Na mesma sintonia
48 Noite em claro
Notas iniciais
Uma hora se passou talvez mais, ou talvez menos, ele não saberia dizer de qualquer forma, ficou exatamente na mesma posição por todo o tempo que se seguiu, só se mexeu um pouco quando viu um alvoroço de médicos e enfermeiros correndo de um lado pro outro, se levantou aflito.
– Aconteceu alguma coisa? – Ele perguntou olhando para os lados tentando entender.
Claramente ninguém lhe responderia, ele tentou olhar para dentro do corredor de cirurgias porém foi impedido.
– Senhor não pode ultrapassar aqui é restrito – A senhora da recepção o informou.
Cebola deu meia volta e tornou a sentar no corredor balançando um pouco o corpo impacientemente para frente e para trás.
Olhou para as mãos e ficou admirando o headband, fechou os olhos e sua memória o levou automaticamente para a festa do Havai, ela estava incrivelmente linda com aquele acessório, ele lembrava exatamente de como tinha gostado quando a viu. Por quase um segundo ele se permitiu sorrir com a lembrança, mas logo caiu na realidade quando um barulho no final do corredor o despertou.
– Cebola, onde você estava todo esse tempo velho? – Cascão perguntou aflito.
– Passou muito tempo? Eu estava aqui sentado o tempo todo – Cebola respondeu se levantando.- Por que? O que aconteceu?
– Careca você está ai há três horas – Cascão concluiu olhando as horas.
– Três horas? Eu... Eu nem vi passar, devo ter cochilado – Cebola respondeu se levantando – Tem noticias dela Cascão?
– Estou te procurando há um tempo, a cirurgia acabou a pouco Ce – Cascão começou a falar cabisbaixo.
– Então ela está bem? Deu tudo certo? – Cebola perguntou olhando ao redor.
– Então... Ela... Ela entrou em coma – Cascão concluiu segurando as lágrimas, porque sabia que teria que se manter forte para ajudar o amigo.
Cebola se desequilibrou um pouco, sentou numa poltrona que ficava no canto do corredor, colocou as mãos na cabeça e voltou a chorar.
– Como em coma Cascão? O que aconteceu? – Cebola perguntou se embolando entre lágrimas.
– Ela sofreu uma parada cardíaca, e entrou em coma – Cascão concluiu sentando ao seu lado. – Os médicos falaram que era muito delicada a cirurgia Careca, eles avisaram.
– Cascão... Por que com ela velho? Está todo mundo bem, eu não posso perde-lá – Cebola respondeu sentindo um mal estar.
– Você precisa comer alguma coisa, a gente beliscou algumas coisinhas, vamos – Cascão o chamou vendo sua cara pálida.
– Não estou com fome – Cebola respondeu se levantando.
– Vamos careca, você não pode cair numa cama, ela precisa de você forte – Cascão pediu seguindo a caminho da cantina.
– E se ela não voltar? – Cebola perguntou o olhando com lágrimas nos olhos.
Cascão o olhou com atenção e o abraçou com medo da resposta daquela pergunta.
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– Meninos quero agradecer muito por terem... Ficado até agora aqui – Seu Sousa começou a falar tentando não chorar – As visitas começam a partir de manha, são duas vezes ao dia. Então agora é melhor vocês irem descansar... Amanhã vocês tem aula, eu... Qualquer noticia eu aviso – Seu Sousa concluiu abraçando a esposa que chorava silenciosa.
– Eu queria vê-la hoje tia – Magali se aproximou da Dona Luisa chorando e a abraçando.
– Eu sei minha linda, eu sei, mas nem nós podemos entrar na UTI sem autorização – Dona Luisa retribuiu o abraço.
– Eles disseram a chance de recuperação? – Cebola perguntou respirando fundo.
– Infelizmente ela não responde a estimulo nenhum Cebola, está em coma profundo, eles disseram que agora é esperar – Seu Sousa concluiu enxugando uma lágrima que escorreu pela sua barba.
– Eu... Eu não queria, eu a convidei para nos divertirmos, eu a amo, jamais faria isso com ela – Cebola começou a chorar se aproximando do Seu Sousa.
– Cebola não fala uma coisa dessas, sabemos que a culpa não foi sua – Dona Luisa se colocou a frente o abraçando.
– Ela... Ela estava tão feliz Dona Luisa, eu vi o sorriso dela tão bonito antes de acontecer tudo isso – Cebola falou tentando lutar contra toda sua dor.
– Eu sei que estava, é muito importante pra ela que você lembre dela assim feliz – Seu Sousa complementou dando um tapinha nas costas dele.
– E ela também gosta muito de você Cebola, tenha certeza disso – Dona Luisa concluiu se despedindo deles.
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Sob protesto foi para a sua casa, ele queria ficar no hospital mas não podia, somente família podia passar a noite lá. Permaneceu o caminho todo no carro quieto, olhando o acessório em suas mãos, chegou em casa e foi direto para seu quarto, abriu o chuveiro, e deixou a agua quente escorrer pelo seu corpo, fechou os olhos rápidamente enquanto enxaguava o sabonete do rosto e viu flash backs de minutos antes do acidente, enquanto ele planejava pedi-la em namoro e a olhava sorridente aconchegada em seus braços na volta pra casa.
Ainda com os olhos fechados sentiu uma lágrima queimar seu rosto em meio a água quente do chuveiro.
Abriu os olhos torcendo para que tudo não passasse de um sonho, mas não foi isso que aconteceu a realidade fria lhe invadiu em cheio.
Saiu do banho com o quarto escuro, colocou qualquer roupa que encontrou pela frente e deitou na cama olhando para o teto.
Virou a cabeça para o lado e viu lá pendurado na mesa do computador o headband dela, ficou olhando um tempo, a dor voltou a inundar sua alma. Ele sabia que não dormiria essa noite, qualquer toque no celular ou barulho de telefone faziam seu coração disparar, com medo de ser alguma noticia que lhe quebrasse por dentro.
O dia amanheceu diante dos seus olhos, ele viu cada gota de azul escuro se tornar laranja, era hora dele levantar para ir à escola, e a sua vontade era zero.
– Filho acorda – Seu Cebola chamou batendo na porta.
– Pai eu... Realmente não quero ir para a escola hoje – Cebola comentou abrindo a porta devagar.
– Filho quanto mais tempo passar trancado no seu quarto, mais vai sofrer, sei que ela é importante pra você, ela também é muito pra nós – Seu Cebola começou a falar olhando nos olhos dele – Sei que a ama, e não precisa esconder, você conhece ela, com certeza quer você forte para recebe la bem quando ela acordar.
– Se ela acordar... Pai, e se ela não voltar pra mim? Eu nunca gostei de alguém como gosto dela – Cebola falou sentando na cama.
– Não vamos pensar nisso filho, você tem que acreditar – Seu Cebola concluiu lhe dando um abraço.
– Passei a noite toda acordado com medo do telefone tocar pai, com medo de receber uma mensagem e ser alguma noticia... Ruim – Cebola comentou voltando a chorar.
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Ele chegou na escola respirando fundo, encarar aquela volta as aulas seria terrível, primeiro por todas as perguntas que seriam feitas, depois pelo fato de não encontra la no intervalo, sabendo que corria o risco de isso nunca mais acontecer...
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