Na mesma sintonia
51 Hoje a noite não tem Luar
Notas iniciais
Cebola se desequilibrou de tão rápido que levantou da cama, abriu a porta do seu quarto correndo e desceu tropeçando nos degraus, chegou lá embaixo sua mãe já estava no telefone, e sua cara fez com que a dor dele se intensificasse, com certeza alguma coisa tinha acontecido.
Cebola a olhava com cara de desespero, tentando preparar seu coração pra qualquer noticia ruim que viesse, ele sabia que não se prepara o coração para essas coisas, mas tentou ao máximo se acalmar enquanto sua mãe só respondia huhum e sim.
– Mãe o que aconteceu? – Ele perguntou impaciente enquanto ela continuava no telefone.
Dona Cebola não o respondeu de imediato, continuou a ouvir o que a pessoa do outro lado da linha falava.
Cebola sentou no sofá agoniado, apoiando a cabeça nas mãos, o que quer que fosse não era noticia boa.
Demorou um pouco para sua mãe desligar o telefone, quando finalmente o fez, ele se levantou ansioso para saber o que tinha acontecido.
– Mãe por favor o que aconteceu? – Ele perguntou parando na sua frente.
– Filho, era a Luisa – Ela começou a falar pausadamente.
Cebola tomou fôlego, não sabia se estava preparado pra qualquer noticia que fosse.
– A Monica, ela...
– Fala mãe.
– Ela teve outra parada cardíaca e não está reagindo muito bem aos estímulos, a Luisa acha melhor irmos para lá – Dona Cebola falou como se sentisse a dor do filho nela mesma.
– Mãe... – Cebola começou a falar mas não agüentou sentou novamente com as mãos no rosto e chorou.
Dona Cebola não sabia o que dizer apenas se sentou ao lado dele e compartilhou do seu choro em silencio.
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Chegaram no hospital umas quatro horas, a madrugada serenava e Cebola saiu do carro envolto de um capuz preto.
Estava quase na entrada do hospital quando viu alguém sentado no sereno com a cabeça entre os joelhos provavelmente chorando.
Se aproximou com cautela, e colocou a mão em seu ombro fazendo o levar um susto, DC levantou a cabeça para ver quem era e se deparou com o Cebola o olhando encafifado.
– Mals... Eu fiquei preocupado, não sabia que era você – Cebola comentou meio sem graça, todos sabiam que os dois não se bicavam.
– Ah... Oi cinco fios – DC cumprimentou enxugando uma lágrima que escorria dos seus olhos.
– O que faz aqui fora no sereno? – Cebola perguntou se sentando ao lado dele.
– Sei lá, as vezes sinto que tenho que estar por aqui, e venho, passo a noite aqui fora – DC respondeu olhando para o escuro da noite.
– Por que não entra? – Cebola perguntou confuso.
– Só os pais dela podem passar a noite lá dentro, e eu não consigo dormir em casa tenho... Medo – DC concluiu com certo receio da conversa.
– É eu sei como é... – Cebola respondeu olhando para frente – Eu também tenho medo.
– Olha cara, tenho um milhão de motivos pra não gostar de você, e não sei por que ela te escolheu, mas você a deixa feliz, e vê la sorrir me faz bem – DC começou a falar sem olhar para o Cebola.
Cebola ouviu quieto, ele sabia o quanto a Monica era importante para o DC também, e respeitava o momento dele.
– Só quero que ela volte — DC concluiu.
– Obrigado cara, eu sei de tudo que vocês passaram, mas tenho certeza que você também é importante pra ela – Cebola concluiu lhe dando um tapinha nas costas.
– O que faz essa hora aqui? – DC perguntou lembrando que não eram permitidas visitas de madrugada.
Cebola respirou fundo para responder, era difícil falar nisso.
– A mãe dela... Me ligou e, parece que ela teve outra parada cardíaca, e ela achou melhor virmos para tentar vê-la, ela está... Fraca – Cebola concluiu se levantando e limpando uma lágrima que escorria.
– Ela... Como assim cara – DC falou se levantando também.
Cebola abaixou a cabeça e o abraçou em silencio, permaneceram um tempo assim, sabendo que compartilhavam da mesma dor, se soltaram e Cebola seguiu para entrada do hospital, seus pais já estavam lá dentro conversando com os pais da Monica.
