Na simplicidade da Lua.
1 Planeta e Satélite.
Notas iniciais
O cenário dessa fic parte de universo alternativo EXTREMAMENTE elaborado que eu tenho em mente. Um universo alternativo em que os humanos começaram a se distribuir naturalmente por Regiões Habitáveis, e cada uma delas desenvolveu uma cultura específica. Eu pretendo fazer um post mais detalhado explicando esse universo alternativo, mas esses são os pontos principais dele:
- As três Regiões Habitáveis principais são: a Terra, a Lua e Marte.
- A Terra possui a menor quantidade de pessoas, pois ela é uma região de preservação ambiental e cultural, então há restrições enormes para aqueles que desejam mudar-se para ela. Além disso, os moradores precisam obedecer a VÁRIAS leis bem específicas em relação ao seu modo de vida para que as suas ações não afetem a natureza. Eles recebem uma educação extensa sobre as artes tradicionais da Terra Antiga e buscam preservá-la.
- A Lua tem um visual moderno, urbano no estilo simple and clean. Ela é o centro do desenvolvimento tecnológico da galáxia. Os seus moradores dividem-se entre Esses prédios são tão tristes. Eu queria ir para a Terra, o planeta-mãe. e Esse é o melhor lugar do universo!. As roupas deles são feitas de um material elástico extremamente resistente que se aderem ao corpo. O capacete deles faz parte da roupa, como se ele fosse um capuz, pois o seu vidro pode se dividir ao meio, permitindo ao capacete ser facilmente retirado a depender do ambiente em que você se encontra.
Você pode abrir o vidro do seu capacete dentro de veículos porque eles se fecham automaticamente quando o veículo cogita em abrir. No entanto, o capacete em si e o resto da roupa só podem ser retirados dentro de espaços fechados prédios, casas. A lógica disso é muito simples. Fechar o vidro de um capacete demora dois segundos. Colocar uma roupa demora muito mais. Em caso de um acidente de carro, seria mais fácil escapar do efeito de um contato com o vácuo com o capacete fechando na hora do que tendo que recolocar a sua roupa.
A Lua possui vários mecanismos automáticos para proteger os seus habitantes de acidentes envolvendo a gravidade, o vácuo e etc. O mais notório deles decorre do fato de que muitas pessoas tiram o seu capacete dentro de uma residência, e se esquecem de recolocá-lo quando vão sair. Isso resulta no portão se bloqueando automaticamente e uma sirene lembrando em um volume excessivamente alto que a sua roupa não está seguindo os padrões de segurança. É constrangedor.
- Marte possui uma sociedade subterrânea extremamente lotada. Você encontra de tudo em Marte. TUDO.
01. Planeta e Satélite.
Alfred F. Jones, um indivíduo extremamente acomodado com as tecnologias que o cercavam, nunca viu utilidade nas máquinas de teletransporte coletivo e tinha pena das pessoas que sofriam a inconveniência de se deslocarem de suas casas somente para o envio de um objeto. As máquinas de teletransporte domésticas eram capazes de deslocar as partículas por toda a Lua, o que era bastante prático e suficiente para alguns. Sua fraqueza era não conseguir alcançar outros planetas e eis onde residia a principal utilidade das máquinas coletivas, cuja potência e alcance eram maiores.
Convenientemente, Alfred não tinha que passar pelo incômodo de ir ao serviço central de teletransportes e cumprir um bando de burocracias porque não havia nada que lhe interessasse em planeta nenhum. Ele considerava a Lua como o melhor lugar da galáxia e sempre teve o lema de que se algo não existia na Lua, esse algo não deveria existir em primeiro lugar. Verdade que tal lema já havia rendido em alguns golpes na parte de trás do seu pescoço, aplicados principalmente pela sua supostamente ”amável” família, todavia as suas convicções eram firmes, além de sinceramente teimosas, e não se dissipariam por tão pouco.
Para transformá-lo, foi necessário que ele tivesse uma razão extremamente forte para realizar envios a outros planetas. Ou seja, nada teria mudado se o irmão dele não houvesse se casado com uma terráquea e se mudado com ela para a Terra — algo praticamente tomado por Alfred com o aborrecimento de uma provocação pessoal.
No início, ele até podia ignorar as datas comemorativas e mandar somente uma mensagem holográfica com os seus cumprimentos para o casal... Como ele fez por três anos, ignorando a imensa quantidade de reclamações maternas que ele recebeu por essa atitude que a sua mãe injustamente denominava de “birrenta”. Entretanto, ele não era irredutível e quando o seu irmão, o cretino, teve uma bebê simplesmente adorável ao fim daqueles três anos, Alfred viu que não podia deixar de enviar presentes para a sua nova sobrinha porque ele não queria ser menos do que um super-tio.
Droga. Eles finalmente conseguiram apanhá-lo.
No seu primeiro dia no serviço central de teletransporte, Alfred ganhou uma nova forma de ânimo. Ele tinha uma bola cuja textura e cor mudavam de acordo com os elementos químicos que compunham a matéria em que ela tocava. Era um brinquedo popular entre as crianças. Sentindo-se, portanto, orgulhoso de si mesmo, animado e curioso com a reação do seu irmão, esposa e filha ao receberem a primeira encomenda sua, o senhor Jones estava balançando o seu corpo para frente e para trás na fila, mal podendo esperar para ser atendido. Aquele seria um grande dia.
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Quando Arthur Kirkland conquistara aquele cargo de assistente de serviços de teletransporte, estava de fato empolgado. Era o seu primeiro emprego na Lua, e ele tinha muitos planos e ideias borbulhando em sua cabeça – acabara de terminar seus estudos, acabara de se mudar para um lugar completamente novo... E todo o universo estava diante de si, pronto para ser explorado.
Os primeiros meses – talvez até o primeiro ano – naquele serviço foram ótimos para si. Ele se divertia imaginando para quem – e porque – as pessoas estavam enviando aquelas coisas; tinha uma – consideravelmente – boa relação com os seus colegas, e podia trabalhar em seus projetos assim que chegasse em casa.
No começo, como um terráqueo, ele obviamente estranhara aquele estabelecimento, assim como tudo o mais na Lua, mas acabou se acostumando, eventualmente. A central de teletransportes, pelo menos a área que era visível ao público, e onde ele trabalhava, possuía diversos pôsteres coloridos nas paredes, cujos textos eram de fontes grandes, coloridos e que ocasionalmente piscavam e mudavam, assim como as imagens de pessoas sorridentes. O salão era amplo, claro – em sua grande maioria azul, assim como os uniformes dos funcionários – e possuía um teto alto (Arthur perguntara-se, nos primeiros dias de trabalho, se o motivo era para ter mais espaço para os pôsteres). Havia alguns bancos próximos das paredes, uma máquina de café perto dos balcões de atendimento, e, separada desta por um banco comprido, uma segunda máquina, mas esta de pílulas de alimentação. Havia uma fila única que iniciava, em ziguezague, próxima da entrada, e adquiria algumas bifurcações em direção aos balcões de atendimento, quando se aproximava deles. Falando em balcões, eles eram cinco – Arthur ocupava o do centro, o que ele gostava, porque o dava uma visão mais ampla do salão e das pessoas que entravam e saíam de lá. Os funcionários ocupavam cadeiras com eixo giratório, o que distraiu bastante Kirkland nos seus primeiros dias de trabalho, mas atualmente ele conseguia passar o dia todo naquela cadeira sem sentir necessidade de girar o corpo o tempo todo.
Em cada balcão havia um computador (uma tela sensível ao toque e um teclado), cujas informações poderiam ser exibidas, se necessário, na parte superior do balcão, para que os clientes pudessem confirmar suas informações, por exemplo. Além disso, cada funcionário possuía um pequeno aparelho usado para recolher digitais, que era ligado ao computador por uma rede sem fio. Ainda, nas laterais dos balcões estavam as máquinas necessárias para analisar e escanear os pacotes trazidos pelos clientes. O que muita gente não sabia, e que surpreendeu também Arthur quando ele descobriu, era que a máquina de teletransporte que ficava junto dos balcõesnãoteletransportava os pacotes diretamente para o destino final! Eles eram enviados, dali, para o segundo andar da central, onde cinco outros funcionários concluíam o teletransporte.
Arthur achava aquilo tudo fascinante, e embora a carga horária e o salário de seu emprego continuassem ótimas para si, Arthur já não se sentia tão empolgado quanto antes. As suas ideias não se mostraram tão fáceis de se colocar em prática, o número de pessoas que conseguia o tirar do sério vinha crescendo muito ao longo dos meses – “francamente”, ele costumava resmungar consigo mesmo, “as regras e documentação necessárias para usar os teletransportes são simples e estão espalhadas por literalmente todos os lugares! Pra que diabos essa gente aprende a ler na escola, fofocar sobre a vida dos outros na internet? Ugh.” – e ele, por mais que não admitisse, sentia saudades de casa.
Após explicar para uma senhora diversas vezes que não, ela não podia preencher os dados depois de enviar seu pacote, Arthur suspirou pesadamente e olhou de relance para o relógio no canto inferior do seu computador.
Mais três horas. Só mais três horas...!
- Próximo, por favor. – chamou ele assim que a senhora, um tanto irritada, retirou-se.
Antes mesmo que a próxima pessoa da fila se aproximasse, Arthur estendeu o pequeno aparelho que coletava a identidade do remetente – “seria tão mais fácil se isso pudesse ser feito para coletar os dados de quem irá receber a encomenda...”.
- Por favor, posicione o seu polegar direito na máquina, senhor. – ele disse mecanicamente, ajeitando a gola de sua camisa.
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“Todas as encomendas devem estar separadas em caixas individuais”. “As caixas devem ser compostas por uma das três opções de materiais metálicos estabelecidas no código de segurança”. “É terminantemente proibido o teletransporte de seres vivos”. “Encomendas em grande quantidade ou acima dos padrões regulares de tamanho devem ser encaminhadas para uma sessão especial”. “Nenhuma encomenda pode transportar material radioativo, tóxico ou inflamável”...
Alfred estava revisando mentalmente as dezenas de regras para o uso do teletransporte coletivo, procurando um desvio qualquer que ele pudesse ter cometido. Aquela bola de brinquedo era evidentemente inofensiva, porém ele ouvira falar que qualquer burocracia podia evitar o envio de um pacote, pois o serviço de teletransporte coletivo e os seus funcionários eram, em resumo, um saco. Então ele tinha que ter cuidado e checar todos os detalhes para que tudo desse certo. A sua sobrinha era um doce, mas vamos lá. Ele não teria energia alguma para voltar depois e tentar de novo. Era agora ou nunca.
Em sua pesquisa mental, Alfred estava de tal modo compenetrado com as figuras didáticas sobre proibições espalhadas por todos os lados que não noticiou o atendente o chamando repetitivamente até que este agarrasse o seu pulso de modo agressivo, como se estivesse prestes a arrancar o seu polegar para colocá-lo na máquina.
Esse movimento levou Alfred a finalmente elevar os seus olhos vagamente surpresos para o atendente em questão. Nesse exato momento, o nível de surpresa dele subiu diversos graus instantaneamente, pois...
Wow. Aquele cara era ridiculamente atraente!
Atraente a ponto de ser suspeito! Que cara com um rosto daqueles trabalharia em um serviço de teletransportes? Havia algo de errado por ali.
- Er... Eu estou em um daqueles reality-shows em que celebridades fingem ser pessoas comuns? – ele perguntou com as sobrancelhas firmemente franzidas em desconfiança.
- Ahn... Isto definitivamente não é um reality-show, senhor... Jones – Arthur resmungou em reposta, chamando o sujeito pelo nome que aparecera na tela de seu computador.
A sua expressão não estava nem um pouco feliz quando ele ergueu o olhar e fitou, mesmo que brevemente, o homem a sua frente. Em seguida, os olhos, muito verdes, de Arthur olharam rapidamente para os lados, observando sem muito interesse um de seus colegas explicar para um casal que eles obviamente não podiam enviar um animal de estimação pelo teletransporte.
