Na Medida Do Possível
2 Capítulo 1
Veronica estava em meio a uma aula de ética – talvez? – quando tudo aconteceu. Ela tivera de ir à escola sozinha hoje, porque seu Aidan pegara uma gripe com as recentes mudanças de temperatura. Não era a pessoa mais popular, então quando ele não estava ela sentia como se o mundo inteiro estivesse contra. Estava começando a sentir sintomas, mas poderiam ser apenas psicológicos. E nada era divertido quando Aidan não estava por perto.
— Atualmente estamos cercados de tanta destruição, ganância e morte, que as pessoas nem se afetam mais. É um novo normal. As pessoas estão egoístas, pensam apenas em benefício próprio. E não podem levar toda culpa, por que é o que o mundo as levou a ser. Há duas explicações que podemos levantar: elas fazem isso porque elas sabem que se não pensarem em si mesmas, outras pessoas também não irão; e já são assim a tanto tempo que não conhecem outro modo de viver. – A professora falava tentando tirar alguma reação dos alunos, mas eles pareciam não a ouvir.
Era última aula do dia, a paciência já tinha se esvaído e agora Veronica estava emergida num podcast de uma garota que discutia assuntos reais. Tinha seus olhos fechados e estava tão concentrada no mundo a parte que não ouvia a Sra. Mendes falar, muito menos a explosão que se propagou do lado de fora da janela.
Vários alunos correrão para ver o que era enquanto a professora tentava manter a paz. Eles se pressionavam contra a janela lateral curiosos e bastante barulhentos tentando postar o que estava acontecendo em suas redes sociais, mas ninguém via nada. Por entre murmúrios alheios, um homem apareceu cambaleando com os olhos vermelhos e boca pingando sangue. Ele atacou uma mulher, mordeu seu pescoço e começou a arranhá-lo. Os gritos foram tão altos que Veronica removeu seus fones de ouvido. – O que houve? – Ela perguntou ainda distraída.
Quando se aproximou para ver sobre o que se tratava o rebuliço, não conseguiu. Foi jogada para trás por um mar de alunos tentando se afastar. Antes que pudesse fazer qualquer outro movimento, ouviu pelo autofalante da escola: — Alunos, por favor mantenham a calma até termos ideia da gravidade da situação. Professores, liguem suas televisões no canal três. – A Sra. Mendes tentou pegar o controle em sua mesa, mas estava tão desconcertada que quase o deixou cair. Quando finalmente conseguiu ligar, a tela começou a brilhar e em sua margem inferior lia-se com letras bem grandes a manchete dizendo ALERTA: Vírus contamina pessoas e as transforma em monstros.
A repórter vestida em roupas formais que começou a falar: — Cidadãos de Rivertown, prestem atenção. Houve um surto de um vírus desconhecido próximo a Companhia Farmacêutica Contra Doenças Graves (CFCDG) e ele está... transformando as pessoas. Deixando-as sanguinárias, sem raciocínio e extremamente agressivas. – A repórter começou a balançar uma caneta por entre os dedos. – Não se sabe ainda qual foi a causa desse surto ou quem é o responsável. Ao parecer, esse vírus se propaga através de contato sanguíneo, sendo a forma mais comum vista: a mordida. Estamos tentando contato com a companhia, porém ainda não conseguimos nenhuma declaração. É aconselhável que todos permaneçam a salvo, tranquem as portas e mantenham as janelas fechadas. Não sabemos com o que estamos lidando e até ser esclarecido, todos estamos em perigo. – A imagem mudou para um comercial sobre protetor solar e logo a televisão foi desligada.
Após sair de seu transe, a professora entrou em ação e começou a falar, mas Veronica não estava ouvindo mais. Não podia ficar ali, voltar para casa e cuidar de sua irmã. Sua sorte é que Aidan estava com febre essa manhã. Não no mal sentido, nunca seria isso. Apenas porque ele podia estar com os dois pequenos no apartamento e essa era a única tranquilidade que ela tinha no momento.
Quando voltou a si tudo estava uma confusão. Os alunos queriam sair e a Sra. Mendes tentava mantê-los dentro da sala. Ela não tinha tempo a perder, precisava dar o fora dali. Esperou alguns segundos, aproveitando o pânico dos alunos e uma pequena brecha, pegou suas coisas e escapou para os corredores.
