Nada Por Acaso.
1 Capítulo 1
E então, estou no primeiro dia da faculdade com meu all star e meu rabo de cavalo como sempre. Não me admira que algumas pessoas estejam comentando sobre mim, elas são tão previsíveis, nada que eu não esperasse. Ainda assim, não dou importância e sigo pra algum lugar em que eu posso continuar o livro que estou lendo, ROMEU E JULIETA.
O sinal toca... que ótimo, mas um motivo pra tornar meu dia ainda mais feliz. Nunca fui muito boa em ironias, mas acabo sorrindo do meu consciente sarcástico.
Capítulo 1.
Chamo-me Alice Katherine, me mudei pra Seattle à pouco tempo, minha mãe insistiu que eu fizesse faculdade de Direito mesmo tendo total noção que eu gosto mesmo de escrever, criar, editar e ler. No meu colegial eu era a edital do anuário da escola, e sempre fui muito reservada em relação a amizades, exceto minha única amiga Julie, nos conhecemos de infância e sempre estamos em contato. Vamos dividir o apartamento aqui em Seattle mas não vamos fazer a mesma faculdade, a Jullie sempre gostou de criar e montar, e decidiu-se por arquitetura. Somos amigas apesar de termos nossas completas diferenças, ela é muito elétrica ao contrário de mim que sempre fui mais tímida e reservada. A única vantagem de conhecer alguém por muito tempo, é que você pode simplesmente ser você mesmo com tal pessoa por perto, é assim que funcionava com Jullie, eu podia me sentir à vontade na presença dela por ela me conhecer melhor que eu mesma.
Enfim acabou meu primeiro dia de aula, conheci algumas pessoas, as quais me chamaram pra almoçar. Não me admiro que as meninas de Seattle sejam bastante falantes e que estranhem que eu fique apenas olhando e acenando com a cabeça, é normal que elas tenham entendido meu jeito após informar que eu vim de Portland, uma cidade não tão grande e menos desenvolvida. Minha mãe continua morando lá com seu marido James, nos damos bem apesar por ele saber que pra mim não haverá ninguém que ocupará o lugar do meu pai. James está casado com a minha mãe há cinco anos, ela aceitou seu pedido de casamento um ano após a morte do meu pai, o que me deixou inconformada por ela substitui-lo tão cedo por alguém que ainda era muito estranho pra mim. Me conformei com o tempo, apesar de que nunca vou mudar de opinião em relação à espaços no meu coração.
Já estou em casa preparando a janta quando Jullie chega toda animada falando sobre os garotos do curso de arquitetura, ela sempre foi muito mais descolada com rapazes do que eu, na verdade tenho 19 anos e só beijei dois garotos em toda minha vida, eu sei, é um pouco estranho mas não tive muitas oportunidades, ou talvez não dei muitas oportunidades pra conhecer gente nova. Jullie continua falando enquanto eu procuro taças e um vinho pra comemorarmos o primeiro dia no nosso apartamento e o primeiro dia nessa cidade maravilhosa que é Seattle, o apartamento ainda é novo pra mim e ainda está tudo entre caixas.
__ Kath, você tá me ouvindo ? __ Jullie me olha concentrada, enquanto eu ponho o vinho nas taças.
__ Ah... Estou. O que ele falou?__ Mostro interesse em saber sobre o novo garoto que está nas mãos da linda loira que é minha amiga.
__ Ele perguntou minha idade, e perguntou se eu estava morando sozinha... Falei sobre você e sobre o apartamento novo, nós conversamos e ele me falou sobre uma buate que tem aqui perto, rola uma festa todo final de semana e ele perguntou se nos queriamos ir... __ Ela me olha entusiasmada esperando minha resposta. Como eu posso dize-la que não ? Eu não conheço a cidade, nem mesmo o rapaz de quem ela está afim. Enfim eu abro a boca.
__ Jullie __ Limpo a garganta levemente e olho-a novamente__ Nós não conhecemos a cidade, e nem o rapaz de quem você está falando, talvez não seja uma boa idéia, aliás eu tenho muitos artigos pra ler, não sei se vai dá pra ir. __ Ela me olha, impassível e eu sei que ela não desistirá tão cedo.
__ Por favor Kath, vamos conhecer a cidade aos poucos, e as pessoas também. Fica tranquila, vamos nos divertir um pouco, você precisa sair, conhecer pessoas novas.__ Ela dá um gole generoso no vinho branco, e em seguida passa a língua nos lábios. __ Vamos, você vai se divertir.
__ Tudo bem, eu preciso sair mesmo, mas não vou prometer ficar com você até a madrugada, eu preciso estudar. __ Ela dá o seu sorriso de Jullie sempre consegue e eu fico feliz de te-la aqui comigo mais uma vez.