Ninguém na sua volta se parecia com qualquer celebridade da qual conseguia se lembrar e, por mais que a voz do sujeito tivesse soado inocente, Arthur se perguntou se ele não falara aquilo sarcasticamente. A ideia o fez rolar os olhos, e ele tentou se concentrar em seu trabalho.
- Informe os dados do destinatário, por favor – Arthur pediu, e o seupor favorsoou, mesmo aos seus ouvidos, terrivelmente forçado e entediado.
Ao escutar essa resposta desinteressada, Alfred encarou o atendente. Aqueles olhos de um verde cujo tom parecia dividido entre duas nuances assim como uma gema exposta a luz, aquele cabelo claro e bagunçado, aquele rosto com uma estrutura delicada e feições imponentes...
- Sério? – ele precisou confirmar e ele acabou falando aquilo em um volume baixo, como se estivesse tentando tratar daquele assunto fora das câmeras. Ele ainda tinha suas dúvidas.
- O quê? – Arthur indagou, piscando os olhos duas vezes seguidas.
Ele se recusava a acreditar que aquele sujeito estava falando sério quando perguntou se estava em um reality-show. Francamente, ele nem tinha mais certeza se programas daquele tipo ainda eram produzidos.
Além do mais, estivera trabalhando o dia inteiro – com exceção de sua uma hora de almoço – e seu cabelo deveria estar um verdadeiro ninho de passarinho naquele momento; havia olheiras debaixo de seus olhos, e algumas sardas espalhadas pelas suas bochechas. Seus colegas, vez ou outra, implicavam com as suas sobrancelhas, também. Não achava nada de errado com elas, mas volte e meia era impossível não se sentir inseguro sobre o assunto. Resumidamente, Arthur Kirkland não conseguia entender como alguém, ao falar consigo, podia imaginar estar diante de uma celebridade (mesmo que disfarçada).
Arthur então suspirou.
- Olha, istodefinitivamentenão é um reality-show. Então eu peço que você, por favor, informe os dados do seu destinatário ou se retire, senhor Jones. Eu tenho mais coisas a fazer.
Certo. Pelo visto, não era um reality-show e sem que Alfred pudesse imaginar as razões por trás daquilo, o seu comentário havia deixado aquele sujeito mais exasperado do que antes, embora aquele tenha sido o elogio mais sincero e acidental que Alfred F. Jones já fizera. Quem pode entender?
Infelizmente, a irritabilidade daquele assistente era proporcional ao seu charme. Ele não era alguém muito paciente ou bem-humorado.
Bom, não se pode ter tudo, Alfred constatou.
- Ok, ok! Caramba. Não precisa ficar tão irritado, cara. – Alfred riu ao dizer essa sentença, mas tornou-se assust... apreensivo ao verificar quão ameaçadora estava a expressão do atendente e apressou-se em informar. — O destinatário é Matthew Williams-Braginsky. O planeta é a Terra, zona D, área 2345. Eu posso enviar diretamente para o aparelho de teletransporte interno deles ou eles terão que se encaminhar para uma central da Terra? Eu tenho o código do aparelho interno deles comigo.
Arthur digitou rapidamente o nome do destinatário – não sem antes pedir para que Jones soletrasse o último sobrenome, para ter certeza de que o escrevera corretamente – e acenou positivamente com a cabeça (mais para si mesmo do que qualquer outra coisa) ao verificar-se de que tudo estava em ordem.
- Se as máquinas de teletransporte domésticas fossem capazes de receber itens vindos de outros planetas – ou, no caso, da Lua – eu não estaria tendo que explicar isto para o senhor agora, senhor Jones. – Arthur respondeu, sorrindo de canto, irônico – Então, sim, eles terão que se deslocar até uma central na Terra, ou o senhor pode pagar uma quantia extra para que eles a recebam em casa.
Em seguida, pediu que Alfred entregasse o objeto que queria enviar, para que ele fosse escaneado, pesado e carimbado.
É válido constar que a razão pela qual o senhor Jones não pôde ter outra reação imediata, além de entregar abobadamente o seu pacote, foi porque ele estava sinceramente confuso se deveria estar atônito com quão desagradável era aquele atendente ou se deveria apreciar como ele ficava sexy com um sorriso implicante.
Os seus sentimentos optaram por se centrar no golpe que ele recebera no seu orgulho.
Embora não fosse um especialista em máquinas de teletransporte, Alfred havia se formado em tecnologias de transporte e ele sabia uma coisa ou duas sobre aqueles aparelhos. Estranhamente, ele não conseguira assimilar o significado das palavras do atendente dentro da sua base de conhecimentos e achava a experiência bastante frustrante. Ele não estava entendendo e não estava gostando de não entender, pois o atendente visivelmente estava o considerando como um daqueles clientes idiotas que tentaram teletransportar um animal de estimação em um aparelho que promovia a divisão e o reagrupamento de partículas. Era ridículo! Alfred tinha que se defender dessa falsa impressão e mostrar todo o seu lado brilhante de algum modo. Aquele era o seu campo de estudo, afinal.
- Eu pensei que eles apenas não tivessem potência suficiente para enviarem as encomendas. Não que tivessem problemas para recebê-las. – ele resmungou com um bico contrariado, tentando lembrar-se de uma informação que pudesse ajudá-lo a conectar os fatos, tendo em conta que havia uma incongruência naquela estória. Uma memória útil finalmente lhe ocorreu e ele indagou com os olhos mais acesos — A menos que os aparelhos de envio sejam os modelos antigos, não é? Eles não eram específicos o suficiente para alcançarem múltiplos endereços. De que ano é a máquina de vocês?
Arthur corou – e ele tinha certeza disso porque estava se sentindo levemente incomodado e bastante surpreso com a pergunta; e sabia que, infelizmente, seu corpo expressava sentimentos de raiva, surpresa, constrangimento e alguns outros colorindo suas maçãs de tons de vermelho (a intensidade da cor mudava de acordo com a situação). Por causa da surpresa, suas bochechas apenas haviam ficado um pouco mais rosas do que estavam antes, provavelmente. Entretanto,a consciência de ter coradoo fezcorar ainda mais, e ele pigarreou, para ter uma desculpa para virar o rosto um pouco para o lado.
- O ano de nossas máquinas é aquele que meus superiores consideram adequado para realizar o serviço de enviar encomendas para outros planetas. Se não está feliz com isto, sugiro que procure por alguma outra empresa que realize os mesmos serviços que nós, e eu posso lhe aconselhar que não vai ser nada fácil encontrar alguma – Arthur respondeu rapidamente.
Pois bem, apesar da hostilidade presente naquela última linha, Alfred nunca teve uma urgência tão grande e repentina de tocar o rosto de alguém. Ele já havia encontrado um fascínio em observar os detalhes na face do atendente. Entretanto, constatar que manchas escarlates haviam aparecido em variadas partes dela, em vez de fascínio causou... uma ânsia afetuosa dentro de si. O atendente estava vermelho! Era tããão fofo. Alfred queria verificar se aquelas partes vermelhas estavam quentes! Puxar aquelas bochechas!
Mas mesmo Alfred Franklin Jones, conhecido por sua família como “aquele-que-nos-mata-de-vergonha-porque-nunca-sabe-ler-a-atmosfera” sabia que agarrar as bochechas de um estranho era um grande “não-não”. Especialmente quando esse estranho tinha o poder de decidir se você poderia enviar as suas encomendas para outros planetas.
- Nossa. Você realmente não sabe lidar com clientes, não é? Parece que você quer nos dar mais e mais motivos para nós irmos embora. Você possui uma briga com o dono da sua empresa ou algo assim?
“Sorte sua que você seja tão adorável e os clientes provavelmente não tenham coragem de perder um segundo que poderiam passar encarando você!”
... Foi o que ele pensou, todavia não podendo mais gastar tempo e apressando-se por sentir olhos pesando em suas costas, o que ele fez foi dar uma risada mais grave e breve, um pouco preocupada, antes de apanhar sua carteira dentro da bolsa executiva que carregava.
– Bom, as pessoas na fila provavelmente vão se juntar para me bater, caso eu demore mais, portanto eu serei mais rápido. — ele constou de maneira clara, como se devesse algum esclarecimento sobre o seu ritmo ao atendente — Eu vou pagar a taxa adicional para que os destinatários recebam no aparelho interno deles. O preço deve ser um roubo, mas essa provavelmente foi a intenção do seu chefe ao comprar predominantemente modelos antigos!
Ele riu-se enquanto ainda buscava o dinheiro, tentando soar simpático e continuar mantendo o canal de comunicação, a despeito do aborrecimento que aquele tema trouxera ao atendente:
- Como era mesmo o nome dele? Bonnefoy? Urgh. Fazer negócios com ele é sempre difícil.
Arthur bufou.
- Por favor, não use palavras de baixo calão aqui. – o atendente murmurou ao ouvir o nome Bonnefoy, mas o fez com um tom de voz extremamente baixo, claro.
Era verdade que seu relacionamento com seu chefe não era o melhor do mundo – longe disso, na verdade –, e ele sempre acabava dando com a língua nos dentes e dizendo algo ofensivo na presença de seu chefe, entretanto... Se umclientereclamasse ou comentasse alguma coisa sobre Arthur ter insultado o chefe... Ah, ele não queria nem imaginar.
Ainda um tanto irritadiço e com o rosto vermelho, Arthur informou o valor total do teletransporte (e até mesmo ele considerava aquele preço alto, mas como recebia um desconto por ser funcionário sempre que precisava enviar ou receber alguma coisa da Terra, não se importava nem um pouco).
Após separar, etiquetar e encaminhar o objeto que Jones pretendia enviar, Arthur lhe entregou um recibo.
- Se o seu pacote se extraviar ou ter algum dano durante o teletransporte, este recibo lhe assegurará um reembolso. – Arthur informou, mecanicamente – Entretanto, posso garantir que é muito raro algo do tipo acontecer. Tenha uma boa tarde.
Uma despedida tende a ser um fechamento, o que Alfred não deixou acontecer.
Com um largo sorriso de satisfação pelo cumprimento de sua meta de enviar um presente a sua sobrinha e pela descoberta de que talvez centrais de serviços de teletransporte tivessem o seu lado divertido, ele decidiu terminar a conversa dos dois com uma última cartada:
- Valeu! Tenha uma boa tarde também, senhor... – ele deixou a palavra se alongar o suficiente para que o atendente realizasse que Alfred queria o nome dele.
Arthur suspirou e automaticamente apontou para o lado esquerdo de seu peito, indicando seu crachá. E ele ficou extremamente desconcertado ao perceber que seu crachánão estavaali. Após engolir em seco, (não conseguia acreditar que tinha esquecido de coloca-lo depois de voltar do almoço!) ele olhou rapidamente para a esquerda e fingiu estar tentando se livrar de uma pequena e invisível mancha em sua camisa, antes de responder:
- Ah! Kirkland. M-meu nome é Kirkland. – ele disse sem graça, aliviado em saber que aquele sujeito estava se retirando e que provavelmente não voltaria a vê-lo de novo, e, portanto, ele não teria oportunidade de fazer nenhuma piada ou comentário desnecessário sobre Arthur ter esquecido de colocar (a droga) do crachá.
Para Alfred, o desconforto do atendente, se não era justificável, assimilava-se a um tipo positivo de desconforto. Com essa impressão, ele saiu daquela central acenando radiantemente na direção doKirkland. Ainda que ele não tivesse outras coisas para enviar, era bom saber que a central tinha um atendente completamente amável, não era?
Em um futuro distante, ele poderia apreciar a visão do senhor Kirkland quando a necessidade de teletransportar algo surgisse.
Poderia demorar um pouco para que isso acontecesse, entretanto não seria nada ruim quando a oportunidade, digo, obrigação aparecesse. Ele só tinha que esperar alguns anos. Ou meses.
