Número 9

1 As Irmãs Davies se Reencontram


Notas iniciais
Hello. Aqui estamos nós, de novo... Postando para o nada.
Enfim, o flop.

Eu passei por muitas situações estranhas na vida, diria até que mais do que pessoas comuns. Viajar pelo tempo e espaço com um alienígena de mais ou menos 2.000 anos estava na lista. Conhecer irmãos com super poderes também.

Mas agora, ouvir que eu tinha poderes era a coisa mais estranha de todas. Passei anos da minha sendo comum... Isso não podia ser verdade.

Os Hargreeves pareciam considerar que eu podia mesmo ser como eles. O Doutor, por outro lado, me olhava como se eu fosse um experimento que tinha feito algo inesperado.

—Eu não sou especial. -Avisei. As discussões pararam e todos olharam pra mim. -Eu não fiz nada. Com certeza Klaus pode se curar e não sabia disso.

—Ah, eu acho que não. -Ele disse, nada convencido.

—Eu saberia se pudesse... Fazer coisas.

—A Vanya não sabia. -Luther lembrou.

—É diferente. Não passei a vida sendo dopada. Eu não tenho poderes. Não curei o Klaus.

—Só tem um jeito de saber. -Diego afirmou, puxando uma de suas facas e fazendo um corte no braço. Todo mundo pareceu espantado. -Me cure.

—Você enlouqueceu?-Allison gritou.

—Não foi tão profundo assim, eu não sou idiota. -Estendeu o braço na minha direção. -E aí?

Eu não gostava de ver sangue. Quando Klaus ficou cara a cara com a morte, meu corpo agiu por instinto e pânico, então me joguei na direção dele, tentando salvá-lo. Agora, eu não me sentia tentada a me aproximar do sangue.

Respirei fundo e dei alguns passos na direção de Diego, segurando o braço dele com uma mão e cobrindo o ferimento com a outra. Não sabia o que fazer depois disso, mas imaginei que devia pensar em curá-lo. Minhas mãos formigaram, como antes... E não havia mais corte.

Me afastei, surpresa.

—Eu disse que não era eu. -Klaus lembrou. Todo mundo estava olhando pra mim agora.

—Acho que isso faz de você a número 9. -Allison disse. -Bem vinda à Umbrella Academy.

***

Descobrimos que os celulares desaparecidos tinham sido “confiscados” pela Babá e os recuperamos nas coisas dela. De volta com meu Samsung surrado, mandei uma mensagem pra minha irmã, avisando que precisava falar com ela urgentemente e que devia me ligar assim que possível. Eu não sabia como ela ia reagir com o lance dos poderes, mas aparentemente teria um tempo pra pensar. Marie ultimamente não era fácil de ser encontrada.

Guardei o celular no bolso e me virei para o Doutor.

—Eu juro por Deus que se me scanear de novo achando que não estou vendo...

—Só checando. -Guardou a chave de fenda sônica.

—Eu ainda sou eu. Não me olhe como se eu fosse uma alienígena.

—Pra mim você é uma alienígena. -Suspirei.

—Você entendeu o que eu quis dizer. -Sentei num degrau da escada. -Posso curar as pessoas.

—Estou surpreso por não ter descoberto isso antes.

—Como eu ia saber?-Sentou ao meu lado. -Quando era criança, brincava de ser uma X-Men, mas... Ter poderes? Não. Uma coisa é imaginar, como qualquer criança faz. Mas não podia ser verdade.

—Mas é verdade. -O encarei.

—Não gostei disso.

—Você pode ajudar as pessoas.

—Não. Disso. -Apontei pra ele. -É como se você não me reconhecesse. Ainda sou a Mallory Davies que gosta de gatos, ama cor de rosa e é viciada em algodão doce. Mas agora você me olha como se eu fosse uma estranha.

—Não é de propósito. -Encarei o chão.

—Com você nunca dá pra saber.

—Mallory, alguns anos atrás houve uma invasão Dalek na Terra e você se feriu. O carro em que estava capotou e pegou fogo. Seu braço esquerdo foi cem por cento queimado. Eu salvei sua vida naquele dia. -Voltei a olhá-lo. -Mas você é minha companheira há dois meses. Eu sei quem você é. Gosta de suéteres, é atrapalhada, ativista, e muito solitária. Às vezes você lembra alguém que eu conheci, às vezes lembra de mim mesmo... Mas é autêntica demais pra ser uma cópia. E agora, tem outra coisa incrível sobre você. Pode curar as pessoas só de tocar nelas. Se isso te assusta, é melhor lidar depressa com esse fato, por que não há nada de errado sobre ele. -Fez uma pausa. -Não, não faça isso aí... Sem lágrimas. -Ri, limpando o rosto com a manga do suéter. -Não... Sem chorar...

—Você salvou minha vida mais vezes do que pode imaginar.

—Se me abraçar eu vou fugir. -Revirei os olhos.

—Você é um cara estranho.

—Você é estranha também. E seus novos amigos? Nem preciso dizer. Acho que vai estar em boas mãos. -Se levantou.

—Aonde você vai?

—Alguém tem que mandar Missy pra mais longe possível e garantir que ela não volte. Um exército com 43 pessoas especiais é tentação demais, ela vai querer voltar.

—Quando te vejo de novo?-Fiquei de pé.