Ficamos empolgadas conversando sobre o dia em nossas diferentes faculdades e acabamos bebendo toda a garrafa de vinho, confesso que a Jullie bebeu um pouco mais, já que como sempre ela fala mais, tem como consequência ficar mais alterada. Abraçamos-nos antes dela decidir dormir e eu me decidi por ler algumas pastas que o professor de advocacia criminalista meu deu. Ele percebeu meu interesse por leitura e acabou por me elogiar, afinal ele elogiou perto demais, deve ser algum costume das pessoas quentes desta cidade. Horas lendo e eu poderia me perder nos artigos, mas sei que amanhã tenho mais um dia cheio e preciso dormir.
O dia está lindo, ou pelo o que me parece vai ser um dia agitado. Pela janela a aurora e suas lindas cores entre tons laranja e amarelo fazem brilhar pela janela, o despertador marca cinco horas e cinquenta e cinco minutos de um lindo dia que está por vir. Me levanto e vou ao banheiro, o meu quarto não é tão grande mas é confortável, os pais de Jullie à presentearam com esse apartamento e ficamos felizes com a novidade de não precisar pagar aluguel. Tomo um banho e hoje estou de bom humor, decido-me por minha calça jeans favorita, e uma blusa creme que ganhei de aniversário da minha mãe, é uma das cores favoritas dela. Coloco meu all star e me olho no espelho, Meu consciente me olha e reprova o meu cabelo que está um pouco comprido demais, e as cores castanhas estão perdendo a vida, amarro em um rabo de cavalo. Meus olhos castanhos estão brilhantes e decido realça-lo com uma máscara para cílios e deliniador, belisco as bochechas pra tornar minha pele pálida um pouco mais rosada, estou pronta pra faculdade, realmente preciso me cuidar um pouco mais, estou em Seattle e preciso ter uma reputação talvez, mais uma vez meu consciente me olha sorrindo e o retribuo sabendo que ele está sendo ironico.
Na cozinha me surpreendo por Jullie já está de pé, e ter preparado uma linda mesa de café da manhã, ela me olha surpreendido e no fundo eu já sei por qual motivo.
__Bom dia Alice, a noite foi boa pra você ... Sonhou com o príncipe encantado? Você está radiante. __ Ela me olha um pouco descrente da minha aparência e eu coro. Já deveria ter me acostumado com o jeito da Srta Jullie Daniells.
__ É, me dei conta que estamos em Seattle e eu preciso de uma boa aparência na faculdade. __ Coro mais uma vez quando me dou conta que dei ao entender que talvez esteja querendo impressionar algum garoto.
__ Não acredito__ Ela dá um pulinho e um gritinho de alegria. __Como ele é?__ Eu olho-a , porque será que eu já esperava ?
__ Jullie, não existe um alguém, foi apenas um modo de falar. Hoje é o meu segundo dia de aula, não deu tempo de conhecer muitas pessoas, e eu não deixaria você desinformada caso eu tivesse conhecido alguém. __ Falo enquanto me sento na cadeira e coloco a geleia na minha torrada e um copo de suco. Ela se senta à minha frente e sei que ela acredita em mim, mas está desapontada. Jullie sempre quis que eu namorasse com alguém bacana, mesmo sabendo que as coisas não funcionam como ela quer. Ao que me parece ela já tomou seu café, pois não toca na comida, ela levanta surpreendendo-me com um beijo rápido na bochecha.
__ Tenho que ir preciso chegar cedo hoje.__ Ela pega a bolsa com a elegância de sempre, e ajeita sua jaqueta de couro vermelha que tanto a ama. Ela está linda hoje, e eu sei que é por causa do tal menino ao qual ela está tentando conquistar. Ela solta o cabelo e sai pela porta enquanto eu continuo tomando meu café.
Chego na faculdade e as pessoas me olham, não com a mesma expressão ao qual me olharam ontem e sei que é porque estou um pouco mais arrumada, estou com meu ROMEU E JULIETA na mão e enfim chego a porta da minha sala. O dia passa de pressa e hoje, diferente de ontem eu tenho algumas pessoas com quem falo.
