mas com ela o tempo passaria um pouquinho mais agradável. Ela era linda! Seus dentes sempre foram tão branquinhos. Seus cabelos pintados de vermelho não combinavam tanto como a cor rosa que possuíam no ano anterior, eu só não falava isso a ela, mas continuava bela mesmo assim.
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— Lisa? — chamei a atenção dela. Estava concentrada no lanche. Estávamos no refeitório no horário de intervalo, nós dois sozinhos em uma mesa. Ela olhou para mim com os lábios melados de chocolate que trouxe de casa.
— Hum?
— Eu estava pensando em dar um abraço em Hugo antes de me despedir.
— “me despedir”? — Lisa ficou temerosa.
— É, quando eu terminar os estudos. Vocês ainda se falam um pouco, então pensei de você, sei lá — dei de ombros —, conversar com ele no último dia, eu chegava perto, tentava puxar algum assunto sobre ser o último dia de aula e o abraçava. O que acha?
Ela pensou um pouco e respondeu:
— Sem querer parecer que estou de má vontade, mas acho que você mesmo poderia fazer isso. Sei que não são mais chegados, mas ele não iria te negar um abraço.
— Pode ser, mas eu não queria que fosse do nada. E também não quero parecer que estou forçando. Ele foi especial para mim aqui dentro. Quando o último dia chegar talvez eu não o veja mais, ele pode ir para longe ou quem sabe eu...
Lisa deu um sorriso amarelo para mim jogando a embalagem do chocolate dentro da sua mochila.
— Está bem, dou um jeito do nosso trio imbatível nenhum pouco imbatível se reunir no fim de ano, e dependendo do seu comportamento até lá, se for um bom menino, quem sabe eu pense em uma escapatória para você se as coisas ficarem constrangedoras.
— Eu já disse que você é a melhor?
— Já, em quase todas as vezes que te faço um favor. Não é uma coincidência? — insinuou com os dedos entrelaçados, cotovelos sobre à mesa e olhos arregalados.
Permanecemos no refeitório até o sinal tocar, conversando sobre o que fazer antes do fim de ano. Fazíamos poucos planos e eu ficava verdadeiramente empolgado, apesar de saber que a empolgação iria embora quando os dias de realizar eles se aproximassem.
Era tão bom conversar com Lisa e rir com ela que eu sentia que não deveria mesmo me afastar. As vezes considerava usá-la como âncora para que eu não fosse embora, mas eu não queria jogar essa responsabilidade para cima dela. Talvez no futuro ela ficasse feliz ao saber que foi a razão de eu ficar, mas o que a menina teria que enfrentar até lá? Em minha cabeça os meus problemas eram apenas meus, e era apenas comigo que eles deveriam ficar.
Foi uma boa conversa, mas ainda tínhamos aula depois. Quando acabou, Lisa me acompanhou até o portão e nos despedimos sem saber que seria a última vez que ela iria me ver.
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