Notas iniciais
Espero que gostem e obrigada pelos reviews :)

Despertei com a primeira luz do dia, embora tivesse ficado acordada até bem passada a meia-noite. A primeira coisa que me veio a mente foi ele, assim tinha sido durante toda a noite.

Seu rosto com angulosas feições, a forma da mandíbula e a suave saliência de sua testa eram sinais de força. A forma como se formavam pequenas cavidades em suas bochechas quando ele sorria, a forma como havia transcorrido o contato entre nós dois ontem a noite. Apesar de seu jeito rude eu não poderia negar que havia gostado das sensações que aquilo haviam proporcionado-me, e ainda deixava-me sem ar apenas ao relembrar.

Suspirei e espreguicei-me ainda sobre o lençóis de linho, os cabelos bronze caindo sobre meus ombros, bagunçados. Faltavam três semanas para o aclamado casamento, muita coisa inacabada e muita coisa ainda para ser feita e aguentada por mim ao longo dessas três semanas.



– É realmente fabuloso senhora Naomi, mas a senhora não teria um como este verde? — Alice dizia ditosa enquanto avaliava um vestido em meio às suas pequenas mãos.

Ela ria, vibrava e ficava realmente feliz a cada novo vestido adquirido a sua nada pequena coleção. Aquele ali seria o quinto, se dele tivesse uma versão em verde.

E aquela ida até a casa da senhora Naomi havia sido apenas para ver como seguiam os ajustes para o meu vestido de casamento.

Naomi era a mais importante e renomada costureira da cidade, fazia os vestidos mais belos apenas para a mais alta sociedade, e eu não fiquei nem um pouco surpresa quando Alice ofereceu-se para me acompanhar quando minha mãe se viu indisposta para fazê-lo.

Eu amava a companhia de Alice, ela mais parecia uma amiga do que uma tia na maior parte do tempo, mas confesso que comprar, com ela, era mais do que poderia suportar. O que seria uma visita rápida se tornava longa e a única pessoa, além dela, que parecia estar tão contente com a situação era a senhora Naomi, mas ela já sabia, estava mais que acostumada, sabia que venderia pelo menos três vestidos a cada visita de Alice.

Eu não aguentava mais estar presa aquela sala, não era muito pequena, mas o ar estacionado ali parecia sufocar-me aos poucos e as paredes, depois de passada uma hora, pareciam fechar-se ao meu redor.

Levantei-me da cadeira onde havia estacionado a tempos e me abanei com o leque, coisa que não costumava fazer e nem gostava. Atraí a atenção de Alice.

– Acho que vou ficar dentro da carruagem, necessito de algum ar.

Alice sorriu, solidária ao meu perceptível incômodo, ela sabia que se eu tivesse que ficar mais algum tempo ali arrastaria-a para casa pelos braços.

– Tudo bem. Só peça a Christopher que fique com você lá, Denver não é tão segura quanto se parece a noite. — Ela disse voltando-se a Naomi, que chegava com mais uma remessa de vestidos nos braços, a senhora concordou e Alice lhe sorriu. — De qualquer jeito, não pretendo demorar-me muito. — E sorriu, iluminada de novo para mim.

Eu saí a passos largos e rápidos dali, suspirando cansada quando finalmente uma rajada de ar frio e fresco batia contra meu rosto, era realmente uma lástima que Alice, hoje, fosse dormir lá em casa, e fizesse assim com que eu tivesse que esperá-la de novo por mais uma hora.

Bem, pelo menos agora eu estava do lado de fora, onde podia-se observar melhor a cidade, onde realmente se tinha pessoas passando, comprando, vivendo, diferente das áreas onde encontravam-se as maiores casas e os maiores castelos. Ali havia algum tipo de alvoroço.

Não me surpreendeu constatar que Christopher não estava sentado no banco da parte de fora da carruagem, onde ele costumava conduzí-la. Ele sabia onde iríamos, e que Alice estava comigo, ou seja, ele sabia que íamos demorar eternidades.