Ele chegou entrando na conversa.
– Cade ela? Ela está bem? – Cebola perguntou ansioso.
– Pedimos liberação de visita, mas eles só liberaram pra amanha de manhã, ela está fraca, eu tenho medo... Muito medo dela não agüentar – Dona Luisa respondeu chorando e se apoiando no Seu Sousa.
Cebola se sentou no banco próximo a eles com as mãos na cabeça, ele queria entrar para vê la, e se ela não resistisse? Seu coração começou a disparar e seu choro a vir descontrolado.
– Eu... Eu preciso ver ela – Cebola falava continuamente.
A noite não foi nada fácil, com a chegada da Magali e do Cascão no hospital algumas horas depois do Cebola eles aguardaram quietos e chorosos por alguma noticia, e diga-se de passagem acalmar a Magali e o Cebola não foi fácil.
O dia amanheceu escuro, chuvoso, o trio permanecia dormindo nas poltronas, DC já tinha ido para a casa. Cebola acordou no susto, e já levantou indo ao balcão perguntar se tinham liberado visita.
Uma vez liberada, o Cebola se desesperou para entrar, impacientemente teve que esperar os pais dela, e depois quando chegou sua hora de vê-la entrou com o coração na mão.
A olhou com lágrimas nos olhos, ela não tinha mais machucados, nem marcas visíveis do acidente, parecia tão bem, estava tão linda, tirando o fato de estar em coma.
Cebola chorou, chorou e chorou, quando chegou a hora de sair da sala, deu um beijo em sua mão e foi, deixando uma parte do seu coração com ela.
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Era quarta feira, o meio de uma das semanas mais difíceis que ele já tinha passado na vida, suas aulas já tinham acabado, a formatura já estava chegando e ele continuava na mesma situação, essa semana foi de alerta, depois do que aconteceu mesmo sabendo que ela já estava estabilizada todos ficaram atentos, qualquer telefonema era motivo pra desespero, qualquer sinal mais forte era motivo pra atenção.
Chegou a hora de visitas, Cebola ia regradamente todos os dias visita-lá, os enfermeiros já o conheciam, e muitos deles diversas vezes quiseram chorar junto com ele.
Nesse dia ele levou seu violão, por vezes ficava na frente do hospital tocando até dar a hora de entrar.
Entrou no hospital com seu violão em mãos, e viu que hoje só ele estava lá, o pessoal provavelmente iria vir no horário da tarde, Dona Luisa já estava la dentro e o Sr. Sousa tinha ido trabalhar.
Cebola esperou sua hora de entrar. Demorou um pouco, mas Dona Luisa voltou, abriu um sorriso triste quando o viu, ele sabia o quanto devia ser difícil pra um mãe isso. Ele sentia saudade de ouvir a voz dela, o toque, o beijo, a risada, imagina sua mãe como devia se sentir.
Ele nunca entrava com o violão em mãos, hoje resolveu entrar, não sabia se podia ou não, mas teve a idéia de tocar uma musica para ela.
Entrou com um nó na garganta, como de costume deu um beijo na mão dela, e se sentou na poltrona se posicionando para tocar.
Começou a dedilhar tocando as primeiras notas, ele conhecia essa de letra, amava essa musica.
Cantarolou baixinho.
“- Ela passou do meu lado, oi amor eu lhe falei, você está tão sozinha.. Ela então, sorriu pra mim”
Cebola parou um pouco diante do choro que se instalou, ele sempre lembrava dela quando tocava essa musica. Admirou um pouco mais a amada imóvel, respirou fundo e continuou.
“- Foi assim que a conheci, naquele dia junto ao mar, as ondas vinham beijar a praia, o Sol brilhava de tanta emoção, um rosto lindo como um verão... E um beijo aconteceu”
Hesitou um pouco para a parte mais triste da musica...
“- Hoje a noite não tem luar, eu estou sem ela...”
Cebola tocava enquanto lágrimas desciam no seu rosto, tocava baixinho, cantava como um sussurro na esperança de que ela ouvisse.
Deu um pulo da cadeira quando ouviu um barulho de alguém se mexendo...
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