Na esquina do Pecado
1 Universidade, lá vou eu!
Notas iniciais
Ana
Caramba! Não acredito que vou me atrasar no meu primeiro dia de aula, porque o celular não despertou? Droga!
A aula começava ás 19 horas e como fiquei até tarde arrumando as caixas com minhas coisas de mudança, pensei que tivesse colocado o celular para despertar, mas o cansaço que eu estava tinha me dominado a ponto de ter só pensando e não coloquei. Tinha passado o dia tentando ajeitar as coisas no meu apartamento, até ter a má ideia de tirar um breve cochilo antes de ir para a faculdade. Acordei ás 18:40 e com um pulo do colchão que ainda estava no chão saltei direto para o banheiro para o banho mais rápido da minha vida.
Dou um gole rápido no café, pego minha bolsa e saio em disparada rumo à faculdade que fica à três quadras da minha casa, e ainda assim consigo chegar atrasada. O problema é que um quarteirão dessa cidade dá dois lá da minha pequena e pacata cidade onde nasci, então o jeito era correr para chegar a tempo.
Antes de sair, só dei uma arrumada rápida no cabelo, um rabo de cavalo como gosto de usar, vesti uma camiseta e uma calça jeans básica e calcei meu tênis novo que comprei assim que cheguei. Era uma boa oportunidade de testá-lo. Nem esperei o elevador, como moro no 4º andar do prédio arrisquei descer de escada, o que não pode ter sido uma boa ideia pois já me imagino chegando na faculdade toda suada, mas minha preocupação maior era pegar um bom lugar na sala de aula. Sempre fui muito concentrada nos estudos e gostava de sentar na frente. Não era de conversar muito e na hora do intervalo ás vezes ficava sozinha. Nunca tive mais do que uma ou duas colegas de sala, o que era um problema para trabalho de grupo. Então eu queria garantir pelo menos um bom lugar na sala de aula e focar em meus estudos.
Parei de correr para recuperar um pouco do fôlego e mexi na bolsa para pegar o celular, notei que havia esquecido. – Droga!
Vou caminhando e observando as lojas enquanto passo, lá perto da faculdade tem um shopping, talvez passe lá depois da aula para fazer um lanche já que não deu tempo de comer nada antes de vir. Quando olho para o relógio vi que já estava atrasada cinco minutos. – Não acredito! Como o tempo passou assim tão rápido! É aí que decido dar aquele ultimo pique, faltando meia quadra para chegar na facul respiro fundo e começo a correr novamente, com os olhos fixos na entrada da faculdade que vai ficando cada vez mais perto, observo que o sinal fica verde para pedestre e digo – É agora ou nunca!
Dou meu último pique do resto de folego que ainda tinha, mas sou interrompida do meu caminho bruscamente, e em questão de segundos me vejo jogada de joelhos no chão sem entender o que havia acontecido.
— Me desculpe, você está bem?
Escutei a voz de um homem me perguntar se eu estava bem e um toque leve no meu ombro. Ele segurou meu braço e me ajudou a levantar, dei falta do meu caderno que havia voado junto comigo, mas no mesmo estante vi meu caderno sendo segurado por este homem que estava fazendo menção de me devolvê-lo. Foi quando me recuperei do susto e me virei para ele para finalmente responde-lo: Sim, estou bem, obrigada. Preciso ir agora.
Nesse meio tempo o sinal havia aberto novamente, então atravessei e entrei dentro da faculdade, finalmente. Não pensei muito sobre o esbarrão que eu tinha dado naquele homem no momento, a não ser pela dor nos meus joelhos que insistiam em me lembrar, mas minha única preocupação agora era encontrar minha sala e me sentar.
Sala 12, fui em direção da sala cruzando os dedos para ter sobrado uma boa carteira para mim, todos os alunos já estavam dentro de sala e a professora também. – Droga, droga, droga! Não pode ficar pior do que isso!