—Não sei. Ligue se precisar. -Começou a descer as escadas.

—Como sabia que eu precisava de ajuda?-Parou, olhando pra mim.

—Seu tom de voz. Da última vez em que a ouvi tão preocupada, você estava com medo de perder seu braço. -Voltou a andar. -Vê se toma cuidado e manda os Hargreeves não deixarem estranhos entrar.

—Pode deixar.

***

—Estou ficando sem ar com essa porcaria. -Klaus reclamou, ajeitando a máscara no rosto.

—Quer ficar doente?-Bufou.

—Eu odeio essa pandemia idiota.

Klaus, Allison e eu tínhamos ido fazer compras. Saímos os três com nossas máscaras (a minha com filhotes de gatinhos) e álcool em gel o suficiente para uma família. Além disso, Allison usava luvas descartáveis, dizendo que não tocaria em nada sem elas. Ela provavelmente era a pessoa que estava tomando mais cuidado e seguindo as orientações de saúde. O corona vírus não ousaria sequer tocar a sombra de Allison Hargreeves.

—Você devia ter avisado que 2020 era uma merda. -Klaus disse, apoiando o pé no carrinho e usando o outro para se impulsionar pelo corredor. -Eu teria entrado em coma alcoólico. Muito mais divertido.

—Quer se comportar? Se formos expulsos por que você estragou um carrinho, a Allison vai te matar.

—Já tem mortos demais nessa família. -Fui atrás dele, que continuava se afastando pelo corredor como se estivesse numa corrida. -E eu com certeza sou o irmão favorito dela. Cinco é um psicopata. Vanya causou o apocalipse. Luther é o crush dela. Ben tá morto e o Diego... Bom, você conhece o Diego. -Tentei não rir.

—Ei, você!-Um homem gritou lá da frente, a camisa indicava que ele trabalhava no mercado. -Cai fora daqui com esse carrinho!

—Tá legal, tá legal. -Olhou pra mim. -Te vejo lá fora, Mally. -E tomou um impulso mais forte, sumindo na direção da saída.

—Mally?-Murmurei, achando graça. Era a primeira vez que eu ganhava um apelido carinhoso. Sorri.

—Klaus conseguiu ser expulso?-Allison perguntou, aparecendo de repente.

—Ele parece meio agitado.

—Espero que não seja abstinência. -Olhou pra longe. -Mas acho que tenho um palpite. -Segui o olhar dela, vendo um grupo de homens com uniforme do exército perto da porta. -Vem, vamos ver se eu consigo pegar papel higiênico dessa vez sem ter que usar os meus poderes.

No fim Allison não precisou ter que convencer ninguém para terminar as compras e saímos logo, com um carrinho cheio de mercadorias.

—Até que eu gosto das máscaras. -Afastou a sua do rosto. -É bom sair sem ninguém correr atrás de mim pedindo uma selfie ou um autógrafo. -Franzi a testa. -Ninguém te contou? Eu sou atriz.

—Espera, é você naquele filme com a Sandra Bullock?-Assentiu. -Não acredito! Minha mãe ama aquele filme. Você aceita selfie com amigos?-Sorriu

—Vou pensar no seu caso. Mas o que diabos ele tá fazendo agora?

Me virei para olhar a cena: Klaus dentro de um carrinho de supermercado, numa velocidade absurda. Ele cruzou o estacionamento como um foguete e teria sido bem sucedido se não tivesse batido num poste. O carrinho virou com ele dentro.

—Você tá bem?-Perguntei, correndo até ele, que lutava pra levantar.

—Você não precisava ter empurrado com tanta força, Ben! Tá tentando me matar? Allison, você viu isso?

—Nem olha pra mim. -Ela disse, colocando os óculos escuros e passando pela gente com tranquilidade. -Eu vou fingir que não te conheço.

***

Chequei meu celular pela milésima vez e me perguntei por que estava decepcionada por ainda não ter uma resposta da minha irmã. Já devia ter me acostumado com o comportamento distante dela. Casar e ir para a Austrália não tinha sido o suficiente pra ela.

—Então... Allison e eu notamos que você estava agitado hoje, no mercado. -Comentei, continuando a guardar as compras. Klaus, sentado no balcão, bebendo alguma coisa numa casca de coco com um canudinho rosa, olhou pra mim.

—Ah. Não. Aquilo? Eu só estava... Me divertindo.

—Acho que te conheço pouco, mas... Tinha algo errado.

—Observadora. -Ficou um tempo em silêncio. -Eu lutei na Guerra do Vietnã. -Ergui uma sobrancelha.

—Isso não foi tipo... Antes da gente nascer?

—Viagem no tempo. Foi acidental. Eu roubei uma mala da Comissão... Longa história que envolve traumas e tortura, mas pra resumir: viajei acidentalmente no tempo e fui parar na guerra. Fiquei quase um ano lá.

—Deve ter sido horrível. -Parei de guardar as coisas.

—E foi. Foi uma droga. Mas aconteceu uma das melhores coisas da minha vida: eu conheci um cara... Incrível. -Suspirou. -Dave. Tão jovem, tão bonito... A gente se apaixonou assim. -Estalou os dedos.

—E o que aconteceu?

—O que acontece na guerra: ele morreu.

—Eu sinto muito. -Deu mais um gole na bebida e jogou a casca na pia.

