Nada a Perder
1 One-shot
Estava em Vegas, no meu apartamento, perto dos maiores cassinos de lá. Da minha janela eu tinha a visão panorâmica de quase todos os locais mais lindos da cidade. Mas aquilo não me interessava.
Fechei a cortina e olhei para a cama desarrumada e sem ninguém, apertei meu roupão com força, não porque eu havia perdido boa parte do meu dinheiro para aquela pessoa, mas porque eu não a teria novamente.
Tirei o roupão e caminhei até o closet, me olhei no espelho e vi as marcas que mostravam que a noite passada era real, coloquei um sutiã sobre o roxo que ela havia deixado da noite selvagem de ontem. Escolhi minhas melhores peças de roupa preta e as vesti. Escolhi meu melhor e mais lustroso sapato italiano e o calcei. Peguei meu relógio mais caro e meu chapéu italiano mais escuro, colocando-os sem tempo.
Caminhei então até o espelho e notei que estava exatamente como eu queria. Finalizei tudo pegando meu sobretudo jeans e colocando a chave do apartamento no bolso.
Sai do apartamento sem me importar com muita coisa. Levantei a gola do sobretudo e caminhei até a saída do prédio cumprimentando o porteiro simpático que era apaixonado por mim, mas sabia que nunca teria chances. Ele me cumprimentou de volta e disse: “Deixaram algo para você, Srta. Cane”, mas logo retruquei “Outra hora John.” Ele pareceu desconcertado, mas assentiu e se virou para voltar a sua costumeira rotina.
Por um mínimo momento imaginei que ele iria me entregar uma carta, talvez da minha louca paixão, mas sabia que não... Pois Peter não deixaria.
Vamos jogar nos cassinos.
Apostar alto.
Porque não temos nada a perder
Depois daquela aposta.
Entrei no meu cassino predileto, que usava como desculpa para aliviar o stress e no qual havia perdido milhares de fichas de alto valor desde que me apaixonara. E no qual eu também me apaixonei.
Sorri para a recepcionista que acenou para mim, sorriu levemente e pareceu querer esconder o leve suspiro que escapou de seus lábios, fazendo-me disfarçar uma risada para que ela não se sentisse constrangida e eu não parecesse uma visitante rude.
Perdi o coração
Na jogada arriscada de apostar...
Que você me amava de paixão...
Mas é impossível...
Sentei numa das mesas de roleta e pedi que me trouxessem todas as fichas que tinha guardado, jogaria infinitamente até falir ou o cassino fechar não me importando com aquilo, afinal não seriam, jamais, a pior aposta que havia feito.
Foi vendo a pequena bola branca rodar na roleta que me lembrei da pior aposta que fiz: Ky, você terá que pegar a mais difícil das garotas desse cassino. – Disse Penhor, como nós o chamávamos.
- O que eu ganho com isso? – Perguntei.
- Eu te darei o que quiser. – Ele retrucou. Eu pensei. Quem seria a tal dama?
- Quem é a sortuda? – Perguntei com o típico sorriso malicioso.
- Ela. – E então segui minha visão para onde Penhor indicava e quase senti a baba escorrer pelo canto da minha boca.
A mais bela dama que já havia encontrado jazia parada com uma taça de Martini na mão, sentada num dos sofás de camurça do cassino, ela sorria para mim, era um sorriso tão sombrio que me fez arrepiar. Seu vestido vermelho decotado e com cortes laterais realçavam as curvas perfeitas que possuía. Tinha também um rosto escultural, nenhum defeito no rosto bronzeado, os cabelos morenos escorriam ondulados até a cintura e seus olhos, da distância que estava, pareciam violeta.
Não notei outra coisa nela naquela noite, mas sabia que ela era a dama mais bela, perfeita e sombria que já havia encontrado ou que encontraria.
Na noite seguinte eu a encontrei, no mesmo lugar olhando para mim com seu intenso olhar que parecia procurar minha alma.
Sentei-me ao seu lado com meu copo de uísque e lhe perguntei num murmúrio: “Qual teu nome?”
- Fran. – Ela respondeu simplesmente e me olhou no fundo dos olhos. E foi ai que notei que seus lindos olhos eram de um azul mais escuro que o fundo do mar. – E o teu?
