— Apartamento de Grissom — Sala —

A sala havia sido organizada igual a um centro de operações.

Brass ocupava a poltrona, Catherine estava no sofá com bloco de anotações na mão, Sara havia escolhido a cadeira mais distante da entrada, com o notebook já ligado e o semblante de quem está completamente focada no trabalho.

Grissom chegou com café para todos.

— Cath me contou o que vem acontecendo com a família. — Brass abriu direto, sem preâmbulo. — A situação é mais séria do que parece à primeira vista.

— Com certeza. — Grissom assentiu. — E ficou mais urgente agora.

— Enquanto você... — Catherine pausou com um timing que não era acidental — ...estava ocupado, Sara recebeu um telefonema do Augusto dizendo que iriam viajar.

— Anthony está fugindo então.

— Pelo jeito sim. — Sara não ergueu os olhos do bloco. — Pedi para o Augusto me dizer onde vão ficar assim que puder. Se ele conseguir ligar de novo, temos um ponto de referência.

— Bom. — Brass fechou uma das páginas. — Sara, tenta ver se consegue rastrear as movimentações de Anthony. Transações bancárias, reservas, qualquer coisa que nos dê uma noção de destino.

— Já estava pensando nisso. — Ela anotou sem pausar.

— Vai ser algum lugar distante com certeza. — Grissom se inclinou levemente para frente. — Se ele sabe que foi identificado, vai querer colocar o máximo de distância entre ele e Las Vegas antes que—

— Cath. — Ele virou para a loura, mudando o tom. — Queria te dizer que não estava namorando.

Catherine ergueu os olhos do notebook com uma expressão que demorou um segundo a chegar e quando chegou tinha aquela qualidade específica de inocência completamente fabricada.

— Estava dando uns pegas então?

Catherine.

— Grissom, eu só—

— Catherine.

— Tudo bem, tudo bem. — Ela levantou uma mão em rendição. — Estamos sendo profissionais.

Brass olhou para o teto brevemente.

Sara continuava escrevendo.

Grissom abriu a boca para continuar...

O celular de Brass vibrou na mesa.

Todos pararam.

O capitão atendeu na segunda vibração, ouviu a informação com o rosto progressivamente mais fechado, disse entendido e desligou.

O silêncio que se seguiu tinha peso.

— O escritório de Anthony foi atacado. — A voz saiu seca, direta. — Há pouco tempo. Alguns feridos. Nada fatal por enquanto.

O ar na sala mudou.

— Recado. — Sara disse, baixo. — Estão mandando recado antes de ir atrás dele de verdade.

— O que significa que o tempo que ele tem é menor do que imagina. — Grissom estava de pé antes de terminar a frase.

— E a família junto com ele. — Brass fechou a pasta. — Precisamos localizá-los antes que quem fez isso localize primeiro.

Catherine já estava com o celular na mão e havia algo no jeito que o segurava que dizia que já havia decidido o que fazer.

— Vou ligar para Sam Braun.

Brass ergueu uma sobrancelha.

— Catherine—

— Sam sabe de tudo que acontece nos cassinos desta cidade antes de acontecer. — Ela já estava discando. — Se alguém tem informação sobre quem mandou atacar aquele escritório e o que pretendem fazer a seguir, é ele. — O telefone começou a chamar. — Vou sondar com cuidado. Ele não vai perceber o que estou buscando.

Brass e Grissom trocaram um olhar.

— Ela está certa. — Grissom disse por fim.

Brass assentiu, sem parecer completamente feliz com isso.

Catherine levantou um dedo pedindo silêncio.

— Sam! — O tom mudou completamente — leve, quase casual, a voz de quem liga para conversar e não para investigar. — Quanto tempo! Como você está?...

Sara olhou para Grissom pela primeira vez desde que haviam entrado na sala.

Apenas um segundo.

O suficiente para ele ver que o semblante fechado não havia sumido, mas havia algo por baixo dele que era preocupação.

— Precisamos encontrar eles primeiro. — Ela disse, baixo.