Eu odiava chegar atrasada nos lugares, e na faculdade não seria diferente. Respirei fundo, cheguei na porta da sala já tentando avistar alguma carteira livre e voalá, uma coisa boa nesse meu dia de azar, a primeira carteira do lado esquerdo da sala estava desocupada, meu lugar preferido. Pedi licença, entrei e me sentei sem olhar para ninguém, eu já estava muito envergonhada.
Abri minha bolsa e retirei meu caderno que já estava com vestígios do recente tombo e uma caneta. – Se não tivesse esquecido de fechar a bolsa você ainda estaria perfeito, pensei. Eu estava ansiosa para começar a escrever qualquer coisa e esquecer de todo o acontecido de hoje, mas como era o primeiro dia de aula, a professora não passou muita coisa no quadro, só explicou como seria o ano letivo com sua matéria e essas coisas. Relaxei mas um pouco e voltei meu pensamento para o esbarrão naquela esquina, me recordei dos detalhes de como era aquele homem, pude nota-lo bem, ele parecia muito bem vestido com uma camisa branca social e uma calça jeans preta, calçava um sapato de cor marrom que parecia ter custado muito caro. Seu cabelo era bem penteado ao estilo corte social, e aparentava ter uns trinta anos de idade. Até estranhei ver um homem daquele naipe andando a pé por aí.
Fiquei de bobeira por mais alguns minutos até que chegou a hora do intervalo de uma matéria para outra. Aproveitei esse tempo para ir ao banheiro ajeitar o visual e beber um pouco de agua depois. A pia estava vazia, então aproveitei para arrumar meu cabelo novamente e me observar no espelho, sempre tive o cabelo preto e liso, tenho um corpo comum, pele clara e aproximadamente 1,65 de altura e peso em torno de 52 quilos bem espalhados. Cabelo amarrado novamente, dou uma verificada no meu joelho direito e estava lá a mancha na calça da poeira da calçada, bati um pouco, mas nada que adiantasse muito, no mínimo aquilo ali iria ficar roxo no dia seguinte.
Volto para a sala pois já estava prestes a começar a segunda aula, fico no meu lugar observando timidamente os meus colegas de sala, algumas pessoas mais extrovertidas saiam de seus lugares e ficavam conversando alto e contando piadas, outro grupo só de meninas cochichavam entre si observando os meninos e provavelmente julgando quem seria o mais bonito da turma. Observei então a menina que sentava na carteira ao lado da minha e ela parecia ser mais quieta e na sua, assim como eu. Voltei a atenção para minha bolsa pois não conseguia me lembrar se havia pegado a chave do meu apartamento por ter saído com pressa, então me agachei e comecei a procura-la.
— Boa noite!
Escutei o que seria o professor já entrando na sala de aula e colocando seu material de estudo na sua mesa que ficava logo à frente da minha, mas continuei com a cabeça abaixada preocupada em encontrar logo a bendita dessa chave – Achei! Menos mal, só faltava ter perdido ela, pensei.
Guardei a bolsa novamente e levantei a cabeça para prestar atenção na apresentação que o professor fazia. Mais nada, não conseguia escutar mais nada do que ele dizia a não ser palavras aleatórias que ecoavam bem lá no fundo da minha mente, me senti como se tivesse me transformado em uma estátua bem naquele momento. Nossos olhos se cruzaram por exatos três segundos que pareciam ter passado em câmera lenta, percebi que ele fez uma breve pausa enquanto fixava seu olhar em mim, o que me deixou vermelha e totalmente desajeitada com o que havia acabado de acontecer ali. – É ele, o cara que esbarrou comigo naquela esquina é meu professor de poesia da literatura brasileira, não pode ser. Pensei comigo mesma.