- Cane. – E foi assim que a conheci, com um sorriso no rosto de cada uma, acreditando que o animal selvagem que tinha dentro do meu peito finalmente poderia ser domado por aquela sombria mulher.
Que o amor.
Que vai me trazer a dor.
Se torne o amor
Que leva embora a dor.
Levantei-me da roleta, não havia ganhado um tostão. Caminhei até o palio, os cavalos corriam rapidamente. Encarei o meu próprio, o que eu havia comprado da raça mais selvagem que havia encontrado: Um Mustang. Corria o mais veloz que conseguia, ultrapassava todos os cavalos, ficava em primeiro até pouco antes do final, mas nunca terminava vitorioso. Olhando para ele percebi que muito se assemelhava a minha história.
Eu havia vencido a aposta. Ficado na liderança.
Numa das noites depois de muito bebermos e de muito conversarmos levei-a para casa, em um ato cortês e inocente. Mesmo minha visão estando meio turva conseguia pilotar minha moto perfeitamente, pois conhecia Las Vegas de cima a baixo.
Ela ria enquanto eu acelerava cada vez mais minha bela moto. Quando parei em frente a uma casa um pouco longe do centro da cidade, notei que ela era um pouco menor que maioria das casas ao redor, mas era bonita e possuía dois andares que provavelmente seriam tão cheios e grandes quanto uma das mansões da minha cidade natal: Carmel.
- Quer entrar? – Ela perguntou com sua voz normal e eu, com minha mente entorpecida pelo amor que tinha por ela e pela bebida que havia tomado, coloquei a moto para dentro e segui-a até a sala. Onde ela abaixou uma das alças do seu lindo vestido negro.
Senti meu coração explodir em expectativa e mal pude esperar por ela tirar o vestido. Aproximei-me dela, abraçando-a por trás. Beijei-lhe o pescoço e ouvi sua risada musical, beijei-lhe a nuca e o queixo. Então a virei para mim e possui seus lábios pintados vermelhos com volúpia e paixão. Senti suas mãos delicadas e unhas perfeitas arranhando minhas costas por cima da fina camisa preta.
Puxei-a pela cintura gemendo contra tua boca. Deixei que meu sobretudo caísse no chão e que ela, com passos calculados para trás, me direcionasse até teu quarto. Abri o zíper lateral e tirei a única alça que segurava o vestido no corpo enquanto subíamos as escadas entre beijos vorazes e gulosos.
Senti teu corpo se chocar contra o meu quando lhe puxei com força, a fim de sentir suas curvas contra as minhas. Suas mãos se fecharam com força nos cabelos curtos de minha nuca e eu me separei de seus lábios carnudos, sugando-os e prolongando o delicioso beijo.
Tentei abrir a porta enquanto lhe beijava o pescoço, mas minha visão embaçada pelo álcool não me permitia, e então eu grunhi e a prensei contra a porta de carvalho. Deixei minhas mãos deslizarem com ainda mais malícia pelo seu corpo e senti que as suas entravam pela minha camisa e tentaram abrir a minha blusa com força, mas eu as segurei e sorri maliciosamente me separando dela.
Abri a porta com velocidade e a empurrei para mais adentro do quarto, ela não pareceu gostar muito, já que não era o tipo que se deixava ser dominada, mas esperaria para ver se valeria à pena. Beijei-a uma última vez antes de jogá-la na cama e ficar próxima ela abrindo lentamente os botões da minha camisa. Ela mordeu o lábio inferior com ansiedade e tentou avançar em mim, a fim de abrir minha blusa rapidamente, mas eu a joguei de volta na cama e sorri maliciosamente.
Ela teria sua melhor noite, nem que eu tivesse de gastar todos os meus truques com ela de uma só vez. Deixei que a blusa aberta escorregasse pra o chão. Coloquei cada joelho um de cada lado dela e senti suas mãos brincando por minhas curvas enquanto eu sorria maliciosamente para seu corpo perfeito e seu olhar intenso. Deitei gentilmente sobre seu corpo e beijei-a com paixão e nada mais. Queria que ela percebesse o quanto eu a amava.
