A tarde lá fora pouco influenciava sobre mim. Os pássaros cantavam, dando seus voos rasantes pelo céu com seu sol poente e todo o quarto era envolvido na aura de suas cores alaranjadas.

Todos os convidados já haviam partido e o alarido das despedidas foram-se junto com o tintilar dos cascos dos cavalos e das rangentes carruagens. A mansão agora voltava ao silêncio espargido.

Decidi que desceria para procurar algo a se fazer. Ficar sozinha, com a cabeça cheia como a que tinha agora não seria bom, precisava de tudo neste momento, menos pensar. Leria a um livro, ou sairia em busca de Cassie para sua companhia, para suas conversas desatinadas que sempre melhoravam o humor, mas de pé, aqui sozinha, não ficaria mais.

Foi preciso que apenas descesse os últimos degraus da escada até que pudesse escutar os murmúrios avulsos e abafados. Contornei o patamar para descobrir de onde vinha, não foi preciso encontrar a grande porta de madeira maciça do escritório de Jacob para saber que a conversa vinha de lá.

Os murmúrios, que na realidade soavam mais como gritos agora foram tomando formas até apresentar-se em uma conversa que dali, aonde encontrava-me agora, poderia ser ouvida sem dificuldades. Alguma vantagem teria de ter por ser o que eu era.

— Nunca, em toda minha vida, ouvi tamanhas tolices Jacob!

Era a voz de Billy quem gritava. Havia retornado a Devon para o baile e era o único que ainda não havia partido. Até ali completamente natural, dado ao fato de que mais comum seria que Billy morasse conosco já que todas as posses e riquezas que Jacob possuía não eram dele na realidade, eram da família, de seu nome, a qual ele seria herdeiro absoluto assim que Billy perecesse.

Uma voz avisava-me, insistentemente na cabeça, de que aquela conversa não era uma conversa para ser ouvida, ouvidos normais não conseguiriam. Disse-me para dar meia volta e colocar-me em retorno ao quarto e que não saísse de lá até que fosse a hora do jantar. Ainda assim os pés mantiveram-se firmes, a audição mais atenta do que nunca e eu desejava que nenhum criado passasse por aqui agora.

— Tens que reconhecer que ela tão pouco tem a culpa — A voz de Jacob, depois de alguns segundos, respondeu-o.

— Oh não? Então quem a tem?

Houveram alguns instantes de silêncio, além da madeira que rangia dentro da sala com o caminhar de alguém, até que a voz de Billy regressasse, alta e cheia de furor.

— Responda-me! — Rugiu. — Sou eu? Você? Todos os inocentes que ela já matou? Ou achas que por você estar aqui sozinho não inteiro-me das coisas? Sei de tudo Jacob. Da criada, dos plebeus, até das crianças que ela andou bebendo como a boa sanguessuga que é.

Minha espinha gelou, meu cérebro estagnou-se em um torpor quando percebi que eram de mim de quem discorriam. Minhas pernas endureceram-se fincando-se no lugar. Então Billy sabia de tudo.

— Então pergunto-te o que estas esperando mantendo-a em casa? Sua própria morte? — Sua voz soou completamente irônica.

— O que sugeres-me que faça então? — Jacob perguntou consternado. — Abandone-a? Escorrace-a? Devolva-a a Edward sem nenhuma razão convincente? Ou melhor papai, que a mate e dê qualquer explicação esdrúxula?

Talvez fosse o melhor a se fazer. Era Billy quem tinha a razão até ali. Eu era um monstro, eu matava as pessoas, talvez eu merecesse e devesse morrer.

Billy soltou uma risada sem resquício algum de humor.

— Falas como se nunca houvesse feito-o antes. Qualquer solução seria melhor do que mantê-la sobre o seu teto, em sua cama. Conheces o risco que corres? Sabes do nojo que tenho de você por pensar o que faziam naquele quarto ontem?

— Não fazíamos nada! — Jacob gritou. — Não divido meus leitos com ela, não mais, e ontem havia o baile, os convidados.

— Ela o atacará Jacob — Billy interrompeu-o em sua explicação, a mesma que havia dado-me ontem a noite. — Mais cedo ou mais tarde como já o fez antes.

— Eu praticamente esfreguei meu sangue em seu rosto pai.

— E os inocentes de que ela já matou fizeram o mesmo?

