Na terra da rainha
1 Capítulo 1
Da última vez em que estive em um avião eu tinha 13 anos e estava indo para Bahia, eu achei a viagem bem longa mas agora tendo passado quase 12 horas dentro de um avião rumo a Londres eu admito que uma viagem a Bahia não era nada, a mulher ao meu lado me olha preocupada, horas antes ela havia me confortado enquanto eu chorava copiosamente tentando não fazer barulho.
— Está se sentindo melhor? – Perguntou ela.
— Estou sim, muito obrigada ... nem perguntei seu nome. – Digo sem graça.
- Eu me chamo Marysa, moro aqui mas fui ao Brasil visitar meus pais. – Diz ela, Marysa era uma mulher magra e alta, usava o cabelo chanel e óculos escuros quase o tempo todo, ela é uma mulher de negócios que trabalha em uma agência de modelos em Londres.
- Me desculpe por toda a cena, não era minha intenção me abrir para uma estranha. – Digo.
- Não se preocupe querida, agora já não somos mais estranhas e você tem uma amiga em Londres. – Diz sorrindo e finalmente levantando seus óculos, ela têm olhos castanhos como os da minha tia mas o cabelo é loiro, ela me passa um cartão com seu número. – Se precisar me ligue.
- Obrigada mesmo. – Digo sorrindo.
O avião começa a pousar e meu frio na barriga só aumenta, tiro um espelho da minha bolsa de mão e me encaro, olhos inchados, lábios rachados e nariz vermelho, estou de dar dó. Quando o avião finalmente pousa todos os passageiros descem e eu sou a última a sair, dentro do aeroporto Marysa me dá um último abraço antes de partir, quase não estou com vergonha por ter contado o que me levou a Londres para ela.
Recebi uma mensagem de Nate , “já estou chegando”, me sento em uma das tantas cadeiras vermelhas e espero finalmente ver Nathaniel, quando eu fiz dez anos meus pais se separaram porque meu pai tinha uma amante, a tal amante ficou grávida e ele nos enxotou da nossa própria casa para que pudesse cuidar da sua nova família querida, eu, mamãe e Nate que na época tinha doze anos saímos de Belo Horizonte e fomos morar com minha tia Beth em São Paulo, tia Beth nunca se casou mas tinha um namorado de longa data e possuía uma casa de três quartos que nos recebeu de braços abertos.
Minha mãe arrumou um emprego em uma agência de viagens e eu tive que me acostumar com a nova vida, com os novos amigos e com a nova rotina sem um pai que só mandava a pensão e nunca tentou entrar em contato com nenhum dos filhos, no meu aniversário de quinze anos minha mãe tinha organizado uma viagem em família para fora do país, coisa que eu já sonhava fazia um tempo, nossa viagem foi cancelada pela notícia horrível de que tia Beth estava com câncer, por causa do tratamento ela não podia viajar e nós tínhamos que cuidar dela, depois de um ano de remédios, perda de cabelo, dias ruins e bons nós já sabíamos que nossa prioridade no momento era cuidar de tia Beth.
Um dia minha mãe fez o jantar ao invés de pedir por telefone, nós quatro estávamos a mesa quando ela contou que nos mudaríamos pra Londres com Charles no final de semana.
— Quem é Charles? – Perguntamos eu e Nate ao mesmo tempo.
- O meu noivo. – Respondeu ela mostrando a mão com um anel.
Nós nem sequer sabíamos que ela estava namorando, sempre pensei que ela demorava a voltar para casa porque tinha arrumado outro emprego ou estava fazendo hora extra, mas a verdade é que eu não havia notado as mudanças sutis, um novo corte de cabelo, brincos de ouro e vestidos caros.
— Nós não podemos nos mudar. – Eu disse. – Vamos começar um novo tratamento.
Minha tia não disse uma palavra.
- Charles disse que Beth vai ser muito mais bem tratada em um hospital de Londres, principalmente porque ele é um médico renomado e pode oferecer os melhores recursos para ela. – Disse minha mãe olhando para minha tia e sorrindo tão largamente que pensei que o rosto dela fosse rasgar.
— Eu não irei. – Disse minha tia.
- Como não? Essa é uma oportunidade única Beth. – Disse ela olhando para minha tia como se ela fosse louca.
- Não quero passar os meus últimos dias em um país estranho onde eu não sei nem mesmo pedir um café, se é pra morrer que seja na minha casa. – Disse ela se levantando da mesa e indo para o quarto.
Minha mãe foi atrás dela e quando voltou estava com lágrimas nos olhos, ela nos disse que ia com ou sem minha tia e isso me feriu mais do que qualquer tapa, eu gritei e chorei implorando que ela ficasse mas no fim ela e Nate se foram, eu me recusei a ir então fiquei pra cuidar da minha tia, meses depois os médicos decidiram parar com o tratamento e então ela começou a piorar, felizmente ela teve mais um ano de vida, e nesse ano nós fizemos tudo que ela sempre sonhou em realizar , menos a viagem.
A dois meses atrás ela se foi, minha mãe e Nate vieram de Londres para organizar as coisas, tanto no velório quanto no enterro eu não dirigi a palavra a nenhum dos dois, na minha concepção nenhum deles merecia estar ali, o ex namorado de tia Beth apareceu também mas quando tentou falar comigo eu lhe virei as costas, quando ela mais precisou eu fui a única que estava lá para ajudar, não conseguia tirar da mente todo o sofrimento e a dor desses últimos dias.
Meu plano era ir morar com a minha avó em Minas mas minha mãe não permitiu, aparentemente uma adolescente de dezessete anos morar com a avó é visto como negligencia por parte dos pais, e ela dá importância demais para o que as pessoas da nossa cidade natal vão dizer. Então eu fiz minhas malas e peguei o voo, assim que saímos do Brasil eu peguei o Orgulho e Preconceito que ganhei da minha tia e dentro encontrei uma carta, a carta que me fez chorar e contar minha vida toda a uma estranha.
Querida Olivia,
Sinto que meu fim está próximo então decidi escrever isto para você enquanto eu ainda tenho forças , esta carta não é apenas em agradecimento ao amor, carinho e força que me deu durante essa longa jornada na qual estou trilhando, mas sim uma carta de aconselhamento para uma jovem que teve que amadurecer cedo demais quando poderia ter aproveitado ao máximo as coisas da vida de adolescente, me sinto uma tia orgulhosa ao perceber o tipo de mulher que você está se tornando e peço que você consiga perdoar todas essas pessoas que te magoaram, eu perdoei a todas elas, quando se está no fim da vida você percebe que guardar rancor no coração te torna uma pessoa mais infeliz, não se feche para as oportunidades que a vida te der, viva cada dia como se fosse o último porque no final das contas a gente nunca sabe quando é , se apaixone, cometa erros, se arrependa, caia mas sempre levante disposta a aprender com as lições que a vida dá , se não fosse por você talvez eu não teria aguentado tanto tempo, você foi minha rocha, você segurou minha mão toda vez que eu pensei em desistir, e agora eu estou te libertando para seguir com sua vida, para viver um dia de cada vez para quando chegar no final você não tenha “e se” na cabeça, e sim muitos “eu fiz” , mas por favor não exagere !!!
Eu te amo mais do que posso expressar.
Com amor, tia Beth
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