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Duas semanas depois, ele se sentiu estranhamente tentado a enviar um novo presente para a sua sobrinha. Ela era um bebê! Precisava de todos os brinquedos que pudessem estimular a sua formação! Sem contar que Alfred havia verificado em um casual e totalmente-não-direcionado passeio virtual que o preço de um par de asas em formato de borboleta que fazia bebês flutuarem a uma altura segura havia baixado consideravelmente.
Uma pequena voz interior, responsável pela sua autocrítica, e curiosamente similar a voz do Matthew, perguntou-lhe se valia a pena comprar um novo presente e ir até aquele local somente para ver um atendente bonitinho. Alfred protestou veementemente contra essa voz.
Ele não estava indo lá por conta do Kirkland. O Kirkland era um atrativo adicional, é óbvio. Entretanto, a sua principal meta era a de fortalecer os laços com a sua sobrinha.
D-Definitivamente!
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Arthur estava de bom humor naquele dia.
O movimento estava fraco – mas explicado pela aproximação de um feriado –, Arthur havia sido elogiado por uma senhora (que comentou compreender o quão exaustivo aquele serviço devia ser às vezes, e lhe desejou uma ótima semana), e estava com quase certeza absoluta de que seria liberado alguns poucos – mais valiosos – muitos mais cedo.
Como não havia ninguém na fila e os dois colegas a sua direita estavam ocupados com os dois únicos clientes, Arthur aproveitou para se retirar por alguns minutos para tomar um copo d’água – gostaria de tomar chá, mas infelizmente não podia, no momento – e ao retornar, ficou realmente surpreso ao ver um rosto familiar.
Não se recordava do nome – Jonas? – do sujeito, mas lembrava-se de que o havia atendido algumas semanas atrás. Kirkland passara alguns dias o chamando de “o cara do crachá”, para lembrar a si mesmo de sempre estar com o crachá no peito (e foi exatamente pra este lugar que ele olhou quando reconheceu aqueles cabelos loiros e aquele sorriso), mas eventualmente esqueceu-se, ou melhor, deixou de pensar no sujeito.
E ali estava ele de novo.
- Próximo... – ele murmurou após sentar-se e verificar que um de seus colegas argumentava com um homem de meia-idade enquanto o outro colega, que não mais atendia alguém, digitava alguma coisa no computador.
Na opinião de Alfred, o aspecto do senhor Kirkland melhorara bastante se comparado ao que foi apresentado no primeiro encontro dos dois. Havia um frescor em sua pele, um brilho de ânimo nos seus olhos e uma suavidade em seu rosto... novos e muito bem-vindos. Alfred ficou contente em vê-lo assim. Era sempre bom identificar a melhoria no humor de uma pessoa, sendo especialmente agradável ver esse efeito em alguém, cuja visão era prazerosamente absorvida por ele.
- Olá, Kirkland! Você se lembra de mim? – ele perguntou com um sorriso incontido. Bolas. O Kirkland era mais interessante do que ele se lembrava. Ele queria tanto descobrir mais sobre ele, falar mais com ele, arrancar um sorriso daquele rosto com sobrancelhas gigantes franzidas de um modo aborrecido.
Alfred mal sabia por onde começar e como queria terminar. Em seu entusiasmo e ansiedade, ele acabou deixando que as palavras escapassem aceleradamente de sua boca, antes de conseguir filtrá-las em um processo de seleção:
- As coisas estão paradas por aqui, não estão? Há, há! Deve ser por conta do dia da amizade interplanetária. – “Caramba! Você está indo muito rápido! Ria menos, fale menos! Ele vai pensar que você é um daqueles tipos chatos que usam funcionários de serviços coletivos como psicólogos!” — Muita gente está tentando comprar as passagens para outros planetas. Não dá para acreditar que esse é o único período em que os preços dos foguetes não são absurdos e a quantidade deles aumenta!
Uma previsível falta de ar gerou a primeira pausa que ele conseguiu se forçar a fazer.
Por mais que fosse um alívio, retornar a ter controle sobre as próprias palavras, ele se sentiu tão desconfortável e vulnerável naqueles poucos instantes de silêncio que teve o reflexo de desviar os seus olhos para o lado e dar um riso inevitavelmente nervoso.
Podia não aparentar, mas ele estava com o coração saindo pela boca quando perguntou:
- Você vai viajar, Kirkland?
- A-ah, boa tarde... – Arthur murmurou, incerto do que exatamente deveria dizer, e ainda mais incerto se tinha conseguido entender exatamente tudo que o sujeito – “O nome dele é Jonas ou Jones?” – tinha dito. Após um pigarro, Arthur ofereceu ao cliente a máquina para coletar seus dados pessoais.
- Por favor, posicione o seu polegar direito na máquina, senhor. – Arthur disse a sua fala decorada, e só então maneou a cabeça negativamente, para responder a pergunta que lhe tinha sido feita – Não, não vou viajar. Como você mesmo disse, há muita gente querendo viajar nessa época, e com tanto tumulto, as viagens se tornam ainda mais exaustivas... Ahn, você vai? – indagou em seguida, mais por educação do que por curiosidade.
Arthur já viajara para ver sua família durante aquele período diversas vezes. Mas jurara, da última vez, quando chegou em casa de volta, que nunca mais –nunca mais– faria aquela loucura de novo. Ficar em casa lendo o dia todo, passear pela cidade praticamente vazia, não pegar filas para ir aos lugares... Aquilo sim lhe parecia uma ótima forma de passar um feriado: com tranquilidade.
Enquanto Arthur distraía-se casualmente com esses pensamentos, uma lâmpada acendeu no ânimo de Alfred.
Ah! O senhor Kirkland estava com um bom humor! Tanto que ele havia praticamente dispensado o comentário de Alfred, mas não o dispensou inteiramente! E ele até chegou a fazer uma pergunta! Era um avanço colossal.
Tentando evitar que ele estragasse cedo demais uma oportunidade recebida por circunstâncias temporaismuito específicas – bah, ele eventualmente estragaria tudo, mas queria adiar enquanto pudesse – Alfred colocou logo o seu dedo no polegar, com a determinação de um aventureiro abrindo um portal para um novo mundo.
Realizado esse procedimento formal, ele se aproveitou do conforto que o desvio da atenção do Kirkland para conferir os dados lhe proporcionara e forneceu uma resposta confiante.
- Não, não! Eu não saio daqui! Eu não acho que exista lugar melhor do que a Lua! – ele assegurou animado, agitando o seu braço livre em um ritmo entusiástico — É o local mais incrível da galáxia e você está mais do que certo em ficar por aqui! É a melhor decisão possível!
Como estava oficialmente informado da permanência do Kirkland durante o feriado, Alfred precisou conter o seu instinto absurdo de erguer o punho para o ar vitoriosamente, lembrando-se de que não era como se eles tivessem marcado um programa para esse período ou algo assim.
Mudando ligeiramente de foco, ele se concentrou em fazer uma questão necessária:
- Mas você não tem ninguém para visitar? – ele indagou com curiosidade inocente. — Eu percebo que você tem um pouco de sotaque. É discreto, mas...
Era discreto. Em fatos, Alfred havia noticiado porque as vogais dele soavam de uma forma singular, e ele estava começando a dedicar atenção a ouvir a voz grave e rouca do senhor Kirkland produzindo sílabas mais delicadas do que o comum. Como ele não havia reparado naquilo antes? Era saboroso escutar a diferente sonoridade das palavras dele.
Para o senhor Kirkland ter conseguido um sotaque tão natural, ele deveria conviver bastante com terráqueos.
- Você deve ter contato constante com alguém da Terra, não é? –Alfred concluiu e inclinou o rosto para o lado, com um olhar alegre e vagamente nostálgico. O Jones teve um amigo terráqueo de uma zona oriental, com quem ele se comunicava por hologramas, o qual por muito pouco não produziu uma mudança permanente no seu sotaque. — É fácil pegar os sotaques deles. Eles são simplesmente fantásticos.
Enquanto isso, do outro lado do balcão...
“Por que tantas perguntas?!” Arthur indagou a si mesmo, franzindo levemente o cenho enquanto observava a tela de seu computador e constatava que o nome do sujeito era Jones, não Jonas. Ele não pôde deixar de se perguntar, então, se o senhor Jones era uma daquelas pessoas que não tinha amigos próximos e consideravam funcionários os seus melhores amigos para uma boa e descontraída conversa no meio na tarde – Arthur já estava acostumado com aquele tipo de coisa, mas normalmente o perfil desse tipo de pessoas era diferente: na grande maioria, se tratavam de pessoas de mais idade.
- A Terra é meu planeta natal, – Arthur respondeu – passei boa parte da minha vida lá, então obviamente tenho quem visitar... – Houve uma pequena pausa, em que Arthur tentou se lembrar quanto tempo fazia desde que falara com seus amigos terráqueos pela última vez. De fato, um bom tempo. Sentia saudades deles – apenas um pouco, claro – mas... Se eles não entravam em contato consigo, por que deveria fazer o mesmo?
Também havia sua família – pai, mãe, irmãos... Por mais que brigassem quase sempre que se viam, ainda eram sua família. Sua mãe ficara chateada quando ele avisou que não iria visita-los naquele feriado, mas Arthur estava determinado em não ir.
Além disso, fizera tantas memórias naquele planeta...
– Gosto mais de Terra do que da Lua, apesar de tudo que se possa encontrar por aqui e que não passa de boatos por lá – ele admitiu. E sentiu-se levemente irritado consigo mesmo por estar falando aquelas coisas com um estranho. Portanto, decidiu voltar ao trabalho — Por favor, informe os dados do destinatário.
Ah. O Kirkland já estava pedindo os dados do destinatário? Mas eles mal haviam conversado! Humpf. Não era legal o profissionalismo latente no modo como o atendente se dirigia a ele. Era esperado, Alfred supunha, porém nada legal.
O senhor Jones sabia que uma conversa de menos de cinco minutos não os tornava os “melhores amigos do universo” e que mesmo ele estranharia se o atendesse tivesse revelado toda a sua biografia naqueles dois encontros. Ainda assim... Ele desejava ao menos quebrar o gelo entre os dois. Incentivar o Kirkland a tratá-lo como uma pessoa, em vez de tratá-lo apenas como um cliente. Aumentar suas chances de ganhar um sorriso da próxima vez e descobrir mais sobre aquele terráqueo.
Em conclusão, para ter qualquer avanço, ele precisava de tempo-extra e de um plano.
- Eu... Eu não estou com o endereço aqui. – Alfred mentiu, começando a rir nervosamente e a mudar o peso de uma perna para a outra.
Lamentavelmente(ou não), o último update das suas habilidades de fingir ocorreu quando ele tinha seis anos e a sua versão atual estava ultrapassada e defeituosa. Ele não tinha prática nisso. Em fatos, ele era sincero demais para aquele tipo de coisa. Argh.
–... E não consegui decorá-lo também. – ele voltou a falar, começando a umedecer o seu lábio inferior e a distrair propositalmente seus olhos em uma placa de boas-vindas na recepção — Você tem como conferir isso no meu registro, não tem?
O registro! Alfred havia se formado naquela área. Ele sabia que as empresas registravam cada teletransporte interplanetário realizado, deixando informações como “último endereço de receptor”, “tipo de encomenda”, “informações básica sobre o remetente” à disposição dos seus atendentes.
Era um procedimento-padrão que poderia ser realizado, caso o cliente precisasse de uma informação sobre os seus envios antigos. O problema é que o atendente precisaria emitir uma nota, dando o motivo para o requerimento dos dados e esperar uma autorização oficial antes de recebê-la. Essa autorização oficial vinha de um superior que analisava cada caso individualmente e, por conseqüência, ela poderia demorar longos, longos minutos.
... Alfred estava dividido entre se sentir culpado pela situação em que estava colocando o Kirkland ou em congratular-se pela forma genial que arranjou para dispor de mais alguns instantes com ele.
