Nada em mim sou eu

12 Capítulo 12 - Você me transborda


São compridos. Os seus dedos, digo. São pálidos. E elegantes de um jeito desafiador. Não opressivo, não mentiroso, mas desafiador. De um jeito que me inquieta o estômago. Que deixa meus próprios dedos trêmulos tateando atrás dos seus.

São desajeitados. Os seus braços, digo. Parece que ela não sabe direito onde coloca-los. Parece que são mais compridos do que ela realmente está acostumada. Também são palidos, mas não eloquentes, não desafiadores. Ela é assim, da mão ao pulso muda tanto quanto da água para o fogo.

São cansados. Os seus ombros, digo. Ficam sempre desanimados como num gesto de desistência. Acho que é isso mesmo. Ela está cansada. Sempre está. E esse seu jeitinho curvado de quem já não aguenta mais é apenas sua forma de não fingir orgulhosamente. É sua forma de ser ela.

São inchados. Seus olhos, digo. Também cansados, mas com algo mais. Uma espécie de fogo frio, de agressividade. Porque sua beleza é assim, com algo de mórbido e muito furioso. Com algo de dissimulado e rude. Com algo de único.

E tem essa cor que lhe pinta as íris. Esse verde igual a preguiça desdenhosa de um felino. Cor que lhe atribui esse ar lhe cai tão bem.

Enquanto pinta, sua mão flui com suavidade pelo papel. É quase uma dança de dedos e pincel e cores e música. Mas então vem sua postura, que em nada acompanha a graciosidade dos movimentos. Os ombros desleixados, a coluna curvada, os olhos morbidamente concentrados. A concentração desafiadora de um predador.

Acho que ela se incomoda quando a encaro dessa forma. Porque ela sabe que sou esse tipo de pessoa: vou absorver cada aspecto seu e vou transcrever em um punhado de palavras arrumadas.

E essas palavras são eu transbordando.

Vou transbordar quando ela, que odeia contato físico quase que irredutivelmente, segurar minha mão e beijar meus dedos. Vou transbordar quando ela, que é toda impaciência e pânico, esperar ao meu lado enquanto almoço por tempo infinito.

Porque isso de uma pessoa te completar é muito deprimente. Porque ela não é minha metade.

Ela me transborda.

Com esse seu sorriso cínico e seu olhar dissimulado. Com seu corpo alongado e desajeitado, com suas mãos leves e habilidosas. Com sua aparência e jeito agressivos.

Porque ela é dessas pessoas que não precisam de muitas palavras pra viver no mundo. É dessas pessoas que precisa de todo o espaço do universo e mais um pouco, mas que talvez te deixe ser solitário com ela. Ela é dessas que não demonstra falta de confiança, mas também não gosta muito de si. E é tão lindo ela saber tanto, mas não ter noção alguma de quem é.

Ela é esse tipo de pessoa que tem um oceano inteiro dentro de si. Uma chama infernal no peito. Só que não tem ideia. É como se ela fosse algo que só eu pudesse enxergar.

Ela não me aquece;

Ela me ferve.

Ela não me completa;

Ela me transborda.