—Quando vi aqueles soldados no mercado, me lembrei de como as coisas eram.

—É por isso que tá bebendo agora. -Colocou um dedo na frente dos lábios.

—Você não conta, eu não conto. -Assenti. -Já viajou pra algum tempo tão merda?

—Já. Sabe, estive em duas guerras. Uma foi antes das armas de fogo. A outra foi no futuro, depois de um acordo mundial em que seres humanos eram proibidos de guerrear. Então, eles usavam robôs. Acho que finalmente entenderam que não é justo usarem pessoas em guerras causadas por terceiros. Virou um tipo de crime contra a humanidade. Nada de soldados humanos.

—Uma guerra com robôs, isso daria um filme foda!-Riu, animado. -Só pra saber, isso tá perto de 2020...?

—Sem spoilers.

—Ah, isso não é justo...

—Aí, garota da cura. -Olhei pra porta, onde Diego estava girando uma de suas facas. -É hora do treinamento.

—É hora do que?-Perguntei, confusa. Olhei para Klaus, que ergueu as mãos.

—Eu não faço ideia do que ele tá falando. -Avisou. Saltou do balcão, pegando uma garrafa dentro de uma sacola de papel. -Se precisarem de mim vou estar lá em cima... Meditando. -Passou pelo irmão, acenando com a ponta dos dedos. -Tchauzinho.

Um pouco nervosa, segui Diego até uma sala espaçosa nos fundos da mansão, que parecia muito com o que eu imaginava de uma sala de treino.

—Olha, eu aprecio o gesto, mas é necessário?-Perguntei.

—Você tá andando com a gente, é uma de nós. Isso te faz um alvo. Seu poder não é de ataque, nem de defesa. É neutro. Não pode matar ninguém com ele e não pode impedir ninguém de te matar. Precisa encontrar outra forma de fazer isso.

—Eu não quero matar ninguém.

—Às vezes não é escolha sua. -Assenti, me lembrando do dia em que conheci os Hargreeves e a mansão foi invadida por agentes rebeldes da Comissão, que tentaram matar todo mundo e sequestraram o Doutor e o Cinco. Naquele dia fui completamente inútil. -Acho que sei a resposta, mas você nunca lutou na vida, não é?

—Nunca. Nem um soco.

—Chute?-Neguei com a cabeça. -Facada?

—Tá falando sério?-Ele parecia frustrado.

—Tá. Vamos começar do básico.

—Okay. Antes disso, eu me sinto obrigada a te lembrar que não passei a vida treinando para ser uma super heroína como todos vocês, então, se você puder pegar leve... Eu agradeceria. -Assentiu.

—Pegar leve. Entendi...

***

No fim das contas, o conceito de “pegar leve” de Diego era um milhão de vezes mais diferente que o meu, o que me fez terminar meu primeiro dia de treinamento completamente ferrada.

—Você tá mancando?-Klaus perguntou, enquanto eu entrava no quarto.

—Um pouco. -Fechei a porta e me virei. -Klaus.

—Sim?

—Por que raios você tá de cueca?

—Tá calor. -Revirei os olhos e me sentei na cama. -Parece que você levou uma surra.

—Digamos que sim.

—Você não consegue se curar?

—Acho que não é bem esse tipo de machucado.

—Ah. Ben e eu ficamos aqui debatendo sobre seus poderes e temos uma teoria. -Começou a andar pelo quarto. Tentei não focar na cueca rosa neon dele. -Talvez seu poder seja como sua orientação sexual: você precisa ter uma conexão com quem vai curar, por isso nunca fez isso antes.

—Faz sentido. Ninguém próximo de mim tinha se ferido... É uma boa teoria.

—Essa foi do Ben. A minha é que você cura além do físico. Nas vezes em que eu estava me sentindo mal, você me consolou e pronto. Seu toque cura além dos machucados físicos. Você cura a alma. -Fez uma pausa. -Olha, eu ainda levo jeito, até que sinto falta do meu culto.

—Você tinha um culto?

—Não é importante. -Me ajeitei na cama.

—Como você pode ser um gênio quando está bêbado?

—Não estou bêbado. Essa é a fase da alegria.

—Então é melhor parar antes que vá para outra fase. -Jogou a garrafa pela janela. Um gato miou alto. -Ótimo. Agora, será que você pode se vestir?

***

Sem surpresa, eu não consegui dormir bem naquela noite. Tanta informação nova e o treino com Diego tinha fritado meu cérebro confuso, e eu saí da cama às três da manhã, sem aguentar mais ficar me revirando de um lado para o outro.

Abri a geladeira e peguei uma garrafa de água.

—Sem sono?

—Meu Deus!-Me virei, vendo cinco sentado em cima da mesa com as pernas cruzadas e uma xícara de café em mãos. -O que está fazendo aí?

—Não consegui dormir. Algumas coisas tem me deixado incomodado e alerta.

—Ah. É?-Fechei a geladeira.

—Recentemente descobrimos que a namorada do Diego nasceu no mesmo dia que a gente, e também tem poderes. Até aí tudo bem, não é surpresa nenhuma a Gestora ter roubado uma criança com poderes e a mandado atrás de nós. Mas aí Klaus arruma uma namorada...

—Eu não sou namorada dele.