Cresci em Portaland, e aos meus 14 anos comecei a trabalhar em uma editora, na verdade eu não era editora, mas meu amigo John era. E ele gostava das minhas ideias pra algum jornal ou revista e sempre que me chamava, eu ficava com ele a tarde toda na loja. Tinha uma boa parte em trabalhar com ele, era uma inspiração pra mim. Sim, aqueles lindos olhos castanhos e sua inteligência divina me faziam perder a noção do tempo enquanto estávamos la, tínhamos uma boa relação e me sentia lisongeada por ter boas idéias na concepção dele e quando o fim da tarde chegava nós iamos pelo quarteirão, conversando e de cabeça baixa naquele caminho ermo até a minha casa. Nunca tive uma certa coragem pra falar sobre os meus sentimentos por John, ao que parecia ele só tinha-me como uma grande amiga, e por sempre termos uma diferença de idade relevante, nós sempre conseguiamos manter uma conversa inteligente. Hoje em dia ele é um dos homens mais ricos de Boston, se mudou e agora tem sua própria empresa, perdemos o contato e não ouso em perguntar notícias dele ou da família dele pra minha mãe, mesmo assim eu adoraria receber uma ligação qualquer dia desses. No começo, assim que comecei meu ensino médio, era raro nos falarmos por conta que eu sempre me dedicava a ler e tirar notas boas, então mesmo que nós vivêssemos na mesma cidade era comum ficar trocando cartas e emails com ele, ainda tenho todas as correspondências guardadas, a Jullie nunca às viram, mas ela sempre acreditou que houvesse amor entre mim e o John.
Aqui estou eu, cochilando no sofá após tentar apreciar um pouco mais sobre o amor de ROMEU E JULIETA, e fracassando ao me pegar pensando sobre o John e a época em que tínhamos todas as chances do mundo pra revelar nossos sentimentos, quer dizer, os meus sentimentos.
É normal sempre chegar antes da Jullie no apartamento, já que quando as aulas acabam eu não fico de conversa fiada em frente a faculdade, o pensamento me ocorre e em segundos ela entra pela porta e se depara comigo arrumando as coisas que estavam empacotadas. Ela chega mais perto e me abraça calorosamente com aquele sorriso perfeito e dentes brilhantes. A Julie é realmente uma mulher muito sexy, aos seus 19 anos ela é inspiração pra garotas mais novas e nunca me surpreendo quando ela consegue conquistar algum homem à altura dela. Ela nunca foi de relacionamentos sérios, uma vez ou outra acontece um fortuito em sua vida, e ela sempre sabe como lidar com cada situação, mas os relacionamentos da Jullie nunca foram à frente.
__ Oi Kath. __ Ela me olha de perto e sorri pra mim, põe da bolsa na mesa da sala de estar e vem andando em minha direção, e eu sei que ela vai me ajudar.
__Oi Julie.__ E antes que eu possa perguntá-la como foi seu dia, ela fala primeiro que eu.
__Kath, advinha de quem eu ouvi falar na faculdade hoje?__ Ela está animada, e me parece saber que eu vou gostar de saber de quem ela está falando.
__Não faço idéia, mas você poderia me dizer de quem você tem novidades.__ Lhe ofereço meu sorriso mais doce e ela me retribui enfim abrindo a boca.
__O John, você sabe que ele tem uma empresa em Boston, e ele está pensando em expandir pra outras cidades como Seattle, é uma empresa de empreendimentos e como aqui em Seattle existem muitos universitários advogados, arquitetos, contadores, ele decidiu-se então abrir outra empresa aqui, o que você acha? Faz tempo que não temos uma notícia dele e talvez essa seja a chance. __ Reparei que ela não disse “A sua chance”, mas sei que ela pensou e reprimiu tais palavras, sei que estou pálida e corando aos poucos, encontrar John depois de três longos anos pra mim. Será uma novidade, quem sabe até pra ele, já que ele não sabe que eu curso direito em Seattle, a cidade é grande e poderíamos viver anos sem se encontrar ou se esbarrar em uma dessas enormes ruas. Mas vou considerar que tudo é possível. Jullie me olha pasma, e ela sabe que eu não sei o que dizer e que é uma grande surpresa pra mim, grandes amigas enxergam seu interior e a Julie sabe que no fundo o único garoto de quem gostei em toda minha vida foi ele.
__Que boa notícia, é... __ Me perco entre palavras, e meu consciente me olha sob óculos e eu sei que preciso parar de agir assim. Pigarreio e enfim encontro três palavras que vão talvez satisfizer a minha amiga. __ Uma coincidência não? __ Ela me olha ironicamente com um sorriso no canto dos lábios e me dá uma piscadela e sei tudo o que ela está pensando.
__ Justamente minha linda, é o destino.__ Eu olho para baixo e não deixo de ver seu sorriso, ela caminha até seu quarto, me fazendo perder a oportunidade de mudar de assunto e perguntar sobre o garoto de quem ela estava falando ontem.