Suas mãos me puxaram com força e eu me desequilibrei sobre ela, que em um movimento rápido inverteu nossas posições sem cancelar o beijo apaixonado que se seguia. Ela separou nossas bocas e começou a beijar meu corpo enquanto desabotoava meu sutiã. Deixei-me a mercê dela naquele momento, deixaria que ela me usasse da forma que quisesse, porque eu e meu coração pertencíamos a ela.
Naquela noite eu amei-a como nunca amei nenhuma outra mulher eu me senti completa como nunca e deixei meu coração entregue nas mãos perfeitas e macias dela.
Vamos jogar nos cassinos.
Apostar alto.
Porque não temos nada a perder
Depois daquela aposta.
Dei todas as minhas fichas e apostei no meu Mustang, Hawk. Fiquei apenas com meu vale aposta na mão e olhei para a corrida, faltavam alguns minutos antes da corrida e eu poderia falar com Hawk e o cavaleiro. Caminhei até o estábulo me lembrando da minha “Derrota” depois de dominar por tanto tempo o primeiro lugar.
Estava na festa à fantasia, mas não estava muito diferente do meu cotidiano: Camisa de botões preta, calça social preta, um sapato italiano lustroso e um chapéu cor de ébano, a diferença era que usava uma máscara negra que se assemelhava a máscara do Zorro. Usava uma camisa preta por debaixo da blusa de botões que estava completamente aberta.
Estava caminhando a procura de minha amada Fran quando senti alguém puxando o meu braço, me virei rapidamente pronta para dar o pé na bunda não importava quem fosse.
- E ai? O que vai querer pela aposta? – Perguntou Penhor com um sorriso safado. Estava vestido como um burguês britânico do século XVII.
- Nada. Eu já te disse Peter. Eu não quero nada, pois independente da aposta Fran é minha. E eu sou dela. – Completei firmemente.
Peter me olhou com uma expressão que não entendi, mas deixei passar, pois não me importava com ele e apenas com minha domadora sombria. Voltei a procurar minha morena pelo baile.
Passei por várias mulheres que se atiraram em mim, mas não me importava com elas. Passei por várias mulheres que pareciam Fran, mas não me importei com elas, pois sabia que não eram Fran.
Quando avistei minha morena, vestida lindamente como uma odalisca meu coração pareceu prestes a sair pela boca. Tive a vontade imensa de seqüestrá-la e nunca mais aparecer com ela, e eu sabia que ela concordaria comigo. Mas ao mesmo tempo a vontade de sumir dali e fugir que começara a se criar desde que entrá-la naquela mansão se transformou em um monstro gigantesco e berrante dentro de mim.
Aproximei-me a passos lentos e calmos, mas estava a poucos metros quando ela foi chamada a falar com os presentes e Penhor a acompanhou. Estava no primeiro andar olhando para a massa de convidados quando Peter sorriu para ela e a puxou pela cintura começando:
- Boa noite a todos. – Ele disse com seu típico sorriso escroto. O que ele tava fazendo lá em cima, com a minha garota? – Quem não me conhece eu sou Peter, mas me chamam por Penhor por eu ter começado minha fortuna com uma casa de penhores. – E ele riu junto com todos os outros, exceto eu e minha amada. – Quem me conhece e conhece a Francielle, sabe somos apaixonados um pelo outro desde crianças. – Francielle? Quem? – Meus melhores amigos sabem o que vim fazer aqui...
Espantei-me. Ele iria contar a verdade sobre nossa aposta? Eu respirei fundo sentindo meus instintos me mandando para fora dali, mas eu não me mexia, meu corpo não me obedecia, eu estava disposta a ouvir aquele cafajeste.
- Francielle... Aceita se casar comigo? – Ele perguntou para Fran enquanto pegava uma pequena caixinha de veludo e abria, revelando um anel de noivado maravilhoso.
Senti o chão desabar sob meus pés. O que era aquilo? Alguma pegadinha? Olhei nos olhos um tanto quanto felizes de Fran, ou Francielle, não sabia qual era seu nome real. No momento que eu vi aquele olhar senti meus punhos se fecharem ao lado do meu corpo e dei as costas a eles. Usaram-me, brincarem comigo e com meu coração. Roubaram meu único pertence: Meu coração.