—Que seja. Aí surge você, a criança número 9 e acredito que sua irmã gêmea tenha poderes também. Somos dez agora. Isso me incomoda por que parece coincidência, mas não pode ser. Está conectado há outras coisas. Você veio pra cá com a Grande Anomalia Destruidora Temporal, o Doutor, que conhece a Babá, que estava tentando encontrar as outras crianças que nasceram em 1° de outubro de 1989. O Doutor foi procurado pela Comissão, onde eu trabalhei por anos. De repente, o mundo parece muito pequeno.

—Vou ter que concordar. Mas... Se está pensando que eu sou uma ameaça ou sei lá...

—Ameaça?-Riu. -Não, você é tão perigosa quanto um filhote de gato recém nascido.

—Obrigada.

—Acho que vou dormir agora. Devia fazer o mesmo, parece que terá uma longa manhã pela frente.

—Como assim?-Então avançou, desaparecendo.

***

Meu sonho era uma coisa sem sentido que envolvia uma floresta cor de rosa, música dos anos 80 e borboletas. Fui arrancada dele brutalmente quando a porta do quarto abriu com tudo, quase matando Klaus e eu de susto.

—Mas que porra!-Ele gritou, pondo a mão no peito. -Quase morri de novo e dessa vez acho que não ia ter volta.

—Vocês não dividem a mesma cama?-Diego perguntou, apontando. Olhei para Klaus, que dormia num colchão desde que eu tinha chegado.

—Por que todo mundo acha que a gente namora?-Murmurei. Klaus deu de ombros.

—Vamos, número 9. Hora do treino.

—Mal amanheceu. -Apontei pra janela.

—Não importa, na Umbrella Academy o treinamento envolve dor, sacrifício e traumas. -Não achei que fosse brincadeira, o que não ajudou muito. -Levanta.

—Não. Eu... Tá muito cedo e ainda não me recuperei do dia de ontem.

—Você se acostuma. Vem. -Continuei na cama. Diego suspirou e se aproximou, me erguendo e me jogando por cima do ombro. -Devolvo ela quando acabar.

—Me coloca no chão! Diego! Klaus, faz alguma coisa!

—Eu... Pera aí. -Pediu, bocejando. -Eu já vou... Só preciso de mais cinco minutinhos...

Diego só me soltou quando estávamos na sala de treino.

—Isso foi muito invasivo. -Avisei, cruzando os braços.

—Pegar leve não vai te fazer lutar.

—Me obrigar a treinar e me sequestrar no começo da manhã vai?-Fez uma careta.

—Sequestrar? Você é meio exagerada...

—Ainda não viu nada.

Parou um momento, me observando, então avançou, o punho levantado. Ergui os braços, protegendo o rosto.

—O que deu em você?-Perguntei. Ele chutou na minha direção, mas consegui pular para trás antes que me acertasse. -Diego!

—Viu isso? Instinto. Essa é a sua área. Eu não posso te dizer o que fazer... Mas posso dizer como fazer. -Agarrou meu braço esquerdo, erguendo-o dobrado para cima. -Fecha a mão em um punho, com força. Isso. Agora, quando eu tentar te acertar, você faz esse movimento e me barra. Entendeu?-Assenti. -Vai. -Ergui o braço, como ele tinha dito, me salvando de um ataque. -De novo, mais forte. -Repeti o movimento. -Eu disse mais forte.

—Mas foi forte. -Me encarou. -Não foi?

—Honestamente?-Suspirei. -Vamos de novo...

Preciso admitir que Diego era um bom professor. Tudo bem que ele nunca tinha uma cara convidativa e seu lance com facas me deixava nervosa, mas ele era um cara legal.

Passamos a manhã toda vendo como eu reagia à um ataque, então aperfeiçoamos os movimentos. Ele tinha razão, instinto era minha praia.

—Treino encerrado. -Declarou, se afastando.

—Jura?

—É. Esse sou eu pegando leve, não vai precisar treinar à tarde. Sou melhor que o meu pai.

—Aposto que é. -Sorriu.

—Dispensada.

***

—Estou entediado. -Cinco declarou.

Ele estava sentado entre Klaus e eu no jardim. Apenas tinha surgido e sentado entre nós, sem dizer nada, o que foi um pouco engraçado. Cinco era um velho rabugento no corpo de um menino de 14 anos, e a maioria das vezes era indecifrável.

—Não há nada acontecendo. -Ele continuou. -Nada. Nem um apocalipse, nenhuma ameaça... Tudo calmo e tranquilo... Tedioso. Como vocês conseguem?

—Você realmente devia arrumar um passa tempo. -Klaus disse, achando graça.

—Você não tem nada de estúpido pra fazer?-Encarou o irmão. -Qualquer coisa. Irritar um traficante, ter uma overdose, ser sequestrado por capangas do mal. Eu aceitaria qualquer bobagem sua e livraria seu traseiro magro dela sem reclamar.

—Ah agora você precisa de mim. Quando eu precisava de atenção, um tempinho com um irmão vivo, o que aconteceu? Você me deixou pra trás. Era “cai fora, viciado” o tempo todo.

—Você reclama como uma idosa com artrite.

—Retire o que disse!-Apontou pra cara do irmão, que bateu na mão dele. -Ei!

—Ei você!-Começaram a se empurrar. Achei que isso era mais um modo de sair do tédio do que uma tentativa de assassinato, então não me preocupei.