Durante toda a aula eu não consegui encarar meu professor normalmente, estava totalmente sem jeito, era algo mais do que só um esbarrão numa esquina qualquer, o jeito que ele me olhou me fez ter calafrios que de alguma forma, me fez ter medo dele. Garota tímida, de poucos amigos e que veio praticamente da roça, quanta ingenuidade para uma cidade grande.
Eu estava contando os minutos para que aquela aula acabasse e eu pudesse sair correndo daquela sala, a razão de tanto desconforto era a maneira como ele estava me encarando meio que discretamente, mas perceptível, e eu não estava gostando nada. Finalmente, fim de aula e a única coisa que penso em fazer é pegar minha bolsa e sair o mais rápido possível dali. E assim eu fiz, peguei minha bolsa e ainda com a cabeça baixa me levantei e passei por ele sem nem olhar para trás. –Nossa, que dia viu. Preciso comer alguma coisa logo, senão ainda é capaz que eu caia dura aqui hoje.
Vou até a lanchonete da faculdade e peço um suco de laranja e um sanduiche natural, sento em uma mesa para esperar. Enquanto isso, observo as pessoas ao redor, notei que aquela menina que estava sentada ao meu lado vinha caminhando em minha direção, nesse momento a atendente entrega meu pedido e eu me preparo para comer. A menina chega no balcão e pede também um suco de laranja e um sanduiche natural, logo após, ela senta na mesa onde eu estava em uma cadeira vazia do lado.
— Oi.
—Oi. Respondo sem graça.
— Você é da minha turma né, me chamo Beatriz mas pode me chamar de Bia, qual o seu nome?
— Ana.
A atendente entrega seu pedido e ela também se prepara para comer.
— Você também não e de muitas palavras né. Indagou.
— Às vezes, é que não conheço ninguém daqui ainda.
— Você é de onde? Perguntou enquanto comia seu sanduiche.
— De Araxá, Minas Gerais.
— Não conheço.
Silencio. Não trocamos nenhuma palavra mais até terminarmos o lanche.
— Tô indo nessa Ana, você vem agora?
— Não, vou ficar mais um pouco. Respondi
— Tá bom então, até daqui a pouco.
— Até. Acenei com as mãos
Ainda fiquei mais uns cinco minutos sentada e pensando em quão turbulento foi meu dia hoje. A minha vontade era de ir embora para casa tomar um belo banho e assistir alguma série na Netflix. Enquanto eu me perdia nos meus pensamentos, fui trazida de volta por uma voz que eu já reconhecia muito bem, a voz do homem que se esbarrou e mim e a voz do meu professor da faculdade.
—Oi, espero não ter machucado você. Você saiu com tanta pressa que nem pude perguntar.
Não sei por que eu me tremia toda quando ele se aproximava de mim, nunca nenhum homem, ainda mais tão bonito como ele se aproximou de mim para puxar algum assunto, e além do mais era meu professor.
— Não se preocupe, eu estou bem. Respondi tentando não demostrar o meu nervoso pela voz. Soltei um sorriso amarelo para ele e disse que tinha que voltar para a sala de aula agora. Ele mal se despediu e eu já estava alguns passos longe, ele deve estar achando que eu sou extremamente grosseira. Melhor assim.
Tive o restante das aulas e não o vi mais na faculdade. Hora de ir embora, finalmente, não foi um primeiro dia de aula tranquilo como eu esperava mas espero que amanhã seja melhor do que foi hoje, e sem atrasos.
Cheguei no meu prédio cumprimentei o porteiro e caminhei em direção ao elevador que já estava descendo, quando ouço alguém chamar meu nome.
—Ei, Ana! Não acredito que você mora no mesmo prédio que eu. Para que andar você vai?
Era a Beatriz, a garota que eu havia conhecido hoje lá na faculdade. No fundo gostei por ter alguém da faculdade no mesmo prédio e que pudesse vir ser uma amiga.
— Oi bia – Cumprimentei. – Estou morando no 4º andar, não sabia que você morava aqui também.