Os olhos, muito verdes, de Arthur Kirkland encararam o cliente em sua frente por alguns breves segundos. Lembrava-se, mesmo que vagamente, dele ter dito o endereço para onde queria enviar seu produto sem ao menos consultar nenhuma nota no celular, da outra vez em que estivera ali... Ou... Talvez tivesse sido um cliente diferente...? A memória de Arthur era, em sua opinião, consideravelmente boa, mas era possível ele confundir os clientes, claro; atendia muitas pessoas todos os dias, e não era uma máquina para decorar a forma como cada uma delas se comportava todas as vezes em que vinham fazer algum teletransporte.
Após coçar a nuca com a mão esquerda, ele acenou positivamente com a cabeça.
- Sim, senhor... Entretanto isso pode levar alguns minutos. – Arthur disse, passando a digitar em seu computador.
Esperava, honestamente, que o funcionário encarregado dos registros não estivesse dormindo em serviço, como já o haviam flagrado algumas vezes. Muitas pessoas não gostavam de esperar, então o tal funcionário não tinha tanto trabalho. De qualquer forma, Kirkland achava que ele já deveria ter sido demitido e substituído por alguém mais eficiente e que não dormisse em serviço, ficasse de papo-furado com seus colegas de serviço, nem paquerando na internet. Francamente.
Como podem ver, o senhor Kirkland mal tinha ideia de que sua ocupação era alegria de Alfred porque... Phew! O seu plano havia dado certo. O Kirkland não havia desconfiado e a temperatura do olhar dele não foi para a escala Kelvin. Ótimo.
- Não há problema algum. – Alfred sorriu instantaneamente. – Eu tenho bastante tempo disponível.
Ele ouviu o atendente resmungar alguma coisa que ele não conseguiu identificar e depois o viu passar a concentrar-se em realizar os procedimentos técnicos para o envio do requerimento.
Concentrar-se muito intensamente, aliás. Ele estava tão imerso nas suas tarefas que não cedia um único relance na direção de Alfred F. Jones, um comportamento que estava deixando o último um tanto insatisfeito, contudo conformado. O Kirkland tinha que trabalhar. Que diabos. A única razão pela qual os dois ainda estavam se falando era porque Alfred estava sendo atendido por ele. Não era um cenário totalmente perfeito, mas eles ganharam uma chance de conversar um pouco mais, portanto... Yay.
- Então você é da Terra? – ele indagou, inclinando-se ligeiramente para frente e apoiando um cotovelo no balcão do Kirkland. — Bem, isso explica porque o seu sotaque é tão... – “sexy”, “meigo”, “singular” – pronunciado.- ele pigarreou. “Bom escape, Alfred. Bom escape.” — Há quantos anos você se mudou?
- Há quatro anos. – Arthur respondeu mecanicamente, ainda digitando algumas coisas em seu computador. Um tanto distraído sobre o que estava falando, acrescentou – Pra quem decidiu trabalhar como assistente de serviços de teletransporte temporariamente até... – após pressionar Enter e enviar o requerimento do registro de Alfred Franklin Jones, Kirkland se interrompeu. Ele ergueu o olhar e encontrou-se sendo observado por um par de olhos de um azul que o lembrou vagamente do céu que ele conseguia, vez ou outra, contemplar da Terra. E isto o deixou um pouquinho atrapalhado – talvez pela lembrança, talvez por ter falado demais sobre si mesmo, talvez pelo interesse em suas palavras que aqueles olhos pareciam demonstrar... Ele próprio não saberia dizer. Após um pigarro e ignorando se o seu rosto tinha – talvez, e tomara que não...! – ficado um pouco mais rosado, informou — Acabo de enviar o seu requerimento. Agora apenas temos que esperar que o meu superior envie o seu registro. Como já disse, isso pode levar alguns minutos... Se quiser um café – ele indicou uma máquina no canto esquerdo da sala –, fiquei a vontade.
Contente em ver a atenção do atendente retornar para ele e em descobrir uma máquina de bebidas por perto, Alfred soltou um suspiro extasiado. Afinal, um bom café e uma troca – ok, ok, um “envio” – de flertes com um cara atraente era definitivamente um programa prazeroso para aquela tarde.
- Eu vou aceitar a sua proposta! Obrigado. – ele sorriu e logo em seguida adicionou com uma resoluta disposição gentil — Eu posso pegar um para você? Eu pago. Deve ser cansativo ter que aguentar as burocracias de um trabalho como seu.
- Ah! – Arthur exclamou, surpreso. Não era sempre que um cliente se oferecia para lhe pagar uma bebida, mesmo esta sendo café (com exceção de uma senhora exageradamente simpática que sempre enviava presentes para as suas filhas em Marte, e que por algum motivo sempre parecia que tinha vindo direto de um salão de beleza) – Obrigado, mas não, eu... Eu não gosto de café. Prefiro chá.
- Sério? Eu não entendo o seu gosto, mas tudo bem. Eu compro chá para você. — Alfred apressou-se em dizer — Qual sabor e temperatura você quer?
- Chá é muito melhor do que café. – Arthur comentou, e sentiu mais uma vez o seu rosto esquentar. Seu primeiro pensamento foi dizer que não, estava bem, não precisava que Jones o comprasse nada, mas... Ao invés disso, se viu fazendo aquele comentário bobo de que chá era melhor do que café. Arthur decidiu culpar o sorriso do tal Jones. Sim. O sorriso dele era exagerada e desnecessariamente alegre de tal forma que o pareceucrueldizer que não queria nada. Enquanto desviava suavemente o olhar, respondeu a pergunta — Ahn, chá verde, 65ºC, obrigado...
Repetindo as informações “Chá verde, 65 graus. Chá verde, 65 graus.” em pensamento, Alfred retirou-se com certa pressa para não acabar trazendo, de algum modo, um chá de flores de laranjeira em 40 graus. Ele estava ciente de que não tinha uma memória ruim, o que não queria dizer que ele não se atrapalhasse bastante ao lidar com coisas com as quais ele não tinha experiência.
Chás eram uma dessas coisas. Ele não conhecia a diferença entre um chá de cidreira e um chá de menta. Ele nem sabia o que "chá verde" significava. Não haviam vários chás que eram verdes?
Os terráqueos tinham mais hábito de beber chá por conta da diversidade de ervas que eles tinham à disposição. Na Lua, no entanto, as pessoas eram acostumadas com sabores fortes para compensar a falta de volume nos seus alimentos e o chá... Ou pelo menos, o chá com sabor artificial produzido ali era fraco demais para os gostos da maioria dos lunistas.
Era curioso ver diferenças culturais em aplicação prática. Ele e o Kirkland realmente vinham de mundos diferentes, não era? Enquanto esperava os copos brancos se encherem de água em uma temperatura neutra, Alfred se perguntou quais eram seriam as outras que ele poderia descobrir se fizesse um esforço para tanto.
Cantarolando em volume baixo, ele apertou as teclas do aparelho gigante. Um café grande com toques de caramelo, cobertura de chocolate e de morango, com confeitos e granulados na temperatura de oitenta graus. Um chá verde de 65 graus, ele colocou orgulhosamente.
Quando voltou, carregando as duas bebidas em uma bandeja, ele se sentiu como um herói após salvar o dia.
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Arthur observou Jones se afastar e, instantes depois, retornar – seus olhos só foram brevemente desviados quando um cliente entrou no estabelecimento e caminhou até a mesa de seu colega a direita, mas, com exceção disso, observou todo o trajeto do seu cliente, e percebeu que ele estava ou resmungando alguma coisa, falando consigo mesmo ou cantarolando. Por alguns instantes, sentiu vontade de perguntar o que ele estivera cantando, mas se conteve.
- Obrigado. – murmurou quando Jones lhe entregou a sua bebida, e rapidamente levou o copo até os lábios. Um discreto e breve sorriso pôde ser visto em seu rosto após experimentar a bebida. – Você é muito gentil, senhor Jones. – ele tornou a agradecer – Espero que não lhe façam esperar muito, você deve ter coisas mais importantes para fazer.
- Bah. Eu não me importo se eles demorarem séculos. – Alfred riu em um volume mais alto do que esperava, um pouco antes de chegar a uma realização que fez seu sorriso petrificar-se.
Essa não. A fala dele havia soado super-estranha. Por piores que fossem as habilidades sociais de Alfred F. Jones, era puro bom senso saber que não havia um cliente normal que lançasse uma afirmativa dessas!
Ele tentou desesperadamente mudar de assunto.
- Er... Você disse que está morando aqui há quatro anos, não é? Como foi a experiência da mudança?
Ao aguardar a resposta do Kirkland, ele praticamente afundou o seu rosto no copo de café. “Muito sexy, Alfred F. Jones”, ele se repreendeu, tentando culpar o vapor do café pelo rubor em seu rosto.
- Eu... – Arthur murmurou, mas não soube exatamente como responder, num primeiro momento. O comentário inicial de Jonesforabastante estranho e, além disso, Kirkland não conseguia ver muitos motivos para que Jones estivesse fazendo tantas perguntas sobre sua vida. Geralmente os clientes gostavam defalarsobre suas vidas, nãoouvirsobre a vida dos funcionários. Era estranho. Se a expressão de Jones naquele momento não fosse tão bonitinha, Kirkland teria dito que já voltava, seguiria até a sala de seu superior e o obrigaria a fazer o seu serviço o mais rápido possível.
Após tomar mais um gole de seu chá e dar uma breve olhada em seu monitor, Arthur deu de ombros e resolveu responder a pergunta, mesmo que sem muitos detalhes:
– Foi... Complicado, no começo. Digo, eu sabia que haveria diferenças em relação à Terra, mas não sabia que eram tantas... M-mas depois me acostumei.
- Por que você se mudou para a Lua? – Alfred tomou um gole do seu café, sentindo-se mais relaxado ao degustar o sabor doce e quente. — Além do fato de que essa é a melhor Região Habitável de todos os tempos? – ele deu uma nota de implicância aos cantos da sua boca, os quais eram visíveis, apesar do copo que cobria parcialmente a parte inferior do seu rosto.
- Na minha opinião, a Terra é a melhor Região Habitável. – Arthur respondeu rapidamente, embora não sentisse vontade de discutir o assunto; logo nos seus primeiros meses na Lua, um de seus colegas de serviço e ele tiveram uma discussão sobre aquilo – no fim das contas eles simplesmente pararam de se falar, e não chegaram a nenhuma conclusão sobre qual era “a melhor” Região Habitável. De qualquer forma, comentou, para evitar um pouco a primeira questão, sobre a qual não se sentia muito a vontade de conversar com um estranho, por mais simples (e boba) que a resposta pudesse ser – É verdade que na Terra eles mostram a Lua como um lugar maravilhoso, e até tinha uma propaganda que dizia que na Lua os “sonhos se tornam realidade”... Mas eu ainda considero a Terra um lugar melhor. As pessoas são mais simples, há campos vastos e lindos... É mais calmo, sabe? Não é tão agitado quanto aqui. Há muitas coisas que você não pode fazer quando bem entender lá, claro, mas ainda assim... É um ótimo lugar. Pretendo voltar pra lá, algum dia. – Arthur sorriu brevemente ao terminar de falar, mas seu sorriso não demorou a ser ocultado pelo copo de chá.
De repente, a despeito da quantidade de granulados e confeitos, dos toques de caramelo e das coberturas de morango e de chocolate, o café de Alfred pareceu um pouco mais amargo.
Oh. O Kirkland pretendia voltar para casa algum dia. Essa era uma notícia um pouco desapontadora.
Naquela altura, Alfred não estava exatamente pretendendo se casar com o atendente. Aquela era somente uma troca – “envio” – de flertes inocentes, claro. No entanto, era um tanto duro saber que ele provavelmente nunca poderia namorar com o senhor Kirkland se um dia ele quisesse.
Relacionamentos à distância eram difíceis. Principalmente quando a distância precisava ser atravessada de foguete. Essa relação não poderia dar certo.