Estava frente à porta quando vi que dois seguranças não me deixariam passar. Minha expressão era de total fúria e nojo, abri a boca para mandá-los sair, mas um holofote se virou para mim e eu me virei para ele com meus olhos estreitos e meu chapéu abaixado.
- Kyle! Minha grande amiga e minha rival em apostas. – Peter começou na maior cara de pau. – Chega mais ai. – Ele mandou e estava prestes a contradizer quando senti os dois brutamontes se aproximarem a fim de me intimidar.
- Não tenho medo de gayzinhos que tomam esteróides não seus filhos da égua. – Eu disse me virando para os seguranças. – Vão encarar? – Perguntei com fúria transparente.
- Acalme-se Kyle, vejo que bebeu uns drinques a mais. – Disse Penhor.
- Apenas o suficiente para ver o que estava na cara, né Peter? – Eu disse ainda furiosa. – Então, vocês armaram isso antes ou depois deu catar tua irmã? – Perguntei com um sorriso sombrio enquanto me virava para ele.
Sua expressão ficou séria e até furiosa, mas ele não revidou ficou calado. Então, depois de escolher bastante as palavras disse:
- Eu não guardo rancor de você camarada. – Ele disse. – M as aquilo foi mais que pessoal.
- Apenas uma aposta meu amigo. – Ironizei. – Você sabe que pelo menos metade de tudo que faço é para cumprir apostas e a outra metade para cumprir promessas.
- É. Sei que sim. – Ele disse com um pouco de raiva transparente.
- Agora se me der licença, não quero mais ver a cara de vocês... Traidores. – Eu disse olhando para Francielle que me olhava sem entender.
Virei-me para sair, mas os brutamontes novamente me impediram.
- Espera um pouco Kyle... Primeiro espere a festa terminar. Você sabe que toda a festa fantasia, no final, as pessoas tem de tirar suas máscaras... Tire a sua.
Eu me virei para ele. Por quê? Todos que me importavam ali sabiam quem eu era. Dei de ombros e tirei meu chapéu, com paciência e um pouco de lentidão desamarrei minha máscara e deixei a mostra meu rosto pálido.
- Tirei-a, como você pediu. Agora se me der licença. – Me virei e novamente os brutamontes novamente não me deixarameu sair.
- Cane? – A voz dela foi como a brisa de verão batendo no meu rosto.
- O que queres? Já não basta o que fizeste comigo ao aceitar o pedido dele? – Perguntei virando apenas meu rosto para ela. – Não basta o que fez comigo por causa do rancor que esse cafajeste sente por mim?
- Do que está falando? – Ela me perguntou sem entender e eu ri melancolicamente.
- Esqueça. – Eu apenas disse.
- Sabe Kyle. Eu tive pensando... O que você quer pela nossa última aposta?
- Nada, eu já disse. – Eu respondi com um grunhido. – Aquela aposta não me importa, pois eu a perde junto com meu coração. – Eu sussurrei a última frase para mim mesma.
- Que aposta? – Perguntou Francielle.
- Não sabe amor? – Essas palavras me doeram na alma enquanto eu abaixava a cabeça e encarava meus sapatos negros. – Kyle fez uma aposta comigo em troca do que ela quisesse. Qualquer coisa. A aposta era que se ela conseguisse uma única noite com você teria o prêmio que quisesse de mim. – Peter disse na maior cara de pau.
- É verdade? – Perguntou a morena.
- Não importa. – Eu respondi simplesmente.
- IMPORTA SIM! É VERDADE? – Sua voz ecoava assim como a tristeza ecoava no meu coração.
- Eu apostei com Peter o de sempre: Eu pegaria alguém e ele me daria um prêmio. Apenas isso. – Eu respondi seca. Pude sentir meu coração sangrar diante da minha indiferença.
Senti, mesmo distante, a satisfação de Peter ao perceber que meu coração sangrava de tristeza e que minha consciência chorava de remorso.
- Agora eu posso sair, ou quer que eu diga mais alguma coisa?
- Era só isso que eu queria ouvir de você... Ou melhor, ver em você: A mesma humilhação que minha irmã sentiu. — Ele disse tranquilamente enquanto eu saia com um chapéu na mão e deixando para trás minha máscara por nenhum motivo real.
