Não há outro amor para mim.
30 Tenho uma conversa franca com Henry Mills.
Notas iniciais
Voltei para casa com pressa. Eu sabia que se Emma me visse ali, me encheria de perguntas e eu acabaria tendo que respondê-las sem mentir. Eu já não podia mais mentir para Emma, esconder os fatos dela por mais que grande parte das vezes nós duas tentamos proteger uma a outra não contando o que pensamos. Mas, preciso de tempo para conversar com ela sobre ter estado no orfanato, assim como ela me pediu para que eu esperasse até que ela tivesse condições de conversar sobre ser mãe. Estamos no mesmo barco. E eu vejo que há um longo caminho no mar para eu navegar até me entender com Emma sobre crianças.
Corri até nossa casa e já estava escuro quando estacionei o carro na garagem. Entrei, falei com Pongo e subi com a mesma pressa para tomar um banho. Demorei tanto debaixo d’água, pensando em Emma e sua alegria ao contar histórias para aquelas crianças que esqueci do tempo. Eu ensaboava meu cabelo com shampoo, de olhos fechados, tentando não chorar ao pensar na minha insensibilidade em relação a Emma. Abri meus olhos e tudo o que vi foi o vapor que tomou conta do banheiro se dissipar no box e os olhos de Emma me mirarem atrás do vidro. Tomei um susto grande. Ela acabara de chegar e eu estava a tanto tempo no banho que deu para Swan sair do orfanato, buscar o nosso jantar e chegar em casa.
Emma sorriu para mim, com as mãos na cintura do outro lado do box, provavelmente me olhando há alguns minutos.
— Que susto, meu amor! Eu não te ouvi. Há quanto tempo está aí?
— Olhando você tomar banho? Há uns cinco minutos. Posso entrar também? — Não sei por quê Emma perguntou, ela já começava a tirar sua jaqueta, camiseta e calça do corpo. Quando terminei de enxaguar os cabelos, ela já havia entrado no box e me agarrado por trás, me enchendo de beijos e uma envolvente carícia com suas mãos. Me virei em seus dedos e a beijei, continuando o namoro debaixo do chuveiro.
Foi a melhor coisa. Consegui me distrair dos pensamentos ruins, e depois que desligamos o chuveiro, ganhei a batalha para ver quem iria saborear a outra. Me preocupei apenas em dar prazer à Emma e demorei de propósito, ajoelhada em seu meio enquanto ela me guiava segurando meus cabelos.
Swan nunca foi o tipo de mulher que gritava de prazer ou gemia muito enquanto sentia as boas sensações do sexo, e quando fazia isso era bem baixinho. Emma arfava mais e sua respiração mudava, eu sabia quando ela estava chegando no auge. Dessa vez ela respirou alto de um jeito que ecoou pelo banheiro, o que significava que eu tinha feito certo. Me levantei até sua boca e a beijei, ela quis me dizer alguma coisa, pois segurou meu rosto com as duas mãos e fitou meus lábios como se eles fossem uma obra de arte.
— Isso foi bom. Foi gostoso. Foi...
— Delicioso. — falei por ela.
— Isso. — sussurrou, sorrindo de uma forma maldosa.
Observei esse detalhe, mordi seu beiço e falei bem perto dela:
— Quer de novo?
Emma fez que sim, achando que iria me beijar antes, mas eu desci primeiro e voltei ao trabalho, fazendo ela arfar ainda mais.
Embora esse momento tenha me ajudado a mudar de foco, na hora em que fomos jantar, voltei a pensar no que eu tinha visto de tarde.
Estávamos jantando tranquilamente, Emma com bastante fome a propósito, e eu só sabia olhar para ela e me perguntar um milhão de coisas. Eu não tinha o que falar, não sabia. Era como se agora cada questão que eu fizesse me custasse um ponto importante no jogo que eu estava jogando com Emma, mas, aparentemente, o casamento é um jogo que se joga a dois. Não quero enganá-la, nem mentir por tanto tempo, só preciso entender o porquê dela querer tanto um filho na vida. Por que isso parece tão difícil?
Eu pensei em todas essas coisas, olhando para ela enquanto comia seu filé de peixe. Minha língua estava coçando, eu já havia praticamente acabado meu prato.
Não resisti e perguntei para testá-la:
— Como foi hoje no orfanato?
Emma me olhou com uma cara de surpresa. Acho que de todas as perguntas, essa era a que ela jamais esperava que eu fosse fazer no jantar.
