Nada Clichê
2 Entrega nada normal
Notas iniciais
Cebola digitava furiosamente em seu notebook. Só mesmo o louco do Licurgo para pedir um trabalho sobre o efeito dos aparelhos digitais na colonização do Brasil. O garoto não tinha ideia de porque estava fazendo um trabalho maluco desses.
Na verdade, ele estava irritado com Licurgo, e queria um trabalho tão louco quanto o tema. Deixar para entregar de última hora era ainda melhor para aumentar a raiva que o rapaz vinha sentindo. E apesar de saber que toda aquela fúria não vinha apenas de Licurgo, ele não sentia culpa.
Com agilidade, salvou o arquivo e passou para o pendrive. Cascão tinha aceitado fazer dupla com ele, então era seu compromisso imprimir o trabalho. Cebola olhou o horário. Faltava dez minutos para aula começar e nada de seu amigo.
Cebola guardou rapidamente o notebook, e correu para a sala. Quem sabe o amigo não estivesse lá? Se bem que ele estava falando de Cascão, que parecia ser “alérgico” à escola, tanto quanto costumava ser “alérgico” à água.
Sua surpresa não poderia ser maior quando não só encontrou Cascão na sala, como Mônica escrevendo seu trabalho a mão. Licurgo não havia especificado como deveria ser o trabalho, mas é claro que era muito mais fácil apenas imprimir. Foi então que Cebola se lembrou. Mônica estava fazendo dupla com DC, então aquilo só podia ser ideia dele.
Cebola decidiu ignorar sua curiosidade, e foi direto até Cascão, que lia uma HQ do Capitão Pitoco.
— Cascão, esqueceu que você precisa imprimir o trabalho? – reclamou Cebola.
O outro abaixou a HQ.
— Ah, Careca. Não pode deixar isso para amanhã? Tô ocupado agora. – respondeu.
Cebola tirou a revistinha das mãos de Cascão.
— Ei! – Cascão levantou da cadeira para tentar tirar a HQ de Cebola. – Devolve.
— Eu vou devolver a revistinha quando você trouxer o trabalho impresso. – Ele empurrou o pendrive para Cascão. – É para hoje. Corre.
Cascão pegou o pendrive e revirou os olhos, enquanto saia da sala. Cebola folheou o Capitão Pitoco número 245, e depois deixou o exemplar na mesa atrás do lugar de Mônica. Ele nem sabia porque queria ficar próximo de Mônica, já que provavelmente a garota e DC ficariam sendo pegajosos perto dele.
“Talvez eu goste de sofrer”, pensou Cebola ao sentar-se no lugar onde tinha deixado a HQ. Olhando Mô de costas parecia que ela era uma garota indefesa, que precisaria de ajuda o tempo todo. Podiam se enganar ao vê-la deste modo, já que era a Mônica.
Cebola suspirou. Não era tão idiota assim a condição que ele impôs. Obviamente não foi justo com Mô, e ele estava pagando por isso agora, porém, como ele poderia sentir que estava tudo bem, quando não tinha como dar a sensação de segurança para ela? Como ele poderia defendê-la? Ele não era forte como ela, nem tinha um coração tão bom quanto a mesma, e no entanto, queria ter certeza de que podia cuidar da garota que gostava.
Se bem que, agora, ele não tinha como fazer isso.
Cansado de pensar em como Mônica e ele não deram certo, e como a maior parte da culpa era dele, o garoto cutucou as costas de Mô.
Ela deu um grito e virou o corpo com o punho erguido. Ao ver que era Cebola, ela abaixou o punho e respirou fundo.
— Oi, Cê. É só você. – Cebola tentou não ficar ofendido com “é só você”. Não adiantou.
— Quem você pensou que fosse? A Xuxa? – retrucou.
Normalmente, Mônica reviraria os olhos, ou continuaria a conversar, mas a garota apenas voltou ao que estava fazendo antes. Cebola não desistiu.
— O que você está fazendo? – perguntou, apesar de ser meio óbvio.
— Eu me esqueci do trabalho de hoje – respondeu ela, copiando furiosamente em uma folha de caderno. – Esses trabalhos do Licurgo são coisa de louco. Eu não vou tirar nota boa, tenho quase certeza, mas antes ter alguma nota do que não ter nenhuma.
— Quem é a sua dupla? – questionou Cebola, apesar de, novamente, ser bem óbvio. – Por que não tem ninguém te ajudando?
A postura de Mônica pareceu ter mudado um pouco, como se, subitamente ela estivesse com raiva.
— É o DC. E eu não preciso de ajuda. Eu dou conta do trabalho sozinha. – respondeu ela.
Cebola sentiu um pouco de esperança. Problemas no paraíso? Será que o namoro de Mônica com Do Contra já deu o que tinha que dar? Teria ele chance de consertar o que tinha feito com Mô?
— Ele foi viajar com a família. – Ela falou mais baixou.
A esperança de Cebola foi quase toda embora.
— Ele foi viajar no meio de ano letivo? – perguntou o rapaz. – Bem, o Do Contra tinha de puxar essa maneira de contrariar de alguém.
Mônica nem respondeu. De repente, Cebola não sentia mais raiva da garota por ter escolhido o Do Contra, e nem vontade de rir dela por ter feito dupla com o outro. Ele queria dizer para ela que tudo estava bem, queria ajudá-la.
— Mô, se você quiser, eu – Antes que Cebola pudesse terminar, quase a turma toda entrou apressada na sala, seguidos de Licurgo. Mônica finalmente soltou o lápis e suspirou aliviada.
Cebola voltou a sentar normal na sua cadeira. Começou a se perguntar se o problema dele era que ele pensava demais.
— Pupilos, eu quero o trabalho de vocês sobre Como as girafas conseguiram fazer com que os humanos se tornassem capazes de digievoluir? É para agora. – pediu ele.
— O quê? – A classe gritou, em uníssono.
— Você pediu para nós fazermos um outro trabalho. – reclamou Marina.
Licurgo olhou a sala e, depois de alguns segundos, deu de ombros.
— Tudo bem, pode ser esse mesmo. – E sentou-se na sua cadeira.
Cebola olhou ao redor procurando Cascão. Com toda a história de Mônica, ele esqueceu de reparar se o amigo tinha voltado. De repente, seu olhar cruzou com o de Cascuda, que parecia estar procurando pela mesma pessoa.
Cascão não estava na sala.
A raiva de Cebola voltou. Ele mesmo tinha que ter impresso o trabalho. Aquele
— Chegamos, professor. – disse Cascão, entregando o trabalho a Licurgo.
— Desculpe o atraso. – falou Magali, entrando na sala logo depois.
Cebola soube naquele instante que aqueles dois não iriam se safar da ira de Cascuda.
— Ihh, babado fortíssimo. – comentou Denise.
Cebola desejava sorte ao amigo, porque até mesmo para Cebola aquilo parecia muito suspeito.
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