Quando montei minha moto, naquela noite, as lágrimas em meus olhos privavam-me de uma visão perfeita, mas não me importava, preferia bater em um caminhão e morrer do que sentir aquilo por toda minha vida.
Liguei a moto e parti sem rumo pela interestadual. Parti visando fugir dos meus sofrimentos e problemas, mas a cada caminho andado, cada pouco quilometro percorrido, meus sofrimentos aumentavam, pois estava longe de meu coração e não possuía outro para substituí-lo.
No cavalo errado.
O cavalo que levava...
Meu coração maltratado.
Pela malévola paixão.
Havia conversado com o dono do pálio e pegado o “prêmio” de segundo lugar, algo que o corredor não aceitava, pois era, para ele, um prêmio de consolação.
- CAVALO ESTÚPIDO! IDIOTA! – Berrava o cavaleiro com ignorância, assustando meu cavalo negro e belo.
- OLHE COMO FALA DELE SEU IGNORANTE! – Eu barrei entrando no estábulo. – Hawk sabe o que faz, e tem plena consciência que perdeu, não é garotão? – Perguntei e ele relinchou irritado e ao mesmo tempo feliz, o primeiro pela forma como o cavaleiro o tratava e o segundo por me ver novamente.
- Estamos falando de um cavalo. Ele não tem consciência, é apenas um animal estúpido que desiste de correr. – Disse o cavaleiro a mim.
- Hawk não é como uma moto de corrida, como você deve estar pensando. Ele não é um objeto que pode ser aprimorado trocando peças e sem treinamento, e nem é um objeto que você deve descontar sua raiva. Ele é um ser vivo que precisa aprender como qualquer ser humano, Hawk, como todo ser humano sente ódio. – Eu disse para o cavaleiro. – E eu não deixarei meu cavalo correr com um cavaleiro idiota como você.
Ouvi Hawk relinchar feliz enquanto eu expulsava o cavaleiro.
- O que quer dizer? Está me demitindo?
- O que mais pensa que estou fazendo? – Perguntei curiosa.
Vi a raiva em teus olhos e vi quando ele jogou o capacete no chão com fúria, junto com o chicote que estava sempre usando no meu cavalo que já tinha o pelo com defeitos por causa dele.
- Quero ver encontrar um cavaleiro melhor que eu.
- Será mais fácil que achar mendigo na rua. – Eu disse e me virei para o meu garanhão. – Então Hawk, acha que fiz certo? – Perguntei e ouvi-o relinchar para lá de feliz. – Se é o que acha é o que me importa. – E sorri acariciando seu focinho. – Agora preciso achar um cavaleiro para você. – E ri. Ele maneou a cabeça, como eu, me fazendo rir ainda mais.
Caminhei pelo estábulo e encontrei um jóquei. Ele era dócil com os animais e parecia perfeito para montar um.
- Ei, jóquei. – Eu chamei-o e percebi que na realidade era ela. O que me fez sorrir ainda mais. – Poderia me ajudar um instante?
- Algo com seu cavalo, senhorita? – Ela me perguntou com incrível gentileza. Indiquei que me acompanhasse e ela assim o fez.
- Bem... Já pensou em cavalgar com um Mustang? – Perguntei.
- A raça de selvagens? Claro. – Ela respondeu de imediato, completamente alegre. — Mas sei que será impossível – Ela terminou com tristeza profunda.
- Por que?
- Sou apenas uma jóquei, apenas cuido desses lindos eqüinos.
- Seu dia de sorte. –Eu disse. – Pois estou precisando de alguém para montar meu cavalo nessa corrida de agora.
- O-O que? Como assim?! – Ela perguntou espantada. Indiquei Hawk que pisava alegre no chão.
- Não precisara de chicote ou qualquer coisa do tipo, Hawk sabe o caminho e vai seguir com a maior força que conseguir. Só precisa deixar que ele corra, o máximo que fará é guiá-lo para direita ou esquerda caso um corredor venha dar uma de espertinho contra vocês.
- M-Mas...
- Shh. – Eu disse. – Você só precisa se lembrar de uma coisa: Ele odeia levar chicotadas, apenas isso.
- Não sei se posso vencer.