— Vamos encontrar. — Ele respondeu.

E desta vez, pela primeira vez naquela tarde, ela não desviou o olhar imediatamente.

Catherine ouvia com atenção, respondendo com monossílabos, deixando Sam falar, direcionando sem que ele percebesse que estava sendo direcionado.

— Entendo... — Catherine disse, o tom leve. — E esse sócio ainda tem negócios ativos por aqui?... Ah é?... Interessante, Sam. — Uma pausa. — Não, não, curiosidade mesmo. Você sabe como é... — Uma risada pequena e calculada. — Obrigada. A gente se fala. Cuida-se.

Ela desligou.

O leve sorriso de conversa desapareceu imediatamente.

— Sam confirmou. — A voz voltou ao tom de sala de operações. — Um dos sócios do Cassino Vale Money tem ligação direta com um integrante do Cartel de Cali.

Brass fechou os olhos por um segundo.

— Cartel de Cali. — Ele repetiu, devagar, com o tom de quem estava esperando que a situação fosse séria, mas não necessariamente tão séria.

Catherine continuou. — E esse integrante também foi prejudicado pelo esquema de espionagem que Anthony e sua equipe montaram. Informações vazadas, negócios comprometidos, dinheiro perdido. — Ela pausou. — Sam não sabe exatamente quanto, mas pelo jeito foi o suficiente para colocar Anthony na lista de prioridades deles.

— Lista de prioridades do Cartel de Cali. — Sara disse baixo, quase para si mesma. — Com uma mulher e uma criança de sete anos junto.

O silêncio que se seguiu tinha uma qualidade diferente de todos os outros da tarde.

Grissom virou da janela.

— Não é mais só questão de cassino. — A voz estava séria. — Anthony criou inimigos em camadas. Os donos dos cassinos locais queriam dinheiro ou vingança. O Cartel—

— O Cartel não manda recado duas vezes. — Brass completou, seco.

— O ataque ao escritório. — Sara se levantou, o bloco na mão. — Foi o primeiro aviso. Se não encontrarem Anthony rápido o suficiente—

— Não vai haver segundo aviso. — Brass foi direto. — Vai haver resultado.

Enquanto eles conversavam, Sara deu a desculpa de ir ao banheiro para poder pegar sua bolsa.

A desculpa do banheiro havia sido convincente o suficiente.

O quarto estava como havia deixado — arrumado, neutro, com aquela luz de fim de tarde que entrava pela persiana e que horas atrás havia parecido aconchegante.

Agora só parecia irônico.

Os passos no corredor chegaram antes que ela terminasse de fechar a bolsa.

— Preciso falar com você.

Sara não se virou imediatamente.

Ficou com as mãos na bolsa por um segundo — reunindo o que precisava reunir — e então se virou com uma expressão que havia sido preparada para ser neutra e não estava conseguindo completamente.

— Grissom, não temos nada para conversar.

— Sara—

— Você conseguiu o beijo que tanto queria. — A voz saiu controlada, direta, com aquela qualidade cortante que aparecia quando ela estava mais machucada do que queria mostrar. — Seu desejo foi atendido. Pronto.

Ele abriu a boca.

— Foi ridículo. — Ela continuou, e havia algo quebrando nas bordas da voz que ela estava administrando com esforço. — A cena da sua namorada me olhando com aquele olhar fulminante quando saí do elevador. — Ela balançou a cabeça levemente. — Nunca me senti tão desconfortável quanto agora a pouco. Eu, no lugar dela, ficaria possessa de chegar na—

— Chega, Sara. — A voz dele saiu mais alta do que pretendia — não raiva, urgência. — Heather não é minha namorada.

— Amiga com benefícios então. — Ela levantou uma mão antes que ele pudesse responder. — Olha. O que ela é sua não é da minha conta. — A voz baixou, perdendo a afiação e ficando com algo mais cansado, mais honesto por baixo. — Mas não pode negar que ela é muito íntima sua. O selinho. A mão no peito. O jeito que ela entrou aqui sem avisar e você ficou parado sem dizer nada.