Jacob ficou em silêncio, não haviam argumentos ali.

— Se isto então não forem motivos suficientes lembro-te Jacob, a lua cheia não tardará a aparecer e o que você fará? Apenas Deus sabe como encontrou forças para correr o mais longe que pôde da última vez mas e desta, fará o que? Irá para longe e a deixará sozinha novamente? Muito bem pensado, talvez desta vez quando retornar ela tenha conseguido dizimar metade da cidade.

— Ela consegue controlar-se. — A voz de Jacob soou desconceituada, nem mesmo ele acreditava naquilo, nem mesmo eu acreditava naquilo. O sangue que corria em minhas veias e era bombeado por meu coração faziam ter a certeza de que controlar-me não era uma escolha.

— Não, não consegue. E sabes que tens que colocar um fim nisso. O que estas esperando? Sua morte?

— Ela simplismente não tem culpa! O senhor sabe o porquê dela estar assim, sabe a quem Cameron queria atingir quando a transformou e então pedes-me para por um fim nisto? Provavelmente um fim a ela?

— Ela nada mais é do que uma sanguessuga, uma vampira suja como todas as outras. — A voz de Billy soou completa em asco, assim como a voz de Jacob havia soado para mim tantas vezes antes, mas ouvir aquilo de Billy não doía nem mesmo na metade do que doía quando as palavras eram proferidas pelos lábios de Jacob.

— Eu não farei isso. — Jacob soou duro, eloquente.

— Mas que merda Jacob! — Billy bramou. — O que esta mulher fizestes com você? A vadia fodes tão bem assim? Ou estas gostando dela?

— Nunca! — Jacob apressou-se por gritar. A voz saiu com tanta firmeza e certeza como jamais havia saído antes em toda a conversa. — Apenas ainda tenho um resquício de honra, não aprovo suas soluções pai. Isto é tudo culpa sua! Eu não queria casar-me, eu não a queria, foi você quem armou o casamento, foi você quem insistiu em tudo isto.

Aquilo doeu, como levar mil facadas, mas eu deveria esperar, eu já deveria ter acostumado-me com esse tipo de coisa vinda de Jacob a tempos.

— Então não convidas-me para sua casa!

De dentro da sala algum objeto de metal atingiu as paredes de granito causando um som azucrinante.

— Não enquanto a sanguessuga ainda estiver aqui. Espero que coloque a cabeça no lugar e que percebas o que estas fazendo com a honra da família, com o nome dos Black. É uma vergonha...

Passos arrastados soaram por detrás de mim, ainda a uma distância segura. Recompus-me colocando um sorriso afável no rosto antes de girar para longe da curva do corredor, encontrando com a roliça criada que passava e perguntando-a se sabias onde estava Cassie. O resto daquela conversa não poderia ser escutada por mim, não se não quisesse que os criados soubessem que andava espreitando conversas de meu marido pelo corredor e posteriormente Jacob, o que seria demasiado pior.

Dirigi-me de volta ao quarto com a cabeça aturdida, mal sabia o que pensar, mal sabia por onde começaria a colocar os pensamentos no lugar e Deus, o quanto a cabeça latejava e parecia ter um peso infinitamente maior a cada vez que tentava por isso em prática. Acabei por adormecer entre os lençóis, em meio ao caos dos tecidos pesados do vestido e acordei com a batida insistente de Cassey na porta.

A noite já havia caído com sua imensidão negra, repleta por nuvens maciças e arroxeadas e uma lua crescente reinando por entre elas.

Cassey preparou-me o banho, penteou-me os cabelos, ajudou-me com o vestido e o espartilho bem apertado mas quanto desci para o jantar deparei-me com uma mesa vazia. Nem Jacob, nem Billy juntaram-se a mim e quanto a Billy sentia-me aprazível quanto a isso. Não saberia como encara-lo depois de tudo o que havia ouvido.

— Jacob e Billy, onde estão? — Perguntei a um lacaio que servia-me de um pedaço de pato assado com mel.

Não tinha fome, quase nunca tinha fome de comida e apenas a fazia descer até o estômago pelo mero fato de Jacob agarrar-se tanto às aparências, por seu olhar tendencioso em todas as refeições que fazíamos.

