Naquela Manhã de Outono
6 Não quero amá-lo!
Notas iniciais
Assustada, aterrorizada, apavorada, amedrontada... Procurava a palavra que descrevesse exatamente como me sentia. Adam empurrou os homens que estavam a sua frente e me tomou em seus braços. Eu chorava, mas não queria chorar na frente dele, não queria chorar na frente de ninguém.
Não ouvi o que se passara naqueles minutos, não ergui a cabeça, não quis encará-los naquele momento, principalmente Adam, que me abraçava carinhosa e cuidadosamente.
— Não se preocupe, querida, já passou. — Disse Briana. Senti suas mãos em meus cabelos.
— Sua bolsa... — Disse Fiona.
— Quer que eu te leve pra casa? — Perguntou Adam.
Hesitei em respondê-lo.
— É melhor, querido. — Disse Briana. — Eu vou indo com a Adelaide e a Fiona. Se cuidem. Tchau, querida. – Me beijou na cabeça e ouvi seus passos se afastando.
— Até amanhã, flor. — Disse Adelaide.
Ouvi os passos de todas elas se afastando. Adam apertou um pouco mais o abraço.
— É perigoso ficar aqui. — Disse Adam. — Pra onde é sua casa?
Quando ele afrouxou os braços, ergui o rosto e vi que ele olhava atentamente para mim. Então disse o endereço de casa.
— Então você estava indo pro lado errado... — Disse ele colocando minha bolsa em seu ombro. — Vem, vamos. — Ele passou o braço por mim, me deixando assim junto a ele.
Quanto mais caminhávamos, mais calma eu me sentia, então tomei a liberdade de questionar:
— Quem eram aqueles?
— Conhecidos da vizinhança, moram na pensão da dona Adelaide, vieram pra cidade uns 3 anos atrás... – Hesitou. — Desculpa se eles te assustaram.
— Não foi culpa sua. — Respondi quase seca.
— Mas se eu tivesse oferecido companhia eles não teriam te assustado. — Esclareceu Adam.
Havíamos chegado em casa.
— Ahn... Minhas chaves estão na bolsa. — Disse e imediatamente ele me entregou a bolsa. — Você quer entrar?
— Obrigado, eu aceito.
Abri a porta, e assim que entramos coloquei a bolsa na mesa.
— É linda.
— Não é minha. É alugada. — Respondi.
— Eu não estava elogiando a casa. — Adam sorriu.
Virei o rosto para que ele não percebesse que eu estava envergonhada.
— Você quer tomar alguma coisa? — Perguntei já pensando em fazer um chá.
— O que você fizer está bom. — Adam sorriu novamente.
— Aqui não tem sala, então pode esperar no quarto, se quiser.
****
Eu observava seu quarto, era o típico quarto de um chalé, tinha uma cama de casal no centro, e uma escrivaninha na diagonal, com uma cadeira de escritório acompanhando. Do lado da cama uma comodazinha, nela tinha um pequeno abajur e um pedaço de papel... Tive que ler, claro, curioso como sou... É a frase que eu tinha escrito para ela... Ela é uma graça, de verdade...
— Ahn, Adam? — Ouvi a voz dela me chamar.
Virei assustado e fiquei olhando pra ela, que segurava duas canecas, uma em cada mão.
— Seu chá. — Ela esticou a mão que segurava a caneca de cerâmica vermelha.
— Ah, brigado. — Peguei e sentei na cama junto com ela.
— A propósito, obrigada... Por hoje. — Disse ela meio sem jeito.
— Foi um prazer. — Tomei o chá. — É seu preferido?
— Camomila.
— O meu também. — Sorri.
Não consegui deixar de notar que toda vez que eu sorria sua atenção ia pras minhas bochechas, assim ri de novo, sem querer. Que pensamento bobo. Continuei tomando o chá.
— Adam, qual é o seu sonho? — Interrompeu o silêncio.
— Meu sonho? Eu quero ser um artista feliz. E... Eu quero ser pai.
Finalmente vi ela sorrir, um sorriso sincero e especialmente para mim.
— E o seu sonho, senhorita mistério? — Sorri ao perguntar.
— Eu não tenho um.
Ri.
— Como não tem um? — Perguntei e voltei a tomar o chá.
— Eu só não tenho. — Ela olhou para o lado e disfarçou tomando chá.
— Entendi.
Coloquei a caneca, vazia, na cômoda.
— Então eu já vou indo. — Comentei. — Será que você pelo menos pode dizer qual é o seu nome?
Ela sorriu e terminou o chá. Levantou, pegou a caneca vermelha, ainda sorrindo. Sorri para acompanhar e me levantei, dizendo:
— Então pode me acompanhar até a porta?
Fomos até a cozinha, ela colocou as duas canecas na pia, e eu caminhei até a porta. Me despedi e segui meu caminho.
— Adam! — Ouvi sua voz.
Olhei pra ela na hora.
— Kendra... – Continuou.
Sorri pra ela e ela pra mim.
— Boa noite, Kendra.
— Boa noite, Adam.
Continuei meu caminho depois que ela bateu a porta.
****
E mais uma vez eu iria dormir feliz, graças a ele. Troquei meu uniforme por uma camisola de seda verde clara, e prendi meu cabelo todo com um elástico. Sentei-me na cama, observei o criado-mudo e a frase escrita em um papel que estava sobre ele.
Acredito que o mundo precisa mais do seu sorriso do que do meu, Adam. Suspirei, deitei-me na cama e deliguei o abajur. Eu pretendia dormir, mas o sorriso do Adam não saia da minha cabeça, ele todo não saia. Seu abraço era tão bom que eu poderia ter ficado a noite inteira ali.
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