Na Mira da Flecha
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Posicionei a flecha. Controlei a respiração. Meu alvo estava alguns metros à frente, tranquilo, no lago. Patos são assustados, qualquer barulho ou movimento brusco poderia fazê-lo levar voo, então, eu perderia meu jantar.
A mira estava perfeita. “Um... Dois... Três.” Contei, silenciosamente. A flecha assobiou no ar e cravou-se no animal, antes que ele pudesse processar o que estava acontecendo. Sorri, vitoriosa. A minha evolução no arco e flecha era visível a cada semana que se passava. Pelo menos aos domingos, o meu único dia livre de trabalho no ateliê.
O sol já estava alto no horizonte. Guardei a caça, limpei a flecha e retomei a trilha para casa. A leve brisa da floresta brincou com meus cabelos ruivos. Meus fios cor-de-fogo eram mal vistos pelo povo de Bellatorum. Segundos os sábios da antiguidade, essa cor representava a origem de todo o mal, “a cor da dissimulação”, ou o próprio “fogo do inferno”. As pessoas do nosso país acreditavam e seguiam piamente esses pensamentos retrógrados, como o fato de mulheres ocuparem um baixo lugar na sociedade. Era horrível. “Garotas não devem lutar”, “garotas não podem usar arco e flecha”, “isso não é coisa de mulher” e a lista continua.
Agitei a cabeça para afugentar os pensamentos negativos. Eu deveria me animar, afinal, aquele era o dia das inscrições para a Liga, o dia em que eu mudaria essa regra.
Guardei o arco e a aljava de flechas numa brecha de um carvalho e corri para casa.
Entrei pela porta da cozinha, para tratar logo o animal e ninguém desconfiar de onde ele veio. Depenei, limpei, cortei e logo o cheiro de ensopado espalhou-se pela casa.
— Karenina? — Meu pai apontou na cozinha. — Nem sabia que havia chegado.
Ele estava coberto de serragem da cabeça aos pés. Cabelos grisalhos, rugas na testa, um velho óculos escorregando no nariz e costas curvadas pelos longos anos trabalhando como carpinteiro.
— Oi, pai — Sorri para o meu velho.
Ele aproximou-se do fogão e olhou sobre o meu ombro, inspirando o cheiro que emanava da panela.
— O que está cozinhando? Parece bom.
— Ensopado de pato — respondi — Já está quase pronto.
— Pato? — Franziu o cenho — Onde o conseguiu?
O meu passatempo era um segredo, até mesmo para a minha família.
— Comprei hoje no mercado, com o dinheiro que recebi no trabalho — Menti.
A verdade era que juntei vários meses de salário para conseguir comprar o meu arco e desde então, passei a caçar para trazer comida para a mesa.
— Não precisa ficar gastando seu dinheiro com a gente, você sabe disso.
Suspirei. Depois da morte da minha mãe, meu pai assumiu sozinho as despesas de cuidar de quatro filhos. O que ele ganhava era o suficiente apenas para não morrermos de fome, por isso, quando eu e meu irmão Joshua atingimos idade suficiente, começamos a trabalhar. Mesmo assim, ainda passávamos aperto.
— Que cheiro bom é esse? — Meu irmão mais velho exclamou, assim que cruzou a porta.
Ao contrário de mim, Joshua era loiro e elegantemente alto. Fora isso, possuíamos os mesmos olhos de ébano, os mesmos traços delineados e a mesma teimosia. Tinha dezoito anos, ou seja, apenas um ano mais velho que eu.
— Culpe à Karenina e suas mãos de fada — Meu pai respondeu, com um sorriso nos lábios.
— Assim vocês me deixam sem jeito — brinquei. — Venham, vamos comer.
Depois que eles me ajudaram a pôr a mesa, duas cabecinhas apontaram no topo da escada. Benjamim, de onze anos, puxou ao nosso pai nos cabelos castanhos e covinha no queixo. Já o pequeno Henry, de sete anos, também herdou da mamãe as madeixas loiras e bochechas redondinhas.
Enquanto saboreávamos o almoço, papai puxou assunto.
— As inscrições para a Liga são hoje, né?
Parei a colher no caminho para a boca. Aquele poderia ser o momento adequado para eu dar a notícia que estava guardando há tempos.
— Sim! — Joshua respondeu primeiro. — Estou tão ansioso...
