Naquela Manhã de Outono

3 O quadro do artista


Notas iniciais
"Não é como se eu estivesse apaixonado, é pior do que isso"... Ass. Adam

— Pra que isso? — Disse, ainda em pé, olhando para a tela.

Ele me olhou surpreso e logo sorriu.

— Você gostou? — Perguntou, simpático.
— Eu deveria gostar? — Respondi seca.
— Deveria.
Me abaixei e observando a obra, respondi:
— Até que não está tão ruim.
Ele riu.
— Que bom que gostou. — Concluiu.
— Não disse que gostei. — Olhei para a árvore que nos cobria.
— Não disse. — Ele sorriu. — Mas eu sei que gostou. Com uma modelo dessas, quem não iria gostar?

Suspirei.

— Vou embora. — Me levantei.
— Espera. — Pediu e se levantou. — Antes... Me dá seu telefone? Digo, quem sabe alguém queira te contratar pra ser modelo...
O olhei.

— Quer dizer, você seria uma ótima modelo de rosto. Não que você não tenha outros atributos, mas... — Cada vez se complicando mais.

— Quem sabe não é? — Disse virando de costas e seguindo caminho.

****

Pronto pra dormir, ainda não conseguia que aquela mulher saísse da minha cabeça.

Mas devo admitir, ela é uma mulher difícil de lidar. Mas eu não sou do tipo que desiste tão rápido. Gostei dela logo que vi. Sabe quando você gosta mais de uma pessoa do que gosta de videogame? Eu me sinto assim, isso é ruim?

Deitado na cama, fiquei com o quadro na mão. Ainda não acredito que aquela doida assinou seu telefone na minha pintura. Ri sozinho. Era um trabalho da faculdade, não posso entregar com o número dela, mas também não posso pintar por cima.

Agora mais do que nunca, eu tinha que pensar em um novo projeto. Uma escultura? Uma encenação? É, realmente, aquela quadro seria uma nota alta fácil, fácil, se não fosse a... Ai ai.

****

Indo à cozinha, preparei um chá, e olhando no reflexo da janela lembrei da pintura. Modelo de rosto? Sorri para mim mesma. Eu de certa forma não era aquela ingênua refletida.

Assim como ele não saia da minha mente, torcia para que eu não saísse da mente dele também.

Da cozinha para o quarto não havia muita distância, assim como também não havia paredes, apenas baixas divisórias de madeira. Segui até a cama, com a caneca de chá em mãos, e assim que sentei no edredom peguei o celular e instintivamente chequei meu e-mail... Eu havia sido chamada para uma entrevista de emprego!

****

Acordei por volta das 8 horas da manhã. Meu pai já tinha ido trabalhar e minha mãe descansava, finalmente folga para ela.

Vesti meu uniforme, que era parecido com a roupa de um carteiro, mas em azul claro, e por cima uma jaqueta preta.

Assim que cheguei no trabalho, fui bem recebido pelos companheiros, com a notícia de que 3 dos meu vasos de ontem tinham quebrado, e por que? Porque mudaram a temperatura da sala de resfriamento. Apenas coloquei o avental, me sentei no barco de frente pro torno¹ e voltei a fazer vasos novos para repor os perdidos, ficar irritado não adiantaria porque acidentes acontecem.

Uma enorme janela do meu lado me dava visão de toda a rua, e foi assim que a vi passar novamente.

— Ruiva! — Disse me levantando e limpando a argila da mão no avental. Por incrível que pareça ela olhou pra mim quando chamei.

— Oi. — Respondeu, parando e olhando pra mim.

— Bom dia. — Sorri descendo o único degrau da loja. — O que faz por aqui essa hora?

— Vim pra uma entrevista de emprego. — Respondeu de um jeito quase arrogante.

— Que legal, boa sorte. — Disse esperando um sorriso dela, um sorriso que não veio. — Tenho que voltar ao trabalho agora, então... Até logo.

— Tchau. – A ouvi responder.

Depois de algumas horas trabalhando, a vi passar de novo, no sentido contrário, com algumas sacolas na mão. Me olhou e eu pra ela. Sorri, mas não fui retribuído -novamente-, ela olhou pra frente e continuou o caminho.

Hoje eu saia mais cedo do trabalho, toda quinta eu fazia isso, era dia de começar a faculdade mais cedo.

****

Coloquei as sacolas na mesa da cozinha, e me sentando na cadeira, comecei a tirar os ingredientes da sacola. Era hoje que eu iria fazer a melhor receita de toda a minha vida. O bolo de morango da tia Susanne.

Notas finais
¹Máquina de moldar argila.