— O senhor Billy voltou à estrada, pediu desculpas por não despedir-se devidamente da senhora duquesa mas preferiu não incomoda-la despertando-a. Já o duque recolheu-se em seus aposentos, pediu para que não o incomodassem.

Sabia bem o porquê de Billy não ter se despedido. Não importava, sentia-me melhor pelo simples fato de não tê-lo mais na casa, de poder confrontar a Jacob, tentar saber o que diabos passava-se em minha própria casa e era o que faria agora mesmo.

— Não sinto fome — Disse simplesmente já levantando-me da cadeira sem ao menos ter tocado na comida.

O caminho que fiz em seguida já era-me espargido. Segui o patamar que dava acesso a grande escada. Subi-a mas passei pelo segundo andar direto, subindo a mais um andar e adentrando no pouco frequentado e último terceiro andar do castelo.

O andar inteiro era envolvido por uma penumbra, proveniente de velas postas em intervalos progressivos nas paredes, apoiadas sobre castiçais que ficavam em suas eminências. Enormes cortinas de veludo na cor vinho impediam qualquer feixe de luz de lua que atrevesse-se a adentrar por ali.

O corredor era longínquo, como todos os corredores do castelo eram, mas aquele andar não era repleto em salas e cômodos, de onde surgiam lacaios e servos a todo o momento como todos os restantes andares. A única coisa repleta ali era o silêncio, a penumbra e a solidão abrasadora que quase fez-me colocar de volta ao caminho do segundo andar, à conformidade de meu quarto, à cômoda e ignorante bolha.

Foi quando um feixe de luz dourada fez-se brilhar no chão, uma fina linha, uma tênue brecha que escapava por um momento de uma porta entreaberta. Ela rapidamente se apagou, assim como ruídos no corredor toaram, mas estava longe demais para ver de quem eram. Então passos sonoros porém suaves soaram em meus ouvidos, a pessoa a qual andava por aqueles corredores pretendia manter sigilo e aquela pessoa com certeza não era Jacob. Seu cheiro não atingiu-me, seus passos não eram delicados como aquele.

Contive o fôlego, apenas para ter a constatação daquilo que já sabia, não era ele.

Os passos pararam por alguns instantes, assim como os meus próprios, apenas para depois voltarem a soarem um tanto quanto mais irritantes contra o chão de madeira.

Um par de olhos verdes e brilhantes encaravam-me timidamente no final do corredor e eu contive o fôlego assim que a mulher passou por mim. Deveria ter não mais de dezessete anos, a reconhecia, era uma das criadas.

Os olhos arderam, enchendo-se de lágrimas, pisquei para contê-las. A menina olhou-me com os olhos suplicantes, também brilhosos, as bochechas coradas e o rosto não encarava-me mais, olhava para o chão quando passou por mim com os cabelos loiros e encaracolados bagunçados, reluzindo com a luz das velas e caindo sobre o monte de tecidos que trazia em seus braços finos, brancos e desnudos, pois nada vestia, nada a tapava além de seus longos cabelos loiros e os tecidos baratos de sua vestimenta em frente ao corpo.

Um calor subiu pela coluna vertebral, os passos voltaram a soar pelo corredor atrás de mim.

Desta vez marchei, os passos ligeiros e pesados com a fúria nublando qualquer tipo de raciocínio quando adentrei pelo quarto de Jacob sem anunciar-me ou bater. Olhou-me surpreso de início e então a expressão fria e indiferente estava novamente posta em seu rosto.

— O que está acontecendo? — A voz saiu um tanto desalentada.

Não queria acreditar no que os meus olhos haviam visto, mas era tudo tão sólido para ser apenas um devaneio. Jacob vestia apenas as calças negras, o tronco desnudo apoiado contra as estruturas da cama, com ele envolto de muitos lençóis e cobertas desarrumadas.

Franziu o cenho quando disse:

— O que faz aqui?

— O que faço aqui? — Ri sem resquício algum de humor, levando uma das mãos a cabeça. Só queria que os pensamentos fizessem sentido de novo, só queria ter a convicção que tinha enquanto subia as escadas, mas estava falhando notoriamente. — O que está acontecendo Jacob?

— Nada que diga a respeito a você! — Respondeu com a voz em um tom duro.

— Estás certo, porque respeito é a última coisa que tens por mim.

