A chuva despencava do outro lado de sua janela quando seu alarme soou dezessete horas em ponto. Havia combinado de encontrá-la na Baía do Pássaros às cinco da tarde, mas jurou que contaria a verdade para o mundo antes de partir.

Elas iriam fugir, como qualquer outro casal desafortunado faria quando o amor enfrentava um obstáculo.

Márcia encarou a tela do celular e suspirou, deixando que o barulho do despertador enchesse seu quarto sombrio e solitário com aquela musica que um dia havia sido sua preferida. Depois de verificar sua mochila, ela bateu a porta e correu escadaria abaixo.

Não esperava encontrar sua mãe ainda chorando no sofá cinza e cheio de pelo animal do gatinho da família. A mulher mantinha a cabeça entre os joelhos e soluçava amargamente, cansada e abala.

Por um momento, Márcia foi tomada por uma sensação vazia que encheu seu peito. O barulho de seu coração ecoava dentro de seu corpo, preenchido por seu amor – ele que, ao contrário de sua mente e do restante, era o único que permanecia cheio e amável.

Vá com pressa.

Sua mãe disse, rouca.

Tenho medo de que algo pior aconteça... apenas vá!

Ela quis dizer alguma coisa aquela velha senhora que despedaçava a cada soluço, mas nada saía de sua garganta. Queria dizer que a amava e queria implorar por perdão, mas nada daquilo atravessaria a bile que entupia seu pescoço por dentro.

Dois passos.

Foi tudo o que conseguiu fazer para demonstrar toda a sua gratidão àquela mulher que a havia criado. Ela tocou-lhe o topo da cabeça e fez um carinho de leve, brincando com os fios que se emaranhavam nos seus dedos esguios.

Mais dois passos.

Agora ela corria pela rua vazia do bairro, sentindo a brisa do vento estapear sua cara. No fim das contas, teve de parar em uma esquina e encostar-se na parede para soluçar e respirar.

Era um caminho sem volta, ela sabia. Mas sabia também que, se voltasse por lá, ela jamais saberia seguir qualquer outro caminho.

O seu caminho, o verdadeiro, único, puro e lindo a esperava em outro lugar.

Márcia tentou traçar o perfil do seu amor enquanto observava o por do sol e esperava por ela. Era angustiante de se ver, aquela pessoa linda observando cada passeante à procura do par de olhos que amava.

Ela imaginou que seu amor estaria olhando para o relógio agora, contando os minutos assim como ela para que enfim se reencontrassem. Márcia respirou fundo, sentindo o cheiro do seu amor misturado com o cheiro do mar. Imaginou também o sorriso que lhe daria ao vê-la se aproximando.

Para elas, por elas.

Logo Márcia voltou a correr novamente, desta vez sem lágrimas. Ela gritava para si mesma, para o seu coração que agora batia ensurdecedor em seu peito, ansioso e apaixonado.

Estou indo, meu amor.

Sua mente ardia com a adrenalina que dopava seus sentidos cautelosos. O amor que sentia naquele momento era tão grande que quase a fazia flutuar – e era assim que ela se sentia naquele momento.

Assim que se aproximou da baía, Márcia não sentia suas pernas.

O amor, que agora mal cabia em seu peito, a fez flutuar até a ponta da ponte, o final, onde tinham combinado de se encontrarem. Ela olhou todos ao seu redor antes que seus olhos pousassem sobre um anjo que resplandecia aos seus olhos.

O amor que a fez flutuar até ali se transformou em algo grandioso e sufocante.

O sentimento de leveza que havia lhe dado asas agora pesava sobre o seu coração e sua carne, fazendo com que um tremor se espalhasse da ponta de seus dedos até seu estomago, que revirava e revirava em uma agonizante necessidade de provar um pouco daquela carne.

Ela se aproximou, andando a princípio.

A medida em que seu perfil ficava mais próximo, mais o coração de Márcia agonizava e mais sua carne doía.

