Não há outro amor para mim.
23 Um sacrifício por amor.
Notas iniciais
Ver Emma sair pela porta da sala sem olhar para trás me lembrou uma cena de filme. E por mais atriz que ela fosse, aquela não era uma cena de mentira, era a mais pura e triste realidade, e eu também me tornei uma personagem naquele momento.
Eu jurei que não iria chorar, mas bastou Emma cruzar o portal de nossa casa e entrar no taxi para ir embora, que as lágrimas foram mais fortes que minha vontade.
Não tive palavras depois dela me dizer que estava indo embora, mesmo que por um tempo, eu nem saberia explicar. Mas do que adiantava explicar a ela que eu não queria o que ela desejava se ela havia escutado de outro jeito da minha própria boca? Foi melhor mesmo ficar quieta e vê-la terminar de arrumar a mala. Emma passou por mim como se eu fosse um fantasma. E para ela eu me tornei um fantasma nos três meses seguintes em que não a vi.
Me lembro de não dormir naquela noite. Passei um dia inteiro sem comer nada além de uma maçã que até me fez mal. Fui trabalhar a base de aspirinas que controlaram meu mal estar por algumas horas, pelo menos até eu terminar de apresentar o noticiário. Bendita seja a maquiagem, pois disfarçou bem minhas olheiras. Não me lembro de ter uma semana tão atípica quanto essa em todos esses anos, porém, nesse embalo, fiquei oito dias envolvida na nuvem escura da culpa que me rondava.
Emma me ligou apenas dez dias depois para me dizer o endereço do hotel onde ela e a equipe de filmagens estavam hospedados em Oklahoma. Foi uma conversa seca, um bom dia nem um pouco sincero e palavras que consegui anotar num papel, mesmo estando atenta a voz sem emoção dela.
Estava prestes a sair quando ela ligou, eu tentava ser firme, ao mesmo tempo doce com ela, não sei para quê. E no meu desespero após se despedir eu precisei lhe dizer:
— Emma... Volta pra casa. Eu sinto sua falta.
Devia ter dito “eu te amo” ou “perdão”. Mas não, eu pedi para ela voltar. Acho que nem preciso entrar em detalhes quanto ao que ela fez depois de ouvir meu pedido. Só pude ouvir ela desligar, me abandonando como se as palavras não tivessem sido para ela.
Fui obrigada a esperar. Emma não retornava minhas mensagens de texto. Mensagens imensas que inventei de mandar, pedindo perdão. Não retornava minhas chamadas, nem me atendia quando eu ligava para o hotel. Deixou um recado na recepção para quando eu ligasse dizendo que só me atenderia se fosse um caso de vida ou morte e ela sabia que eu não estava ligando para falar de algo urgente com ela. Comecei a sentir raiva dela por essa atitude. De repente comecei a achar bom o tempo que ela estava dando longe de mim, contudo, havia uma coisa em Emma que nunca soube explicar, era como se eu pudesse sentir que ela não queria agir como estava agindo. Eu conseguia sentir quando pensava em mim, sempre a noite, antes do horário em que costumávamos ir dormir. Até que um dia eu tentei a sorte e ela decidiu me atender. Eu segurava nosso retrato do casamento que ficava na cômoda ao lado da cama enquanto o número chamava e eu quase perdia as esperanças dela não me atender, quando do outro lado da linha escutei sua respiração.
— Oi. — disse ela primeiro.
— Oi — cheguei a ficar surpresa. — Emma.
— Você está bem? — perguntou de um jeito natural.
— Se eu estou bem? Quer que eu seja sincera?
— Sim, por favor.
— Não. Nem um pouco bem, você pode imaginar.
— É. Eu posso imaginar. — pela forma como ela disse isso, comecei a acreditar que Emma estava disposta a me perdoar.
— Achei que não fosse me atender. — disse eu, enroscada num lençol e travesseiro que tinha seu cheiro e adorávamos dividir, no entanto ela não estava ali comigo debaixo dele.
— Eu precisava de um tempo, Regina. Um tempo para pôr minha cabeça no lugar.