Para explicar melhor o que era a Liga e como funcionava, vamos a uma aula de história. Nosso continente (que estava mais para uma ilha consideravelmente grande) era dividido entre dois países: Bellatorum e Proelium. Cada um deles vivia sob um regime de monarquia absolutista. Desde os tempos antigos, eles viviam em guerra, até que, há alguns anos, criaram os Combates. Cada país deveria escolher uma equipe com seus cinco melhores guerreiros que seriam colocados em um campo, para enfrentar a equipe dos guerreiros inimigos e tomar sua base. A cada combate, os países apostavam terras, riquezas e recursos naturais. A equipe que conseguisse tomar a base adversária ou matasse todos os oponentes, sairia vencedora. A Liga era uma organização que selecionava os melhores jovens entre dezesseis e vinte e seis anos para defender o país nesse evento.
Era um orgulho morrer lutando pela Liga. E, se saísse vivo e vitorioso, levava o resto da vida cheia de fama e regalias. Todos os jovens sonhavam em participar dela. Eu era uma deles.
— Então... Sobre isso... — Escolhi as palavras cuidadosamente. — Eu estava pensando em me inscrever.
Ben deixou a colher cair dentro do prato. Meu pai engasgou-se com o ensopado. Joshua olhou para mim como se eu tivesse uma doença contagiosa e Henry desviava o olhar entre todos nós, sem entender o que estava acontecendo. Um instante de silencio abateu-se sobre a mesa, quebrado apenas pelas tossidas do meu pai.
— Está louca? Você é uma garota! — Joshua foi o primeiro a se manifestar, num tom de acusação misturado com incredulidade.
— Não diga asneiras, filha — Papai havia se recuperado e já estava me repreendendo.
A raiva tomou conta de mim.
— Por quê? Quem foi o idiota que inventou isso?
Joshua bateu o punho na mesa.
— Mulheres não podem lutar! — Elevou a voz. — Você nem sabe empunhar uma espada!
O sangue subiu à minha cabeça. Tenho certeza de que eu estava da cor do meu cabelo.
— Com treino, posso fazer tudo que vocês fazem, ou até melhor! — Também aumentei a voz, para me igualar a ele. — E, além de tudo, tem o dinheiro. São cinco moedas de prata por mês, só por fazer parte da Liga.
Joshua riu, sem nenhum humor. Os meninos observavam a discussão com olhos arregalados.
— E o que te leva a pensar que entraria para a Liga? — debochou. — Eles nem vão te deixar se inscrever.
— Chega! — A voz retumbante do meu pai sobressaiu-se à discussão. Calamo-nos imediatamente — A hora da refeição é sagrada. Nada de brigas. O assunto está encerrado.
O ensopado não estava mais tão gostoso. Levantei, deixando meu prato ainda pela metade.
— Eu vou conseguir, vocês vão ver — Afirmei, tentando parecer confiante.
Até mesmo eu sabia que era uma missão impossível. Mas eu estava cansada de todas aquelas injustiças do nosso país em relação às mulheres.
Bati a porta e disparei pela estrada de terra batida, rumo à cidade.
Estava uma grande agitação nas ruas. Rapazes circulavam, conversavam animadamente entre si e formavam filas nas lojas de armas. Vários deles se amontoavam na entrada de um escritório. Consegui abrir caminho entre a turba e me dirigi à mesa mais próxima.
— Como posso ajudar? — Um homem alto e corpulento me recebeu.
— Eu... Gostaria de me inscrever — Apontei para a pilha de formulários sobre a mesa.
Ele me encarou por alguns segundos, talvez pensando se foi isso mesmo que ele ouviu.
— Desculpe-me, é só para rapazes — explicou, como se falasse com uma criança menor que Henry.
Suspirei. Não aceitaria uma derrota assim, tão fácil.
— Eu sei, mas não poderiam abrir uma exceção? — Minha voz estava carregada num misto de desespero e súplica. — Eu sei usar arco e flecha e...
— Apenas para rapazes — Ele me cortou, numa voz gutural que me fez encolher.
Escutei alguns garotos cochichando e rindo quando passei pisando duro para fora do lugar.
É, Karenina, não foi dessa vez. Talvez, nunca será.
***
Todos os dias, eu via meu irmão treinando. Ele transformou o porão numa verdadeira sala de combate. E eu o assistia evoluir a cada dia, golpeando pilares de madeira e decapitando bonecos improvisados com sacos de areia e estopa. Ele movia-se com agilidade e destreza, agitando e fazendo arcos com a lâmina da espada.
Joshua não era o único que progredia. Sempre que eu podia, dava um jeito de escapar para a floresta e praticar. Já conseguia acertar alvos com o triplo da distância de antes e aprendi a ser mais sorrateira que um gato.