Precisava de um toque dela, precisava sentir sua pele quente e macia encostar na sua e aqueles lábios nos seus. Queria um abraço, um beijo e a oportunidade de admirá-la ainda mais de perto.

Se pudesse, ainda, beijaria cada traço delicado que guardava em seus esboços e tocaria sua alma com amor e fome, luxúria e pureza.

Márcia tocou seu rosto, primeiramente. Depois, partiu para um beijo.

Não demorou muito para ouvir os múrmuros de ódio e desaprovação – e logo foi vencida. Seus lábios se desgrudaram com suavidade, e ela se afastou da mesma forma.

Não podemos...

Shiii... por favor, não diga nada.

E ambas ficaram caladas por um momento, encarando-se.

Márcia tinha lágrimas nos olhos e amor, enquanto o seu amor tinha tristeza e dor.

Vamos embora.

Ela dizia, abraçando-a e confortando seu corpo pequeno que tremia a cada soluço desesperado. Doía vê-la assim; era como se cada pedaço de Márcia ardesse em chamas quando o seu amor chorava de tristeza. Sentia vontade de machucar todos que contribuíam com aquilo – mesmo sua família, que a recebeu com tanto ódio e repulsa. Mesmo ela, que acabava machucando-a ao mostrar-se indiferente às opiniões que seu amor tanto respeitava.

Mesmo agora, quando a arrastava consigo em direção à rodoviária para fugirem do lugar onde já não eram mais bem-vindas por todos.

Meu amor...

E ela dizia que a amava e que faria tudo ficar bem, murmurava quando sua vontade era gritar.

O seu pequeno amor sorriu, demonstrando toda a sua confiança e paixão para ela. Márcia soube, naquele momento, que estavam fazendo a coisa certa.

O nosso amor jamais será bem-vindo enquanto o ódio dessas pessoas for maior que os seus corações – ela disse. O seu amor sorriu ainda mais e a abraçou mais apertado. Ela sentia o cansaço abatê-las – estavam cansadas de toda aquela censura e controle sobre seus corações.

Estava cansada de tê-los presos em sua garganta, impedindo-a de gritar e falar sobre o que sentia e por quem sentia.

A liberdade tinha o cheio do seu amor e de mar, como ela imaginou. Tinha sabor salgado e doce, era fria e reconfortante como aquele momento.

E, naquele mesmo momento, Márcia sentia-se mais feliz do que nunca, e triste também. Estava pronta para ir embora, triste por ter de partir, mas mais feliz do que nunca para viver longe daquilo, daquela corda presa em seu pescoço o tempo todo.

Aquele sentimento de finalmente era tão gostoso quanto um beijo roubado de seu amor, tão eufórico e excitante quanto um encontro às escondidas na praia durante a noite.

O seu amor pensava o mesmo, naquele momento. Havia um sorriso em seu rosto, e sua voz doce ria de prazer enquanto andavam de mãos dadas por entre a multidão.

Então aquilo era liberdade?

Márcia não conseguia parar de sorrir.

E depois? O que faremos quando chegarmos lá?

Seu amor agora tinha os olhos assustados. Ainda segurava sua mão com firmeza, embora sua voz demonstrasse o contrário.

Vamos nos amar todos os dias, sem ninguém para encher o saco.

Mas e se der errado? E se não conseguirmos?

Amor...

Ela disse que ficaria tudo bem, por que cuidariam uma da outra.

Seu amor balançou a cabeça em negativa, mas riu. Ela estava sempre a um passo a frente de Márcia, sempre pensando e avaliando cuidadosamente.

Sim, o seu amor era tão inteligente quanto ela – e Márcia não dava a mínima, por que a amava demais para se importar.

Por deus! E como a amava...

Ela abriu a boca para deixar aquilo claro novamente, mas então um barulho estranho a interrompeu.

Um, dois, três disparos depois e o seu amor estava jogada sob seus pés, sangrando e gemendo.