O que era uma bela droga, para ser honesto.
- Sei... – Alfred suspirou fundo e tentou manter a suavidade na sua expressão ao sentir os seus traços se tornarem acidentalmente mais graves, como se as suas feições estivessem se contraindo por conta própria. — Foi para isso que você veio para a Lua? – ele ergueu uma sobrancelha — “Para tornar os seus sonhos realidade”?
Aquela pergunta era basicamente a primeira pergunta da qual Arthur tentara se esquivar, mas de uma forma que o fazia se sentir um tanto constrangido. Parecia tão bobo, colocado daquela forma...
- N-não... Bem, sim... Digo, não exatamente... – Arthur suspirou e encolheu os ombros antes de continuar – Eu amo a Terra, mas queria ver se a Lua era realmente como a mostravam. Eu achava que não era tanto, mas... Estava enganado. E... Bem, eu... Gosto de desenhar, e pensei... A arquitetura da Lua é realmente maravilhosa! Então pensei que seria interessante desenha-la. Com papel e lápis, mesmo, e não com tablets e etcs – as pessoas daqui basicamente só usam essas coisas, e acredito que seja interessante passar toda essa tecnologia pra algoultrapassado, por assim dizer, como o papel... – Arthur explicou.
Sua mãe achara aquela ideia absurda quando Arthur, anos atrás, levantara-se durante o jantar e falara qual o seu plano para o futuro. Sua mãe dissera que ele era inteligente demais para desperdiçar sua vida desenhando, quando poderia fazer coisas muito mais significantes e importantes. Mas Arthur realmente não se importava em fazer coisas que fossem importantes para os outros. Aquele projeto era importante para si, e mesmo que ele acabasse sua vida em seu pequeno apartamento abarrotado de desenhos, fotos e pinturas sobre as quais ninguém se importava, estava tudo bem para si, porque sabia que tinha feito algo que gostava.
- M-mas, de qualquer forma... A Lua é capaz de realizar os sonhos de quem passa a vida toda por aqui, ou é só uma propaganda que vendem pras outras Regiões Habitáveis? – Arthur indagou, tentando fazer Jones ignorar a sua resposta, ou pelo menos não fazer nenhum comentário sobre ela.
Ouvindo o Kirkland falar sobre o seu projeto pessoal e suas motivações, Alfred ficou fascinado com a sua obstinação e com a natureza particular dos seus planos. Ele nutria da mesma paixão pela arquitetura lunar e não poderia estar mais empático aos sentimentos do Kirkland ou mais curioso em ver os seus futuros resultados. Alfred F. Jones nunca ouvira falar de um plano como aquele – colocar a arquitetura da Lua em uma forma de arte típica da Terra! Quem pensaria em uma combinação dessas, huh? — e muito menos de uma pessoa que tivesse coragem de se mudar para uma Região Habitável totalmente diferente da sua para conseguir sua realização. Ele achou a estória incrível e ficou um pouco sem fôlego ao final dela.
Ah, mas o senhor Kirkland tinha feito uma pergunta.
- Eu não sei. Os meus sonhos se realizaram, porém não sei se isso realmente conta, uma vez que a mesma propaganda é feita da Terra por aqui. “Vá para o planeta-mãe e realize seus sonhos”. Pode haver certo exagero das duas partes. Eu acho que existe uma tensão sexual entre a Terra e a Lua, sei lá. – ele comentou brevemente, agitando um pouco sua cabeça para os lados e ansiando em passar para o tópico que realmente o capturara. – Voltando ao assunto inicial... Wow. – Alfred inspirou fundo e sorriu com admiração — O seu projeto é, tipo, super-legal, Kirkland. Boa sorte mesmo! – ele o encorajou, iluminando o seu rosto com sincero entusiasmo – Eu também desenho! Há, há! No meu caso, é o meu emprego, então não é divertido sempre! Eu projeto novos modelos de carros antigravitacionais, sabe. Ah, mas eu desenho em uma tela de simulação tridimensional e nunca vi um papel antes! Eu ouvi falar que eles eram feitos... a partir de árvores? Caramba. Eu não consigo imaginar como vocês conseguem desenhar em algo assim.
- A-ah... M-muito obrigado... – Arthur murmurou em resposta, sentindo-se corar. Não era sempre que falava sobre seus projetos, ainda mais com estranhos, mas... Frequentemente, não era encorajado a continuar, pelo contrário: quando não diziam que aquela ideia era completamente sem sentido, riam. O sorriso do senhor Jones foi tão contagiante que Arthur nem percebeu quando um sorriso delineou seus próprios lábios.
- E, sim, isso mesmo, o papel é feito de celulose... Não é algo muito procurado hoje em dia, então seu preço é consideravelmente alto, mas vale a pena. Por mais simples que seja desenhar com telas de simulação, o papel é mais... Natural? Por exemplo, se você errar em uma tela, pode apertar uma tecla e desfazer o erro; no papel, você precisa usar uma borracha, e de qualquer forma, tomar cuidado para não pressionar demais o lápis é muito importante, se não o papel fica marcado, mesmo depois de apagar. É como a vida, eu diria... Você precisa tomar cuidado com os seus atos, porque dependendo do que você faz, mesmo um pedido de desculpas não consegue fazer as coisas voltarem a ser como eram... – explicou, contente por conhecer tão bem algo que um lunista, geralmente tão cheios de si, nunca tinha visto.
Quem o visse falando tão tranquilamente sobre como desenhar em papel e comparando isso com os erros humanos não podia imaginar a quantidade de palavras de baixo calão que ele era capaz de colocar na mesma frase.
Inocente quanto a porção... Er, menos sensível do atendente, Alfred quis perguntar como o senhor Kirkland havia pensado em uma metáfora tão encantadora envolvendo um meio de desenhar. Não havia nada de poético em uma tela de simulação tridimensional e isso o levava a se indagar se era o tal “papel” que tinha poesia em si ou se era o Kirkland que dava poesia aos objetos.
Alfred ansiava descobrir mais coisas sobre papéis, sonhos e desenhos. Céus, como ele queria descobrir mais sobre o Kirkland.
Entretanto, como se o Destino o recriminasse por ser apressado demais, ele viu o balcão começar a piscar lentamente, acendendo-se em verde e apagando-se em seguida. Repetidamente. No ritmo calmo e hipnótico da respiração durante o sono.
Não havia como ignorar o que estava acontecendo.
- A minha autorização chegou, não foi? – ele voltou seus olhos para o chão com um sorriso um tanto forçado.
Arthur baixou o rosto e abriu o registro que acabara de lhe ser enviado antes de responder, um pouquinho desanimado:
- Sim, chegou. – apesar de Jones ser um completo estranho para si, estava começando a gostar de conversar com ele. E talvez fosse levar muito tempo para eles voltarem a se ver, se isso chegasse a acontecer. – Ah, bem, voc—o senhor gostaria de enviar o seu objeto para a mesma pessoa que enviou da última vez, certo? Você já disse que não se lembra do endereço, é verdade, mas não posso deixar de perguntar: o senhor confirma este endereço e destinatário? – Arthur digitou algumas coisas antes de fazer com que a tela no balcão se iluminasse, e exibiu ali os dados do último envio de Jones.
Após receber sua confirmação, seguiu o processo padrão de etiquetar e encaminhar o objeto. Em seguida, entregou a Jones um recibo.
- A-ah, bem... – Arthur começou, mas se interrompeu para pigarrear – Como... Como o senhor me pagou um chá, achei justo pagar para você a taxa para que o seu destinatário possa receber o objeto em casa, e... Apenas para ser justo, sabe, e... Ahn... Tenha uma boa tarde... e um bom feriado... – sentindo o rosto esquentar ainda mais, desviou o olhar para o chão, mantendo a mão direita estendida, ainda esperando que Jones apanhasse o recibo.
- Tenha um ótimo feriado também, Kirk... – no movimento de se inclinar para apanhar o recibo, Alfred finalmente percebeu um detalhe que ele não havia noticiado antes – Você está com um crachá, dessa vez? – ele riu da maneira como o Kirkland corou e franziu as suas sobrancelhas com esse comentário. Era uma reação bem inesperada para uma observação tão inocente. Alfred não poderia dizer que não se divertiu um pouco com ela. — Bem, como eu dizia, tenha um ótimo feriado... – ele deu um meio-sorriso e utilizou, com um prazer vagamente implicante, o seu novo conhecimento — “Arthur”.
Despedindo-se de “Arthur”, ele deu um rápido piscar em sua direção e acenou até sair da central de teletransporte.
Dividido entre resmungar que não tinha dado permissão a Jones para chama-lo pelo primeiro nome e sentir seu rosto quente pelo modo como ele havia se retirado, Arthur Kirkland suspirou, e seus olhos foram desviados para o seu copo de chá pela metade. O líquido não estava tão quente quanto gostaria, mas o bebeu calmamente enquanto observava um de seus colegas atender um cliente, perguntando-se se voltaria a ver aquele sujeito cujo sorriso era tão encantador. Uma parte de si desejou que fosse logo. O restante o fez caminhar até o local apropriado para o lixo e deixar seu copo vazio lá.
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Alfred F. Jones geralmente era demasiadamente obstinado para se sentir confuso em relação às suas próprias decisões. Ele seguia seu primeiro instinto e o levava adiante, destruindo todos os obstáculos, ignorando todas as críticas construtivas e não recuando mesmo quando ele percebia que havia que havia feito um palpite completamente estúpido. As suas piores decisões não eram realmente nocivas, então por que desperdiçar energia arrependendo-se delas e tentando modificá-las? Ele lidaria com as conseqüências como pudesse, porém não se desmentiria abertamente.
Sendo assim, ele conseguiu surpreender a si mesmo ao noticiar que ele estava totalmente perdido em relação ao Kirkland.
A sua parte racional com a voz similar a do Matthew dizia “ele vai voltar para a Terra em algum momento. Vocês não poderão ter um relacionamento sério, caso você passe a gostar de verdade dele. Não invista tanto nisso. Você irá se machucar, seu grande idiota.”, o que era perfeitamente sensato, tirando o insulto desnecessário. Todavia, a sua parte insensata era bem mais barulhenta e insistente, e ela dizia “Mas você quer vê-lo, não quer? Não quer? Não quer?”. Aquilo estava acabando com Alfred como um último chefão em um RPG.
Ao menos, ele teve tempo para adiar uma decisão. Ele não pôde ir para a central de teletransportes, durante o feriado prolongado, porque ela estava fechada. Também não pôde, na semana seguinte, porque um número absurdo de pessoas costumava, nesse período, fazer os envios que foram acumulados por conta do feriado e outras enviavam presentes de agradecimentos pelas visitas que foram realizadas na semana anterior. Enfim, era uma época tão tumultuada que não valia a pena ir para lá, visto que Arthur mal teria um minuto para dedicar a ele e o próprio Alfred, acreditem ou não, tinha um trabalho e uma vida, não tendo condições de ficar dois milênios em uma fila para conseguir trinta segundos com o Kirkland.
Quando chegou a terceira semana, ele não teve mais desculpas pragmáticas para evitar a central de teletransportes e precisou tomar uma decisão.
Depois de pensar muito bem, naqueles dias em que passou afastado de Arthur Kirkland, ele constatou que tinha mais a perder do que a ganhar visitando o atendente terráqueo e que era muito mais racional evitá-lo, uma vez que a experiência estava envolvendo um gasto de tempo e dinheiro, além de ter riscos sérios para os seus sentimentos.
Infelizmente, ele também constatou que aquelas duas semanas sem ver o Kirkland o deixaram terrivelmente, horrivelmente ansioso para reencontrá-lo.
Ele queria ver o Arthur e o fato de que este se encontrava há uma distância razoável, um ponto específico e acessível e a única coisa que impedia Alfred de visitá-lo era a sua precaução, não era fácil de lidar. Ele sempre foi uma pessoa ligada demais ao "agora" para conseguir se impedir de seguir o seu impulso de correr na direção de Arthur Kirkland, sorrir para ele e buscar conhecê-lo melhor, por conta de um futuro atualmente meio ofuscado.