- Não estou pedindo para você vencer. Estou pedindo para deixar Hawk vencer. – ela me olhou intensamente e eu dei de ombros. – A roupa e tudo que vai precisar estão ali, contanto que monte nesse cavalo e deixe que ele corra esse pálio como um cavalo selvagem faria, eu não estou nem ai.
- Como um selvagem faria?
- Sem ninguém batendo nele, simplesmente livre. – Eu disse e sai do estábulo, tinha uma ideia do que faria.
Vamos jogar nos cassinos.
Apostar alto.
Porque não temos nada a perder
Depois daquela aposta.
Olhei meu vale que garantia minha aposta e apenas dei de ombros e caminhei até a recepcionista.
- Com licença. Poderia deixar esse vale ai com você? Caso o Mustang Negro Hawk, vença... Deposite o dinheiro na minha conta do banco. Se ele perder... Bem, não acho que isso vá acontecer.
A recepcionista olhou para mim como se dissesse “Convencida nada”. Sorri então para ela e peguei meu capacete que deixara com um dos manobristas. Coloquei meu capacete e subi na moto negra. Antes de sair olhei para o meu relógio de pulso. 15h47min. Estava em cima da hora.
- O que estou fazendo aqui? – Perguntei para mim mesma enquanto abaixava o chapéu. Via os stripper dançando para as garotas com toda sensualidade que os homens têm, ou seja, quase nenhuma. Cocei minha nuca e deixei passar, afinal não me incomodava com os homens, já que não os achava sexy.
Aproximei-me do ‘motivo’ da festa e a peguei pelas costas, pressionando-a contra o meu corpo.
- É bom saber que está se divertindo. – Eu disse num sussurro sensual ao pé do seu ouvido antes de virar ela para mim.
- R-R– Não deixei que ela terminasse tomando seus lábios com volúpia.
- Shh. – Eu disse. – Aproveite sua despedida de solteira. – Murmurei enquanto roubava-lhe outro beijo e a pressionava seu corpo novamente contra o meu. Como da última vez que encontramo-nos, eu estava de máscara e por isso muitas amigas deFran aplaudiram e assoviaram nosso “espetáculo”.
- Cane... Por favor. – Ela sussurrou sem força.
- É seu último dia como solteira... Aproveite. – Eu murmurei enquanto mordia o lóbulo da sua orelha, sentindo-a gemer.
- Por favor…
- Onde está aquela garota safada e sombria?
- Nunca existiu... Era apenas fachada.
- Hm... A fachada que você criou para me conquistar e fazer-me sofrer. – Eu disse pensando em voz alta. Dei de ombros. – Tanto faz. Eu gosto desse jeito. – E então sorri marota e a puxei para mais perto e beijando-a de novo. Fiquei assim por horas com ela, apenas nos ‘amasso’ até que senti que precisava de privacidade. Puxando-a com gentileza e respeito levei-a até lá fora.
- Cane... Por favor, me esqueça.
- Tsc. Você fala isso, mas não devolve meu coração. – Eu disse e a puxei de novo. – Se não vai devolvê-lo, ao menos me empreste o teu esta noite. – Eu disse num murmúrio embriagado. Ela não me respondeu, mas deixou que eu a levasse até minha moto e que eu a guiasse até minha casa onde não demorei muito a puxá-la para um novo beijo.
Nossos lábios constantemente se tocavam com saudade avassaladora. Levei-a ao meu apartamento e mal abri a porta ela tirou minha camisa com ferocidade e eu comecei a tirar seu vestido. Quando chegamos à porta do meu quarto estávamos ambas apenas de calcinha e sutiã.
- Então, qual seu verdadeiro nome? Fran ou Francielle? – Perguntei.
- O que importa isso agora? – Ela perguntou e eu senti seu corpo reclamar pela distancia.
Sorri e me continuei um pouco distante. Sua fúria, mesmo sendo pouca a nossa distância, me assustava, mas não deixei levar.
- Por que quer saber?
- Para ter certeza do nome que devo gemer quando você me proporcionar os prazeres que só você é capaz. – Eu murmurei de forma safada no seu ouvido e a ouvi rir.