— Foi muito bom, foi divertido hoje. Contei histórias para as crianças. — ela respondeu de bom grado. Acho que ficou feliz com meu interesse.
— Ah, sim. Que bom. — eu disse, colocando meus cabelos curtos para trás da orelha. — Você contou a história da Branca de Neve?
Minha mulher franziu a sobrancelha, mas riu.
— Como você sabe? Sim, eu contei a história da Branca de Neve para eles e depois...
— A do Peter Pan. — falei antes dela e me arrependi.
— S-Sim... — gaguejou — É isso mesmo. Como você sabe disso? Eu não te vi lá sentada no meio das crianças. — brincou ela.
— É que quando eu era pequena, minha mãe me contou essas primeiro, de um livro que eu tinha. Um livro grande, chamava-se “Era uma vez”.
— Hum... Engraçado que esse era o mesmo livro que havia no orfanato. Foi o que eu li para as crianças. Na semana que vem prometi contar a eles sobre a Cinderela, essas historinhas avulsas que tem pelo livro.
— Entendo. As crianças devem adorar você.
— Ah, que nada, elas só são carentes. Adoram todos que dão atenção a elas.
Respirei fundo, morrendo de vontade de dizer a ela que havia ido vê-la no orfanato, mas me segurei. Por mais que a próxima pergunta que eu fizesse fosse um pouco indigesta, eu devia fazê-la.
— Meu amor, por que não me disse que ia no orfanato hoje? Você de manhã me disse que sairia do estúdio mais tarde por causa de algumas cenas.
Ela terminou de comer e limpou sua boca num guardanapo. Percebi que quis se levantar, contudo, fugir da pergunta não era uma boa ideia.
— Achei que ia se aborrecer se eu contasse a você sobre as crianças. Eu te disse que ainda não estou pronta para falar sobre isso. Me desculpa por ter mentido.
— Está tudo bem, eu só não quero que esconda de mim a verdade.
Sei que é injusto pedir de Emma que não me esconda nada já que estou indo atrás dela sem que saiba, mas pretendo contar a ela na melhor hora.
Ficamos nos encarando por algum tempo e nos levantamos, recolhendo os pratos e talheres.
Foi um restante de noite estranho para nós duas, acabamos deitadas na cama, olhando para o teto, então Emma pegou em minha mão direita e me puxou para que eu a abraçasse pelas costas. Fiz carinho nela até senti-la pegar no sono e me sentir confortável para dormir também.
Já no dia seguinte, antes de ir trabalhar, recebi uma ligação de minha irmã Zelena dizendo que papai tinha sido hospitalizado por conta de uma pneumonia. Me assustei, claro, pois meu pai, apesar da idade, não era um homem que costumava ficar doente, porém, Zel me assegurou que ele estava bem e que havia pedido para ela me ligar.
Disse a minha irmã que iria a Portland no final de semana para vê-lo e ela achou uma ótima ideia, o que deixaria meu pai muito contente também.
Avisei a Emma de noite que eu ia ficar fora o final de semana inteiro, mas minha mulher sabia que era por uma boa causa.
Na sexta à noite, Emma me levou ao aeroporto e me entregou um presente que estava mandando para meu pai.
— O que é isso, meu amor? — perguntei, recebendo o embrulho da mão dela.
— É um garrafa daquele whisky canadense que ele adora. Encontrei numa adega muito boa em Hollywood e comprei para ele. Diga que não deve tomar tudo antes que eu vá a Portland para bebermos juntos. — explicou ela, ajeitando a gola da minha camisa Dudalina cor de rosa.
— Ele não vai beber isso tão cedo. Zelena faz vista grossa com as coisas que ele come e bebe lá em casa, especialmente depois que a mamãe morreu. Acho que ele vai ter de esperar mesmo por você. Que pena que você tem de ir trabalhar amanhã, se não poderíamos ir vê-lo juntas, ele ficaria tão feliz.
— É, mas o seriado está entrando num ritmo mais pesado agora, então adeus à minha folga de sábado. Mas pelo menos não ficarei de bobeira com o Pongo assistindo TV e comendo besteira. — ela sorriu de forma meiga.
— Ah, então é isso que faz quando está sozinha com o Pongo em casa? Bom saber, senhorita Swan.
Ela começou a rir e me deu um beijo antes da chamada para meu voo soar no saguão do aeroporto.
— Hum... Que droga, você precisa ir. — disse ela, fazendo careta.