O seu lado racional perseverou enquanto pôde, todavia era uma batalha perdida. Por fim, Alfred declarou internamente um “Que se dane!” em letras garrafais, dirigindo-se ao centro comercial local para comprar quatro presentes.
Se fosse para cair, ele cairia como estivesse aguentando a gravidade de Júpiter.
Ele decidiu enviar quatro pacotes e conseguir alguns minutos-extras com o Kirkland. Quatro pacotes não excediam o limite de teletransportes que não eram mandados para uma sessão especial, embora por pouco. E sim, sim, ele consultou isso na Rede para dar pelo menos um funcionamento cabível para a sua racionalidade.
Como foi dito, Alfred F. Jones era um indivíduo obstinado.
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Naquele final de tarde, tudo que Arthur Kirkland mais queria era que o seu horário de expediente acabasse de uma vez para que pudesse ir para casa. Comparado com as semanas anteriores, o movimento naquele dia estava bem tranquilo, o que lhe dava alguns minutos livres para pensar nas coisas que gostaria de fazer quando chegasse em casa – como continuar lendo aquele e-book novo do seu escritor favorito – ou nas atividades que tinha programado para o final de semana – como passear por áreas da Lua com as quais não estava muito familiarizado, para procurar novas paisagens urbanas para pintar – ou ainda... Bem, se voltaria a ver aquele tal Jones. Arthur estaria mentindo se dissesse que não havia reparado em nada de diferente em Jones (e ele definitivamente mentiria, caso alguém perguntasse sobre o assunto). Adorara o sorriso dele. Contagiante, alegre; era difícil ver pessoas sorrindo com tamanha naturalidade e sinceridade, e isso intrigara Arthur. Era praticamente impossível deixar de se perguntar os motivos daquela alegria. Ele teria muitos amigos? Sim, com certeza tinha. O que será que ele fazia para passar o tempo? Com quem morava? Será que ele tinha namorada? Provavelmente sim.
Este último pensamento sempre arrancava um suspiro de Kirkland, e ele se sentia um pouco desapontado. Jones o pagara um chá, afinal. E isso deu abertura a mente de Arthur para criar cenários envolvendo Jones, por mais aleatórios e impossíveis que eles fossem. E aí estava outra coisa que ele não contaria para absolutamente ninguém.
E Kirkland estava permitindo-se desfrutar de mais um daqueles cenários improváveis quando seus olhos focalizaram numa figura que vinha a passos rápidos em sua direção. Ele engoliu uma exclamação de surpresa quando identificouquemera. Jones! Era definitivamente Jones!
Apesar de ajeitar a postura e pigarrear, Arthur desviou o olhar, mostrando-se repentinamente muito interessado em ajeitar o seu crachá.
- Ah, Jones! – Arthur disse quando o cliente já estava próximo o suficiente para ouvi-lo, mas não longe demais de modo que Arthur tivesse que gritar – Digo! Senhor Jones. – ele sorriu meio sem graça enquanto estendia para o outro o aparelho para recolher suas digitais. – Boa tarde.
Se restava em Alfred qualquer indício de dúvida quanto a sua queda irremediável pelo atendente, ele foi dissolvido como um comprimido efervescente lançado na água, quando se deparou com a curva delicada de alegria nos lábios de Arthur Kirkland.
Wow. Aquilo era simplesmente amável. Alfred tinha tanta sorte, cara. De todos os atendentes de teletransporte, ele foi atendido de primeira por aquele que tinha um sorriso minúsculo e dificilmente conquistável, mas super-hiper-mega-ultra adorável.
Caramba. Se ele soubesse que teria uma visão como essa ao vir para central de teletransportes, ele estaria enviando caixas aleatórias semanalmente às outras Regiões Habitáveis há anos. Como é que os outros clientes não estavam reparando no que estava, literalmente, na frente deles?
Ele entrou em um transe temporário e precisou de alguns instantes para realizar que ele precisava dar uma resposta ao confuso atendente à sua frente. Após ser acometido por esse lampejo de vergonha, ele piscou várias vezes e começou a alongar um pouco os ombros para tentar se manter mais ativo e desperto.
- Ah, hm! – “fale alguma coisa logo!” – Ei, Arthur! Olá! Digo, boa tarde!
Ele queria tanto bater a palma da sua mão contra a sua face que precisou executar com concentração o movimento de direcioná-la para o scanner da sua digital.
- Nossa. E eu pensei que iria encontrá-lo em cacos depois desse feriado! – ele riu com certo nervosismo, tentando evitar olhar diretamente para o rosto de Arthur. Ele não tinha confiança total de que poderia tirar os seus olhos dele se permitisse que eles subissem. — A sua resistência é maior do que eu previa, considerando-se a sua idade. – ele comentou vagamente impressionado e distraído.
- Ah. – Arthur murmurou, um pouco atordoado e igualmente desapontado – N-não sou tão velho assim, sabe! Pode parecer, mas não sou... – continuou, e sua fala foi seguida de um suspiro. Pensou em acrescentar que, sim, o movimento pós-feriado havia sidoinfernal, mas que tivera tempo para se recuperar dele depois de um final de semana tranquilo e relaxado. Mas não fez nenhum comentário sobre o assunto. Ao erguer o olhar, constatou que o sorriso de Jones continuava encantadoramente sincero, e isto fez com que o sorriso de Kirkland resvalasse e o obrigasse, mesmo que momentaneamente, a mordiscar o lábio inferior. Ficar imaginando coisas impossíveis não era algo bom, Arthur disse para si mesmo, fazer isso enche a mente de falsas esperanças e ideias erradas sobre as pessoas.
Jones só podia estar debochando dele, não é? O chamando de velho descaradamente, e continuando a manter um sorriso no rosto. Arthur se perguntou se estava com olheiras muito profundas, ou se seu cabelo estava demasiadamente bagunçado... Talvez tivesse rugas precoces ao redor dos olhos e ainda não tivesse percebido?
- Senhor Jones, qual o endereço do destinatário? – indagou, mantendo os olhos fixos em seu monitor e mecanicamente levando a mão até os cabelos, para tentar ajeitá-los.
Para ser franco, Alfred estranhou a resposta do Kirkland. Para onde havia ido aquele sorriso macio conquistado após três visitas, seis presentes e um chá? Era tão estranho. Er... Ele havia dito alguma coisa de errado? Nah. Não podia ser.
Ah! Talvez o Arthur estivesse apenas tentando oferecer um bom atendimento. Há, há! Quão responsável da parte dele. Veja, ele estava até arrumando o cabelo para ter uma aparência mais apropriada durante o serviço.
Era compreensível que Arthur estivesse mostrando o seu comprometimento com a sua função. Flertes à parte, trabalho era trabalho. Se o Kirkland ficasse dando atenção contínua a cada cara que o paquerasse no balcão, ele provavelmente não terminaria o seu serviço nunca. Alfred estava certo de que devia haver uma dúzia de admiradores dando em cima dele.
A despeito dos profissionalismos necessários, Alfred tinha o seu trunfo para conseguir tempo de conversar. Obrigado, feriado da amizade interplanetária. Alfred F. Jones ganhou a desculpa perfeita para enviar presentes ao Matthew e família de um modo que evitasse que o seu irmão desconfiasse da quantidade excessiva de teletransportes interplanetários que ele estava fazendo.
Se o Matt descobrisse que Alfred só havia voltado a enviar presentes, depois de dois anos de negligência, por conta de um atendente bonitinho com quem ele gostava de flertar ocasionalmente, o senhor Williams-Braginsky com certeza arranjaria um modo de driblar as leis interplanetárias de teletransporte e enviar uma serpente venenosa diretamente para a casa dele. O seu cunhado, Ivan, definitivamente o ajudaria.
Aquele Ivan nunca se entendeu com Alfred.
Sorte daquele desgraçado que ele morava na Terra e Alfred F. Jones precisou utilizar-se da existência dele para enviar um presente adicional. Que o cretino se divertisse com a caixa de preservativos PP que ele estava enviando.
De todo modo, com um recurso à sua disposição, Alfred precisava pular as formalidades e desfrutar do pouco tempo que eles teriam.
- Matthew Williams-Braginsky. Terra, zona D, área 2345. Eu vou digitar o código interno e pagar a bendita taxa. – ele despejou as informações o mais breve possível para sair daquela zona profissional da relação dos dois. Havia quatro encomendas para passarem por verificações de segurança, serem empacotadas e etc, o que dava ao Alfred uns cinco minutos a mais. Minutos que ele queria aproveitar ao máximo. — O que você fez durante o feriado, Arthur?
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Kirkland sentiu-se mais uma vez dividido, mas dessa vez entre falar sobre as coisas que realmente tinha feito no final de semana ou manter-se quieto sobre isso. Afinal, talvez... Talvez Jones não tivesse feito aquele comentário por maldade? Mas... Também era verdade que ele parecia com pressa, apesar da pergunta que fizera. Talvez ele apenas estivesse tentando ser educado, depois de tê-loofendido.
- Só... tirei algumas fotos. – Arthur ergueu brevemente o olhar, decidindo por resumir seu feriado em uma sentença curta. — E você? Aproveitou o feriado para sair com os amigos e fazer todas aquelas coisas que osjovensfazem? – Arthur indagou, não conseguindo deixar de lado um pouco de sarcasmo.
Ao receber esse questionamento, Alfred ergueu uma sobrancelha interrogativa. Hmmm... Havia algo na tonalidade do Kirkland que o lembrava da sua mãe dando uma indireta para que ele se comportasse na frente das visitas. Entretanto, os contextos eram totalmente diferentes e ele não conseguiu captar o elo entre os dois, escolhendo ignorá-lo.
Bah, não era possível que o Arthur estivesse bravo com ele. Não havia motivo algum para isso.
O que não mudava o fato de que a sua escolha de palavras foi bastante cômica. "Coisas que os jovens fazem"? Pfff! Quem falava daquele modo mesmo na provável idade do Kirkland? Ah! Aquele Arthur...
- Caramba, Arthur! – ele riu, arregalando ligeiramente os olhos — Falando assim, você realmente está parecendo um senhor de meia-idade! – após abrandar os seus risos, com uma malícia quase instintiva, ele inclinou-se para frente e colocou uma mão sob o queixo, dando um meio-sorriso e deixando os seus olhos brincarem com o senhor Kirkland — O que são todas essas coisas que os jovens fazem, huh?
Arthur franziu as sobrancelhas. E ao perceber que corara, aproveitou para virar-se para a direita e empacotar os objetos que Jones iria teletransportar.
Agora tinha certeza: Jones estava realmente decidido a fazer piada de si! Só podia ser isso, não havia nenhuma outra explicação lógica. Se não fosse por aqueles comentários – afinal Arthur só tinha 26 anos! E o tal Jones não era muito mais novo que isso, Arthur permitira-se dar uma espiada na data de aniversário de Alfred Jones na vez anterior em que ele estivera ali, todo gentil e o pagando um chá... De qualquer forma, se não fosse por aqueles comentários sobre Arthur ser umsenhor de meia-idade, Arthur até começaria a crer que Jones estava flertando consigo! Afinal, achara o seu sorriso encantador, mas o meio-sorriso que ele estava lhe dirigindo... Ah, era bem sexy... Mas isso não importava mais. Não.
- Não sei. – Arthur resmungou, sem virar-se na direção de Jones – Não sei o que os jovens fazem porque sou um senhor de meia-idade, não é?Vocêdeve saber muito bem o que os jovens fazem, então devia procurar umjovempara fazê-las com você.
- O quê? Você está ofendido? Sério?
Alfred ficou estupefato com a confirmação de que o atendente estava descendo os degraus do humor em uma velocidade perturbadora.