Ao deixar a escola, ela teve um parâmetro real da situação: tudo estava um caos. Começou a fazer seu caminho normal para a casa o mais rápido que pode e a cada passo que dava via pessoas sendo atacadas. Ela mal conseguiu desviar quando um veio na sua direção. Ao passar pela farmácia, lembrou-se que havia prometido pegar um remédio para Aidan quando voltasse. Sabia que gripe não era sério e aquele definitivamente não era momento de obstáculos, mas tomou a decisão porque não o podia deixa-lo na mão. Apenas não conseguia.
Veronica entrou na loja para a visão de pessoas roubando. Buscou o mais rápido que pode pelos corredores, desviando de brigas e violência até finalmente achar o remédio que buscava. Ela ia pagar, mas naquele mesmo instante o homem do caixa estava lutando com um outro pegando garrafas de água.
Virou-se para sair, pois quando tudo acabasse voltaria. Porém antes que conseguisse sair, um monstro extremamente agressivo adentrou o estabelecimento e tudo ficou mais rápido. O desespero adquiriu níveis astronômicos quando ele saltou em uma senhora mordendo seu pescoço. Aquilo paralisou Veronica por alguns segundos. Felizmente, um homem agarrou seu braço para salvar sua vida e ela voltou a realidade.
Tinha que se mover, mas já sem muito espaço porque as estantes caíram. Ela foi desviar e acabou indo junto a mais três pessoas contra o vidro da vitrine da farmácia. A queda fez um pedaço a ficar preso em seu braço. Esperou mais a dor não veio. No entanto, estava sangrando e isso poderia matá-la.
Na medida do possível, ela se levantou e começou a correr tentando ignorar o que havia acontecido e focar no seu objetivo. Quando ficou sem ar, Veronica teve que parar. Entrou em um beco silencioso e sentiu como um mundo à parte da realidade. Tirou a mochila das costas, abriu e pôs o remédio dentro ao mesmo tempo que tirava uma blusa fina. Conseguiu fazer um torniquete para estancar o sangramento e quando estava satisfeita voltou ao seu caminho.
Saindo de seu pequeno vortex temporal, o mundo a fora estava apocalíptico. Conseguiu chegar em seu prédio e passou por pessoas que corriam tentando fugir com suas crianças, animais e objetos preciosos nos braços. Veronica apertou o passo até alcançar sua própria porta. Tentou abri-la, mas não teve sucesso. Bateu algumas vezes e jogou o corpo para frente e desviar por um triz de uma mãe que iria acertá-la com o carrinho de bebê.
— Quem está aí? – Ela sobressaltou quando uma voz pergunta através da porta e ela a reconhece imediatamente.
— Sou eu Aidan, abre logo! – Disse gritando. Tem-se um momento e a porta escancara. Veronica entrou correndo deixando o barulho do lado de fora ser abafado por alguns centímetros de madeira.
Aidan a abraçou aliviado por um breve período de tempo. – Ainda bem! Estava preocupado com você! Por que não atendeu o telefone? – Se aproximou para segurar o rosto dela tentando analisar o que seus olhos tinham a dizer. De repente, ele desviou sua atenção para a vermelhidão que se estendia em seu braço e deu um pulo para traz. – Cruzes, Ronnie! O que é isso?!
Veronica ainda estava confusa com tudo e sem nem responder, deixou Aidan para buscar sua irmã. Atravessando o corredor correndo, ela viu Anna e Jack brincando no chão do quarto. Em um suspiro de desaforo, ela se jogou no chão abraçando Anna com o braço bom. – É tão bom te ver, que bom que está a salvo. Mas nós temos que ir, não estamos seguros.
— Do que você está falando? – A voz de Aidan a alarmou e pode sentir o cabelo de sua nuca levantar. Ele estava perto, com mais precisão, estava em seu caminho quando a mesma se levanta para sair do quarto. – Calma. Respira. O que está acontecendo?
— Você não viu as notícias? – Veronica desviou correndo para a sala de estar e ligou a televisão. A mesma mostra o surto de uma doença desconhecida. Só que ela não conseguiu ouvir direito porque a tontura ficou mais forte. Aidan foca por um momento na repórter antes de voltar sua atenção a ela e percebe sua pele empalidecer. Ela podia que sentir sua testa estava suada deixando os fios de cabelo um pouco mais pesados.