Grissom ficou imóvel.

— Se você gosta mesmo de mim — a palavra mesmo carregou um peso considerável — como vem dizendo... — Sara pegou a bolsa com firmeza e foi em direção à porta — ...então peço que não me perturbe mais. Me deixa em paz, por favor.

Passou por ele.

Ele não segurou dessa vez.

O corredor recebeu os passos dela — controlados, rápidos, na direção da sala — e Grissom ficou parado no meio do quarto de hóspedes ouvindo o som ir embora.

Ele não havia visto.

Mas Sara havia virado o rosto no momento certo — e as lágrimas que havia segurado com tanta força durante toda aquela conversa haviam começado a escorrer em silêncio no corredor, antes que ela chegasse à sala e recompusesse cada linha do rosto para o que precisava ser.

Profissional. Focada. Presente.

Como se nada tivesse acontecido.

Como se o quarto de hóspedes não existisse, o beijo na cozinha não existisse, aquele querida dito antes de dormir não existisse.

Grissom ficou onde estava por um momento longo.

Olhou para as mãos. Para o lugar onde ela havia estado.

Ele respirou fundo e pensou na pessoa que estava lhe causando problemas...

Heather.

Não era o que Sara pensava. Nunca havia sido.

A verdade era simples e complicada ao mesmo tempo — como a maioria das verdades que envolvem lealdade e sigilo e o preço de guardar o segredo de alguém.

Heather estava no meio de algo sério. Um caso que havia chegado até ele por canais que não podiam ser documentados, envolvendo pessoas que não podiam saber que estavam sendo investigadas. Ela havia pedido ajuda — não à polícia, não ao departamento, mas a ele. Pessoalmente. Porque confiava nele e porque o caso tocava em territórios que só alguém com o perfil de Grissom conseguiria navegar com discrição.

Ele havia concordado.

E havia concordado em silêncio — porque era a única forma que funcionava.

O problema era que Heather, com aquela inteligência afiada e aquele senso de oportunidade que nunca desligava completamente, havia percebido o efeito colateral útil de ter Grissom disponível e presente. Havia percebido Sara. Havia percebido a tensão entre os dois.

E havia, conscientemente ou não — Grissom ainda não havia decidido qual das duas opções era mais perturbadora — usado a proximidade com ele como combustível para aquela tensão.

Os selinhos. Os olhares calculados. A mão no peito na hora certa.

Cutucar Sara — Catherine havia dito, lá embaixo, sem saber o quanto estava certa.

Grissom olhou para Sara por cima da pasta.

Ela não ergueu os olhos.

O risco de perdê-la havia começado como uma possibilidade abstrata — algo que ele havia catalogado e arquivado na gaveta das coisas que preferia não pensar. Mas a gaveta havia transbordado. E agora a possibilidade estava sentada a dois metros dele com o rosto fechado e a caneta na mão, construindo uma distância que desta vez ele não havia pedido mas estava recebendo de volta com precisão matemática.

Muito por conta das atitudes da sua querida amiga.

O pensamento chegou com uma acidez que o surpreendeu — porque Grissom raramente sentia algo tão próximo de irritação com Heather. Ela era inteligente, complexa, leal à sua maneira. Mas havia uma linha entre usar a situação a favor dela e prejudicar algo que ele não podia se dar ao luxo de perder.

E ela havia cruzado essa linha.

Várias vezes. Com elegância. E sem parecer nem um pouco arrependida.

Ele precisava falar com ela.

Mas antes disso — muito antes disso — precisava encontrar uma forma de dizer a Sara o que não podia dizer completamente. De explicar sem poder explicar. De pedir paciência sem conseguir dar o motivo.

E Grissom sabia, com a mesma clareza com que sabia qualquer outra coisa, que Sara Sidle não era o tipo de pessoa que esperava sem entender o porquê.

— Gil. — A voz de Brass chegou da sala, seca e sem margem. — A gente precisa de você aqui.