—Só pra avisar, -Comecei, me ajeitando na toalha. -não vou curar vocês caso se machuquem

O resto da semana correu bem e sem muita pressa. Conversei com o Doutor sobre as teorias de Klaus e Ben – ele concordou com elas; continuei meu treino e estava bem o suficiente para não levar socos na cara o tempo todo – Diego pareceu mais aliviado do que eu sobre isso. Lila às vezes aparecia para assistir os treinos, ela não costumava fazer comentários, mas seus “oh's” quando eu me machucava deixavam transparecer que ela estava apreciando meus machucados. Minha irmã ainda estava incomunicável, mas era não era nenhuma surpresa.

Na semana seguinte o governo anunciou o fim da quarentena na cidade, o que aliviou todo mundo, principalmente Cinco, que numa tarde decidiu sair com Klaus e eu.

—Por que estamos numa revistaria?-Perguntei, confusa.

—Por que não tem muita coisa aberta ainda e o filho do dono costuma vender umas coisas legais quando está aqui.

—Você tá falando, -Abaixei o tom de voz. -de drogas?

—Relaxa, maconha não mata ninguém.

—Klaus.

—Esse mocinho disse que está com vocês. -Um homem disse, trazendo Cinco pelo braço.

—Ah... Sim...

—Eu o peguei lá atrás, na parte... Adulta da loja. -Tentei não parecer chocada. Klaus, que levou um tempo pra se obrigar a não rir na frente do homem, tentou sua melhor expressão serena.

—Bom, esse meu filho não tem jeito... -Começou, suspirando. -Frank, você não tem idade pra essas coisas. Sua mãe e eu já falamos isso várias vezes. -Olhou pra mim, mas não consegui falar nada. -Vamos ter outra conversinha quando chegarmos em casa, rapazinho. -E saiu puxando o irmão pra fora da loja. O homem olhou pra mim.

—Boa sorte, moça. -Disse.

—Obrigada. -Murmurei, me virando e saindo da loja. Na calçada, Klaus ria tanto que seu rosto estava vermelho. -O que foi que acabou de acontecer?

—Seu danadinho!-Exclamou. -Eu não acredito que você tava tentando comprar uma revista pra adultos.

—Eu não sou criança, Klaus. -Cinco avisou, ele não parecia achar graça.

—Você devia pegar as playboys do Diego, é de graça e se procurar bem acha as mais legais. -Decidi não falar nada. -Sabe, eu entendo. -Passou o braço por cima do ombro do irmão. -Você passou a vida toda sem dar uns amassos em alguém de carne e osso. Infelizmente, não posso deixar você contratar uma prostituta. E te deixar com uma garota de 14 anos seria nojento. Então você vai ter que se contentar com aquela manequim feiosa. Como era mesmo o nome dela? Dolores?

Cinco, que só parecia cada vez mais irritado, se soltou do irmão e o chutou, acertando-o no meio das pernas. Klaus se encolheu, caindo de joelhos, enquanto eu cobria a boca com a mão, não sei bem se de pena ou para não rir. Talvez os dois.

—Seu... Merdinha. -Gemeu. Cinco sumiu num piscar de olhos. -Mally, me cure... Por favor... -Se jogou no chão, o drama dele me deu mais vontade de rir. -Eu estou morrendo... Me salve, mulher.

—Eu é que não vou tocar aí, se vira, meu amigo. -Comecei a me afastar, vendo que as pessoas estavam parando para ver a dramatização classe b de Klaus.

—Mallory... Não me deixe!

—A gente se vê na mansão!

***

Alguns dias depois Marie finalmente decidiu me ligar. Eu não sabia como contar pra ela sobre tudo, nem sua reação.

—Oi. -Saudei. -Como você está?

—Bem. O que era tão importante?-Me sentei num banco do jardim.

—Marie, você sabe alguma coisa sobre a Umbrella Academy?

—Não.

—Certo. -O desinteresse dela não era novidade, mas ainda me deixava triste. -Ham... Há alguns anos 43 crianças nasceram no mesmo dia, de mães que não estavam grávidas quando o dia começou. Essas 43 crianças tem poderes...

—Isso é uma série...?

—Não. É real. Um cara muito rico adotou sete dessas crianças e as treinou para serem heróis. Eu as encontrei recentemente. Marie, nós nascemos no mesmo dia dessas 43 crianças. -Silêncio. -Sabe o que isso significa?

—Não.

—Significa que também somos assim. Eu... Eu descobri que posso curar as pessoas apenas tocando nelas. Se eu tenho poderes, você também tem. -A ouvi suspirar.

—Olha, é uma historinha muito legal...

—É verdade, Marie. Eu estou nos Estados Unidos agora, vim me juntar à Umbrella Academy. Vem pra cá, vamos descobrir seu poder e...

—Eu não sei. Jeremy se curou do corona vírus faz pouco tempo...

—Eu não sabia...

—Não contamos pra muita gente.

—Espero que ele fique bem. -Sem resposta. -Vou mandar o endereço daqui.

—Tá.

—Até... -A ligação foi encerrada. Encarei a tela do celular, sentindo meu coração se despedaçar de novo.

—Qual é o seu problema?-Marie gritou, andando pela cozinha como um furacão.

—O que...

—Por que não gosta do Jeremy?-Hesitei.