Quando engrossei a vista mais a frente pude ver um bar, que ficava um pouco mais a frente da casa de senhora Naomi, no outro lado da rua, e vi Christopher sentado logo a sua margem, conversava e ria com uns amigos enquanto comia algumas iguarias também.

Estava pronta para fazer aquilo que Alice havia mandado-me fazer, até elevei um de meus braços ao ar, pronta para chamá-lo e atrair sua atenção quando um som estranho me fez parar.

Eu tentei ouvir melhor, mas meus ouvidos não conseguiram escutar nada, então, estava pronta para tentar atrair a atenção de Christopher mais uma vez quando o som se repetiu, dessa vez mais alto, parecia muito com um gemido.

Eu olhei ao redor, procurando a fonte do som lastimoso, talvez fosse alguém doente, talvez fosse alguém precisando de ajuda. Meus olhos pouco viram pela rua mal iluminada.

– Socorro! — O som soou baixo e abafado, mas foi o suficiente para me fazer ver de onde ele vinha.

Ele procedia de um beco, na esquina de frente a minha, mais escura e úmida do que a rua onde eu me encontrava agora e tudo que eu podia ver era o rosto de um homem branco, com mais ou menos uns trinta anos, algumas mechas do cabelos castanho grudadas em sua testa.

Ele estava deitado no chão, agonizando e gemendo de dor, mesmo assim seus olhos eram expressivos o bastante para me fazer perceber que ele olhava para mim, pedindo por socorro por eles.

Eu corri, o mais rápido que pude até o outro lado da rua, parando na viela úmida e escura onde aquele homem se contorcia em dores e gemidos. Me abaixei até sua altura, a barra do vestido bege arrastando-se no chão negro de lama, resultado da chuva dos dias anteriores. Estava disposta a ajudá-lo como pudesse.

– Estás bem senhor? — Minha voz saiu fálida e bipartida em consequência da apreensão de que ele não fosse aguentar e morresse ali, naquele beco, aos meus pés.

– Não, eu preciso de ajuda. — A voz extremamente fraca me respondeu, ressonando por todo o beco, dando aquele lugar uma expressão ainda mais vazia e triste do que já possuía.

Mas era realmente uma pergunta idiota a se fazer para um homem que estava estirado no chão e gritando de dor.

– O que aconteceu?

– Um ladrão, levou minhas coisas e ainda golpeou-me na cabeça.

– Eu sinto muito senhor, espere só um pouco que vou pedir ajuda.

Eu já havia estirado os joelhos, pronta para me reerguer e gritar por Christopher, sua voz me fez parar no ato.

– Não precisa minha querida, apenas você pode me ajudar agora. — A sua voz já não soava tão fraca como antes, ela soltava faíscas de perigo, fazendo os pelos de meus braços se erguerem em resposta,

O observei com o cenho franzido, o que eu poderia fazer para ajudá-lo? Eu mal conseguiria levantar seu corpo e sustentar seu peso, ele era um homem corpulento, na altura de seus trinta anos e se não fosse pelo golpe na cabeça eu poderia jurar que respondia bem de saúde.

– O que posso fazer para ajudá-lo senhor? — A pergunta saiu suspeita de seus lábios, vacilantes, o temor era facilmente notável em seu término.

Estava preparando-me para correr se fosse preciso, Denver talvez não fosse tão segura o quanto eu pensava, Alice havia alertado-me.

O meu crescente temor não parecia ter raízes lógicas, afinal, um homem ferido não conseguiria alcançar-me, não pelo menos até que eu chegasse a Christopher, no bar da esquina.

O homem caído ao chão, sumiu de minha vista antes que meus olhos pudessem terminar uma piscada e se não fosse por sentir a sua respiração contínua em meu pescoço eu poderia jurar que ele havia evaporado no ar.