— Sara descobriu que Anthony limpou a conta. — Brass fechou o telefone com aquela expressão de quem confirmou o que já suspeitava mas preferia estar errado. — O saque foi feito num banco de Hildre Valley.

— Onde fica isso? — Catherine já estava no notebook.

— Uma hora e meia daqui. — Brass pegou o casaco. — Pago em espécie, conta zerada. Não deixou nada para trás.

— Iniciou-se a fuga. — Grissom se levantou, fechando a pasta com um movimento definitivo. — Ele está tentando desaparecer antes que qualquer rastreamento financeiro funcione.

— Parcialmente bem-sucedido. — Sara estava de pé, bolsa no ombro, o bloco fechado. — Conta limpa dificulta o rastreamento, mas o saque físico num banco específico nos dá localização e janela de tempo.

— Uma hora e meia de vantagem no máximo. — Brass avaliou. — Se saíram logo depois do saque, já estão em movimento.

— Ou já chegaram ao destino. — Catherine fechou o notebook e se levantou. — Depende de quando exatamente fizeram o saque.

— Consigo verificar o horário exato da transação quando chegarmos ao laboratório. — Sara disse, já em direção à porta.

— Vamos precisar de um mandado. — Grissom foi atrás, endireitando o paletó. — Para conduzir Anthony daqui e trazê-lo de volta a Las Vegas para ser ouvido sem que isso vire um problema jurisdicional.

— Conheço um juiz que deve estar disponível. — Brass já estava com o celular na mão enquanto caminhava. — Vai depender do que conseguirmos apresentar como justificativa imediata.

— Temos o suficiente. — Catherine garantiu. — Ligação com informante de cassino rival, suspeita de espionagem corporativa e agora fuga com limpeza de conta. — Ela ergueu as sobrancelhas. — Qualquer juiz razoável assina.

— E o Cartel? — Sara falou enquanto esperavam o elevador, a voz baixa mas direta.

O silêncio durou um segundo.

— O Cartel é o motivo pelo qual precisamos ser mais rápidos do que rápido. — Brass foi seco. — Se chegarem em Anthony antes de nós, não vai haver ninguém para ouvir e nenhum caso para abrir.

As portas do elevador se abriram.

Os quatro entraram e saíram do prédio em direção aos carros com a urgência contida de quem sabe que cada minuto tem peso.

O turno havia avançado sem trazer novidades — e ausência de notícia, naquele caso específico, não era reconfortante.

Grissom havia colocado toda a equipe no caso com a discrição necessária — Nick e Warrick monitorando rotas e câmeras ao longo do trajeto provável da família, Sara e Catherine vasculhando os registros dos cassinos em que Anthony havia trabalhado, procurando padrões, contatos, qualquer fio solto que pudesse puxar algo maior.

O laboratório funcionava. A equipe funcionava.

As notícias não chegavam.

Sara estava no meio de um arquivo quando ouviu seu nome.

— Sara?

Judy Treilor estava na porta da sala com aquela expressão levemente desconfortável de quem está prestes a entregar algo que não sabe ao certo o que é.

— Tem uma ligação na recepção pra você.

Sara ergueu os olhos.

— Quem é, Judy?

— Não quis se identificar.

O silêncio durou menos de um segundo.

Sara olhou para Catherine.

Catherine já estava se levantando.

Não precisaram discutir — o olhar foi suficiente. Qualquer ligação anônima para Sara, naquele momento, com aquele caso em andamento, não era coincidência.

— Pede para passar para a sala do Arch. — Sara já estava caminhando. — E chama a equipe.

Dois minutos depois a sala estava montada — Grissom, Brass, Nick, Warrick, Catherine, todos em posição ao redor do rastreador que Arch havia conectado à linha em tempo recorde.

Sara ficou de pé na frente do aparelho.

Respirou uma vez.

— Pode passar, Judy.

A linha clicou.

— Alô? Quem fala? Sara Sidle falando.

A voz do outro lado chegou calma — masculina, com uma cadência cuidadosa demais para ser natural. Alguém que havia ensaiado.