—Eu não acho ele uma boa pessoa...

—Você não acha?-Riu. -Você tem inveja.

—O que?

—Tem inveja que eu vou me casar e você é uma esquisita que nunca nem beijou ninguém! E sabe o que? Nunca vai beijar, não com esse... Distúrbio que você tem. -Me encolhi, querendo chorar. -Duvido que algum cara vai gostar de uma garota que demorará séculos pra transar com ele.

—Marie, chega. -Mamãe pediu.

—Não, chega não. Alguém tem que falar a verdade pra ela de uma vez.

—A sua verdade, -Comecei, lágrimas escorrendo pelo rosto. -ou a verdade que o Jeremy te disse?

Marie e eu sempre fomos muito unidas. Aquele tipo de gêmeas que inventa uma língua secreta e termina as frases uma da outra. Mas então, no começo do ensino médio, ela conheceu Jeremy, um formando popular e infelizmente foi amor à primeira vista.

Jeremy era um idiota, machista, que não hesitava em despejar babaquices e preconceitos. No começo, eu tentei gostar dele por que Marie o amava. Mas, conforme o tempo passava, eu percebi que nunca teria uma relação saudável com meu cunhado.

Foi fazendo terapia após meu acidente, que eu me descobri demissexual. Isso me deixou feliz, entender quem eu era, e que havia mais pessoas como eu. Na escola, as amigas de Marie sempre diziam que eu só era aquela garota típica romântica que só transaria com o “príncipe encantado”. Por anos tomei isso como verdade, até descobrir que não era.

A descoberta me deixou feliz o suficiente para contar num almoço de família com meus pais, Marie... E Jeremy. Ele não disse nada na hora, mas tinha feito a cabeça de Marie, fazendo-a acreditar que eu tinha algum problema. Nunca o desculpei por isso, e agora ele era casado com a minha irmã.

Ela tinha o escolhido... E eu havia sido deixada.

***

—Então, como vai explicar tudo pra sua irmã?-Luther perguntou.

—Eu meio que expliquei por cima... Acho que ela entendeu. Ou não. -Ele continuou seu cereal, pensativo.

—Será que o poder dela é igual o seu?

—Realmente não sei. Vamos ter que esperar que ela venha. Se é que ela vai vir...

—Problemas familiares?-Assenti. -Entendo. Todos nós passamos anos sem ver uns aos outros. Eu fui pra lua, os outros se espalharam por aí... Então o papai morreu e nos reunimos. Foi complicado e levou tempo, mas finalmente somos uma família. -Ouvimos Cinco gritar com Diego, que gritou de volta. -Bom, toda família tem seus problemas.

—É.

—Eu não sei há quanto tempo você e sua irmã têm problemas, mas uma hora alguma coisa vai acontecer e talvez obrigar vocês a se juntarem.

—Olá pessoas lindas e maravilhosas. -Klaus saudou, entrando na cozinha e se jogando numa cadeira ao meu lado. -Ah, espera, eu não vi que era você, grandão. -Luther revirou os olhos. -A Allison tá te procurando.

—Valeu. -Jogou mais cereal na tigela e saiu, ainda comendo.

—Eu achava que era por isso que ele era grande desse jeito.

—Você não sabia sobre...?-Comecei

—Ninguém sabia. Todo mundo já tinha ido embora. Luther era burro demais pra deixar o papai sozinho.

—Acho que ele gostava do seu pai.

—Ele gostava de ser o número 1. O líder. Se acostumou com isso, mesmo com a infância traumática e infeliz.

—As pessoas reagem de maneira diferente à certas situações. Vocês queriam se livrar de um péssimo pai. Luther talvez tenha se sentido dependente dele, conectado à alguém que não ia embora e deixá-lo.

—Sério, você devia voltar pra faculdade de psicologia. Só por que eu sou um bêbado vagabundo sem futuro, não significa que você não pode ter sucesso. Ainda vai poder me atender de graça.

—Você não é...

—Eu sou.

—Quer uma competição?-Me virei pra ele. -Meu poder estúpido precisa de uma conexão pra funcionar. -Segurou meu rosto com as duas mãos.

—Seu poder estúpido salvou a minha vida. E eu vou sempre grato à ele e à você. Ele não podia ser diferente, tem o seu toque. Duvido achar alguém com um poder exatamente igual. Bom, a Lila aparente consegue imitar nossos poderes, mas isso não importa. Você é única, seu poder é único. Você é especial e se não aceitar isso... Garota, eu não vou saber o que fazer com você. -Sorri. -Agora vamos nessa. -Me soltou, ficando de pé. -Se sairmos de fininho pra tomar sorvete talvez o Cinco não nos veja e peça pra ir junto.

***

Naquele dia, eu estava tirando minhas roupas da secadora quando Vanya apareceu, meio inquieta. A encarei, me perguntando o que tinha acontecido.

—Sua irmã está aqui.

Okay, eu não esperava por isso. Não achava que Marie viria. Por que tinha vindo? Tinha acreditado em mim? Já havia descoberto seu poder?

Caminhei até a sala, tentando não correr ou me esperançar demais.

Marie estava no sofá. O cabelo num tom mais claro que o meu e as roupas de uma mulher de classe. Nosso estilo havia se separado depois dos 13 anos.