Márcia a encarou por um momento, sentindo algo se apagando dentro de si como uma vela usada e desgastada.

Muito vagarosamente, ela se agachou e tocou o rosto do seu amor. Ela observou atentamente quando suas pálpebras tremeram e, segundos mais tarde, fecharam-se de vez.

Márcia ficou ali, parada e segurando o rosto do meu amor enquanto o vazio de outrora era preenchido por uma chama escaldante, que veio queimando-a de baixo para cima.

Ela sentiu seu coração se comprimir dentro de seu peito e explodir no exato momento em que um grito ensurdecedor preencheu o ambiente.

Uma, duas, três vezes ela gritou.

Agarrou os próprios cabelos e os arrancou. Mordeu o próprio antebraço numa tentativa inútil de desviar a dor daquela chama para sua pele que, mesmo sangrando em seus dentes, não teve efeito algum.

Um, dois, três beijos depois e o seu amor sequer reagiu.

Ela gritou em seu ouvido, sacudiu seus ombros e até lhe deu um tapa, mas não ouve reação alguma. Já estava ensopada com o sangue dela e mesmo assim não desgrudou de seu corpo sem vida.

Naquele momento, ela sentiu medo.

O medo de tê-la perdido, o medo de nunca mais ouvir sua voz, de nunca mais sentir seu gosto e o seu cheiro. Sentiu medo por que jamais a veria de novo, jamais a teria deitada em sua cama e jamais a abraçaria, beijaria, jamais brigariam de novo ou iriam rir juntas. Jamais a teria de volta.

Aquele medo logo deu espaço a um ódio puro. Ódio porque ela havia ido embora, porque estava morta. Ódio porque era o seu amor, e agora ela estava sangrando em seus braços e morta.

Aquele ódio somou-se com o desejo de vingança mais puro que já sentiu.

Muito delicadamente, ela soltou o corpo de seu amor e vasculhou o ambiente ao seu redor.

A pracinha que atravessavam agora estava com as poucas pessoas que ousaram se aproximar do ocorrido, chorando ou apenas observando chocadas a dor de Márcia.

Um segundo mais tarde e seus olhos pousaram sobre o homem de joelhos à uns cinco metros de distância. Ela o reconheceu na hora – era o ex-policial aposentado e mais respeitado da cidade, seu próprio pai.

Ele chorava tanto quanto ela naquele momento, tremia e soluçava. Estava muito longe de Márcia, mas perto o suficiente para fazer o que sempre fez: destruir tudo o que amava.

Ele apontava a arma para ela agora. Bem na direção do seu peito.

Ela sempre soube quem seu pai era – um covarde, medroso e impotente. Era fraco, apesar de um ter sido o cara da policia mais feroz que já teve na cidade. Estava encrustado em seu sangue aquele talento para destruir a própria família.

Como se já não bastasse espancar a esposa, ele também descontava sua raiva na única filha que tinha. Nunca havia batido nela, mas, naquele momento, estava pronto para mata-la por amor.

Me perdoe... eu não posso aceitar.

Sua voz enjoada chegou até ela, deixando um rastro de embrulho e repulsa.

Não. Nunca, jamais e em hipótese alguma ela o perdoaria pelo que fez. Na verdade, ela prometeu que acabaria com ele.

Um, dois, três disparos depois e ela sequer tinha vida mais.

Bem no peito, no coração, foi onde ele as acertou.

Todas as suas ideias, seus sentimentos, seus pensamentos, virtudes e defeitos deixaram de existir naquele momento. O seu amor, a sua paixão, ousadia ou coragem foram embora por conta de um ato covarde.

Seu peito ardeu ao se aproximar dos corpos das duas mulheres na calçada. Doeu mais ainda ver que uma delas era sua filha.

Minha menininha...

Ele chorou ali mesmo, ajoelhado e rancoroso, arrependido, sozinho e condenado pelo crime.

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