Namoro por Aluguel
5 Almoço - Parte um
Notas iniciais
Termino de colocar o vestido, com um suspiro de alívio.
O tecido rosa-chá contrasta com o fino cinto bege, que vai na cintura, sem tampar os detalhes da parte superior com botões.
É um vestido que fica acima dos joelhos,meio rodado. Sento-me no vaso sanitário tampado, com um pouco de nojo (cá entre nós, trocar de roupa em um posto de combustível não é lá muito higiênico) e amarro a fivela do sapato de salto bege, adiciono ao look os brincos,o colar e um anel dourado. Passo o batom em um tom próximo ao vermelho e checo se algum fio está desarrumado na trança escama de peixe que fiz nos cabelos.
Pego a sacola que agora contém minhas roupas antigas e saio do banheiro
. — Uma perfeita lady. — Elogia Miguel, tirando os olhos de uma revista.
E, de fato, eu parecia uma.
– Podemos ir agora? — Indago, andando rapidamente, mas tropeço no próprio pé e quase caio.
Definitivamente, odeio salto alto.
– Podemos, mas ande devagar,se andar rápido com salto vai cair e quebrar o nariz.
– Pelo menos poderia dormir até tarde — Resmungo.
Ele tira as chaves do carro do bolso, depois a roda na mão
. — Vamos logo.
* * *
É impossível esconder a surpresa ao chegar em frente à casa de Miguel.
Primeiro passamos pela entrada do condomínio, depois por ruas largas com arcos de flores em cada esquina. A casa dele é uma das últimas, ao lado do lago artificial.
Só quero que me lembrem: Se eu ganhar na loteria, devo comprar uma casa no condomínio Veneza do solar.
A casa é branca, com várias janelas. Tem um leve toque vintage, sem deixar de ser moderna. Dois pilares sustentam uma sacada, que dá uma cobertura até chegar na porta.
Miguel estaciona o carro e descemos, devagar. Atravessamos uma pequena parte de cimento em meio à água que atravessa a frente da casa.
Ele abre as portas de vidro da mansão e adentramos.
Uma mulher extremamente branca com cabelos grisalhos nos recebe.
– Miguel, sua mãe está no quarto.
– Obrigado, Magda.
Magda... Tento me lembrar de quem ela é. Ah, claro, é a empregada mais velha da casa
. — Lembre-se de que eles ainda não sabem do namoro. – Miguel sussurra em meu ouvido
. — Ok.
Ele aponta para uma poltrona branca.
– Sente- se ali,amor -Fala,forçando o "amor" — Logo desceremos.
Magda olha,desconfiada, mas depois volta a limpar um abajur.
A poltrona é tão confortável que tenho que me controlar para não desabar nela,parece feita de nuvens de tão macia. A sala de estar é rodeada com um papel de parede preto com detalhes dourados, uma TV enorme de LED está desligada,abaixo dela uma prateleira,lotada de fotos de família. Uma estante lotada de livros fica no canto direito da sala,quase encostada na janela de vidro rodeada com cortinas. O tapete branco e felpudo é absurdamente limpo, como se fosse novinho em folha. O sofá,um conjunto de poltronas e a mesinha de centro são brancos também,decorados com almofadas ou porta retratos pretos.
Minutos depois, uma mulher desce as escadas ao lado de Miguel. A semelhança entre eles é inquestionável.
Ela tem cabelos pretos, na altura do ombro. Carrega na íris o mesmo tom de azul dos olhos do filho, a postura ereta, clássica.
Nem mesmo se espantou com o fato de ver uma garota em sua sala, como se estivesse acostumada ( certamente estava, vai saber quantas ela já viu na cama de Miguel?).
– Você é Ana? – Indaga ela, com a voz calma.
– Sou, senhora Carmem.
– Ah, por favor, Não me chame de senhora, não sou tão velha assim.
Sorrio.
– Meu filho disse que hoje iria contar algo importante no almoço, então só iremos esperar Elias, meu marido, chegar e já almoçaremos. – Diz- Fique à vontade.
Se retira, os saltos tilintando no piso polido e o vestido preto e justo em seu perfeito lugar, sem mexer um centímetro sequer.
Miguel desaba no sofá ao meu lado, jogando os sapatos em um canto qualquer do cômodo.
– Isso, pode quebrar a TV, ninguém liga. – Uma voz feminina berra.
– Diane, volte para sua casa.
Uma mulher aparece na sala, é alta, loira e tem olhos verdes. Parece estar grávida, a saia verde água se movendo conforme ela anda.
– Não vou voltar para casa, meu marido está viajando, e se eu der a luz e estiver sozinha?
– Você tem empregados, vizinhos. Pare de encher o nosso saco.
– Fala o menino que veio estragar minha vida de filha única. – Bufa ela.
Lembro-me de Miguel ter citado ter uma irmã. Ah, claro, eu deveria lembrar.
Ela olha para mim.
– Já está com outra? Cadê a menina da semana passada?
– Saberá melhor na hora do almoço. – Ele fala – Agora vá limpar essa boca, está suja de sorvete.
Ela passa a mão na boca, constatando se é verdade, depois corre para a parte de cima da casa.
– Se ela continuar comendo assim, vai virar um botijão de gás. – Fala Miguel, consigo mesmo.
– Seu pai vai demorar para chegar? – Indago, estalando os dedos.
– Ele é imprevisível, pode estar em Nárnia nesse momento.
– Dá para responder seriamente pelo menos uma vez?
– Xiu! – Ele me repreende – Já quer começar o trabalho brigando com o chefe?
– Cala a boca.
Ele sorri, ligando a TV.
Meia hora depois, um homem de terno entra na casa, apressado. O reconheço como Elias, o pai de Miguel.
Cabelos grisalho misturado com fios loiros habitam a cabeça do homem, a pele é levemente bronzeada. Estatura mediana, magro, tem classe.
Ele olha para a sala, assim como a mãe de Miguel, não se espanta ao ver uma garota em sua sala.
– Bonita roupa – Comenta ele. – Miguel está acordado?
O rapaz levanta a cabeça, acenando para o pai.
– Sabia que são uma da tarde? – Indaga o filho
– Não, eu não tenho um relógio e nem sei ver as horas. Obrigado por me informar. – Bufa – Onde está sua mãe?
– Dormindo, provavelmente. Ela cansou de te esperar.
– O trabalho precisava de mim.
“Sempre precisa” Murmura Miguel. Abaixo a cabeça, achei que essa família fosse como aquelas de comercial de margarina. Posso ver que estava errada, está mais para uma família de novela das nove.
* * * — Preciso fazer um comunicado. – Miguel diz, se levantando.
Todos param de comer, repito o gesto (mesmo sem querer, a comida está deliciosa).
– Virou gay? – Zomba Diane
– Filha, tenha classe. – Repreende a mãe da família.
Elias somente olha com cara feia para a filha.
– Continuando... – Fala Miguel. – Estou namorando.
– Mais uma garota torta? – O mais velho indaga
– Não, pai, dessa vez é uma garota direita. Ana é uma dama perfeita – Fala, sorrindo de modo fingido.
– Ana? – Indaga, apontando para mim – Ela?
– A própria.
– Meu filho finalmente criou juízo. – Diz, levantando as mãos para o céu.
– Desde quando se conhecem? – Indaga a mãe da família.
– Como se conheceram? – Indaga Diane, a irmã – Ele te engravidou?
Começamos a executar o plano, exatamente como combinado. Falsos risinhos, falsos olhares apaixonados, falsas histórias.
Como uma firma na qual o empregado tenta puxar o saco do chefe.
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