— Eu vou mas volto rápido, se cuida, tá? Eu te ligo quando chegar. — selei seus lábios.
— Está bem. Me liga mesmo porque eu fico preocupada. — ela me segurou e respondeu ao selinho com um beijo longo. Arrancamos alguns olhares das pessoas que passavam para a sala de embarque, mas nem ligamos muito. — Dá um abraço na Zelena e um no seu pai por mim, fala pra ele ficar bom logo.
— Eu faço isso, prometo. — pisquei pegando minha bolsa de mão e me virando para entrar na sala de embarque.
Emma ficou no aeroporto até o avião onde eu estava decolar.
Cheguei em Portland às dez da noite, bem tarde para visitar papai no hospital, então fui para a mansão com Zelena e decidimos conversar para pôr os assuntos em dia e matar as saudades.
Zelena me contou que havia desmanchado o noivado com Robin, um empresário que ela namorava desde a época em que eu e Emma nos casamos. Senti que minha irmã ficara triste ao me contar isso, contudo, eu sempre achei que ele não fosse o cara certo para ela. Acabamos falando de mim e de Emma e em como eu andava enfrentando a crise pela qual passamos. Minha irmã ainda comentou que em Portland algumas pessoas comentaram quando ouviram boatos sobre nossa separação e que ela não sabia que eu tinha tantos fãs por lá por conta do jornal que eu apresentava, achei graça disso.
No dia seguinte, no hospital, papai faltou pular da cama ao me ver entrando no quarto ao lado de Zelena. Foi a melhor surpresa que ele jamais poderia esperar. Dei nele um abraço apertado como havia prometido à minha esposa e até o fiz tossir. O coitado estava se recuperando da pneumonia que tinha contraído porque não andava se agasalhando bem. Eu conhecia muito bem o meu pai, ele adorava andar descalço pela casa de madrugada e assaltava a geladeira lá pelas três da manhã, habito que pelo jeito não havia perdido com o tempo. Duvido muito que foi só por causa disso que ele tenha ficado tão gripado, em Portland fazia muito mais frio que em L.A. e alguém na idade dele se não se cuidasse acabaria doente.
— Mas que alegria ver você, minha querida. Quanta falta eu sinto de você. — ele falava entre risos e tosses. — Zelena, foi você que mandou ela vir, não foi? Se fosse por ela nem se lembraria mais de mim. — ele brincou.
— Você sabe que não é bem assim, pai. Mentiroso. — estreitei os olhos o vendo e acabamos rindo mais. — Eu não pensei em outra coisa a não ser ver você quando Zelena me ligou. Como se sente hoje?
— Acho que estou melhor do que nos últimos dias. O médico que está cuidando do meu quadro clínico manda uma enfermeira me medicar a cada três horas. Amanhã farei um novo raio X para ver o quanto meu pulmão ainda está congestionado.
— Parece mesmo melhor do que ontem e antes. — Zelena disse, logo atrás de mim.
Papai a olhou e pediu-lhe:
— Zelena, minha filha, — Papai tratava Zelena como filha dele mesmo ela sendo do outro casamento da minha mãe, eu achava isso muito bonito da parte dele. — pode fazer um favor ao seu pai?
— Claro que sim. — ela respondeu prontamente sacudindo seus cabelos ruivos.
— Pode ir ao escritório checar se está tudo certo com os associados?
— Tudo bem, pai. Eu estava pronta para ir até lá mesmo, só vim deixar Regina, ela ficará conosco hoje e amanhã. Voltarei na hora do almoço. — minha irmã disse, indo até ele para beijar sua testa. Em seguida saiu e sorriu para nós, acenando.
— É uma boa menina, não acha? — ele falou e eu assenti olhando para a porta. — E você, pequena minha, como está? Como vai com a Emma?
Voltei a fitar papai e disse:
— Estou bem, nós duas estamos bem. Veja o que ela mandou para você. — entreguei a garrafa que Emma havia mandado para papai e ele abriu o presente com muito gosto, adorando.
— O meu whisky favorito! Poxa, agradeça muito a ela. Estou procurando por isso há anos e não acho em adega alguma. — ele me olhou e sorriu, me puxando mais para seu lado. — Senti sua falta, filha e quando eu digo que senti é verdade. Eu soube o que houve entre você e sua mulher. Você tem certeza de que está tudo bem com vocês? Sua carinha não diz isso.
Papai sabia me decifrar, tentei disfarçar mas era tarde.
