Névoa Álgida

15 Capítulo 5 – Aparências


XXV

Ao fim do 3º dia treinamento, manter-se de pé é quase impossível. A rigidez imensurável do Philip e do Edward quanto aos treinamentos são dignas de inumanos. Isso explica o fato de serem os magos mais poderosos do reino.

O pôr do sol laranja encadeia nos meus olhos, a ponto de fecharem. E o cansaço pós-treino coopera com a situação perfeita para cair no sono.

No 2º dia progredimos, conseguindo nos manter combatendo entre 5 e 20 minutos antes de sermos derrubados pelo Edward. E a afinidade com os Artefatos progrediu notoriamente, com exceção da manopla no meu caso e o anel no caso da Juno. Hoje, no 3º dia, treinamos em conjunto com nossos magos. O foco do treino foi o uso conjunto dos Artefatos e das habilidades do Kennedy e da Antonija. Eu consegui invocar um pequeno campo de força com a manopla e a Juno conseguiu utilizar pequenas chamas que emanavam do anel. O que em apenas 3 dias de treino pode ser considerado um progresso memorável.

Vale ressaltar o quão hábil Antonija e Kennedy são na magia. Duas crianças, mas deveras incrível.

De pé olhando para mim, Edward disse:

— Bressiani, pretende mesmo dormir no chão do campo de treinamento?

— Não... Estou só retomando o folego.

Repentinamente fui erguido no ar. Juno me levantou com toda sua força de forma tão repentina, chegando a causar um arrepio na minha espinha.

— Vamos lá Bressiani! Mal entramos na meta da semana e você já está fraquejando?

— EI! ME COLOCA NO CHÃO!

— Nem pensar!

Juno ficou me chacoalhando no ar.

Insatisfeito com a situação, Edward deu uma rasteira na Juno e em seguida, com a queda ela me largou no ar e acabei aterrissando nos braços Edward. E no mesmo instante ele me colocou no chão com cuidado.

— Juno, sem brincadeiras. Bressiani, sem moleza. Amanhã os dois sofrerão na minha mão por causa deste comportamento, principalmente você, Juno.

— Nossa... Foi só uma brincadeira. – Disse Juno passando a mão na cabeça.

— Eu odeio brincadeiras.

Edward saiu do campo de treinamento com um olhar sério a passos largos (como sempre) e Kennedy o seguiu. Philip sentado um pouco mais distante olhou na nossa direção revelando insatisfação, eu e a Juno evitamos o olhar dele.

Juno sussurrou no meu ouvido:

— Que comportamento frio da parte do Edward, não acha?

— E que comportamento infantil da sua parte, não acha?

— Aff... Você também? Nem no meu mundo e nem neste os homens sabem o significado de brincadeira.

— Em qual mundo erguer homens no ar é alguma espécie de brincadeira?

— E em qual mundo “bom dia” é um cumprimento dado a uma rainha?

— Ei! Como você ficou sabendo dessa história?

Juno deu com os ombros.

Anna... Aquela baixinha fofoqueira deve ter contado, somente ela presenciou essa triste cena. Aliás a quem mais ela contou?

XXVI

No caminho até a carruagem, me deparo com uma mulher magricela de óculos carregando meia dúzia de livros grossos. Essa é primeira pessoa (além da Olga, Philip, Kennedy e Antonija, Edward e Juno) que vejo na Academia Augustus. Pensando bem, aqui é bastante silencioso – o bastante para gerar ecos com os passos dados –, os alunos não desceram ao térreo durante os 3 dias que vim aqui, dando um clima sombrio quando a noite cai.

A mulher magricela passou por mim, olhando nos meus olhos por meio segundo. Rápido.

Pensei em olhar para trás, tocado pela ideia de saber para onde ela ia, mas reconsiderei, já que me faria parecer um stalker. Quando eu estava prestes a retomar o meu caminho, a voz disse:

— Você é um dos heróis? O cavaleiro da rainha Apollinariya, Matheus Bressiani, correto?

A mulher magricela virou-se na minha direção fazendo o indagamento.

— Sim, sou eu mesmo.

— Você não se parece com um herói e muito menos com um cavaleiro. Está mais para um adolescente qualquer. Me pergunto se até mesmo o Ms. Magnus pode errar. Afinal, foi ele que dirigiu todo o processo de invocação dos heróis.

As palavras dela cortam meu ego, mas sinto certa inocência vinda de suas palavras, não é como se quisesse me ofender, todavia, parece ser esta a única forma que ela tem de se expressar.

— Mesmo que eu não pareça, sou um herói e cavaleiro da rainha Apollinariya. E espero ser útil para todos. Desculpe se não pareço nenhum nem outro.

— Sem problemas, aparência não influencia em nada nas batalhas corpo a corpo. Mesmo que não pareça ser ambos, você aparenta ser um homem de respeito e dedicado, já é o bastante.

— Grato pelo elogio... Er... Qual o seu nome mesmo?

— Creio não ter me apresentado. Meu nome é Tamires, parceira de pesquisas do Ms. Magnus.

— Com Ms. Magnus refere-se ao Edward?

— Sim.

Analisando o perfil da Tamires, ela e o Edward formam um par perfeito. Levando em consideração este fator, creio que a baixinha esteja em desvantagem.

— Foi um honra conhece-lo Ms. Bressiani. Até outro dia.

— Até.

Dito isto ela segui a sua direção e eu segui a minha.