—Você veio. -Olhou pra mim. -Eu... -Me olhar caiu em Jeremy, que estava de pé lá atrás, vendo alguma coisa numa das estantes. -Ah.

—Então, poderes?-Marie perguntou.

—É. É. Poderes. Eu ainda estou descobrindo melhor o meu. -Me sentei no sofá. -Estava me perguntando qual é o seu. Ele já se manifestou?

—Não que eu saiba. Como descobriu o seu?

—Um amigo ficou muito ferido... Eu o curei...

—Imagino que possa nos provar. -Jeremy interrompeu.
—Aparentemente meu poder só funciona em pessoas com quem tenho certo tipo de ligação.

—Que surpresa. -O tom dele não indicava que estava surpreso.

—Eu... Os... Hã... -Quis me estapear. Estava tão nervosa e agitada... Incomodada. Eu não queria Jeremy ali, no meu espaço seguro. Não queria ele perto de mim, não queria ele perto da minha irmã. -Os Hargreeves passaram a vida toda com poderes... Menos Vanya, é uma longa história. Mas... Você pode ficar aqui, podemos te ajudar a descobrir seu poder.

—Ela pode fazer isso na Austrália, na nossa casa. -Me recusei a olhar pra ele.

—Vai ser menos estranho se estiver aqui, e menos solitário. Entendemos como é ter poderes... Vai se sentir compreendida.

—Você disse que todos tem poderes?-Marie perguntou.

—Sim. Eu tenho o poder da cura; Luther, super força; Diego, telecinese; Allison, convencimento; Cinco viaja pelo tempo e espaço; Klaus, invoca os mortos e Vanya manipula o som...

—É muita informação.

—Eu sei. Me senti perdida no começo, mas com o tempo você se acostuma e quando vê...

—Posso usar o banheiro?-Assenti, pega de surpresa.

—Claro. Tem um no fim do corredor, após sair da sala. Última porta à direita.

—Okay. -Saiu da sala.

Me ajeitei no sofá, com as mãos no colo. Era como se Marie não estivesse cem por que presente ou registrando o que eu falava. Eu não a via há tanto tempo que tinha me esquecido de como era frustrante.

—Então finalmente achou um lar. -Jeremy disse. -Um bando de esquisitos como você. -O encarei. -Eles também são cheios de turmas e distúrbios?

—Você não pode falar desse jeito.

—Por quê? Por que você não pode lidar com a verdade?-Me levantei.

—Não devia ter vindo aqui.

—E te deixar encher a cabeça da sua irmã com bobagens?

—É o que você tem feito há anos. -Tentei sair da sala, mas ele barrou meu caminho.

—Não importa se você descobriu poderes ou está esperando um bebê abençoado, Marie não vai ficar aqui com você.

—Ela é minha irmã.

—Mas ela é normal. Sabe o que isso significa, ser normal? Não. Você não sabe, por que já nasceu sendo anormal, uma aberração, e agora se sente confiante por que achou gente como você. Então faça um favor pra Marie e pra todo mundo: fique aqui com eles, esquisita, não precisamos de você nos contaminando.

—Com licença. -Alguém pediu delicadamente, dando batidinhas no ombro de Jeremy.

Era Klaus. Jeremy se virou, confuso, e encarou o homem que sorria. Então o número 4 da família Hargreeves acertou um soco na cara dele.

Cobri a boca com as mãos, sem saber o que sentir em relação à isso.

—E nunca mais ouse falar merda pra Mallory de novo. -Klaus avisou, apontando. As unhas dele pintadas de preto pareciam brilhar.

Jeremy ajeitou a postura. Ele era muito maior que Klaus. Não de tamanho, mas de musculatura. Meu amigo era magro, até mais que eu, Jeremy tinha músculos, não tanto quanto Luther, mas o suficiente para moer Klaus se quisesse. E, aparentemente, ele queria

—Não!-Gritei, enquanto Jeremy se jogava em Klaus e o derrubava, para então acertar socos nele. -Para! Para com isso! Deixa ele! Jeremy!

Os Hargreeves apareceram num piscar de olhos. Luther agarrou meu cunhado pela parte de trás da camisa e o tirou de cima de Klaus, empurrando-o. Diego foi rápido em puxar uma faca.

—Encosta no meu irmão e vou cortar seus dedos. -Avisou, em voz baixa.

—O que aconteceu?-Allison perguntou, parecendo pronta para intervir caso uma luta recomeçasse.

—Esse babaca foi muito mal educado com a Mallory. -Klaus disse, um pouco tonto, sentando com dificuldade e cuspindo sangue. Me apressei para perto dele, curando seus ferimentos aparentes.

—Nós não aceitamos esse tipo de comportamento aqui. -Cinco avisou, as mãos nos bolsos da bermuda. -Toque no meu irmão de novo ou na nossa convidada e eu cortarei mais do que seus dedos. -De alguma forma ele conseguia ser mais assustador do que Diego e era tipo uns vinte centímetros mais baixo (tirando a aparência de um garoto engomadinho de 14 anos).

—Você não é bem vindo aqui. -Luther disse.

Minha irmã escolheu essa hora pra sair do banheiro e pareceu completamente perdida ao ver a cena que estava se desenrolando, até olhar para Jeremy e compreensão passar por seu rosto. Ela devia conhecer bem o marido que tinha.

—Marie... -Comecei, mas Jeremy a puxou pelo braço para a saída.

