Notas iniciais
Esse conto é dedicado a Ryoko-chan. Que os lírios floresçam.

“O vocabulário do amor é restrito e repetitivo, porque a sua melhor expressão é o silêncio. Mas é deste silêncio que nasce todo o vocabulário do mundo.”

Vergílio Ferreira

Nós


Por naninhachan


Ela estava divina de branco. O vestido contrastava com o lindo tom de pele e os cabelos curtos, soltos sob o véu de noiva; negros como a noite, belos e sensíveis a qualquer movimento. Quando eu entrei no quarto, ela terminava de se maquiar.

- Alice, você está linda. – eu disse sinceramente.

- Obrigado, Ana. Já estou quase pronta. Pegue meu buquê, por favor.

- Sim. – fui até o arranjo de flores e o tomei nas mãos. Ela estendeu os dedos longos até mim, mas eu mantive distância.

- O que houve, Ana? – ela se virou para mim. Os olhos castanhos cheios de um brilho vivaz e expectante.

- Eu quero que você seja muito feliz com o Igor, Alice. Sinceramente... mas preciso dizer algo que há muito está no meu coração.

Alice franziu as sobrancelhas como se não entendesse. A expressão suavizou quando eu sorri sem graça.

- Diga, querida. Eu não estou com pressa, você sabe que é tradição a noiva se atrasar. – ela riu baixo. As covinhas marcando as laterais dos lábios carmesins bonitos. Aquela cor de batom era perfeita para ela.

- Eu te amo. – de chofre a frase saiu.

- Eu sei, Ana, eu também te amo. Não precisava desse mistério todo pra me dizer...

Eu a puxei sem muita força, fazendo o corpo levantar de súbito e toquei os lábios dela com os meus. Os percebi acetinados, leves, finos e agradáveis. Apertei-a num abraço carinhoso, estendi as mãos por suas costas e subi a nuca, apoiando-a e permitindo que ficasse junto a mim o tempo que eu quisesse.

Ela apartou o beijo e lançou a mão em meu rosto.

- O QUE PENSA QUE ESTÁ FAZENDO? ENLOUQUECEU?! – ela começou a chorar e eu não conseguia reagir.

- Eu te amo, Alice.

- Pare com isso.

- Amo você mais do que minha vida e esses anos todos eu escondi esse sentimento.

- Pare com isso, por favor! – o tom de súplica.

- Adoro o jeito como você sorri e como morde o lábio quando recebe uma surpresa.

- Cale-se, Ana! – um novo tapa. – Como você pôde fazer isso comigo? Como?Eu vou me casar com o Igor. Eu amo meu noivo.

- Eu tinha de dizer...

- E estragar nossa amizade? – ela estava enfurecida.

- Eu não podia represar mais... Eu te amo, Alice.

- Para de dizer besteiras. Você está confundindo as coisas. – ela puxou o véu com violência.

- Não estou. Te amo desde o primeiro dia que te vi e nunca entendi como você podia ser tão maravilhosa diante dos meus olhos. Mesmo quando era só uma menina franzina, ainda que usasse óculos...

- Você não pode estar falando sério. – ela sentou desolada.

- Eu sempre amei você e nunca tive coragem de dizer.

- Por quê?

- Medo da rejeição, medo de você me odiar, medo de te... perder. Mas agora você vai casar com o Igor, mudará de estado e eu não poderei te ver todos os dias. A angústia me cegou e eu precisava dizer que te amo.

- Ah, Ana...- ela me abraçou. Com cuidado tomou meus lábios, os experimentando com doçura, mansidão. Eu me deixei levar por aquele carinho inesperado, assustada demais para me sentir frágil.

- Por que não disse antes? Eu... sempre senti que meu amor por você não era normal, que... Oh, Ana, por que não antes? Agora Igor me espera no altar...

- Por favor, não se impeça por minha causa, eu vou suportar...

- Não... agora que sei, quem não pode mais fingir sou eu. Também te amo. Quero estar ao seu lado, mas não é justo com o Igor...

- Não é justo conosco. – insisti egoísta.

- Não é justo com ninguém. Eu não poderei ser feliz ao lado dele sabendo do nosso amor que morre a distância.

- Por favor...

- Não me peça...

- Sejamos sensatas uma vez na vida... Fica comigo, Alice.

- Não posso...

- Mas quer, eu vejo nos seus olhos.

- Te amo, Ana. – me beijou como quem se despede, pegou o véu e saiu.

*

*

*

Lilian dormia a meu lado. Enrolada como um filhote perdido, minha gata ronronava baixo. Moveu a orelha e se ergueu rapidamente, alguém se aproximava.

A campainha tocou. Minhas calças estavam largas no corpo. Meus olhos marcados pelas olheiras, evidência da privação de sono e da dor que só me fazia chorar. Perdi Alice.

A maldita campainha toca mais uma vez. Queria que Lilian pudesse dizer que não posso abrir a porta porque trago no peito dores de amor. Dissesse a quem está na frente de minha casa que meu coração está de luto e é defunto. Morri de amor.

- Já vai! – digo sem forças. Não acredito que ainda tenho voz. Depois de 3 meses do casamento de Alice, eu não vejo ninguém, não trabalho mais, recuso as ligações de minha editora e me deixo afundar na depressão.

Melancólicos, meus pés se arrastam até a entrada. Tropeço algumas vezes e enfim, chego à porta. Destranco-a, giro a maçaneta e lá está Alice.

- Desculpe pela demora. – ela diz. As malas ao lado do corpo, o gato dela numa caixa de transporte.

- Você...

- Precisei de tempo para anular o casamento, conversar com Igor e me decidir se merecia lhe dar a chance de ser feliz ao meu lado.

- Então...? – eu sorri, puxando-a para mim.

- Digamos que eu vou deixar você tentar me fazer feliz.

Com um beijo e as malas dentro de minha casa, começamos uma nova história. Nós duas.

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Publicada em 26 de janeiro de 2010

Notas finais
NOTAS DA AUTORA: Esse é meu segundo yuri. E eu fui inspirada pelo conto "Lírios" de Ryoko-chan, a quem dedico essa fic. Vossas pedras, por favor.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!