— Então podemos conversar sobre o que você ouviu naquele dia?
— Ainda não. É melhor falarmos sobre isso quando estivermos cara a cara novamente.
Houve alguns segundos de silêncio entre nós, até que Emma continuou:
— Eu pretendo ir para a casa dos meus pais no feriado. Já faz um tempo que não os vejo, vou viajar para Nova York amanhã, depois volto para cá.
— Emma, você vai ficar muito cansada indo e voltando.
— É melhor assim, porque cansada eu não tenho tempo para pensar.
Me passou uma sensação ruim ouvir isso dela. Nos despedimos de uma forma murcha mas depois dessa breve conversa eu pude ter certeza de que Emma estava pensando em nós. Ela não conseguiria ser uma pessoa fria por muito tempo, eu sempre soube que não.
Com uma falsa tranquilidade consegui passar o restante dos dias menos mal. Killian ficou sabendo do ocorrido e vinha me visitar toda quarta-feira à noite para conversarmos e me fazer companhia enquanto ele tinha de esperar Ruby sair das gravações. A própria Ruby um dia veio conversar comigo e deu sua opinião sobre o que ela pensava da minha briga com minha esposa.
— Emma ama você de forma incondicional. Ela está magoada e com razão pelo o que você escondeu dela. Quer saber o que eu penso? Vocês duas vão superar essa crise.
— Não sei se isso é uma crise, Ruby.
— Em todo casamento há crises, desentendimentos. Ou você pensava que no seu seria tudo como flores? Por mais que vocês se amem, vocês são pessoas diferentes com pensamentos diferentes, só se esqueceram desse detalhe quando resolveram se casar.
— Acha que devíamos ter esperado mais tempo para morarmos juntas? — perguntava eu, sentada no sofá de frente para nossa amiga.
— Deviam ter se conhecido mais, ter conversado sobre o que esperavam para o futuro e principalmente sobre a vontade de formarem uma família.
— Eu não acho que para sermos uma família precisamos necessariamente de filhos. — gesticulei insatisfeita.
— Só que a Emma pensa o contrário, não é? É essa falta de comunicação entre vocês duas que fez a casa cair. Esse medo que vocês duas têm de machucar uma a outra nunca colaborou. — ela não parou por aí, mas essa última frase me fez refletir e nada mais que Ruby disse eu consegui prestar a atenção. Falando daquele jeito, Ruby mais se parecia com uma psicóloga clínica do que atriz. Eu disse que ela levava jeito e acabei descobrindo que antes de ir para Los Angeles, nossa amiga havia cursado um ano do curso de psicologia da universidade de Ohio.
De qualquer forma, mesmo com a ajuda de Killian e de Ruby, as coisas não mudaram. Emma ficou mais um tempo sem me ligar e por conta de um orgulho besta eu também não mandava mais mensagens ou a procurava no telefone. Dizer que a ideia de ir até ela em Oklahoma não me passou pela cabeça é mentira, porque eu a tive. Só não tive a mesma coragem para fazer isso.
Até mesmo Pongo sabia que havia algo de errado conosco. Às vezes ele me recebia na porta quando eu voltava para casa no final do dia e brincávamos no quintal como Emma fazia com ele nos dias de folga, mas não era a mesma coisa. Ouvia ele chorando baixinho perto da porta quando dava a hora em que Swan costumava chegar, e eu tinha de mostrar a ele que ela não estava ali.
— Você também sente falta dela, não sente? — eu perguntava e toda vez ele abanava seu rabo na intenção de me dizer que sim.
Devo dizer que durante aqueles três meses sem Emma, meu único pensamento era o de tê-la de volta. Eu não pensava em como encará-la quando ela voltasse, embora estivesse sentindo um pavor absurdo de olhar para minha mulher quando acontecesse. Nem pensava na hipótese de aceitar ser mãe com ela. Eu jamais pensei nisso nos noventa e dois dias seguintes. Por isso, ao me dar conta que o que Emma queria para ela não importava para mim, me senti a pior pessoa na face da terra. E como toda pessoa que acredita ter cometido um erro, eu precisava consertar.