Ele não conseguia compreender claramente por que Arthur estava se chateando com ele e se distanciando mais e mais da sua anterior figura tímida e sorridente, todavia a ênfase no comentário sobre a faixa etária dos dois deixou uma boa pista do que estava acontecendo. Esclarecimentos eram necessários.
- Em primeiro lugar, Arthur, você não parece velho fisicamente. – ele adotou um semblante mais sério para deixar claro o seu ponto. Urgh. Ele não estava acreditando que era necessário dar uma explicação como aquela! — Se eu fosse avaliar somente pela sua aparência, eu diria que você é mais novo do que eu. No entanto, a personalidade também conta na análise dessas coisas e você soa como um homem mais maduro. Com uns trinta anos, eu acho? O jeito como você fala lembra o de um senhor de meia-idade de vez em quando, mas e daí? Não há nada de errado em ser velho. Lembra daquela figura mitológica dos antigos terrestres que usava dispositivos antigravitacionais nas renas e entregava presentes para as crianças em dezembro? Ele era velho, mas todo mundo o amava!
Os olhos de Arthur voltaram-se rapidamente na direção de Jones e fixaram-se nele, seu rosto fervendo.
Na Terra, ensinavam sobre a cultura da grande maioria dos povos que haviam vivido por lá. E, obviamente, ensinavam as crianças sobre aquela figura mitológica da qual Jones estava falando. Papai Noel, era o nome... Jones o estava comparando com o Papai Noel...
Arthur achou aquela comparação boba, mas sentiu-se incrivelmente ainda mais bobo por ter agido como se fosse alguma coisa de Jones e estivesse com ciúme de algum amigo ou amiga dele. Aquilo era tão ridículo!
- Oh... E-eu... ahn... – Arthur começou, mas não teve certeza de como deveria continuar. Ah, estava se sentindo tão envergonhado. Seus olhos desviaram-se rapidamente de Jones e voltaram a se focar nos pacotes, perguntando-se se o melhor não seria se desculpar...
...Mas a culpa não era sua! Jones quem começara aquilo!
Após um pigarro, murmurou:
– T-tenho vinte e seis anos...
Sinceramente? Alfred não ficou muito satisfeito com aquela resposta. Nada contra a idade do senhor Kirkland. Ele podia revelar ser um ciborgue com dois mil anos de existência e Alfred iria adorá-lo do mesmo modo – em fatos, uma revelação como essa seria super-legal. Podia parecer bobagem, entretanto Alfred F. Jones apenas estava meio frustrado porque ele havia errado os seus dois palpites! O Kirkland não possuía trinta anos e não era mais novo do que ele. Oh, droga. Ele errou tão feio.
- Então você é apenas três anos mais velho do que eu, não é? – Alfred perguntou, apoiando as suas mãos no balcão e encarando o chão com as suas sobrancelhas franzidas, deixando um bico infantil aborrecido escapar acidentalmente.
Ele acabou falando como se o Kirkland se lembrasse da sua idade e optou por não se corrigir. Três erros em poucos segundos era demais para ele.
- Sou... – Arthur murmurou, mas não demorou a corrigir o tom de voz que usara, passando de um afirmativo para um interrogativo – A-ah... Sou?
Enquanto retirava os pacotes de Jones de uma máquina e os colocava em outra, Arthur comentou, tentando manter sua voz calma:
- Então você tem vinte e três anos,senhorJones? Você parece ser um pouco mais novo... Sabe, uns vinte, talvez menos. – seus olhos foram desviados para os lábios de Jones, onde ainda se encontrava um inconfundível beicinho. Um sorriso apareceu, por uma fração de segundo, no rosto de Arthur, mas não tardou a dar lugar a uma expressão neutra.
Por mais que tivesse sentido vontade de fazer comentários a respeito da expressão de Jones, chamá-lo, por meio de ironia e sarcasmo, de infantil e outras coisas mais, Arthur decidiu se calar. Jones era só um cliente. Impertinente, mas ainda assim só um cliente. Bonito, também, e... Só um cliente. Que iria embora e só voltaria caso precisasse enviar alguma outra coisa para algum amigo ou parente que vive em outra Região Habitável. Arthur suspirou.
Alfred quis retrucar sobre aquele comentário totalmente injusto quanto à sua idade. Sentindo, no entanto, os olhares dos outros clientes quase espetarem a sua nuca, ele percebeu que os dois estavam próximos demais do limite de tempo que tinham juntos, então engoliu aquela pequena provocação.
Ele havia trazido mais pacotes para ganhar um tempo-extra com o Arthur, e se dependesse somente dele, todos os outros fregueses podiam esperar mais alguns dias (aquela era uma central de teletransporte, não uma ala de emergências!), porém, infelizmente, ele não podia agir assim, pois aquela não era uma simples questão de consideração alheia.
O Arthur estava em serviço e, por mais que fosse um saco reconhecer isso, o Alfred estava o atrasando e poderia prejudicá-lo profissionalmente! Ele não podia abusar das circunstâncias. Não seria nada heróico.
- Hm. Você disse que bateu fotos nesse feriado, não é? – ele perguntou amistosamente, tentando voltar a explorar proveitosamente o tempo limite dos dois — Do quê?
- Ah, sim... – Arthur respondeu. Já tinha quase esquecido que havia comentado aquilo com Jones. E também pensava que, bem, ele simplesmente ignoraria a informação. – De... Bem, todas os cenários magníficos que consegui encontrar, e não são poucos... Algumas pessoas não gostam que tirem fotos delas ou do lugar onde vivem, sabe, então tive que excluir algumas fotos, na minha opinião, muito boas... – Arthur deu de ombros – Mas não podem me impedir de desenhar esses lugares, e eu pretendo... – Arthur se interrompeu ao perceber o quão extensa a fila estava. Ele arriscou uma olhada rápida para seus lados, e percebeu que seus colegas estavam trabalhando apressadamente e, vez ou outra, olhavam na sua direção com uma expressão emburrada.
Kirkland percebeu imediatamente qual era o problema, e sentiu-se corar. Ah, depois teria que ouvir as reclamações deles contra si... Sacudindo brevemente a cabeça, como se dissesse para Jones deixar de lado o que estava falando anteriormente, Kirkland lhe lançou um sorriso torto e apressou-se em terminar seu serviço, não demorado a entregar a Jones o recibo.
– Tenha uma boa tarde, senhor Jones. Obrigado pela preferência e volte sempre.
- Ei, espera!
- Ahn... Sim? — Arthur respondeu, após piscar duas vezes seguidas — Algum problema?
Alfred apanhou apressadamente a sua maleta executiva e a investigou com o tato até conseguir encontrar um envelope de plástico minúsculo pressionado contra um dos seus bolsos. Era uma pílula de alimentação especial que tinha menos calorias e substâncias combinada com um melhor sabor e durabilidade. Ela era conhecida como “doce” por alguns. Ele não a comprara com o propósito específico de entregá-la para o Arthur... o que não o impedia de seguir um bom instinto e entregá-la prontamente a ele. Ele adorava tentar animar o terráqueo, apesar das reações dele serem tão discretas.
- Você não devia ter pagado o seu chá com um desconto daquela vez! – ele exclamou com um sorriso que fingia ser acusatório, colocando o doce nas mãos do Arthur e evitando tocar nela em excesso para não se distrair e acabar se perdendo nos seus argumentos. Ele havia encontrado uma desculpa boa o suficiente e não podia se delatar com uma expressão nervosa. Seja sutil, Alfred. Sutil e casual. – Tira os meus créditos, sabe? Pegue esse doce para você. Assim nós ficamos quites. – ele piscou e mexeu seu rosto charmosamente – Você gosta de menta?
- E-eu... Gosto... – Kirkland murmurou, fitando a pílula na palma de sua mão. Após verificar a expressão no rosto de Alfred, ele já não tinha mais dúvidas de que ele estava flertando consigo. Arthur só não conseguia entender uma coisa: de todos os funcionários daquele lugar, de todas... todas as pessoas na Lua,por queJones havia escolhido logo Arthur Kirkland com quem flertar? Arthur se considerava ridiculamente comum e sem graça, comparado com todas as pessoas que via diariamente... Ao mesmo tempo, aquela realização fez com que o ego de Arthur inflasse um pouco — afinal de contas o tal Jones era bonito e adorável -, e mesmo estando com o rosto vermelho, Arthur sorriu.
Ele planejou olhar nos olhos de Jones, mas não conseguiu fazer tal coisa por muito tempo.
- Obrigado... E... M-mas não acho que estejamos "quites"... Se algum dia você voltar aqui eu posso... — Arthur pensou em dizer que poderia dar a Alfred o seu número, mas concluiu que isso seria ridículo -... Posso te mostrar como é uma folha de papel. É. Aí ficaríamos quites. — ele tornou a sorrir, encarando a pílula em sua mão.
- Claro. – Alfred concordou um pouco sem fôlego, sentindo o seu sorriso relaxar. – Bom, eu vou ter que deixar você com os seus clientes chatos. Nós nos vemos depois, Arthur.
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Ainda antes de chegar em casa naquele dia, Arthur já estava se arrependendo de não ter passado para o tal Alfred Jones nenhuma forma de contato. Se o tivesse feito, talvez eles pudessem ir até algum lugar legal para conversar, ou poderiam passear, ou quem sabe assistir um daqueles filmes cujo final muda de acordo com o que as pessoas desejam... Ou... Bem, qualquer coisa que não envolvesse Arthur vestindo seu uniforme de trabalho e Alfred levando algum pacote para ser teletransportado soava definitivamente bem para Kirkland.
E assim que colocou os pés dentro de sua residência, Arthur foi imediatamente procurar algumas folhas de papel em branco — manteria uma sempre consigo e a entregaria para Jones quando ele fosse enviar alguma coisa... Kirkland sentiu-se chateado ao pensar que talvez Jones não voltasse por um longo período... O trabalho poderia manter ele ocupado. Talvez ele não sentisse realmente vontade de teletransportar alguma coisa só para vê-lo. Talvez... Ele encontrasse alguma outra pessoa...? Foi difícil afastar tais pensamentos de sua mente, mas quando finalmente conseguiu, decidiu que entregaria para Jones não uma folha em branco, mas sim um desenho de um dos maiores centros comerciais da Lua. Era um lugar alegre, cheio de luzes, vida... Arthur decidiu que combinaria mais com Jones algo assim do que uma folha de papel em branco.
Levou cerca de uma semana para que Kirkland voltasse a ver o rosto — bonito e — alegre de Alfred Jones. Arthur já estava quase cem por cento convencido de que não voltaria a ver Jones tão cedo (embora continuasse a carregar consigo o desenho que planejara entregar para ele), de modo que no instante em que percebeu que a figura que acabara de passar pela porta e que se dirigia ao final da fila era Alfred, sentiu seu coração bater rápido e uma sensação nova e estranha pareceu revirar o seu estômago. Contendo um sorriso e tentando ignorar aqueles estranhos sintomas, apressou-se para atender o senhor a sua frente.
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Naquela tarde, Alfred F. Jones estava tentando ignorar os seus estranhos sintomas ao máximo.
“Você é mais forte do que isso. Nenhum dos seus super-heróis preferidos teria recuado em uma situação dessas. Eles aguentam coisas piores e você pode aguentar também.”, ele precisou repetir para si mesmo ao avançar pela fila, sentindo-se como se pudesse desabar a qualquer momento. O chão parecia mais confortável a ter que permanecer em pé.
Maldito colega de trabalho, trazendo vírus terrestres após o feriado prolongado. Alfred estava febril, exausto e os seus músculos doíam como se ele tivesse se exposto a uma baixa gravidade por dias. Ele precisava deitar, dormir, dormir, dormir...
Mesmo assim, ele foi se arrastando, quase literalmente, para a central de teletransportes somente porque uma semana era tempo demais para ficar sem ver o senhor Kirkland. Porque ele não queria adiar o combinado dos dois e deixar Arthur esperando por ele com um papel por tantos dias. Urgh. Se Alfred não soube antes que aquela queda que ele tinha por Arthur Kirkland iria destruí-lo, ele estava tendo uma prova física disso no momento.