Então, depois desse tempo não acredito que existe a possibilidade de vê-lo de novo, é um pouco surreal essa notícia, será que ele se lembra de mim? Perguntas sem respostas estão enchendo minha cabeça e eu caio em si, estou exagerando, sempre fomos amigos e nos conhecemos tão bem. Não vai ser nada vê-lo de novo, assim eu espero. Sempre foi um prazer ficar perto dele e algumas vezes, cheguei a pensar que por conviver sempre ao lado dele estivesse confundindo sentimentos e que tudo não passava de um grande carinho e admiração, mas era passar um dia sem vê-lo e eu ficava desenganada e triste, ele me fazia bem e não sabia se era pela forma como me tratava ou por ter aquele maravilhoso sorriso que me fazia sonhar todas as noites. O John sempre foi à melhor concepção que tive sobre homens, ele tinha uma grande mentalidade sobre a vida pessoal e comercial, e sua personalidade era forte e eu espero que o dinheiro e a fama não tenham feito mudá-lo de opinião sobre determinadas coisas, ele sempre me apoiou em ser escritora ou editora, ele conhecia mais que ninguém o meu potencial e sabia que eu poderia ir longe se seguisse os meus sonhos. Mas nem tudo na vida é como queremos, assim como não queria fazer direito, não queria também ter me afastado dele, mesmo sabendo que foi preciso em partes. Mas com o tempo você ver que tudo se encaixa e que sempre é possível ver o lado bom das coisas. Por exemplo, estou vendo que fazer direito não é tão ruim, há trabalho sobre artigos ao qual eu devo os ler, e escrever sobre o assunto e posso fazer o que gosto em cima de algo que pensei não gostar, assim como John cresceu na vida, e essa separação tem seu lado bom, por algum motivo ele escolheu Seattle pra sua nova empresa e não sei como vai ser nosso reencontro, mas sei que estamos mais maduros e mais inteligentes agora. Não sei sobre sua vida pessoal e não sei se ele é casado ou se tem filhos, mas nunca li notícias sobre isso em sites de fofoca. De qualquer maneira, não posso criar expectativas em cima de algo que nunca existiu, estou na sala de estar a pensar sobre tudo que vem acontecendo na minha vida e decido-me ouvir uma música, enquanto o jantar está quase saindo, sei que Julie se juntará a mim daqui a poucos minutos, e ficar sozinha é sempre um privilégio por mais que eu goste da presença dela. “Don’t forget” preenche a sala em som baixo e me deixo levar pela linda letra, ela canta “Você esqueceu-se de nós”, quando deixo escapar uma lágrima e não sei ao certo se é pela letra, ou a emoção de vê-lo novamente. Julie entra na sala no momento em que a música acaba e Nelly Furtado começa a cantar “Try”, é uma das músicas preferidas do John e não sabia que havia ela no meu pen drive, talvez a Julie goste também e tenha colocado ela ali, de qualquer forma mais uma vez ele está aqui comigo.
__ Música? Faz tempo Alice. __ Ela sorri pra mim, e senta no sofá junto a mim, encosta sua cabeça e por um momento fecha os olhos e eu sigo suas ações e sentimos a letra da música. O silêncio é quebrado pela voz de Julie.
__ É relaxante, não acha?
__Sim, você tem razão.__ Nelly Furtado repete a palavra “tentar” várias vezes e eu lembro que tem um jantar a ser servido, surpreendo a Julie levantando-me e perguntando-a.
__Você está com fome?__ Estou colocando o jantar sobre a mesa e a convido com um sinal de cabeça, seguidamente ela levanta e senta ao meu lado servindo-se.
__Hum... Macarrão Xadrez__ Ela me parece está com muita fome. __Está uma delícia Kath, você sempre cozinhou muito bem. __Ela sorri pra mim e eu lhe devolvo o sorriso.
__ Obrigada. Cozinhar é sempre um prazer. __Principalmente quando você está inspirada com a volta de um garoto por quem você se se apaixonou aos quatorze anos.
Jantamos em silêncio, exceto quando ela mais uma vez falou sobre o garoto bonito da faculdade, seu nome é David, e tem 20 anos. Lembro-me que temos uma balada na sexta, a qual eu só irei comparecer pela Julie. Em Portland, eu não costumava ir a festas, mas sempre ia a algum bar no final do expediente ao lado do John, conversávamos e conseguíamos manter sempre um papo cabeça. Julie já está no quarto, e eu creio que ela esteja dormindo. Olho meu celular e são dez e meia, a hora passou muito rápido enquanto jantávamos e por acaso dou uma olhada na minha agenda telefônica, tenho o número dele. Não sei se ainda é o mesmo, ainda assim tenho o número dele. Eu não ousaria ligar, ao menos não agora. Sei que tenho que dormir, mas o sono não vem em mim então eu pego artigos e começo a ler.