As audições estavam se aproximando. O júri, formado por campeões antigos e os melhores profissionais no ramo da guerra, possuía a difícil tarefa de avaliar todos os jovens inscritos e escolher os cinco melhores guerreiros, divididos nas modalidades de dois lutadores, um arqueiro, um corredor e um suporte.
Meu irmão estava se preparando para ser um lutador. Porém, quando faltavam apenas dois dias para as audições, Joshua sofreu um acidente no trabalho: caiu da escada e fraturou o tornozelo.
— Mas que droga! — Ele resmungou.
Estava sentado na poltrona, com o pé apoiado numa cadeira, enquanto Henry fazia pinturas no seu gesso.
— Acho que ficará sem audições este ano, campeão — Meu pai consolou-o com a mão no seu ombro.
— Não, não! Eu estou bem — O loiro tentou levantar-se, mas fez uma careta de dor ao encostar o pé no chão.
— Ou não — Completei, de braços cruzados.
Eu não estava feliz com o acidente do meu irmão, de forma alguma. Entretanto, a ideia de que ele não teria como participar da Liga, pelo menos nesse ano, teve um delicioso sabor de vingança.
— Mas você pode tentar de novo ano que vem, né? — Benjamim sugeriu.
Joshua bufou.
— Eu queria ir neste ano. Entrar para a Liga, ganhar os Combates e honrar a nossa família.
Uma luz acendeu-se na minha mente. Ainda havia uma chance de trazer honra para a nossa família.
***
Peguei uma calça folgada do meu irmão. Amarrei fortemente um tecido sobre o meu busto, para cobrir meus seios quase inexistentes. Vesti uma camisa de cota de malha e calcei minhas botas. Observei o resultado no espelho. Meus longos cachos ruivos eram um problema. Deveria haver uma tesoura ali em algum lugar.
Depois de revirar todo o quarto e vasculhar as gavetas do guarda-roupa, finalmente achei o objeto. Respirei fundo, encarei meu reflexo de cabelos longos uma última vez antes de fechar os olhos e dar adeus aos meus cachos.
Quando os abri, meu cabelo estava poucos centímetros acima da altura do meu queixo. O corte não estava perfeito. Cheio de pontas e irregularidades. Pelo menos, era mais fácil de esconder.
Juntei o resto das minhas coisas, peguei meu arco (que estava escondido debaixo da cama), pulei a janela, peguei o cavalo e parti rumo à sede da Liga.
Minha ansiedade estava a mil. Sobre a cabeça, coloquei um elmo que havia comprado numa loja de departamentos de luta, de forma que só os meus olhos ficaram visíveis. Eu torcia e estalava os dedos inquietamente, enquanto aguardava minha vez.
O teste, onde os jurados iriam nos avaliar, consistia em uma simulação de ataque numa sala cheia de obstáculos e perigos. Haviam câmeras espalhadas por toda parte, além de uma sala de observação de onde eles iriam acompanhar nosso progresso e dar uma pontuação.
Sim, tínhamos tecnologia, mas ela estava concentrada nas mãos da coroa. Era inacessível para nós, os pobres, que só tinham direito ao luxo de ter uma televisão. Sequer era um direito, na verdade. Estava mais para obrigação. E ela só pegava um canal, o Canal Real, de onde eram transmitidos os avisos e a cobertura total dos Combates.
Finalmente chegou a minha vez. Enfermeiras injetaram um pequeno dispositivo, do tamanho de um grão de arroz, sob a pele do meu pescoço. Elas disseram que após as audições, ele não teria mais nenhuma utilidade e o corpo o expulsaria normalmente. Eu não poderia entrar com nada além das roupas, armaduras e armas. Meu coração batia loucamente quando adentrei na câmara branca e me forcei a manter uma expressão confiante.
O lugar era totalmente branco: piso, teto, paredes... Tudo, com exceção de um retângulo de vidro numa das paredes, que dava visão para outra sala onde se encontravam os quatro jurados.
O primeiro deles, um barbudo, folheou uns papéis e dirigiu-se ao microfone na sua frente.
— Joshua Alarich? — Sua voz grave ecoou pelos autofalantes.
— Sou eu — respondi.
Eles não esboçaram qualquer emoção, o que significava que o disfarce funcionou.
— Veio para qual modalidade?
— Arqueiro — Ergui o arco que estava nas minhas mãos, para enfatizar.