- Fran... Francielle… Fran… — Ela sussurrava alternadamente. – Não vejo muita diferença. Mas meu nome é Francielle e meu apelido é Fran. Escolha.
- Hm. – Respondi apenas e voltei a beijá-la. Nossa noite, como disse logo no começo, foi selvagem. Novamente a noite com ela foi como se transasse pela primeira vez.
Nos cassinos não posso lamentar...
Por que agora,
Espero finalmente,
Sem o azar de te amar...
Poder vencer uma única vez.
Estava a alguns quilômetros da igreja em queFrancielle e Peter iriam casar e eu não me perdoaria se não impedisse aquele casamento, nem que ao menos para falar que a amava. Estava na metade do caminho quando uma chuva, vindo de não sei onde, caiu com tudo sobre mim.
Minha moto estava no seu auge de velocidade enquanto eu costurava o trânsito de Las Vegas e tentava manter controle sobre a moto.
Meu coração vinha forte no peito, forçando-me a respirar ofegante várias vezes. Entrei na última esquina que dava justo na rua da igreja. Freei sem me importar onde e tirei meu capacete com pressa, colocando-o sem me importar no guidon da moto. Virei-me para um adolescente qualquer de Vegas e pedi que cuidasse da minha moto e da cédula de 100 que eu jogara para ele.
Parei na porta e ouvi a voz do padre ecoando:
- ... Que fale agora ou se cale para sempre. – Como diria um dos meus amigos atores: é minha hora de entrar no palco. Abri as pesadas portas da igreja com força, sem me importar com se eles olhariam ou não para mim, sem me importar que quando entrasse na igreja molharia todo o piso molhado.
- Desculpa... Acho que perdi meu convite no correio. – Eu disse com um meio sorriso sinistro.
- O que tá fazendo aqui?
-Ei Peter, casa de Deus... Nada de agressividade, nem mesmo no tom de voz. – Eu disse com um sorriso de canto. – Bem... Eu tava pensando em esperar a festinha acabar para entrar, mas lá de fora está muito frio e molhado e quando eu ouvi o famoso “blá blá blá que fale agora ou se cale para sempre”... Bem... Eu decidi entrar e falar. – E sorri de canto novamente.
- O que quer falar? Não tem nada para falar com qualquer um de nós. – Disse Peter. Cocei os meus cabelos curtos e pensei...
- Real. – Disse. – Mas você sabe que eu falo mesmo sem precisar. – E então sorri caminhando até a noiva. – Só queria ver a tua cara quando eu acabasse com o seu casamento durante essa linda cerimônia. – Alarguei meu sorriso ainda mais.
- Nada que disser ira nos separar, Cane.
- Você é o único que tá reclamando da minha presença Peter. – Eu disse coçando o nariz meio sem jeito. Ouvi alguns dos presentes abafarem a risada. – Gente o respeito na casa de Deus... Seriedade. – Eu falei me virando para os convidados.
- É surda?! Nada que disser ira nos separar!
- Mesmo? Tem plena e total certeza disso? – Perguntei curiosa e o vi hesitar. – É... Percebi que não. Afinal você é inseguro e indeciso, coisa que não sou. Por isso que eu comia e deixava as sobras para você, pois você não é nem um milésimo do que um dia eu fui. – E então meu olhar para ele era de pura descrença.
- Cane... –Fran parecia ter recobrado a fala, mas mesmo assim meu nome saiu fraco, quase num sussurro.
- Desculpe minha insolência. – Eu disse com uma breve reverência cortês. – Venho aqui para falar algo para você e acabo me deixando levar pelo papo desse brutamonte. – Suspirei e mexi no piercing na minha sobrancelha, como fazia quando ficava inquieta. – No seu aniversário... Peter falou a verdade. Eu conversei com você... Aproximei-me com você e tudo até te conhecer melhor foi visando vencer a aposta.
- Por favor... – Senti seu tom magoado, mas coloquei meu indicador sobre teus lábios.
- Shh... Por favor... Deixe-me terminar. – Eu disse. – Como eu disse. No começo era uma aposta. Era. Depois de um tempo tudo mudou, antes mesmo daquela noite. Eu já estava amando você. – Seus olhos me olharam como se fosse a primeira vez. – Agora... Eu quero me desculpar por não ter contado antes a você e quero dizer… Caramba, sou péssima nisso. – Eu disse coçando minha nuca. – Estou perdidamente apaixonada por você. – Eu disse lentamente visando não acabar com o fôlego que custei conseguir rapidamente.