Nunca fui igual a outras garotas da minha idade, até mesmo em Portland onde comparado a Seattle as coisas são próximas uma das outras, as garotas não mediam conseqüência em ficar com alguns homens, sempre fui diferente. Só beijei dois garotos e ainda sou virgem, meu primeiro beijo não foi algo inspirador, aconteceu no colegial e foi com um menino da outra turma, o segundo e ultimo garoto na verdade é um arrependimento na minha vida, nunca tive coragem de mostrar meus sentimentos pelo John, e queria saber se ele também pensava como eu, e foi o pior erro da minha vida tentar provocar ciúmes nele, com um cara que eu não conhecia bem. É algo que passou com facilidade e ao que eu percebi não foi algo chamado ciúme, e sim preocupação, decepção talvez. Retirei isso da minha vida alguns meses depois que a vergonha também me deixou, mas não é uma lembrança boa pra mim. Recuperamos nossa intimidade algumas semanas depois, quando consegui finalmente olhar pra ele e não ter que ficar envergonhada.
O sono está chegando aos poucos e eu sei que basta fechar os olhos pra sonhar com aquele sorriso perfeito. Acordo com o despertador, e não faço cara feia pra me levantar, alias, tenho meus artigos pra apresentar ao professor, o Sr Edward Carter, formado em advocacia criminal. Vejo que Julie saiu cedo e deixou a mesa do café da manhã pronta pra mim, aos poucos percebo temos um acordo tácito, ela prepara o café da manhã e eu a janta. Em poucos minutos estou a caminho da faculdade e em poucas horas estou apresentando o que achei sobre os artigos, o Sr Carter parece gostar, ele me olha com admiração. Seus cabelos grisalhos e olhos apertados estão com um sorriso camuflado e sei que meu projeto não causou sono nas pessoas. Ao términio da apresentação recebo os merecidos aplausos pelo meu esforço, continuo a olhar todos enquanto vejo a sala se dispersando de pessoa e sendo marcada pela falta dela, após todos irem estou de costas para o professor mas consigo sentir sua presença se aproximando cada vez mais.
__ Muito bem Alice, gostei muito da sua apresentação. Você captou detalhes importantes nos artigos e isso é sempre muito bem vindo nos cursos de direito. Você é uma boa leitora, e tem muitas boas ideias.__ Ele me olha cautelosamente, e permaneço calada sabendo que o que ele tem pra falar não acabou, enfim ele decide falar o que está pensando. __ Se não for inconveniente perguntar, você queria mesmo fazer direito? __ Sinto-me enrubescer, como ele pode entender? Será que foram apenas os artigos? Ao ínves de me fazer perguntas, decido perguntar pra ele.
__ Desculpe-me Sr Carter, mas gostaria de saber o motivo da pergunta. __ Eu o encaro, e surpreendo-me por minha coragem, continuo impassível escondendo qualquer traço de humor ou sentimento.
__ Vejo que você é excelente em falar sobre os artigos, o que me vem a pensar ser uma característica de pessoas que gostam de escrever e que na maioria das vezes foi editora no fundamental.__Ele esconde um sorriso, e está sendo ironico ao continuar.__ Posso está enganado Srta Katherine, mas gostaria que a Srta mesmo me comunicasse isso.__ Ele está me olhando, assim como eu impassível e então falo sobre o que penso dessa faculdade e sobre o meu sonho de verdade.
__O Sr não está enganado, meu sonho sempre foi ser editora por gostar muito de ler, eu me dedico em escrever relatórios sobre coisas interessantes como esses artigos, a faculdade é ótima, não posso mentir. Mas não é o que sempre sonhei pra mim, estou aqui pela minha mãe e pelos sonhos que sempre quis realizar e deixa-la muito feliz. Apesar que pode ter sido muito bom, e que tudo acontece por uma boa razão. __ Em fração de segundos, sei que ele esta comigo novamente.
__ Percebo que sim Srta Katherine, você tem um potencial muito grande e sei que vai longe até onde se permitir. __ Ele me dá uma piscadela, e está se virando pra ir embora. Agradeço por não existir um interrogatório e só quero sair daqui. Olho-o de novo e dou um sorriso simples que não chega a alcançar meus olhos. __ Até logo.
__ Até.
As aulas voltaram em algumas horas depois, e não me mantive por muito tempo na sala até chegar uma secretária, ela estava uniformizada e era uma loira platinada, muito bonita e casual. Estou tranquila, até que o professor chama minha atenção.
__ Srta Katherine? __Ele parece não conhecer-me e olha ao redor da sala procurando-me.
__Sim, sou eu. __ Faço um pequeno aceno com a mão e vejo a linda secretária me chamar discretamente. Me levanto e estou indo em sua direção.
__ Srta Katherine, recebemos uma ligação à sua procura, pode atender?__ Ela me olha, e automaticamente meu consciente acena pra mim, dizendo que sim.
__Sim, é claro. __ Ela se vira , e eu sei que devo segui-la ate o local onde estão me esperando, o que será que aconteceu? Nada passa pela minha cabeça a não ser a curiosidade sobre o motivo da ligação.