— Ótimo — Outro homem falou, dessa vez. Era um pouco mais baixo que o primeiro e tinha um óculos pendendo no nariz. — Nos impressione.
Assim que ele terminou de pronunciar a frase, as luzes do ambiente diminuíram. Quando eu me virei, não estava mais numa sala branca e sim numa floresta. Árvores, cheiros, sons... era tudo idêntico. Até a janela de vidro dos jurados havia sumido, mas eu sabia que eles continuavam me observando.
Ouvi um barulho nas folhagens à minha esquerda. Fiquei tão impressionada com a verossimilhança do local que havia me esquecido do motivo de estar ali. Segurei o arco com força e preparei uma flecha, voltada para aquela direção. Um alvo surgiu, como se estivesse suspenso no ar. Era um círculo de madeira com vários círculos vermelhos concêntricos.
É esse o grande desafio?, pensei. Moleza.
Relaxei os dedos da mão direita e soltei a flecha. Ela traçou um curso perfeito até cravar-se exatamente no centro do alvo. Imediatamente, o alvo desapareceu no ar e outros dois surgiram em lugares distintos.
Repeti o processo enquanto acertava os alvos e outros apareciam. Quando eu estava começando a achar que aquilo estava fácil demais, um pequeno dardo chocou-se contra a cota de malha da minha roupa. Numa tentativa de identificar de onde o projétil viera, notei uma máquina estranha, à distância. Ela possuía um cano na frente, voltado diretamente para mim e um círculo de madeira no topo, como uma daquelas máquinas de parque de diversões onde se acerta o alvo para derrubar alguém na água.
Ela emitiu um zunido e lançou outro dardo, este que desviei. O lançador aumentou sua velocidade, atirando projéteis e mudando a mira conforme eu me movia. Protegi meu corpo com o tronco de uma árvore e atirei uma flecha no círculo de madeira. A máquina parou, mas como anteriormente, outras surgiram. Muitas. Me cercaram por todos os lados.
Me converti numa dança louca, abaixando, esquivando, pulando e girando enquanto alvejava os lançadores consecutivamente e tentava não ser atingida pelos dardos. Alguns acertaram meu peito e braços, mas a camisa reforçada me protegeu. As coisas complicaram-se quando um deles cravou-se na minha perna. Uma dor lancinante pulsou no local. Me abaixei e arranquei o objeto, mas a ardência na minha coxa permaneceu.
Aquela brecha na minha defesa deu oportunidade para as máquinas que ainda funcionavam dispararem loucamente. Agora era uma nova complicação: inativar as máquinas, desviar dos dardos, tentar passar uma boa impressão para o júri, e tudo isso com a dor pungente que me retardava mais a cada projétil que me atingia.
Enfim desativei todas as máquinas. Meus músculos formigavam pela dor e esforço. Apoiei as mãos nos joelhos, tentando recuperar o fôlego. Ouve um momento de calmaria. Algo estava errado. Por um instante, achei que o teste já havia terminado. Porém, se fosse o caso, já teriam desligado a simulação. Mas eles não deixariam tudo acabar assim, tão “fácil”.
Tive a comprovação disso assim que ergui os olhos e me deparei com um homem parado na minha frente, no lugar onde o último lançador estava. Bom, não era um homem de verdade, estava mais para um boneco inexpressivo. Possuía traços de rapaz de aproximadamente vinte anos, olhos vidrados e rosto paralisado, sem qualquer expressão. O fato mais importante: ele, ou seja lá o que for, segurava uma espada. Queriam testar minhas habilidades numa situação real de batalha.
Eu só não entendia por que meu “adversário” estava imóvel, encarando o nada. Parecia estar esperando que eu agisse primeiro. Uma coisa é “matar” máquinas. Outra bem diferente é matar pessoas. Ele sequer é uma “pessoa”, Karenina, minha mente me repreendeu. Sacudi a cabeça para afugentar os pensamentos. Mais cedo ou mais tarde aquela situação cairia sobre mim (isto é, se eu fosse aprovada para a Liga), então era melhor acabar com aquilo de uma vez.
No momento em que apontei o arco para o chão, para encaixar a flecha, o guerreiro se moveu para frente. Ele se aproximava na minha direção, sem pressa. Eu tinha a vantagem da distância, então teria que aproveitá-la enquanto podia. Não me sairia bem em um combate corpo a corpo e não queria esperar para ver se aquele boneco poderia me machucar de verdade.