O coração bateu forte, tão forte que eu desconhecia que ele pudesse bater assim algum dia. Aquilo não poderia ser real, eu deveria estar sonhando, explicaria muita coisa se de fato fosse isso. A sua velocidade era inacreditável, impossível, não por pensar se tratar de um homem ferido, mas sim porque eu realmente nunca havia visto tanta destreza e agilidade em um humano. E não havia se passado nem mesmo dois segundos.

Gritei, mas a mão que cobriu minha boca o cortou em seco, o grito apanhado em minha garganta ficou reduzido a um chiado inútil e desesperado. Eu o chutava e me contorcia, lutando contra seus braços enquanto cravava minhas unhas na mão que silenciava meus gritos, nada funcionava.

Sua outra mão segurou meus dois braços de uma só vez com uma força excessiva, como se todo o meu corpo não estivesse debatendo-se por inteiro tentando me livrar dele.

Eu só conseguia imaginar o pior. Que ele era algum tipo de assassino maníaco ou que ele iria tomar meu corpo contra a minha vontade, e que com sorte eu seria achada por alguém na manhã seguinte, mas até lá seria tarde, eu seria uma indigna desvirtuada até então. Contrariando minhas especulações não havia mão alguma em lugares inoportunos e ele não fazia nada além de calar-me com as mãos e me segurar, impedindo-me de fugir. A única coisa que fazia-me acreditar que aquilo era bem real era sua respiração atrás de mim, estava tensa, ele parecia tentar concentrar-se.

No segundo seguinte senti sua respiração concentrando-se mais forte em meu pescoço, ele inclinou meu corpo, com uma dificuldade não muito diferente de quem se inclina um saco de penas. Meus cabelos saíram de cima de meus ombros, voando pelo ar frio que entrava e zumbia pelo beco. Sua mão ainda me calava, mas eu não desistia de tentar gritar, a ardência nela já começava a me incomodar.

Ele olhou em meus olhos e eu me vi espelhada em um completo vazio que seus olhos refletiam, por alguns segundos eu pensei ser possível que ele me soltasse. Então seu rosto adquiriu uma forma que eu nunca havia visto parecido, os olhos ficaram completamente negros, como os de um demônio, as olheiras, abaixo dos olhos ficaram de um roxo forte, e veias grossas e negras brotaram em seu rosto, elas iam da extensão de seu pescoço até a sua testa, era algo grotesto.

O coração deu um salto, pulsando com força, ressoava com ruído surdo contra minhas costelas, contive nervosamente a respiração. Ele sorriu, provavelmente divertindo-se com minha expressão de medo e pavor, com uma pontada de esperança tola, e quando sua boca se moveu, para mostrar-me os dentes perfeitamente alinhados eu pude vê-los com total repúdio. Os caninos, muito mais pontiagudos do que eu jamais vi. Ele cravou-os em minha jugular no segundo seguinte e o chiado em minha garganta se fez mais audível, uma ridicula tentativa de gritar.

Eu ainda tentava acertá-lo com os inúmeros chutes e socos, mas conseguia sentir o sangue que ia saindo em rajadas de meu corpo enquando ele bebia-me, a dor imensa localizada em meu pescoço que aquilo proporcionava, e depois a vertigem, que fez com que minha visão ficasse dupla e turva, como uma janela depois da tempestade. Senti o corpo ficar mole, parecia que todas as minhas forças me eram sugadas junto com meu sangue. O pulsar do coração ficando mais fraco na proporção inversa com que o sangue saia de meu corpo, eu podia ouvir suas batidas ressoarem em meus ouvidos, cada vez mais fracas, cada vez mais lânguido.

Fechei os olhos me entregando, logo tudo o que eu via, sentia, ou ouvia era uma imensidão negra.

Notas finais
Queria pedir para as leitoras fantasmas se pronunciarem porque não é de hoje que tem bastante gente lendo, mas nem todo mundo deixando o review e eu nunca reclamei porque os números não são o mais importante pra mim, mas né.. Deixem um review nem que seja escrito ''Estou lendo'' KK
Então é isso, deixem o review que eu deixo o capítulo três, beijos.