Bom, pelo menos, ele conseguiu ter o bom senso de trazer apenas um pacote. Ganhar um tempo com o Arthur era ótimo, lógico, mas o corpo de Alfred tinha limites e seria vergonhoso parecer mais derrotado do que ele já estava por uma duração mais longa.
Quando a vez dele finalmente chegou, ele estava lidando com dificuldades para se sustentar e precisou se apoiar no balcão. Dessa vez, sem qualquer intenção de ser charmoso.
- Olá, Arthur... – ele tentou sorrir, mas sentiu uma contração de dor um pouco acima do seu olho e o resultado da sua expressão saiu um tanto estranho. – E-Eu vou enviar esse pacote para o mesmo canto de sempre. Como vai você?
- V-você está se sentindo bem...? — Arthur indagou, ignorando a pergunta que lhe tinha sido feita. A expressão de Jones, vista de perto, não parecia nada boa. Ele parecia um pouco doente... Na opinião de Arthur, por mais que estivesse se sentindo realmente contente por poder ver Jones, Jones deveria estar em casa, descansando, não enviando um pacote para outro planeta. Ignorando sua vontade de mandar Jones embora (afinal de contas estava trabalhando e... Bem, não tinha autoridade para fazer isso, de qualquer forma), Arthur pegou o pacote.
Sim, a encomenda foi efetivamente recebida pelo Kirkland, mas por pouco ela não caiu desastradamente das mãos trêmulas do seu cliente.
O mundo estava ondulando na visão de Alfred F. Jones. Todos os objetos pareciam se distorcer e se balançar para lá e para cá, para lá e para cá, em um ritmo nauseante. Ele estava tão tonto que não conseguia deixar de pender para um lado. O seu estômago estava doendo como se pontadas quentes e insistentes o atingissem. Ele sentia um suor frio por debaixo de suas vestes e um calor insuportável queimando o seu rosto.
Ele precisava dormir. Ele precisava se deitar. Ele precisava de água e de uma compressa. Curiosamente, apesar de toda a urgência dessas necessidades, o pensamento mais forte a rodar em torno de sua cabeça era: “O Arthur deve estar achando que eu pareço horrível.”.
Para solucionar em parte esse problema, ele puxou o seu capacete para cima e ativou o seu vidro para, no mínimo, disfarçar a sua palidez, olheiras ou bochechas coradas de febre. Nem o mais famoso dos atores lunistas seria atraente com trinta e oito graus de febre.
- E-Eu estou ótimo! – ele respondeu por dentro do capacete, tentando soar animado. Como ele estava se sentindo bastante enjoado, não tinha vontade nenhuma de falar, mas fez um esforço para conseguir engajar-se um diálogo. Ele já estava ali, afinal. Ele tinha que seguir em frente. – Você gostou do doce que eu dei? Tirando chás, eu não conheço realmente os seus gostos para comida, então...
Kirkland observou o seu cliente atentamente, e concluiu que ele não estava bem. Arthur era o tipo de pessoa que apanhava resfriados só de ouvir falar em um, mas não sentiu vontade de sair de perto de Jones para evitar pegar o que quer que fosse que ele tinha; pelo contrário, sentiu vontade de poder tomar conta dele até que melhorasse. As imagens que se formaram em sua mente fizeram seu rosto ficar vermelho, e ele aproveitou para virar-se para a esquerda e passar o pacote pelos processos de segurança. Não podia, obviamente, tomar conta de Jones, mas podia pelo menos pedir que ele encontrasse alguém que o fizesse (e não foi como se Kirkland tivesse sentido uma breve pontada de ciúmes dessa pessoa, claro; não tinha motivos nenhum para ele sentir ciúmes).
- Prefiro comidas picantes e frutos do mar... Esse segundo é bem caro, por sinal... M-mas gostei do doce, sim. – Arthur sorriu brevemente, entretanto não demorou a pigarrear – E eu trouxe aquele papel sobre o qual comentei da outra vez... M-mas eu só vou entrega-lo se você, senhor Jones, prometer ir direto para casa e descansar. – Arthur dirigiu um olhar sério e autoritário (e talvez um pouquinho preocupado também) a Jones, mas foi só por um instante: logo estava se encarregando de passar o pacote por outra máquina e tentando encontrar as palavras certas para usar, sem muito sucesso – Bem, você não precisa ir, claro, porque não tem que fazer o que eu digo... E não é exatamente da minha conta o que você vai fazer, mas eu... N-não estoupreocupado, claro... Não mais do que deveria estar, digo... Sabe... Essas coisas, enfim... – Arthur tornou a pigarrear e evitou o olhar de Jones, sentindo-se estúpido pelo que acabara de falar. “Oh, droga. Cale a boca, Arthur, cale a boca!”, Kirkland se auto-repreendeu em pensamento.
- Ah! – quando a estranha exigência de Arthur foi escutada (porque ele mesmo havia dito que não estava preocupado, não era?), os olhos de Alfred, apesar de estarem sob pálpebras pesadas e oscilantes, arregalaram-se sutilmente com uma realização– Entendi! Você está com medo de se contaminar? Não se preocupe, cara. Eu estou de capacete, lembra? – a fala dele foi interrompida por um acesso de tosse seca que fez as suas costelas doerem com o impacto repentino.
Eww. Era nojento tossir em um capacete fechado. Mas ele não podia tirá-lo. Era para o bem de ambos. Depois de se recompor, ele ainda esperou até que as partículas dentro do capacete fossem purificadas com a nova leva de oxigênio para prosseguir:
– Hm. Além disso, você é um terráqueo. É super-provável que você tenha imunidade a seja lá o que me atacou.
- Parece que você pegou uma gripe... – Arthur murmurou, mecanicamente encolhendo os ombros – Não tenho imunidade à gripe, mas, eu... Eu não fico doente fácil – mentiu –, então não tem problema, é só... É só que, bem... Você vai se sentir melhor se descansar e tomar um remédio para febre... S-se você estiver febril, claro... – Após indagar se Jones pagaria a taxa para que o destinatário recebesse o seu pacote em casa, Arthur voltou ao assunto anterior – Mas afinal de contas, onde diabos você se enfiou para conseguir uma gripe? É tão raro ver essas doenças em lunistas...
- Um colega de trabalho idiota foi visitar a família dele e voltou com essa doença estúpida. – Alfred resmungou, revirando os olhos com azedume. – Bem, eu tomei um remédio, mas você sabe como são esses vírus dos terráqueos... Quando você pensa que finalmente encontraram um remédio para curá-lo instantaneamente, aparece um novo que precisa de dias para ser curado. Er... Eu agradeço pela consideração, mas doente ou não, eu precisava enviar logo essa encomenda. Eu... – "Não diga a verdade! Não diga a verdade!"– não podia aguentar a ansiedade de mandar esse presente para o Matt. Combina tanto com ele!
Como era um péssimo mentiroso, Alfred riu nervosamente e pôs uma mão atrás do pescoço logo após terminar de falar. Felizmente, esses gestos delatores não deviam ter sido noticiados pelo Kirkland, tendo em conta que resposta dele foi um aparentemente despreocupado:
- Os vírus estão sempre achando formas de superar os nossos avanços, não é? – Arthur comentou, engolindo a vontade de perguntar quem era Matt e por que aquele pequeno painel colorido que funcionava quase como um calendário, mas que só mostrava datas de atividades esportivas, combinava com ele.
Arthur até concluiu que não faria mal nenhum perguntar, mas não queria se mostrar interessado demais... Não seria legal fazer isso, certo? Já havia se mostrado preocupado com a saúde de Jones, não queria deixar transparecer que gostaria de saber mais coisas sobre a vida pessoal dele. Além do mais, se Jones tinha resolvido sair de casa mesmo doente para enviar alguma coisa para o tal Matt... Deveria ser uma pessoa importante para Jones.
- Aqui está o seu recibo – Arthur entregou-o enquanto falava – Ah, um momento. – murmurou, e abriu a pequena e única gaveta de sua mesa. De lá pegou a folha de papel que estivera carregando para todo lado nos últimos dias; hesitou um instante, mas como tinha prometido... Estendeu-a para Jones – Aqui. Não é grande coisa, mas... Mas pelo menos você vai poder sentir a textura do papel.
A febre retardou em alguns segundos a compreensão de Alfred quanto ao que estava recebendo. No entanto, quando ele percebeu do que se tratava, todo o seu corpo foi invadido por uma intensa onda de entusiasmo.
- Você se lembrou?! – o rosto dele conseguiu encher-se de ânimo a despeito dos seus vários sintomas — Awww! Você é o melhor, Artie! – ele sorriu ternamente, imprensando a folha contra o seu coração — Se eu não estivesse tão doente e não houvesse uma barreira indestrutível entre nós, eu poderia beijá-lo! Há, há! – ele deu uma nota adicional de deboche ao seu tom e acrescentou um sorriso mordaz às suas feições para que qualquer fragmento de verdade naquela brincadeira fosse ignorado por Arthur. — Ei, não se preocupe! Era uma piada! Eu não pretendo fazer nada com você, senhor Kirkland!
“Por enquanto.” — ele acrescentou em mente.
Arthur levou a mão esquerda até os cabelos e bagunçou-os imperceptivelmente enquanto forçava um sorriso em seu rosto – Eu entendi... Bem... – ele pigarreou – Espero... Espero que goste, senhor Jones. Eu decidi te entregar uma folha com um desenho, e... Bem, não é algoincrível, e definitivamente não chega aos pés do local que ele representa, mas... Bem, o importante é que está em uma folha de papel. – Arthur riu nervosamente por alguns instantes, como se isso fosse fazer seu rosto ficar menos quente.
Alfred estava mais feliz do que o seu corpo poderia aguentar. Sem exageros românticos. Realmente era mais do que o seu corpo poderia aguentar. Ele queria sorrir e saltitar. Ações que seriam exaustivas para alguém que estava acabado daquele jeito.
O Arthur estava sendo ridicularmente adorável nos últimos minutos. Mais do que a média. O Jones estava um pouco confuso e lento por conta da febre e ele provavelmente teria condições melhores de absorver os últimos acontecimentos ao se recuperar mais. Todavia, por enquanto, ele simplesmente estava alegre em receber uma atenção gentil do senhor Kirkland, embora ele não fizesse idéia do que aquilo se tratava.
- Nossa, Artie... Obrigado. – ele murmurou, fitando Arthur de um modo muito intenso e sincero — Eu... Eu queria agradecer melhor, mas eu acho que estou prestes a cair no chão? – ele riu com nervosismo, cambaleando e quase se desequilibrando totalmente para trás.
Como não queria que o senhor Kirkland pensasse nele como um perdedor que sucumbe a qualquer resfriado, ele se despediu e se retirou rapidamente assim que restabeleceu o equilíbrio. Como precisou apanhar um táxi para chegar em casa, ele decidiu deixar no estacionamento da Central o seu carro antigravitacional — o que não era um problema de fato, pois ele sabia que voltaria para o lugar muito em breve.
Continua...
Notas finais
Essa será uma fic de três partes. Nós já temos a segunda concluída e estamos desenvolvendo a terceira, mas vamos postá-las aos poucos(porque nós somos más).
Se houver interesse da sua parte em escrever algo situado nesse universo alternativo, fique à vontade! Apenas me dê - eu sou a Mayumi Sato, certo? - os créditos pela criação do universo e, caso possível, tente me informar sobre o seu projeto para que eu possa lê-lo! Você também é livre para me consultar sobre mais detalhes desse UA.^_^
Ah! Novamente irei ressaltar que manifestações de interesse por essa fic, como reviews e fanarts seriam EXTREMAMENTE bem vindas!
Obrigada por chegar até aqui! Nós esperamos que vocês continuem a ler, apreciar e comentar essa estória! Até breve ~
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