Meio hesitante, mirei no peito do guerreiro e atirei. A flecha cravou-se ali, mas ele não pareceu se importar. Não saiu sangue nem nada, ele só continuou andando como se nada tivesse acontecido. Estranhei, mas lancei outra flecha. E depois outra e mais outra, com resultados iguais ao da primeira. O guerreiro estava quase parecendo um porco espinho, com flechas cravadas no peito, ombros, pernas e até uma na testa.
Comecei a ficar apreensiva. Como derrotar um adversário que não podia ser ferido? Deveria haver um ponto fraco. Mas eu não iria ficar parada ali para descobrir.
O boneco esquisito estava a menos de três metros de distância quando subi na árvore mais próxima. Aquilo me daria um pouco mais de tempo para bolar um plano. Ela tinha os galhos espalhados e era um pouco difícil de escalar, mas consegui subir até uma distância segura. Eu só esperava que ele não dominasse as técnicas de escalada, ou eu havia acabado de assinar a minha sentença de morte.
O guerreiro parou aos pés da árvore, sem erguer a vista. Finalmente achei que havia despistado ele e pude soltar o ar. Provei-me estar redondamente enganada. O guerreiro ergueu lentamente a cabeça, até focar a visão em mim. Ou o mais próximo disso, considerando seus olhos paralisados numa posição fixa. Meu coração acelerou ainda mais. Eu precisava agir. Pense, Karenina.
Qual era a única coisa que representava perigo ali? A espada. Fora isso, o homem não apresentava nenhuma ameaça. Se eu conseguisse me livrar dela, eu até teria alguma chance. Apontei a flecha para a mão que segurava o objeto e torci silenciosamente para que desse certo dessa vez. Inspirei profundamente e relaxei os dedos.
Não tenho certeza de que o golpe o machucou, mas pelo menos o desnorteou o suficiente para que pudesse largar a espada. Aproveitei o instante de distração e saltei da árvore. O corpo do meu adversário amorteceu a queda. Agarrei imediatamente a lâmina que ele deixara cair. Apesar de não ter nenhuma instrução de esgrima, já havia empunhado uma delas antes, sem que meu irmão visse. Sem pensar duas vezes, pressionei o objeto contra a garganta do meu inimigo.
Nunca saberei se eu teria coragem de dar o golpe final, pois assim que encostei a lâmina, a simulação se desfez. Tudo à minha volta fragmentou-se em milhares de pixels. Quando dei por mim, estava ajoelhada sobre o chão branco da sala de anteriormente, com os pulmões trabalhando fervorosamente e o coração batendo feito um louco, por causa da adrenalina.
Só então me lembrei dos jurados e levantei o olhar para eles. A julgar pela expressão dos homens, eu não havia me saído tão mal assim. Eu não sabia ao certo se eles viram a cena como eu presenciei, com a floresta e tal, ou se enxergaram somente um adolescente louco se debatendo no meio de uma sala branca e vazia, atirando flechas a esmo. Eu preferia que tivesse sido a primeira opção.
Por falar nelas, percebi que haviam retornado para a minha aljava, que estava quase vazia no momento da cena na árvore.
— Joshua — O cara barbudo chamou o nome do meu irmão (ou me chamou, no caso).
Me dei conta de que eu ainda estava ajoelhada no chão e me levantei de sobressalto, envergonhada.
Sua carranca converteu-se no mais próximo de um sorriso.
—Você se saiu muito bem.
A tensão nos meus ombros aliviou-se e eu me permiti sorrir, mesmo que eles não vissem, por causa do elmo.
— O resultado será divulgado no próximo sábado — Outro jurado, que esteve quieto até então, pronunciou-se. Era ridiculamente magro e portava um bigode ridiculamente grande. — Está dispensado.
— Muito obrigado, senhores — Fiz uma mesura, inclinando o tronco para frente com respeito e despedi-me.
Na saída, esbarrei com um rapaz. Ele era um pouco mais alto que eu, aparentava a idade do meu irmão e usava roupas velhas de camponês. Cobria a cabeça com um elmo idêntico ao meu. Por algum motivo, achei seus olhos azuis extremamente familiares.
— Cuidado por onde anda — resmunguei, esquecendo por um momento de fingir a voz masculina.
Se o garoto percebeu, não se importou. Parecia estar nervoso demais para prestar atenção em alguma coisa. E quem não estava?
— Me desculpe — pediu, cortês e me contornou para entrar na sala de onde eu acabara de sair.
Sua voz reforçou a sensação de que eu o conhecia de algum lugar. Agitei a cabeça, afastando a ideia. Deveria ser só impressão minha.
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