— Senhorita Sidle, boa noite. Não vou me identificar. Saiba apenas que estou fazendo o que me pediram — e o pedido foi para entrar em contato com a senhora porque estou com um pacote que lhe interessa.

Sara manteve a voz absolutamente neutra.

— Que pacote?

Uma pausa de meio segundo.

— O menino Augusto.

O ar na sala mudou.

Sara fechou os olhos por uma fração de segundo — o único sinal que deu — e então continuou, com uma firmeza que custou mais do que pareceu:

— Você está com Augusto? — A voz saiu controlada, direta. — Por favor, não faça mal a ele.

— Não vou. — A voz do outro lado não tinha ameaça — tinha algo mais próximo de instrução. — Mas a senhora precisa buscá-lo o mais rápido possível para poder ajudá-lo. Ele está num hotel de beira de estrada em Reno. Quarto 675.

— Onde estão os pais dele?

Uma pausa mais longa dessa vez.

— Senhorita, só tenho este pacote. — A voz ficou levemente mais firme. — E assim o recado foi dado.

Sara abriu a boca para continuar.

¡Hasta pronto, señorita Sidle!

A linha caiu.

O silêncio na sala durou dois segundos.

— Encerrou em espanhol. — Brass foi o primeiro a falar, com o tom de quem está catalogando evidências em tempo real. — Então temos agora um perfil de suspeito.

— Cartel de Cali. — Warrick disse, baixo.

— Consistente. — Grissom já estava de pé. — Precisamos ir buscar Augusto. Agora.

— Vamos logo, gente. — Sara já estava pronta para sair — Ele disse que precisa ser rápido.

— Sara, eu vou com você. — Brass já estava em pé. — A equipe continua aqui na busca pelo casal.

— Certo. Vamos.

— Eu vou com vocês também.

Sara parou.

Grissom estava de pé, paletó no braço, com aquela expressão que não tinha supervisão nem protocolo — tinha apenas determinação.

Ela o olhou por um segundo.

— Não precisa, Grissom. É melhor você ficar coordenando daqui.

— Eu faço questão de ir.

— Grissom—

— Sara. — A voz não tinha o tom de conquista nem o de supervisor. Era outra coisa — mais simples, mais direta, do tipo que não usa muitas palavras porque não precisa. — É o Augusto.

O silêncio durou exatamente o tempo necessário.

Sara olhou para ele.

Ele a olhou de volta.

E havia algo naquele momento que estava completamente fora do alcance de qualquer protocolo ou distância cuidadosamente mantida. A lembrança de um menino de sete anos com o caderno de anotações aberto, que chamava os dois de tio e tia com a naturalidade de quem não havia combinado com ninguém e simplesmente sabia.

— Vamos. — Ela disse por fim.

Virou-se em direção à saída.

— Avisem assim que chegarem. — Cath disse. — Qualquer coisa que encontrarem lá.

— Pode deixar. — Brass já estava no corredor.

A viagem havia sido feita no silêncio tenso de quem está pensando em possibilidades e escolhendo não verbalizá-las.

Brass dirigia. Grissom no banco do passageiro com o telefone na mão, coordenando com a equipe que havia ficado em Las Vegas. Sara no banco de trás — quieta, com os olhos na estrada escura, fazendo mentalmente o que fazia sempre quando estava preocupada: calculava, organizava, preparava.

Não ajudava muito desta vez.

O Hotel Beira Estrada era o tipo de lugar que existe em toda saída de rodovia — fachada cansada, letreiro com uma letra queimada, estacionamento meio vazio com a iluminação que fazia o possível. Não era o tipo de lugar onde se ficava por escolha.

Era o tipo de lugar onde se ficava quando se estava fugindo.

Duas viaturas locais já estavam no estacionamento quando chegaram — Brass havia coordenado com o departamento de Reno durante o trajeto com a discrição necessária.

Corredor. Elevador. Sexto andar.

O número 675 estava no fim do corredor.