Chegamos ao nosso destino, e a moça não troca mais nenhuma palavra comigo, apenas me passa o telefone ao qual pego e hesito em falar, mesmo conseguindo dizer:
__Alô, Alice Katherine.
__ Srta Katherine, sou Jason Moore. Sou empresário e gostaria de conhece-la, trabalho na John Empresarial uma nova empresa que abrirá brevemente em Seattle, tenho procurado por alguém com o seu perfil e meu chefe gostaria de conversar com a Srta hoje a noite. __ Ele se cala, estou pálida. Nova empresa, JOHN Empresarial; Não pode ser, como sabem sobre mim? Um reencontro, será que ele já sabe que sou eu? Ou tudo será uma surpresa pra ele assim como está sendo pra mim. Estou calada e mais uma vez ouço a voz grossa de Jason. __ Então Srta Katherine, podemos ve-la ?
__ Sr Moore, como sabem sobre mim? Qual o motivo pelo qual querem me ver? Sou apenas uma estudante de direito em Seattle. __ Me calo, esperando pela sua explicação, estou tentando assimilar todas essas coisas, o resumo sobre mim que o Sr Carter fez, essa ligação, a empresa de John.
__ Explicarei quando ve-la, posso mandar busca-la as oito horas? __ Me buscar? Como assim ? Eles sabem meu endereço também? Pigarreio pra limpar a garganta e tenho a coragem de dizer que sim.
__ Sim. Estarei esperando, meu endereço é... __ Antes de terminar a frase sou interrompida por James.
__ Já sabemos Srta Katherine, não se preocupe com isso. Até logo. __Ele desliga e eu fico em vão tentando entender toda essa situação.
Olho no relógio da faculdade, e são exatamente quatro e meia, e não quero mais ficar aqui. Pego minhas coisas e sigo a caminho do apartamento que não é tão longe daqui, estou a pensar como tudo vai ser. Dá pra imaginar, depois de três anos morando longe sabendo que perdemos o contato um pouco antes disso, e você ver um homem mudado, independente, um homem de quem você sempre gostou e sempre foi sua paixão.
São sete e meia, a Julie perguntou e eu disse apenas que seria uma entrevista. Se eu falar sobre John, a entrevista começara daqui. Ela terá uma surpresa quando vierem me pegar, mas já estarei indo embora e só precisarei explicar quando chegar.
Às oito horas em ponto, está na minha porta um Audi R8 preto, não consigo conter a admiração. Julie me olha boquiaberta e eu decido ir depressa em direção ao motorista que esta segurando a porta do carona pra mim, aceno pra Julie e ela continua sem entender a situação. Uma vez no carro, coloco o sinto e o motorista ganhou rumo na cidade de Seattle. Não sei pra onde estou indo, mas logo vejo que estamos em frente ao Hotel Fairmont Olympic, o hotel mais luxuoso de Seattle, não acredito que estou aqui. Não parei de corar desde que sair do apartamento. Estou usando um vestido vermelho, ele é justo e cai bem nas minhas curvas. O meu cabelo colaborou e está solto caindo sobre meus ombros, meus seios até minha cintura. O motorista abre a porta e eu olho-o, ele é muito formal e profissional. Sou conduzida pra dentro do hotel, onde um homem me espera. Suponho que seja Jason, e confirmo ao reconhecer sua vez quando se dirige a mim.
__ Boa noite Srta Katherine, estava a sua espera. Temos um assunto a conversar, me acompanhe, por favor, __ Ele me olha impassível, profissionalmente, ele está usando um terno cinza e uma blusa de linho branca.
Sigo-o e entramos no elevador, vejo que estamos a caminho do último andar, a cobertura. Enfim chegamos ao hall, e apenas sigo os seus passos sem trocar uma palavra sequer com ele. Entramos na suíte e é enorme, estou nervosa, nervosa demais. Nem um sinal de John, até ele aparecer na minha frente e ficarmos cara a cara mais uma vez, depois de tanto tempo.
Estou boquiaberta, ele está lindo. Mas do que era antes, ele me olha como se quisesse lembrar-se de mim, e há um silêncio absurdo na sala, Jason apenas nos olha sem entender, posso ver que ele se lembra de mim, só não está me reconhecendo. Posso afirmar que mudei, meu cabelo cresceu e meu corpo evoluiu desde que nos vimos da última vez, estou mais desenvolvida e não o culpo por não me reconhecer. Ele me olha como nunca e o silêncio enfim é quebrado, Jason usa as palavras que eu temia e tudo se encaixa no perfeito lugar. Estou pálida
__ Sr Taylor, está é a Srta Alice Katherine, a qual recebeu informações. __ O sangue foge do rosto de John, e agora sim, sei que ele se lembra de mim. Olhamos-nos sem parar, ele está tão lindo, usando apenas uma blusa branca e uma calça cinza. Os cabelos lisos e os olhos castanhos brilhantes que me lembro tão bem. Enfim ele diz:
__ Jason, poderia nos deixar sozinhos? Preciso conhecê-la melhor e queria ficar mais a vontade, se precisar lhe chamarei.__ Jason apenas obedece e se retira. Estamos pertos, e aquela mesma ligação de antes, está aqui presente entre nós.__ Alice?__ Ele me olha cautelosamente. E meu consciente espelha-se em dizer apenas o seu nome.
