Nada em mim sou eu
13 Capítulo 13 - Silêncio
Morrer sem adoecer ou ficar velho não é tão triste assim. Nem chega que nem uma bomba. É mais como um processo, uma degradação lenta e constante. Irreversível.
Num dia, você acorda um pouquinho menos brilhante. No outro, seu sorriso não é mais natural. Na semana seguinte, você fala com seus amigos, mas não os enxerga. No outro mês, o mundo inteiro tem a cor da tristeza.
Mas você não está desesperado nem com medo. O futuro é certo: você está caminhando para a morte. Então nem tem como se revoltar, nem tem como esperar outra coisa da vida. Você se contenta e isso é confortável, é familiar.
Não dá mais pra escrever. As palavras não querem representar esses seus sentimentos preguiçosos e sonolentos. Desenhar também não adianta: que inutilidade rabiscar no branco a sua visão da realidade. Ler livros? Pra que se todo meu conhecimento vai retornar ao pó?
De repente, não é nada pessoal, mas você não gosta de mais ninguém. Alegria é rara e, se vem, fica coberta dum véu cinza pelo qual nunca pedimos. Seus movimentos não passam de suspiros leves essenciais à sobrevivência.
Somos uma geração de mortos vivos. Fingimos estar aqui, mas não estamos de verdade. Estamos surdos e cegos para essa linda dança que era pra ser viver. Estamos morrendo de pedaço em pedaço, desaparecendo de sorriso em sorriso.
Não é tão triste quanto parece.
Só é meio solitário.
Meio frio.
Meio saudoso.
É a sensação que se tem quando percebemos que não temos mais sonhos.
É a sensação de descobrir que você não é nada demais.
Outro dia alguém me perguntou por que eu ando tão diferente. Tive vontade de responder que é só o tempo levando de mim tudo que sou eu. Mas não podemos, porque continuamos fantasiando. Fingimos que é uma fase e que as coisas passam e que tudo melhora um dia.
Talvez melhore, vamos ser idiotas, vamos ter esperança. Veja se funciona pra você.
Quanto a mim, já desisti de entrar nessa brincadeira. Já comecei a me privar da credulidade e a montar minha parede. Em breve não estarei aqui, em breve não vou ser capaz de fingir. Quem sabe eu pulo desse muro que ando construindo e tudo acaba.
Mas não é triste, não. É só solidão. Não tem revolta nem desespero. Gosto bastante do silêncio.
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