— Estamos bem sim, pai, Emma está trabalhando na nova série e eu com o jornal que você deve assistir todos os dias. O que aconteceu já passou, nós conversamos e nos entendemos. No aniversário dela fiz uma surpresa de consertar a moto dela e depois uma festa com os amigos. Temos nos resolvido. E você sabe, temos o Pongo, nosso cachorro. A gente anda vivendo aquela vida de um casal típico. — me sentei ao lado da cama enquanto falava.
— Eu compreendo. — ele me olhava ainda, tinha alguma admiração no olhar e dúvida também. — E no meio da crise pela qual vocês passaram não houve nenhum momento de ciúmes? Você apresenta um jornal que é transmitido no país inteiro, é uma mulher tão popular quanto ela, sabia disso?
— É, eu sei, pai. Mas temos pouco problema com isso atualmente.
— Fiquei preocupado quando vi as notícias. Me perdoe a intromissão, eu quero garantir que minha filha esteja sendo bem cuidada.
Segurei na mão dele, pousada sobre o colchão.
— Sua nora está cuidando muito bem de mim, pode ter certeza. Eu é quem ando decepcionando. — revelei como se aquilo fosse algo que ele não fosse ligar.
— Por que decepcionando?
— Porque Emma quer ser mãe e essa é uma ideia que nunca passou pela minha cabeça.
Papai respirou pesadamente tentando entender o que eu havia dito.
— Você não quer ser mãe?
— É, pai. Eu não sinto que precisamos de uma criança no nosso casamento, já me sinto completa com Emma e Pongo, com a vida que vivemos.
— Minha querida, eu sinto lhe dizer, mas não é isso que está parecendo. — papai me deitou um olhar de aviso.
— Você acha que eu devo aceitar ser mãe com Emma?
— Você não precisa aceitar porque essa palavra, aceitar, está empregada de uma forma como se isso fosse uma obrigação e eu duvido muito que você e Emma queiram obrigar uma a fazer as coisas que a outra quer. O que eu acho é que você não sabe lidar com o que Emma está te pedindo.
— Ela não está me pedindo, ela e eu já conversamos. A crise pela qual passamos ocorreu muito por conta disso também, e ela abriu mão de pensar em adoção há quatro anos, mas eu descobri que ela ainda quer isso, que o desejo dela nunca deixou de existir. Sabe, pai, eu estou tentando compreender, tentando levar a ideia adiante na minha cabeça, cheguei a ir ao orfanato que ela frequenta, mas foi algo tão estranho. Eu não sei como reagir diante disso, eu não sei o que fazer.
— Aposto que Emma também não sabe como agir com você quando pensa em filhos, correto?
Fiz que sim.
— Ela tem evitado falar disso comigo.
— Pois é, Regina, pequena minha, alguns casamentos foram feitos para as pessoas que desejam ter filhos. Outros para aquelas que desejam ser felizes apenas a dois. Você acredita no casamento daqueles que querem a felicidade a dois apenas e Emma nos dois tipos de casamentos.
— O que eu devo fazer? Eu não quero perder a Emma.
— Você não irá perdê-la. Ela, pela forma como lida com a questão não vai desgostar de você. Mas você deve pensar se quer fazê-la feliz ou sentir que algo que ela não realizou sempre estará a perturbando por dentro.
— Eu tenho que conversar com ela então.
— Muito, conversa é sempre a melhor opção. E quem sabe, um dia, você, Emma e meu neto ou neta virão me visitar aqui em Portland para irmos todos juntos ao Jardim Chinês.
Dei um meio sorriso ao meu pai, agradecendo pelas valiosas dicas que ele estava me oferecendo. Ele era um homem muito sábio e respeitoso. Lembrei da última vez que mamãe falou dele para mim e me senti emocionada. Precisei abraça-lo de novo para que ele não me visse de olhos cheios d’água.
Logo aquele assunto morreu e conversamos sobre outras coisas. Acho que fiz bem em ter passado esses dois dias com meu pai, me fez refletir sobre várias coisas.
Voltei para Los Angeles na noite de domingo, contente pelos momentos com meu pai e ver que ele tinha se recuperado bem da pneumonia, minha presença lá deve tê-lo ajudado. Emma me esperava no aeroporto e me recebeu cheia de saudade, me perguntando tudo quando cheguei. Eu estava tão cansada que só quis comer alguma coisa que compramos no drive-tru de um fast food e tomar banho ao chegar em casa.