Minha carência estava no limite quando entrei de férias do jornal matinal. Por incrível que pareça eu havia me esquecido que entraria de férias em três meses, justamente na mesma época em que minha loira terminaria as gravações de seu novo filme. No fundo eu estava tão distraída e chateada que esse detalhe sumiu completamente da minha cabeça.
Pois bem, não tive alternativa a não ser descansar. Agora dava para entender quando Emma dizia que ficar cansada era melhor porque não dava tempo para pensar em nada. Comigo também foi assim. Minha esposa e eu fugíamos da obrigação de pensar em nossos problemas nos afogando no trabalho. E, como era de se esperar, ficar em casa me fez pensar mais na minha culpa naquela história, principalmente quando eu fazia coisas que costumávamos dividir como tarefas de casa, lavar, passar, cozinhar e etc...
Quando dei por mim já estava me acostumando a sentir falta de Swan, ao mesmo tempo que eu tinha uma cega esperança de que tudo voltaria ao normal após ela voltar. Pensando assim, posso me declarar um pouco masoquista, ou melhor, bem masoquista por me adaptar àquela situação de tal forma. E meus pensamentos não estavam muito distantes do que de fato aconteceria quando Emma voltasse para valer.
Eu segurava o colar de coração alado que ela havia me dado no nosso primeiro natal juntas e voltei a usar quando ela finalmente voltou para casa. Emma entrou de uma forma tão silenciosa que pensei estar vendo miragem, no entanto era ela. Tinha um jeito diferente, um semblante cansado porém sério no momento em que fechou a porta.
A alegria de Pongo foi imediata ao vê-la, ele chegou a chorar e de tanto que abanava seu rabo achei que fosse quebrar. Emma não disse uma palavra a ele, afagou seu pelo por algum tempo para depois tirar da mala um brinquedo que havia comprado. Após o cão sair correndo em direção ao quintal com o brinquedo na boca, não houve outra alternativa a não ser me ver sentada no sofá a olhando de banda.
Meu rosto queimava naquele exato instante.
— Oi. — começou com a voz moderada.
— Oi. — eu respondi, olhando para outra direção.
Swan se aproximou, sentando ao meu lado. Pude ver aos poucos como ela estava vestida, um casaco cor de terra do qual ela gostava muito, calça jeans e botas marrom nos pés.
Demorou um pouco até que continuasse.
— Você tem alguma coisa a me dizer? Quer tentar se justificar? — perguntou Emma. Não esperava que ela fosse tão direta ao ponto.
Eu não relutei em responder.
— O que você espera que eu diga? Que foi algo da sua cabeça? Que não foi nada daquilo que você escutou?
— Eu fiz a pergunta primeiro. — disse ela, neutra.
Assenti, roçando as pontas dos dedos no colar que eu tinha no pescoço.
— Passei muitos dias atrás de uma explicação que devia te dar. Nenhuma adiantaria.
— Então é isso mesmo que você quer? Não me dividir com ninguém...
— Sim. Além disso, não sei se estou pronta para assumir essa ideia que você tem. — depois que falei não me senti tão mal como imaginava. Mas ainda não tinha coragem de olhar diretamente para Emma.
Ouvi sua respiração.
— Poderíamos ter falado sobre isso em tantas oportunidades.
— Poderíamos ter resolvido há três meses atrás.
— Estando no meu lugar você também sentiria vontade de fugir, de sumir. Foi uma alternativa que achei naquele momento. Você consegue entender?
— Um pouco. Para ser sincera eu também não sei se conseguiria conversar sobre isso naturalmente com você naquele dia.
Percebi que minha mulher estava com os olhos em cima de mim.
— Acho que o pior erro não foi não falarmos sobre o que esperávamos do futuro, mas sim não termos pensado que a vontade de uma podia não ser a vontade da outra. — a voz de Emma embargou, ela tentou consertar rápido, porém eu havia notado.
Tomei coragem e a olhei ao meu lado.
— Ruby havia me dito a mesma coisa. Eu parei para pensar que de fato esse foi nosso grande problema, Emma.
