Depois de muitos abraços e frases do tipo. “Como estava com saudades de você minha querida...” o que eu realmente não entendo, já que nos vimos a o quê? Um mês no máximo. Chegamos a casa. A casa de meus pais era uma verdadeira mansão, ampla e branca, com janelas enormes, grandiosa, mas não de um tipo intimidador, de um tipo aconchegante, por dentro sempre mudava, sempre o mais moderno possível. Quando eu era criança adorava ficar correndo pelo enorme jardim, chamar meus amigos para nadar na piscina, assistir filmes na sala de cinema. Ou apenas passar a tarde inteira em abaixo das macieiras com alguém especial. Engulo em seco e respiro fundo, tentando afastar as lembranças e forçando ao máximo para não chorar.

O empregado vem pegarem as minhas malas e sorriem para mim, como se dissessem. “Bem vinda de volta ao lar senhorita Kat.” Retribuo com um sorriso um pouco seco, essa animação não me contagia, me estraga. Não me sinto mais em casa, me sinto como se tivesse em um lugar soterrado, soterrado de lembranças que eu lutei por três anos para esquecer, e agora parece que tudo aconteceu ontem. Mantenho a máscara no rosto enquanto entro no meu “lar” e vejo a decoração, papai e mamãe haviam mudado tudo de novo, ótimo, não gostava da última decoração que havia visto, na verdade odiava, se entrasse e a visse tinha saído com certeza. Depois de fazer um lanche e muito bate papo com meus pais decido ir para o quarto com a desculpa de que precisava dormir porque estava cansada da viagem, quarto de hóspede é claro, eu não entraria no meu antigo quarto de jeito nenhum, não dormiria lá nem se me pagassem.
Passo pela porta de meu antigo quarto e travo em frente a ela, uma súbita vontade de entrar, de me jogar no chão e de chorar como uma garota de 16 anos faria, respiro fundo e forço as minhas pernas a me obedecerem, continuo e entro no antigo maior quarto de hóspedes, que agora seria meu, olho ao redor vendo que as coisas que havia trazido já estavam todas organizadas ali, e eu também gostei da decoração que meus pais escolheram para mim, um preto moderno, me sentia mais adulta nele, mais com a postura da garota confiante que adotei em Paris, bem melhor que o antigo quarto rosa que eu tenho certeza que não mudou nada, aquele que se esconde atrás da porta branca ao lado.

Tomo um banho e me sento na cama, com as mãos no rosto, tentando manter minha cabeça vazia, tentando me manter relaxada, mas as imagens voltam. Olho para a parede, a parede que separava o quarto que estou do meu antigo quarto, talvez eu devesse trocar de quarto. Não! Não posso fazer isso, já se passaram três anos e estou com medo de um quarto? Nesse tempo eu não devia nem me importar mais com isso, mas eu não consigo, estando aqui me sinto como a garota de 16 anos que eu era quanto parti, a garota melancólica, doce, chorona, a amante de livros, a que adorava chorar com os melhores romances, que geralmente são aqueles que acabam em tragédia. Aquela que chorava com algo bonito demais, e que também chorava por algo pequeno demais, resumindo, eu chorava por qualquer simples coisa, eu sempre me emocionei fácil, sempre fui fofa, a queridinha, a menininha dos meus pais, a caçula dos meus amigos, a garota perfeita da família. E eu tive que aprender a força que a vida não é um conto de fadas, e que a maioria das pessoas não gosta de meninas que se pareçam com princesas, ou melhor, que as princesas não são fofas, as princesas são fortes, elas vão a luta, e eu tive que aprender a lutar.
E agora aqui estou eu, deitada e encolhida na cama, na escuridão total, chorando baixo como uma criança que não quer irritar os pais. Viro-me e olho para o teto então percebo que não estava em uma escuridão total, tinha um espaço entre a cortina, deixando a claridade entrar, aquela luz me incomodou de um jeito anormal, agora chorando com mais raiva me levantei e com passos pesados fui até a janela e fechei as cortinas com força. E eu estava me sentindo tão idiota, como se aquele fecho de luz fosse minha salvação, minha esperança, a claridade no meio da escuridão e eu só precisava me agarrar nela, mas não, eu queria me permitir sofrer de novo, eu queria que aquilo me afetasse de novo, se eu sentisse de novo, se eu me permitisse sofrer tudo que havia para sofrer, talvez acabasse, talvez passasse. Mas por que agora? Por que aqui? Por que eu não queria deixar essa dor ir embora, por que eu não conseguia? Enquanto eu chegava à conclusão de que aquilo era pra me fortalecer, que a dor que eu guardava era pra me manter forte, pra não me deixar cair na fantasia de novo, pra não me deixar iludir, caio no sono.