Os policiais locais fizeram a revista com eficiência — porta aberta, cômodo limpo de ameaça imediata, sinal dado.

Sara foi a primeira a entrar.

E parou.

Augusto estava na cama — pequeno demais para o colchão de casal, com as roupas do dia ainda vestidas, como se tivesse sido colocado ali sem cerimônia. O rosto relaxado. A respiração presente mas lenta, pesada do jeito específico de quem não está dormindo de forma natural.

O caderno de anotações estava no chão ao lado da cama.

Havia caído — ou sido largado — com uma página ainda aberta.

Sara cruzou o quarto em três passos e ficou ajoelhada ao lado da cama, a mão indo automaticamente para o rosto do menino — verificando temperatura, verificando responsividade, fazendo o inventário rápido de quem precisa saber antes de qualquer outra coisa.

— Augusto. — A voz saiu baixa, firme. — Augusto, pode me ouvir?

Nada.

As pestanas não se moveram.

— Grissom. — Ela não virou o rosto. — Chama uma ambulância.

Ele já estava com o celular no ouvido antes que ela terminasse a frase.

Brass ficou na porta coordenando com os policiais locais — colhendo o que havia no quarto, verificando registros, fazendo o trabalho que precisava ser feito.

Sara ficou ao lado de Augusto.

A mão no rosto dele não saiu.

— Estou aqui. — Ela disse baixinho, para o menino que não podia ouvir. — To aqui, tá bem. Pode ficar tranquilo.

A ambulância havia chegado em oito minutos.

Os paramédicos trabalharam com eficiência — verificações, equipamentos, a maca que parecia grande demais para um corpo tão pequeno. Sara acompanhou cada movimento com os olhos de quem está processando informação clínica e ao mesmo tempo tentando não deixar que o que estava sentindo ocupasse espaço que ela precisava para pensar.

Não estava funcionando completamente.

No hospital, enquanto Augusto era levado para avaliação, a médica de plantão informou o que Sara já havia suspeitado — sedativo. Dosagem calculada para deixar uma criança inconsciente por algumas horas sem causar dano imediato. Não era amador. Era alguém que sabia o que estava fazendo.

— Vai ficar bem? — Sara perguntou, direta.

— As primeiras indicações são boas. — A médica foi honesta sem ser descuidada. — Precisamos aguardar os exames, mas a dosagem parece ter sido controlada. — Uma pausa. — Alguém se preocupou em não machucar a criança.

Sara absorveu isso.

Com a mão sobre a mão dele e o olhar no rosto que estava começando a parecer menos ausente — as sobrancelhas levemente franzidas agora, como se alguma parte de Augusto, lá no fundo, estivesse começando a encontrar o caminho de volta.

Grissom parou na porta do quarto em algum momento — ela o sentiu sem precisar olhar — e ficou ali por um tempo antes de se afastar sem fazer barulho.

Sara não disse nada.

A chamada havia chegado no momento mais inoportuno — como as chamadas importantes costumam fazer.

Grissom e Brass estavam no corredor do hospital quando o rádio de Brass anunciou a ocorrência com aquela estática específica de chamada prioritária. Denúncia anônima. Cabana nas montanhas. Duplo homicídio.

Os dois trocaram um olhar.

Sara estava dentro do quarto com Augusto.

Grissom ficou parado na porta por um momento.

— Vai. — Ela disse, sem virar. — Eu fico com ele.

Ele ficou mais um segundo do que necessário.

— Eu volto.

Ela não respondeu, mas também não disse que não precisava.

A cabana ficava numa estrada de terra que subia pela serra com a indiferença das estradas que não foram feitas para pressa. As viaturas chegaram com os faróis cortando a escuridão da montanha e o que encontraram dentro justificava cada quilômetro percorrido em urgência.

Dois corpos.

A cena havia sido trabalhada com uma frieza que não era de crime passional era de recado. Calculado, limpo nas intenções se não nos resultados, com a assinatura silenciosa de quem fez aquilo antes e faria de novo sem perder o sono.