__John, __ Estou corada.
__ Alice?__ Ele repete meu nome mais uma vez, como se estivesse testando-o, saboreando depois de longos anos. __ Recebi a informação que você era melhor aluna de direito de Seattle, procurei por uma editora a vida toda pra trabalhar comigo, e nunca achei alguém como você. Sei que você tem um potencial enorme. E eu não esperava que fosse alguém tão capaz, mas você?__ Ele se perde em pensamentos, mas em nenhum momento deixando meus olhos, estou pura sensação. Na frente do homem que sempre fui apaixonada, diante dele, aqui e agora. Significa tanto pra mim.__ Depois de tanto tempo...
__ É bom vê-lo novamente John, depois de tanto tempo estamos aqui novamente falando sobre editoriais, me surpreendi quando soube sobre sua nova empresa aqui em Seattle.__Estou falando o mais baixo possível, ainda assim tentando ser impassível sem mostrar quaisquer traços de sentimentos.__ Ver você...
__É tão importante.__ Ele completa a frase inacabada. Eu coro mais uma vez e ele está vindo dolorosamente devagar em minha direção, avaliando minha reação a cada passo, não tenho idéia do que ele irá fazer, mas não recuo. Ele está perto demais, e em um milésimo de segundo ele me abraça.__ Ah Alice, tanto tempo e você está aqui, me desculpe ter me afastado. Coisas naquela época talvez me formassem pensamentos que... __Ele não acaba a frase, e estamos em um abraço demorado, compensado pelo tempo e depositando toda a saudade acumulada. Eu senti falta disso, em toda nossa vida, foram poucos os abraços que dei em John, mas todos foram verdadeiros, mesmo não sendo tão especial quanto está sendo agora. Ele me solta e nos olhamos.
__John, estou feliz que estamos aqui, perto novamente. Sinto sua falta, falta de todo aquele tempo em que um dia era infinito se não nos víssemos.
__ Vamos deixar pra tratar do assunto profissional outro dia, sei que precisamos conversar, aceita um vinho?__ Ele me puxa pra um enorme sofá na sala e acena para que eu me sente.
__ Por favor. __ Apenas observo seus movimentos lentos e sensuais.
__Aqui.__ Ele me entrega uma taça com vinho branco, tomo um gole e o vinho gelado desce fácil na minha garganta seca, depois desse reencontro inesperado
__Hum, muito bom __ Digo saboreando o vinho, ele senta ao meu lado e me olha com cautela.
__ Então, você agora está cursando direito? Alice, seu sonho sempre foi escrever... __Ele fala referindo-se a minha paixão, e ao conhecimento que ele tem sobre todos os meus sonhos, exceto o sonho que é ter ele pra mim.
__Sim, minha mãe insistiu e eu não pude dizer que não, John. Aliais o curso não é ruim, inclui muita leitura e relatórios, posso fazer o que gosto. __ Ele não esconde a admiração no olhar pelas minhas palavras.
__Alice, você nunca deixou de me surpreender e sei que você vai se sair bem seja qual for o curso que fizer. Eu confio no seu potencial mais que todos e você sabe disso.__Ele esta sendo sincero, ao olhar nos meus olhos e ruborizo ao ouvir a frase que ele falou. __Temos tanto a conversar.
__É verdade, você casou? Tem filhos?__Não perco a oportunidade de me sentir aliviada dependendo de sua resposta.
__ Não, Eu continuo solteiro desde o tempo em que paramos de nos ver. __ Sei que ele quer falar mais alguma coisa, mesmo assim ele reprime suas palavras e acaba por ficar me avaliando.__ Você jantou?
__ Não.__ Ele se levanta e vai junto ao telefone, fala algumas palavras e ao que me parece, está pedindo um jantar.
Jantamos juntos e conversamos, algumas vezes por palavras e outras apenas por olhares. Nunca havia rolado esse clima entre nós, sera que depois desse tempo ele sente o mesmo que eu? Não quero me encher de perguntas. Estamos novamente na sala e já são dez e meia, falamos sobre minha faculdade e todos os seus planos para essa nova empresa em Seattle, como já existem muitos universitários se formando em suas áreas escolhidas, a empresa precisará de profissionais e aqui é um ótimo lugar para instalar sua empresa.
__Está tarde John, preciso ir pra casa. Amanhã é sexta e tenho um dia cheio, __Lembro-me que tem uma boate pra ir com Julie e seu paquera David amanhã, ah não.
