O7 de novembro de 2020.


“Thomas, pule.”

Eu pensava enquanto olhava para o escuro. Em minha volta existia a calmaria da noite vazia e o silêncio que vinha com ela. Em minha mente existia pânico e solidão. Eu estava sozinho porque eu queria estar sozinho. Eu estava sofrendo por não conseguir amenizar a minha dor, mas me forçava a senti-la mais forte porque eu merecia isso. Eu merecia sofrer.

Eu merecia cair.

Eu não queria sentir o que eu sentia, mas eu achava necessário. Precisava criar coragem para pular.

“Pule.”

Ou melhor dizendo, eu precisava ficar mais angustiado, já que pular não é um ato de bravura, mas de desespero. Eu precisava chegar ao meu limite para tal, eu tinha um bom cenário para executar o meu maior e último plano.

Eu não deveria continuar vivendo se eu tirei esse direito de mamãe. Foi tudo culpa minha. Eu causai a dor dela. Eu causei a minha dor. Eu deveria silenciar a minha respiração angustiada.

Não se assuste; eu sei que tudo isso pode ser um pouco pesado, mas preciso contar o que eu sentia porque a essa altura eu não tinha nada de concreto além dos meus pensamentos.

Quase todas as noites eu ia ao abismo. Ele ficava à cerca de uns três quilômetros da minha cidade. Eu vestia um casaco de frio de cor preta, subia em minha bicicleta e partia em direção ao escuro. Era uma boa pedalada da minha casa ao meu lugarzinho mórbido. Me afastando cada vez mais da cidadezinha, o vento ficava mais forte. Eu conseguia escutá-lo ao passar por meus ouvidos e somente ele. Não haviam mais pessoas ou carros. Foi assustador no início, mas me acostumei com a atmosfera desértica.

Na minha bicicleta, de cor azul um pouco desbotado, havia uma lanterna no guidão que eu usava como farol quando me afastava da cidade. A luz também me ajudava a não cair no abismo quando chegava em sua beirada. Contraditório, não? Eu ficava me perguntando se verdadeiramente queria fazer o que tanto almejava, mas dizia para mim que era apenas desvio de foco, que era apenas o meu grande medo: sentir enorme dor física no ato, cair e não sentir meu coração parar de bater de imediato. Eu tinha medo de morrer sofrendo; precisava ser uma queda perfeita.

Ao estacionar, a uns quatro metros da beirada, deitava a bicicleta e deixava que a lanterna permanecesse ligada. Eu olhava para trás e via as luzes distantes das moradias da qual não conseguia mais identificar suas estruturas. Logo voltava a atenção ao abismo em minha frente. Andava um pouco e me abaixava, sentando na beirada e balançando as pernas no ar. Eu não conseguia ver nada do que tinha lá embaixo. Já tinha ido durante o dia e visto a altura de aproximadamente vinte metros, mas durante a noite era impossível de ver aquele chão coberto por rochas finas.

O mato em minha volta era baixinho e nunca senti algum inseto ou outra forma de vida suspeita passando por mim. Falando nisso, eu nunca vi ninguém. Achava essa situação um pouco estranha. O ambiente era perfeito para alguns saciar os seus vícios em drogas, sexo ou o que quer que seja. Melhor assim. Acima de mim, poucas estrelas e a Lua mal aparecia, costumeiramente escondida por detrás das nuvens. O céu não me trazia luz. Tentei por várias vezes obter qualquer iluminação, mas desisti ao notar que as estrelas não estavam lá para clarear minhas noites vazias.

A lanterna era a uma das duas coisas que me faziam ter acesso a luminosidade. A outra era o meu celular. Não mexia muito nele, apenas colocava alguma música para tocar de vez em quando. Músicas lentas, muitas delas com letras românticas que eu não conseguia entender e nem pretendia, mas eu não estava apaixonado, definitivamente. O que eu fazia era odiar a mim.

Eu sentia minhas costas cansadas por carregar um fardo tão pesado...

Mamãe faleceu no meio do ano. Desde sua morte, até o momento em que eu olhava o escuro por mais uma noite, se passaram cinco meses. Foram cinco meses de um luto interminável. Como poderia ser diferente?

Aquela mulher era a minha alma gêmea. Além de sermos mãe e filho, éramos melhores amigos. Quando ela não trabalhava a noite, entrávamos na madrugada assistindo séries, filmes e animes. Lado a lado no sofá, ficávamos focados comendo alguma besteira que eu preparava. Estava sempre perto de mim. Ela fazia o possível para acompanhar o meu crescimento de pertinho. Eu tinha algumas de suas características físicas e não acabava por aí. Além dos nossos olhos e cabelos serem de cor preta intensa, éramos felizes, pacientes, cuidadosos. Um cuidava do outro.

O nome dela era Sofia.

Sofia sabia como cuidar dos problemas em sua volta. Sozinha, buscava ficar calma, controlar seus impulsos e resolver tudo o mais rápido possível, porém com cautela. Acompanhada, tentava amenizar as situações com bom humor e companheirismo para tentar deixar o próximo minimamente confortável. Sofia tinha tantos sonhos e o maior deles era me ver realizando os meus.

Ela era tão focada, tão linda... Sofia... era Sofia. A melhor de todas. A maior do mundo.

Ah...

Quem me dera que no auge da minha depressão eu lembrasse dela com esse carinho a todo o tempo, porque só haviam tristezas nas minhas memórias. 2020 foi o pior ano da minha vida, não que tenha melhorado nos anos seguintes, mas não foram tão dolorosos. 2020 foi um ano de luto.

Eu era como a minha mãe. Tão jovem, tão cheio de expectativas. Tão lindo... Eu via tudo indo por água abaixo a cada lágrima derramada.

Poucos dias após a morte dela, ainda no mês de junho, um desespero entrou em mim como nunca antes. Senti a minha cabeça doer demais. Meu coração estava tão acelerando que naquele momento, mesmo com todos os meus desejos horríveis, senti medo dele parar de bater. Eu suava também. Eu só queria sair de casa, ir para bem longe e nunca mais voltar. Vim saber mais tarde que isso era uma crise de ansiedade. Mesmo com o corpo trêmulo, peguei a bicicleta no quintal de casa e saí sem rumo definido, até que lembrei que havia um abismo distante em uma área aberta. Não foi a primeira vez que pensei em fazer besteira, mas foi a primeira vez que cheguei tão perto de fazer. Não haveria mais pranto, clamor e dor, pois essas coisas seriam passadas.

“Pule!”

Desde então o abismo é meu tormento na mesma intensidade que costuma ser minha serenidade.

Isso foi no início de tudo. Eu passava dia e noite tentando achar uma força para fugir do mundo e imaginava que a encontraria em breve ao olhar aquele escuro noite após noite, entretanto, tudo mudou dois dias depois, no 09 de novembro daquele 2020. Eu me joguei. Eu caí onde não esperava cair. Minha vida se transformou completamente ao mesmo tempo em que a assistia por outro ângulo.

Eu voltei no tempo.