Ela se calou. Peter, assim como poucos convidados, olhava para nós duas completamente espantado. E vários, perto de setenta por cento, me olhavam com nojo.
- Por favor... Dê-me uma segunda chance para mostrar que eu posso ser uma pessoa merecedora do seu amor. Por favor... Deixe-me te mostrar que tudo isso... Tudo isso poderia ter sido diferente. – Eu pedi.
Seus intensos e escuros olhos azuis me fitaram avaliativamente, como se para saber se eu era digna ou não de uma segunda chance.
- Eu farei qualquer coisa para ter seu perdão e sua confiança de novo para mim. – Eu disse, ainda com o tom de quem implora.
Peter olhou para mim com descrença
- Ela não vai te aceitar Cane, pode desistir.
- Silêncio. – Eu pedi com um tom um tanto manso. – É uma escolha dela Peter... Não sua.
- Ela não tem escolha... Assinou um acordo comigo. – Peter disse e Fran se encolheu, percebi que era algo sério. Fran estava prestes a se virar e pedir que o padre continuasse quando eu disse:
- Você me deve algo Peter. – Eu disse. – Algo em troca da minha suposta vitória. – Peter olhou para mim de forma a quem quer entender. – Você disse qualquer coisa. Eu tenho testemunhas. – Completei antes que ele abrisse a boca para dizer qualquer besteira. – Eu quero que você pegue esse teu acordo e o desvalide, que deixe Francielle livre para escolher entre mim e você. – Eu disse de forma mortífera.
- Não farei isso.
- Você fez uma aposta comigo Peter. Eu tenho testemunhas. Muitas. E elas... Bem... Elas iriam testemunhar a meu favor e você... Vai perder sua preciosa fortuna por quebrar nosso acordo Peter Scolt. – Meu sorriso era quase demoníaco.
O padrinho dele, um advogado de LV e ‘amigo’ meu de cassino, assentiu quando Peter olhou para ele buscando ajuda.
- Está bem. – Disse Peter. – Certo, eu pedirei que desvalidem o contrato.
Sorri de canto.
- Pronto, Fran... A decisão é sua. – Ela respondeu, e eu não acreditei que meus ouvidos estivessem certos, que era mais uma pegadinha.
Mas agora...
Depois de sobrar apenas um vale de aposta
Percebi,
Que você nunca me trouxe azar.
O silêncio prevaleceu na igreja e minha expressão era a mais chocada de todas. Era de se esperar, não acha? Depois de me relembrar de boa parte da nossa história, depois de voar baixo naquela chuva fria e grossa que caia lá fora. Depois de costurar todo o trânsito de Vegas, depois de me declarar cara a cara com ela. E acima de tudo, depois de encarar Penhor como nenhum outro jogador teve coragem de fazer.
E depois de tudo isso, depois de deixar Fran escolher entre eu e Peter... Depois de tudo isso... A gratificação ao ouvir que ela queria a mim me deixou estática, mesmo que um pequeno pedacinho de mim gritasse, assim que eu entrei naquela igreja, que ela iria aceitar, todo o resto da minha consciência não acreditava de que isso fosse realmente acontecer.
Saindo finalmente do meu momento de “choque inicial” eu a abracei, abracei-a como se fosse o último dia de nossas vidas, como se fosse o apocalipse.
- Eu te amo. – Sussurrei no seu ouvido. Mesmo com todo o amor transbordando de meu coração eu não sentia vontade de beijá-la, bem, na realidade sentia, mas era algo controlável, pois meu sentimento por ela não era carnal. Sempre foi mais que isso. – Vamos? – Sussurrei. Ela suspirou contra meu pescoço.
- Para onde quiser me levar. – Sorri e sabia exatamente para onde levar minha princesa. O único lugar que havia prometido não voltar até encontrar meu verdadeiro amor: Carmel.
Na realidade...
Foi uma grande sorte te amar.
O único azar meu,
Foi ter o seu amor perdido no correio.
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