__Sim, claro. Como quiser, podemos nos ver amanhã pra tratar de uma proposta que tenho a lhe oferecer? __ Ele me olha com cautela, estamos de pé a frente um do outro.__ Ficarei o final de semana todo aqui em Seattle, e provavelmente na terça estou voltando á Boston, tratar de negocios. Gostaria de reve-la mais vezes, temos alguns anos para compensar não acha? __ Ele me dá um sorriso e eu ruborizo, compensar como?
__ Hum, amanhã eu tenho um compromisso com a Julie, ficamos de ir com os amigos da faculdade dela à uma boate perto da apartamento.__ Eu sei como a Julie reagiria se eu de repente dissesse que não iria mais. __ Você não quer ir? Sei que você é um empresário rico e sério agora, mas continua novo e sei que deve fazer um bom tempo que você não vai a lugar nenhum, então?__ Ele está sério, apenas avaliando-me quando enfim fala.
__Sim, pego vocês as oito então? __ Ele está com um sorriso no canto dos lábios, e eu estou com um sorriso bobo no rosto.
__ Está ótimo, a Julie também ficará feliz em revê-lo. Então, até breve Sr Taylor.__ Lhe dou um sorriso, e ele me retribui divertido.
__Ainda sou o mesmo.__Ele sorri.__ Até Alice.__ Ele, assim como no começo da noite está vindo novamente em minha direção, e tenho quase certeza que ele me abraçará, ele o faz. __Boa noite, foi muito bom ver você novamente, até amanhã.
__ Digo o mesmo, estou feliz por esse reencontro e eu espero nunca mais ter que me afastar de você. __ Surpreendo-me por minha coragem e sei que sou impulsionada pelo vinho que ingerir essa noite.
__ Prometo nunca mais me afastar. __ Seus olhos estão cheios de promessas e de sinceridade. __O motorista irá lhe acompanhar.
__ Obrigada. __ Me viro sem olhar pra trás e saio pela porta, não vejo mais Jason e ante de entrar no elevador, dou uma olhada de soslaio e ele está na porta a me observar.
Na recepção o motorista que me trouxe está me esperando, vou ao seu encontro e ele abre a porta do passageiro do lindo R8 na minha frente, eu entro e em poucos minutos o carro ganha velocidade a caminho do meu apartamento.
Um encontro perfeito, o John não mudou nada exceto pela elegância que ele tem agora, está mais velho e mais bonito, mas continua calado em determinadas situações. Ele sempre foi como eu, um pouco mais descontraído mesmo assim reservado. Estou todo o trajeto com um sorriso bobo no rosto, o sorriso de quem encontrou o que procurava a vida toda. Esse encontro foi diferente do que eu pensava, eu vi sentimentos nele que procurei durante minha adolescência e nunca havia achado, ele pareceu muito feliz em me ver, mesmo não sabendo que seria eu a melhor aluna de direito de Seattle, o que para falar a verdade nem eu mesma sabia, a única coisa que sei é que tais informações sobre mim quem deve tê-lo informado é o Sr Edward Carter.
Chegamos ao meu apartamento, e em meio tempo que o motorista vem abrir a porta pra mim, torço pra que Julie já esteja dormindo, o que eu acho bastante difícil. Ele abre a minha porta e quando eu saio, ele me olha, é moreno, alto e tem um lindo físico, está com um terno preto e é realmente um motorista muito competente.
__ Boa noite Srta Katherine.__ Ouço sua voz pela primeira vez e é um som grave. Consigo lhe dá um sorriso.
O carro já não está mais ali e estou pegando as chaves e logo em seguida abrindo o apartamento, quando entro em fim pela porta, tudo está escuro. São onze e meia e como eu não imaginei a Julie deve está em seu quarto dormindo, não ouso em acender a lâmpada e vou direto para o quarto.
Finalmente reencontrei-o, nunca consegui observar detalhes em uma outra pessoa só por lembrar daquele sorriso perfeito, tudo o que eu sentia por ele há anos atrás nunca foram embora, mas haviam acalmado no meu coração, agora tudo o que eu sentia voltou com mais força, vê ele aqui, tão perto de mim e tão longe ao mesmo tempo. Não tenho certeza se temos a sincronia do mesmo pensamento mas estou tão bem comigo mesma, eu sei que tenho muito o que aprender sobre homens, sobre amor e sobre a vida, mas se por ele ou melhor, se for com ele eu faço qualquer esforço que seja preciso mesmo ele ainda não sabendo de nenhum dos meus sentimentos por ele, quer dizer, acho que nunca dei ao entender nada. Eu só quero que tudo aconteça de acordo com o tempo e sei que ele não está aqui por acaso, e se for pra ser, será, e será perfeito pra mim se for com ele.
Fale com o autor