— Não! Não vi! Mas você pode me contar tudo enquanto eu conserto o seu braço... – Aidan saiu correndo porta a fora, mas ela não perdeu tempo. Foi até a cozinha, tirou o telefone do bolso e enxugou seu rosto, enquanto ligava para os pais. Após algumas tentativas, eles finalmente atenderam. – A sua sorte é que a minha mãe era enfermeira. – Diz Aidan passando pela porta com uma maleta. Com um olhar ele ficou quieto. Jack e Anna apenas observavam assustados da sala de estar.
— Mãe! Tudo bem?! Vocês estão bem?! – Ronnie gritou para o telefone enquanto começava a se sentir um pouco tonta. Com cuidado, Aidan removeu o garrote da blusa que ela tinha feito. Ao mesmo tempo, tentava ficar calmo e mantê-la parada, mas, ao fazer isso, o braço dela se moveu e ela se agarrou à beira da pia para não gritar ou assustar alguém.
Ele levanta as mãos rapidamente. – Desculpa, desculpa, desculpa! – Mas sem demorar, tenta remover o vidro como se ela fosse porcelana. Suas mãos tremiam e ele desejava muito não se importar tanto para ter a chance de fazer um trabalho melhor.
— Ah, que bom! Sim, mãe estamos bem também. – Ela assente para Aidan que estava pedindo permissão para fazer o movimento final. – Mãe, você está me assustando. – Ela morde a boca quando Aidan finalmente tira o pedaço de vidro. – Sim. Sim, sei onde fica. Ok. – Ela apertou mais a beira e apoiou seu corpo, porque estava começando a perder a consciência. – Sete, cinco, três, dois. Ok... Pode deixar. – Veronica respirou fundo usando todas as suas forças para lembrar dos poucos números. – Nós vamos sim, fica tranquila. Te vejo logo. Também amo vocês. – Foi a última coisa que ela disse antes de desligar e acabar caindo no chão.
— Ei, ei, ei, Ronnie, fique acordada. – Aidan se agacha em frente a ela e continua a pressionar seu ferimento já entrando em pânico. – Jack, pega a mala da mamãe, rápido! Está aí em cima. – O garotinho corre para ajudar. O sangramento havia parado e Veronica mantinha os olhos fechados apenas esperando pela agulha. – Ronnie, isso vai doer bastante, mas preciso que você fique bem parada. Pode fazer isso por mim? – A preocupação e incerteza na voz de Aidan eram claramente notáveis e ela não se sentia capaz de responder. Veronica respira fundo e assente rapidamente quando sua irmã agarrou sua mão.
Após alguns segundos, ela o encara e percebe que sua visão estava escura e desfocada. Ao fundo podia ouvir os choros leves de sua irmã e a respiração pesada de todos presentes. De repente seu braço começa a arder até que não mais.
Tudo estava preto. Tudo estava mais calmo. Naquele momento, ela não sabia dizer o porquê. Percebeu que havia fechado seus olhos novamente, havia desmaiado brevemente. Podia ouvir seu próprio coração batendo em sua orelha. Precisava ir rápido. Ao abrir os olhos, viu que o rosto de Aidan estavam bem perto do seu e seu semblante estava carregado de preocupação.
— Graças! – Ele sorriu aliviado sem piscar por medo de que fosse uma miragem. – Dê uns minutos a ela, vocês dois. Peguem uma mochila, coloquem algumas roupas, um agasalho e um pouco de comida. – Ainda segura Veronica tentando se manter calmo. – Você me assustou agora pouco. Como você está? – Sua voz tremia um pouco e ela pode ver uma lágrima escorrer por seu rosto, mas o sorriso permaneceu.
Após alguns segundos, sentiu-se capaz de responder. – Eu não sei, mas não tenho tempo para descobrir. Precisamos ir. – Ela tentou se levantar, mas quase caiu. Seu corpo ainda não estava pronto.
— Espera, você está fraca. Sei que é uma situação de emergência, mas me fala que eu faço. – Ele disse ajudando-a a sentar melhor. Mas estava determinada, tentou novamente, conseguiu levantar e ficou apoiada a beira da pia.