— Você não quer ser mãe, não quer ter de me dividir... Já passou pela sua cabeça o quanto eu amo você? Que por mais que haja outra pessoa importante para mim, que eu deva cuidar e amar, não significa que eu vá me esquecer de você, ou te pôr de lado?
— Emma, foi um modo de dizer, eu entendo que você não vai me compreender. A verdade é que não sei ser essa pessoa que você enxerga, cuidando de um bebê, educando uma criança. — enxuguei uma lágrima que desceu do canto do meu olho direito. — Se você quiser eu posso tentar mas...
— Não precisa. Nosso casamento nunca foi uma obrigação, nem quando pedi para que morasse comigo em Portland eu estava obrigando. Mesmo que você tentasse aceitar uma adoção, eu sei que você estaria se sentindo oprimida. Eu prometi a você que te faria feliz.
— Eu também prometi isso a você.
— Pois é, Regina. Mesmo eu estando decepcionada eu não posso negar que ainda sou perdidamente apaixonada por você. — Emma procurou meus olhos com os seus. — Você não quer me dividir, eu não quero deixar você. Acho que voltamos a empatar.
Engoli em seco.
— O que está querendo dizer?
— Vamos fazer um trato. Esquecemos o que aconteceu e tudo volta a ser como era.
— Você está me perdoando?
— Perdoando e esquecendo o que ouvi você dizer para o Killian sobre ser mãe. Seria um erro ainda maior querer que você aceitasse o meu desejo do jeito que eu estava fazendo.
Toquei no rosto de Emma no mesmo instante, esperando as lágrimas que rondavam seus olhos caírem, mas ela se conteve ao máximo.
— Mas é um erro também você deixar o seu sonho em troca do nosso casamento.
— Um sonho bobo. Eu já tenho tudo, tendo você. Eu vou tirar a ideia da minha cabeça e não vou mais perturba-la com isso.
— Emma... Você tem certeza?
— Enquanto estive em Oklahoma eu trabalhei muito, e aquilo era a única coisa que me distraía, então não era legal deitar na cama e não poder abraça-la, não poder te olhar e rir de alguma coisa nova que fizemos durante o dia. Ter ficado sem você me mostrou que eu não sou capaz de viver sozinha. Não tenho a intenção de abrir mão de você só porque o que eu quero é uma criança vivendo aqui. Eu respeito suas vontades e além de tudo eu a amo. Deixa pra lá, Regina. Vamos viver como se nada tivesse acontecido.
Quis dizer não, protestar eu não acreditava no que ela estava me dizendo. Ela me colocou em primeiro lugar, havia prova de amor maior do que essa? Não havia, nem houve. Emma estava se sacrificando para continuar me fazendo feliz e se a vontade dela de ser mãe teria de ser deixada ela a faria por mim.
Abracei minha loira sentindo um imenso alívio, porém, um enorme aperto no peito também. Aceitei a decisão dela como era de se esperar, do meu jeito egoísta de pensar somente em mim. Nem com aquela conversa eu havia aprendido.
Não falamos palavra alguma após essa conversa naquela noite. Emma mostrou toda a falta que estava sentindo de mim com beijos.
Aproveitei cada dia das minhas férias como se fossem o último ao lado dela, acordando para ver o rosto dela sorrir para o meu, sentir o beijo na nuca e o abraço forte por trás enquanto eu preparava nosso café da manhã, brincar com Pongo e fazer amor antes de dormir. Um mês inteiro foi o tempo que levamos parar matar a saudade.
A impressão que passava era que tudo no nosso casamento se resumia no que Emma havia feito por mim. A frase de minha mãe nunca havia caído tão bem para tal situação: O amor requer sacrifícios. Por amor Emma escolheu abandonar seu desejo de ser mãe.
E agora você me pergunta se voltamos a viver normalmente como o casal apaixonado de sempre? Posso dizer que sim, até determinado tempo dos quatro anos seguintes. Porém, o sacrifício de Emma teria consequência. Uma consequência chamada rotina.
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