—Vamos embora.

—Você não pode obrigá-la a ir.

—E acha que ela quer ficar com você?-Olhei pra Marie. Ela não olhou pra mim.

Restou o silêncio quando eles saíram. Respirei fundo e continuei curando Klaus, ficando mais calma ao ver os machucados sumirem.

Os outros saíram, sem saber o que dizer. Allison apertou meu ombro antes de ir.

—Você está bem?-Perguntei, encarando Klaus.

—Estou ótimo.

—Por que fez aquilo? Briga não é bem o seu estilo.

—É, entre correr ou morrer, eu prefiro correr. Mas quando aquele otário falou aquelas coisas pra você... -Deu de ombros.

—Obrigada. -Sorriu.

—Foi um soco e tanto, não foi? Quase quebrei a mandíbula dele. -Riu.

—Você foi bem. -Fiquei de pé, estendendo a mão para ajudá-lo a levantar. -Mas me faz um favor: não entre em mais brigas.

—Vou fazer um esforço, só por que você pediu com carinho. -Revirei os olhos, tentando não rir. Sabe, -Esfregou o lado esquerdo do rosto. -espero que seu cunhado não venha pra festa de natal. Vai ser constrangedor...

***

Consegui falar com o Doutor apenas no dia seguinte. Contei sobre o desastre que tinha sido a visita da irmã e como terminou. O Senhor do Tempo era um amante da paz, mas quando contei que Klaus deu um soco em Jeremy, ele não escondeu sua aprovação. “E o soco foi bom?”, perguntou.

Tentei ligar para Marie, mas ela não atendeu. O que não me surpreendia, mas me deixava chateada mesmo assim. Eu via como os Hargreeves tinham seus problemas, mas amavam uns aos outros, eles tinham uma boa dinâmica de família, que chegava a ser engraçada, porém convidativa. Sim, eu sei que eles passaram anos tendo problemas, traumas, afastamento... E agora estavam todos juntos.

Queria estar com Marie de novo, como quando tínhamos 13 anos.

—Você está se escondendo?-Klaus perguntou, parando ao meu lado. -Esse é o meu esconderijo.

—Apenas pensando. E me sentindo péssima.

—Não fica assim, família é complicado. E você é uma pessoa maravilhosa. Se a sua irmã não vê isso, ela que se... Puta merda.

—O que foi?-Ele estava encarando o nada, que podia ser na verdade um fantasma, e parecia muito surpreso. -Klaus? O que foi? O que está vendo?

—Não... Não pode ser... Como isso aconteceu?

—O que? O que é?

—Não é culpa dela. Não é culpa dela. Vai embora! Vai embora!

—Klaus!-Me levantei, segurando-o pelos ombros. -O que foi? Quem estava aqui?

—Jeremy. -Sussurrou. Balancei a cabeça negativamente.

—Mas... Você só... Não.

—Ele está morto... E furioso. Disse que a culpa é sua e... -Fez uma pausa. -Mallory... Eu acho que a sua irmã fez isso. Acho que a sua irmã o matou.

—Não... Impossível. -Recuei, soltando-o. -Marie... Ela nunca... Não pode ser.

Meu celular tocou, me dando um pequeno susto. O tirei do bolso, vendo um número desconhecido na tela. Meu instinto me fez atender.

—Alô?

—Mallory... Sou eu. -Reconheci a voz da minha irmã e meu coração disparou.

—Marie, você está bem?

—Eu fiz uma coisa... -A respiração dela era irregular, o que me deixou mais preocupada.

—Klaus disse que viu Jeremy, o que significa que... Marie, o que você fez?

—Eu não sei... Foi... Estávamos discutindo... De repente... Não sei, acho que eu... Os poderes... Então ele estava morto.

—Fica calma. Onde você está agora? Eu vou até você...

—Não. Eu estou bem. Eu fugi e não vou voltar. Você não pode contar pro papai e pra mamãe. Vou falar com eles assim que puder.

—Deixa eu te ajudar...

—Não. Tá tudo bem... Eu não sei quando vou poder ligar de novo... Larguei meu telefone... Larguei tudo.

—Pra onde você vai?

—Eu não sei. Mas é bom poder decidir por mim mesma de novo. -Fez uma pausa. -Preciso ir. Até mais irmã. E... Desculpa, por tudo.

—Marie... -Desligou. Respirei fundo e abaixei o celular.

—O que aconteceu?-Klaus perguntou. Olhei pra ele, surpresa por me sentir aliviada.

—O que devia ter acontecido há muito tempo. Minha irmã se libertou.

Notas finais
Em alguns momentos escrevendo os contos, por algum motivo, esqueci que os personagens podiam estar em quarentena, então criei a cena do mercado e deixei as coisas rolarem por um tempo, até terminar a quarentena aqui no mundo da ficção.
Okay, preciso admitir que foi nesse conto que comecei a dar uma shippada em Mallory e Diego... Tenho problemas.
"Frank" é o nome que alguns fãs escolheram pro Cinco (que não ganhou um nome como seus irmãos - ou decidiu não usar, é um mistério), achei que seria uma boa referência.
Marie tem poderes opostos à Mallory: ela pode matar seres vivos sem tocar neles e destruir objetos apenas com o olhar.
É isso, fantasminhas... Até o próximo conto!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!