Não vá embora
2 Capítulo 2
2 anos depois.
Não houve um só dia em que não pensasse em voltar. Todos achavam que eu estava morto e seria no mínimo divertido surpreendê-los. Apenas duas pessoas sabiam que minha morte não era verdade. Meu irmão e... Molly.
Eu não tentei entrar em contato com ela. Por várias razões que incluem falta de tempo, precaução, segurança e a principal: culpa.
Os olhos tristes dela me perseguiram por todos os lugares em que passei. Pensei que o tempo me livraria deles e voltaria a ser o mesmo Sherlock de antes, mas não. Eles sempre me sondam, até mesmo quando durmo. Nunca acreditei em intuição, mas acho que é assim que chamam essa vozinha que fica me dizendo que eu errei.
Quero encontra-la e saber que tudo ficou bem. Que podemos recomeçar a partir daquele dia. Eu posso me aprofundar naquela solidão que ela me mostrou existir dentro de si e tira-la de lá. Finalmente todos os problemas estavam resolvidos e eu poderia tentar — de novo — uma vida normal.
Encontro a Sra. Hudson, Lestrade, um John surtado e conheço uma Mary adorável. Mas, nada de Molly.
Após acalmar John — que parece inconformado por não ter sabido que eu estava vivo -, recebo ele e Mary em meu apartamento, ansioso por uma brecha para perguntar sobre Molly sem parecer desesperado.
Fui até o St. Barts procurá-la e uma jovem residente me informou que não conhecia nenhuma Molly Hooper. Estranho. Tentei encontrar alguém que fosse conhecido e, curiosamente, me dei conta de que não conhecia ninguém. Acho que faz parte do pacote de ser antissocial.
Tentei ligar no número de celular que eu tinha, sem sucesso. Portanto, decidi que uma boa alternativa seria perguntar para John. Imaginei seis possibilidades prováveis para esse sumiço — quatro com motivos bastante óbvios -, mas nenhuma se aproximou do que eu viria descobrir.
John e Mary falavam sem parar e eu já estava ficando impaciente, sendo indelicado e cortando os assuntos que não me interessavam. Na verdade, eu já quase não estava ouvindo até que...
— ... Mary precisou ir até o St. Barts se consultar, porque a gripe estava...
— Falando no St. Barts, por onde anda Molly Hooper?
Foi então que eu deveria ter percebido. Que eu deveria ter usado aqueles incríveis poderes de dedução que me fizeram famoso. A forma como eles se olharam entregava tudo e eu me pergunto se não consegui entender porque não QUERIA entender.
— A Molly... Ela... Hum...
— A verdade. — Minha voz soou mais seca do que eu imaginava. Sentia um nó começando a se formar e tentava empurrar para longe qualquer dedução.
Há um momento de silêncio em que os dois me encaram aparentando não saber o que dizer. Meu cérebro parece estar congelado e eu não quero — mesmo — pensar em nada.
— A Molly faleceu, Sherlock. — É Mary quem fala comigo e movo meus olhos para encara-la.
— Como? — Minha voz continua fria e quase posso senti-la cortante.
— Ela está...
— Como aconteceu?
A resposta cai sobre mim como uma fina camada de gelo.
— Ela se matou, Sherlock...
Todo o meu mundo para nesse instante e minhas memórias me levam para a última vez em que a vi. Quando tudo nela parecia implorar para que eu ficasse e eu parti. Ela estava ali, quebrada à minha frente e eu não fiz nada. Nada.
— Saiam.
Algo faz com que eles não discutam sobre a ordem. Talvez algo na minha expressão. Percebo minha mão tremendo e quase sinto a raiva de mim mesmo correr por meu sangue. Culpa. Vergonha. Indignação. Dor...
Alcanço meu notebook e pesquiso rapidamente o que quero. Como eu pude ser tão omisso? Tão egoísta?
"Médica é encontrada morta em seu apartamento."
"Legista do St. Barts morre. Não há informações sobre a causa."
"Fontes indicam que a Dra. Molly Hooper sofria de depressão há anos e ingeriu uma grande dose de medicamentos controlados."
"O funeral da Dra. Molly Hooper acontecerá na próxima quinta-feira."
Apenas alguns meses atrás e eu não soube de nada. Eu não procurei saber de nada. Eu não estava aqui!
Fecho o computador com força e saio. Procuro por Lestrade e o empurro contra a parede acusando-o de não ter me contado sobre o acontecido. Percebo, com desgosto, que não era importante para ele. Assim como não era importante para John ou Mary. Não consigo me recordar de uma amiga dela, ou de alguma vez que ela citou algo sobre amigos ou família — exceto o pai falecido. Assim, me dou conta do que ela passou esse tempo todo. Estava completamente sozinha.
Saio da central de polícia e vou até seu apartamento. Arrombo a porta. Tudo ainda está ali, junto com a poeira e bagunça deixada quando retiraram seu corpo. Meu coração se aperta em dor e eu quero quebrar todas as coisas que me trazem lembranças. Quero que ela volte. Quero vê-la ali.
Vou cambaleando até seu quarto, um lugar em que nunca estive, e não percebo que estou chorando até que me encaro no grande espelho que se encontra ali. Quase não me reconheço. Só houve uma vez em que me senti tão perdido quanto agora, e faz tantos anos...
Percebo que Molly foi encontrada ali. Retiraram a roupa de cama e reviraram todos os seus pertences. Me aproximo de seu guarda-roupa lentamente. Vejo suas roupas e consigo me lembrar da ocasião em que cada uma foi usada. A dor percorre meu corpo. A sensação amarga de ter sido um inútil. A saudade... Saudade do que não vivi.
Avisto um álbum de fotos de cores vivas em meio às suas coisas. Ele me chama atenção, parece largado ali. A possibilidade de ver fotos de Molly faz meu coração acelerar. Verei momentos dos quais nunca participarei.
Abro o álbum com tensão e minhas mãos ainda tremem. Algo me incomoda, algo que eu deveria estar percebendo e não estou. São fotos de Molly jovem, a maioria com o que parece ser sua família. Me pergunto aonde eles estão agora.
É só quando chego à última foto que, com um choque, tudo faz sentido e eu me lembro. Imagens aparecem em retrospectiva na minha cabeça. Como eu não percebi já na primeira foto? Como pude me esquecer?
Pego aquela última foto para mim, quero guarda-la. Com isso, faço com que um pedaço de papel caia no chão. Quando o leio, ali está a última peça dessa tragédia.
Fecho o álbum, passando os dedos suavemente por sua capa amarela vibrante e penso por alguns minutos. Só há uma pessoa a quem posso procurar.
Ou melhor, três.
—--
— Maldita privada. — Murmuro comigo mesmo em um tom raivoso. Por sorte, é uma questão de segundos até que a mágica — literalmente — aconteça.
E então, eu estou no Ministério da Magia. O único lugar onde eu poderia encontrar um rapaz com uma cicatriz em formato de raio, um ruivo sardento e uma mulher de cabelos castanhos com olhar inteligente.
Os melhores amigos que já tive um dia.
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