— Poderias estar a fazer o mesmo agora, não aceitou porque não quis, porque tens princípios em demasiado, porque é honrosa demais para isso. — Disse com a voz desdenhosa.

Encarei-o franzindo o cenho e mordendo os lábios, mas ainda assim pareceu ser inevitável falar.

— Exatamente Jacob. Princípios e honra estas que pareces que você não tem.

Suas expressões tornaram-se mais duras, o maxilar e os musculos rígidos. Respirou fundo controlando-se antes de responder:

— Sou um homem, tenho minhas necessidades Nessie — Sorriu-me de lado, um sorriso escárnio. — E não seja louca de faltar-me com o respeito — Declarou em tom ácido.

— Pois que fique com suas necessidades, eu não quero mais saber.

Sai do quarto mal conseguindo ver um palmo a frente, mais túrbida do que havia estado quando entrei.

Apesar do banho quente e aromático que Cassey havia preparado horas antes, não conseguia dormir. Vestida com a camisola e o negligé cor marfim caminhava pela sala observando as obras de arte, as figuras pintadas nos quadros expensivos, fixando cada ponto na memória. Qualquer coisa para tirar da mente o autêntico problema, mas foi inútil. As ramificações daquilo foram além da sanidade e, entretanto, eram reais, reais e amargas demais para que qualquer bom senso pudesse ressaltar-se. Talvez fora isso que fizessem os pés moverem-se, silêncios sobre o chão e quando dei-me conta a garganta já ardia, a sede já guiava o caminho por si própria apenas sentindo o cheiro, a respiração já estava rápida, o coração já debatiasse mais arduo em antecipada excitação e os pensamentos tão profanos como poderiam estar.

Ela remexeu-se na cama inquieta assim que a porta rangeu quando eu entrei, parecia sentir minha presença. Puxou um dos lençóis de linho barato, tentando proteger-se do frio enquanto eu me aproximava, pairando a centímetros de distância de seu rosto. Seus olhos tremulavam-se, ameaçando abrirem-se quando um vento frio entrou pela janela, arrastando a fina cortina consigo.

Seus olhos abriram-se, sonolentos como deveriam ser. A princípio ela piscou, semicerrou os olhos encarando-me desfocadamente até notar que eu realmente estava diante dela. Encolheu-se na cama, sentando-se.

Senti as expressões de meu rosto mudar. As olheiras ficaram mais fundas, negras, as veias salientaram-se e as presas saíram como elas, mas a menina parecia assustada e atónita demais para fazer ou dizer qualquer coisa.

Ergui-me, aproximando-me e segurei em seus braços ouvindo os primeiros gemidos de sua garganta seca, isso fez-me sorrir. Debaixo de minhas mãos seu braço ia ficando roxo quando ela finalmente gritou.

— Não senhora, por favor, me desculpe — Ela soluçava.

Desta vez foi diferente da outra, ao invés de tampar-lhe a boca e fazer o que eu realmente havia vindo fazer deixei-a gritar. Por mim ela gritaria a noite inteira, aquele som só tornava tudo mais estimulante, liberava adrenalina, fazia o coração bater mais rápido.

Cravei os dentes em sua garganta, sentindo seu sangue esvair-se, fugir de si e descer-me pela garganta. Ela gritou mais alto, com mais vigor, tentando inutilmente soltar-se de meu aperto enquanto chorava.

Com seu sangue havia algo além do frenesi, algo além do que sempre era quando bebia sangue, algo que tornava aquilo mais interessante, algo que fazia-me apreciar seus gritos de horror, sua luta falha por sua vida e seus gritos soavam tão bem para mim que o aperto em seu braço tornou-se mais forte, até o ponto de ouvir-se o estalo de seu osso quebrando e seu grito mais agudo e vivo do que antes.

Gritou até que não conseguisse mais ouvir o incômodo palpitar de seu coração. Deixei-a no mesmo lugar, deitada em sua cama assim que não havia nada mais do que haurir. Seu corpo jazia frio e azulado na cama, em nada parecendo-se com a menina de minutos atrás, com as bochechas avermelhadas e os olhos brilhantes. Ainda assim não conseguia sentir compunção nenhuma por aquilo, fechando a porta do quarto e voltando o caminho até o segundo andar, até a cama que agora parecia não apresentar mais motivos para que fizessem-me ficar sem sono.

Notas finais
Quero reviews! Beijinhos :D