— Faça uma mochila para você e uma para Jack, não temos tempo a perder. Ah, e pega o seu remédio. Está na minha bolsa! – Ele parou para encará-la. – Vai! – Sem mais um segundo, Aidan pegou o medicamento e correu para fora do apartamento. Ela foi ao seu quarto cambaleando. Usava as paredes para se manter em pé, porque tudo estava girando naquele momento.
Enquanto fazia sua própria mala, ouviu choros atrás de si e ao se virar sua irmã estava agarrada a Jack. – Nós vamos morrer? – A voz trêmula da pequena calou os sons ao redor.
— Estou com medo, cadê a minha mamãe? – Jack disse agarrando-se a Veronica. Ela não podia dar-se ao luxo de parar, precisava estar ali por eles e no melhor que pode. Então, respondeu ao pequeno:
— Não sei Jack, eu também quero. Mas não se preocupem. Eu não vou deixar nada acontecer a vocês. – Ela se apoiou na cama para tentar parecer mais confiante e superar a tontura leve que a perseguia. E então encarou sua irmãzinha. – Mas preciso que faça aquela mala que Aidan pediu e traga para mim.
— Está pronta. – Anna correu porta a fora e voltou em seguida. Ao checar o conteúdo percebeu que continha um urso de pelúcia, um vestido, um leve agasalho e duas barras de chocolate. Não pode evitar sorrir, sua irmã lhe encarava um pouco mais animada. Veronica respirou fundo para ficar em pé.
— Tudo bem, quase lá. – Se virou, terminou a sua mala rapidamente e seguiu para ajudar a Anna, sem antes pegar um pouco de comida e água na cozinha. Alguns minutos se passaram enquanto os três preparavam tudo em silêncio.
Tudo já estava arrumado. A TV começou a piscar quando a porta se abriu novamente e Aidan entrou com duas mochilas. – Pronto, pronto.
— Aviso, aviso, isso não é um teste. Está declarado perigoso sair, fiquem seguros, e se protejam. O prefeito disse que estão fazendo tudo para contornar a situação, mas enquanto isso, todos precisam se manter a salvo.
Ela olhou para Aidan e ambos sabiam que se iriam sobreviver a isso precisavam ficar calmos. Tudo o que tinham no momento era um ao outro. Após desligar a TV, Aidan perguntou: – Falta alguma coisa?
— Sim. – Ela levantou, andou até o armário secreto que tinha no corredor e inseriu o número que sua mãe lhe tida dado minutos atrás: 7-5-3-2. A porta abriu com força e revelou seu conteúdo. Lá dentro estavam duas armas e quatro cartuchos. Seu pai as mantinha em casa para a segurança da família caso algum dia fosse necessário. Ela ouviu um suspiro com tantas emoções diferentes que não tinha dúvidas. – Olha, sei que precisamos manter-nos positivos, e eu espero que não precisemos usá-las. Sei também que você não gosta, mas precisamos estar prontos para toda e qualquer situação. – Ela sabia que Aidan estava atrás de si, mas não queria virar.
— Tudo bem... só tome cuidado. – Ela assentiu e colocou uma das armas com três cartuchos em sua mochila. A outra arma ela preparou, levantou e pôs na sua cintura. Por seu pai ser policial, ele insistiu que ela aprendesse a atirar. Então, desde pequena ela ia para o clube de tiro porque segundo ele: o mundo é muito perigoso e um dia ela iria precisar. Nunca quis que seu pai tivesse razão quanto aquilo, mas aqui estamos.
— Como eu sei o que você sente a respeito, não vou nem oferecer, mas pegue algumas facas na cozinha que precisamos sair logo. – Ela correu para certificar que tudo estava trancado enquanto ele seguiu seu conselho. Veronica pegou a chave do carro e todos saíram rapidamente. Sabia que eles já haviam perdido bastante tempo, mas nesse momento não era tinham tempo para lamentar.
Aidan corria na frente, seguido por Jack e Anna, e logo vinha Veronica. Estavam se mantendo calmos e afastados das pessoas, tentando fazer o menor barulho possível. Não sabiam o que poderiam encontrar. Tudo o que vinha em sua cabeça era que ela não tinha como controlar o mundo e eles poderiam se machucar. Mas definitivamente ela morreria antes que deixasse que algo acontecesse àqueles seres vivos.
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