Namoro por Aluguel
3 A resposta
Notas iniciais
Um cliente beberica seu chá, tentando conectar o celular na rede de internet do café. Melissa está secando alguns copos enquanto eu limpo o balcão.
Hoje seria um dos dias parados no Mocca café.
O sininho toca, indicando que um cliente entrou na loja, colocando o pano no ombro, vou até ele assim que se senta.
– O que deseja? – Indago
– Uma resposta para a proposta. – Diz o homem, que reconheço como Miguel. Ele tira a touca da cabeça – E um café bem forte, por favor.
– Só isso?
– Sim. Mas, por favor, veja se consegue a resposta com rapidez.
– Está em falta – Falo, com ironia – Vai ver outra garçonete consiga uma para você.
Ele bufa, então me retiro para pegar o café.
– Ainda não tem uma resposta? – Melissa indaga , cochichando.
– Já tenho, é um Não bem bonito.
– Olha, não é por nada não, mas eu aceitaria.
Olho para ela, espantada.
– É estranho, eu sei, mas olhe o nosso salário, existem meses nos quais eu fico devendo no cartão e tenho que pegar dinheiro emprestado com a minha mãe.
– Eu sei, mas aceitar isso seria como me prostituir.
– Não seria, é só uma encenação.
– Se ele quisesse uma encenação, que fizesse Teatro ao invés de arquitetura.
Terminando de colocar café na xícara de tamanho médio, me encaminho para a mesa de Miguel.
– O café veio, mas e a resposta? – Indaga
– O açúcar e o adoçante estão na mesa, ao seu lado, se precisar de algo é só chamar. – Falo, ignorando-o.
Volto para trás do balcão.
* * *
– Já faz uma hora que ele está sentado ali. – Comento com Melissa. Ela está esquentando um pão de queijo.
– E daí? Vai ver o Facebook está cheio de notificações.
– Não tem graça, Mel. Ele acha que ficando ali, vai receber a resposta.
– Então vá até lá e dê a resposta.
– Eu já disse, mas ele disse que só sai quando receber um sim.
– Então dê o maldito sim.
– Eu não posso, não sou tão baixa assim, quero conseguir as coisas por mérito.
– Pense: Ele diz que pode pagar o quanto você quiser, e você precisa do dinheiro. Pense em tudo o que poderia comprar para você, para Lucas, para seus pais e no quanto o dinheiro ajudaria. Se economizasse, poderia comprar uma moto e sair dessa vida de ônibus.
– O mundo não é só dinheiro.
– Mas grande parte dele é movida por causa disso. Faça o que quiser, mas eu já teria aceitado.
Encaro Miguel,que está focado na tela de seu celular.
– Não sei, talvez não seja uma má idéia. – Falo
– E não é.
– Eu preciso de tempo, para pensar.
– Não temos tempo. E também não temos chantilly para colocar nesse café.
Bufando, entro em uma das portinhas que ficam na parede atrás do balcão. De lá, tiro uma lata de chantilly, depois a entrego para Melissa.
O dia se passa assim, lento e trabalhoso.
* * *
– Precisamos fechar – Falo para Miguel.
– Ainda quero a resposta.
Ajeito a bolsa no ombro direito. O vestido verde musgo e marrom, uniforme da cafeteria, está todo amarrotado. Retiro o avental marrom e o coloco na bolsa.
– Ficou o dia todo sentado, mas infelizmente a loja tem que fechar. Com ou sem resposta.
– Seria melhor se tivesse resposta.
– Seria melhor se eu tivesse algumas explicações antes de repensar minha resposta.
Ele se levanta, solta um gemido de dor.
– Droga, ficar a tarde inteira sentado me deu uma dor.
“ Como se eu não cansasse de trabalhar...”
Ele vai até a porta de entrada, colocando o celular no bolso. O sigo.
– Eu tenho uma decisão. – Falo
– E...
O que eu estava prestes a fazer era loucura, talvez até insano, mas o que importava era o dinheiro.
– Eu vou aceitar.
Ele abre um sorriso.
– Ok. Você está livre domingo?
– Por que?
– Precisa de roupas de classe, além de um treinamento para ser uma dama da alta sociedade. Pode ser a garota ideal para meu pai, mas se dor convencer minha mãe, precisará ser extremamente profissional. Vamos organizar tudo: Uma história falsa, pais falsos, até um nome.
– Não quero mudar meu nome, iria dar uma tremenda confusão.
– Ok, o nome permanece. Vamos decidir a parte do contrato.
Ele tira um papel dobrado do bolso, o estica para mim.
Leio o conteúdo, que fala, basicamente, dos meus deveres e direitos durante o período. Também fala do valor, que será sempre o mesmo (conforme o tempo for passando, o valor poderá aumentar. Fala de outras coisas, e no fim, tem um espaço para eu assinar.
Ele me estende uma caneta, eu assino o contrato.
– Pode pegar para você , a cópia está comigo. – Estendendo a mão, ele fala – Negócio fechado?
– Pode crer que sim. – Estendo a mão, apertando a dele.
Ficamos conversando durante muito tempo, definindo coisas. Ele me conta sobre seu pai e sobre o que ele gostaria de encontrar na “namorada”para o filho. Felizmente, me encaixo em quase todas as coisas.
– Nesse caso, você é oficialmente minha namorada.
– De aluguel – O corrijo.
– Vou adicionar seu nome na agenda, Anne.
– Ana! – O corrijo,irritada.
– Ah, certo. Qual o seu número?
Falo o número, ele então estende o celular para mostrar como ficou o contato “Ana amor” e um emoction de coração.
– Muito convincente. – Falo
– Antigamente, eles usavam o beijo para selar um contrato. – Ele sorri, serelepe.
– Ainda bem que estamos no século XXI , não é?
Miguel sorri.
– Só uma pergunta, seus pais irão saber do acordo? – Indaga
– Não. – Respondo, friamente. – Você vai ser um colega de classe que sequer será mencionado.
– É melhor assim.
Ele pega o celular, responde uma mensagem e depois continua:
– Não se esqueça de domingo, iremos sair cedo e comprar roupas, sapatos e tudo o que uma moça de alta classe precisa.
– Mas as lojas ficam fechadas de domingo, exceto os shoppings.
– Ah, Ana, se soubesse o que o dinheiro pode fazer com as pessoas... Se eu quisesse fazer um palhaço parar de fazer as pessoas sorrirem, eu conseguiria. Deixar uma loja aberta não será difícil.
– Ok, onde nos encontraremos?
– Em frente à praça central,pode ser?
– Pode.
Ele entra em seu carro, dá a partida e depois abre o vidro.
– Nos vemos lá, namorada alugada.
Ele acena com a mão e sai, acelerando o carro.
Fale com o autor