O elevador desceu então entramos e continuamos a conversar, ela disse que morava no 4º andar também, engraçado não termos nos esbarrado ainda, mas como não conhecia muito de São Paulo ainda então quase não saia do apê a não ser para comprar algo de comer. Agora com Bia sendo praticamente minha vizinha, ela poderia sair comigo para conhecermos mais a cidade.
Chegamos no nosso andar e então logo nos despedimos e caminhamos em direção opostas mas notei que o apartamento dela ficava a uns três apartamentos de distância do meu. Entrei e logo avistei onde havia esquecido o celular, peguei-o para ver se tinha alguma notificação e observei que minha mãe havia deixado umas mensagens no WhatsApp, precisava ligar para ela para dar notícias e dizer como estavam as coisas por aqui.
Larguei o celular por um momento e fui direto para o banho, a agua morna que descia pelo meu corpo me fez ficar imediatamente mais relaxada, dei uma olhada para ver o estrago no meu joelho, mas ele apresentava só alguns arranhões, por sorte eu estava de calça senão teria sido pior. Sai do banho e vesti minha camisola pois não tinha nenhuma intenção de sair mais por hoje. Deitei no meu colchão que ainda estava no chão, liguei a TV e coloquei Grey's Anatomy na Netflix.
Liguei para minha mãe para colocá-la em par do que foi meu primeiro dia na faculdade, mas não contei muito detalhes de como tudo aconteceu. Minha mãe de início não aceitou muito bem minha mudança para uma cidade grande, mas ela sempre me apoiou nas minhas decisões. Ela tinha total confiança em mim e sabe que eu conseguiria me virar. Desde criança sempre fui muito apegada com livros e não com bonecas como eram a maioria das minhas coleguinhas de infância. Acho que tive muita influência da minha mãe que sempre gostava de ler historias para eu dormir, fui crescendo e criando o gosto de ler sozinha. Meu lazer era ir até a uma biblioteca que ficava perto de casa e pegar alguns livros emprestados para ler, assim que terminava um pegava logo um outro então não saia de lá. Na escola, minha matéria preferida era português, sempre tirava notas boas e adorava quando íamos a biblioteca da escola. Já nessa época meu desejo era ser escritora, e foi aí que decidi tentar uma faculdade de letras para me aperfeiçoar mais, e ainda poderia dar aulas de português nas escolas garantido um possível futuro para mim.
Já depois de formada no ensino médio me inscrevi no concurso que aconteceria para a melhor faculdade de Letras do Brasil que ficava exatamente em São Paulo. E era nela que eu queria me formar. Estudei horrores, foram dias e noites estudando e estudando. No dia do exame, procurei me manter mais tranquila possível, pois sabia que havia estudado bastante e que estaria pronta. Depois que soube os resultados saltitei de emoção, meu futuro já estava meio caminho andado.
Foi aí que começaram os preparativos para minha mudança, minha mãe era corretora imobiliária e tínhamos uma renda bastante confortável, ela disse que me ajudaria com as despesas e o apartamento em São Paulo enquanto eu estivesse estudando. Com sorte encontramos um apartamento perto da faculdade, e viemos antes pessoalmente para conhecer o espaço e fechar acordo.
Não quis mudar muito cedo para cá, queria aproveitar o máximo de tempo possível com minha mãe já que as visitas seriam muito difíceis de acontecer depois que eu tivesse me mudado. Então me mudei com uma semana de antecedência, foi tempo suficiente para organizar minhas coisas e ir comprando os poucos moveis que precisaria. De casa só trazia nas malas minhas roupas e meus livros e uma cafeteira que minha mãe havia me dado de presente.
Notei que já era umas 23:00 hrs quando terminei de assistir a série e comer um sanduiche com ovo que havia feito, desliguei a TV e coloquei a cabeça no travesseiro pronta para dormir, a não ser pelas lembranças do meu dia que vinham e voltavam com flashes de um fatídico esbarrão numa esquina.
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