A equipe trabalhou em silêncio — o tipo de silêncio que as cenas graves impõem sem pedir permissão.

Brass ficou do lado de fora fazendo chamadas. Grissom percorreu a cena com os olhos de quem está lendo uma linguagem que a maioria das pessoas não consegue ver.

— Brass. — Ele chamou depois de alguns minutos. — Precisamos reforçar a segurança em Reno. Sara e Augusto estão expostos se quem fez isso souber onde o menino está.

— Já estava pensando nisso. — O capitão se aproximou, baixando a voz. — Vou ligar para ela agora. Avisar do ocorrido e acionar segurança local pro hospital.

— Eu vou buscá-los. — Grissom disse, com a naturalidade de quem já havia decidido antes de terminar a frase.

Brass parou.

Olhou para ele.

Olhou um pouco mais.

— Buscá-los??? — Ele repetiu, devagar, com aquela entonação específica do capitão que havia interrogado suspeitos por décadas e sabia quando uma resposta tinha mais camadas do que as palavras. — Você vai até Reno buscar Sara e Augusto??

— Sim.

— Pessoalmente??

— É o que disse.

— Poderia mandar uma viatura.

— Poderia.

— Mas vai você mesmo.

— Brass. — O tom de Grissom tinha um aviso educado.

— Não, não. — O capitão levantou as mãos com uma inocência completamente fabricada. — Estou só verificando os fatos. É o que fazemos, não é? Verificar fatos. — Uma pausa calculada. — Pelo jeito acordou pra vida e percebeu o que sente por ela. Estou certo?

— Isso não é—

— Grissom.

— Brass, eu—

— Gil. — A voz do capitão mudou — menos interrogatório, mais Jim Brass falando com um amigo que estava demorando demais para chegar numa conclusão óbvia. — Você está de pé numa cabana de crime às três da manhã querendo atravessar o estado para buscar uma mulher que você fingiu por anos que era só colega. — Uma pausa. — Acho que já passou do ponto de negar, não acha?

Grissom ficou em silêncio.

Brass esperou — com a paciência de quem sabe que às vezes o silêncio é a resposta mais honesta que vai conseguir.

— Eu vou buscá-los. — Grissom disse por fim, sem confirmar nem negar nada além do que havia dito.

Brass abriu um sorriso pequeno e satisfeito.

— Sabia.

— Você não sabia de nada.

— Sabia de tudo. Há anos. — Ele já estava pegando o celular. — Vou ligar pra Sara enquanto você aquece o carro. E Grissom?

O supervisor já estava se virando.

— Desta vez não deixa a campainha atrapalhar. — Brass disse, seco.

Grissom abriu a boca.

— Como você...

— Três da manhã, Gil. Não tenho paciência pra rodeios. Vai buscar ela.

Grissom ficou parado por um segundo.

Então foi em direção ao carro sem comentar, o que, para Brass, era confirmação suficiente.

— GRISSOM!!

A voz de Catherine chegou do interior da cabana com aquela urgência específica que fazia todo mundo parar automaticamente.

Os dois voltaram.

Catherine estava ajoelhada perto de um dos corpos — luvas, lanterna, expressão de quem encontrou algo que não estava esperando. Ela se levantou devagar, segurando um envelope plástico com o cuidado.

Dentro do envelope, um envelope menor.

Branco. Fechado.

Com um nome escrito na frente em letra clara, sem pressa — como se quem havia escrito soubesse que seria encontrado.

— Gil. — A voz de Catherine estava diferente. — Encontramos uma carta junto a um dos corpos.

Ela estendeu o envelope plástico.

Grissom olhou para o nome escrito na frente.

Sara Sidle.

— Que??? — A palavra saiu baixa, mas havia um peso nela que preencheu o espaço inteiro.

Catherine e Brass o olharam com a mesma pergunta que nenhum dos três conseguia responder ainda.

Quem havia escrito aquela carta.

O que havia dentro.

E por que o nome de Sara estava num envelope encontrado ao lado de dois corpos numa cabana nas montanhas.