Conversei com Emma mais um pouco antes de dormirmos e falei sobre a importante conversa que tive com meu pai no sábado, sem entrar em detalhes. Depois disso dormirmos feito duas pedras e só fui acordar bem cedo na manhã de hoje.
Emma estava virada para o meu lado na cama, e quando abri meus olhos a vi ressonando. Me ajeitei para poder vê-la melhor e passei uma hora inteira admirando seu belo rosto, as linhas finas do nariz, as bochechas, a boca e os olhos fechados. Eu tinha a melhor mulher do mundo ao meu lado e meu coração se apertava ao ver que poderia fazê-la infeliz com meus pensamentos egoístas. Toda a conversa que tive com meu pai veio na minha mente enquanto Emma despertava.
Ela me olhou com os olhos inchados, os coçou e sorriu entre o bocejo que deu.
— O que está fazendo? — perguntou com voz rouca de sono.
— Te vendo. Vendo como você é bonita, como eu tenho a melhor esposa que eu poderia pedir.
Emma se ajeitou na cama, se aproximando de mim.
— Você acordou muito romântica hoje. Mereço tanto? — ela tocou meu rosto, depois meu pescoço.
— Você merece o melhor de mim... Eu vou te dar o meu melhor, Emma. Eu vou tentar.
Ela sorriu um pouco confusa.
— Será que isso que você está me dizendo tem a ver com o que conversou com seu pai?
— Tem, tem muito a ver. — segurei a mão dela que me tocava o pescoço e a apertei. — Eu vou tentar, Emma. Eu juro que vou tentar ser o melhor para você e quero entender como você se sente.
— Mas você já é o melhor que pode ser para mim.
— Não completamente. Falta alguma coisa, não falta? Algo que você quer muito. Eu preciso compreender isso e vou tentar, está bem?
Vi um brilho acender o olhar de Swan. Ela me beijou lenta e suavemente.
Tivemos um café da manhã muito divertido e fomos trabalhar. Não contei que estaria no orfanato mais tarde, então quando deu a hora de eu sair da emissora, corri para lá.
Cheguei antes do horário em que Emma costumava ir às segundas, e a senhorita Blue me convidou a contar uma história para as crianças já que segunda era o dia da história e Emma era a voluntária a fazer isso. Relutei a princípio por não ter jeito com crianças, ainda mais completamente desconhecidas, porém, a freira me convenceu e me entregou o livro que já era um velho conhecido meu.
— Bem, meninos, hoje a Emma virá um pouco mais tarde, esta aqui é a Regina uma pessoa muito simpática que contará a história de hoje. Sejam educados e deem as boas-vindas a ela. — disse a freira e em seguida os meninos me disseram um olá.
Me sentei num banquinho na frente deles que formavam uma roda. Me sentia tão nervosa e desajeitada que abri e fechei o livro várias vezes, com medo de olhar para eles que não tiravam os olhos de mim e eram muitos.
Tomei coragem e a senhorita Blue saiu de perto, deixando tudo ao meu cargo, eu devia ler a história ou fugir. Meu coração disparava tanto.
Decidi começar a ler quando uma das meninas no meio gritou:
— Ela é a moça que apresenta o jornal!
Nesse momento as crianças começaram um burburinho que teve de ser contido pela senhorita Blue. Os olhos delas estavam ainda mais curiosos para a minha pessoa e eu realmente fiquei tímida diante daquilo.
— Calma, crianças. Depois vocês terão tempo de perguntar tudo à Regina. Agora, deixem ela contar a história. — disse a freira.
Engoli em seco, esperei a mulher se afastar de novo e abri o livro tentando ignorar o fato de ter umas cinquenta crianças me fitando.
— A-A Cinderela. — gaguejei. — Era uma vez, uma moça muito bonita que vivia em um castelo com suas irmãs... — eu comecei a falar com a voz grave que eu tinha, notando que algumas crianças sentiram um pouco de medo desse detalhe, então parei um pouco e suavizei meu tom. — Um belo dia, Cinderela esfregava o chão quando suas irmãs chegaram apressadas de fora... — continuei e ao que me pareceu, eles estavam gostando pois nem se mexiam enquanto eu narrava o conto.
Conforme eu lia a história da Cinderela para os pequenos, vez ou outra os via de relance. Alguns sorriam, especialmente as meninas que deviam estar imaginando como era ser uma Cinderela e ter uma fada madrinha. Numa dessas vezes, olhei para elas numa pausa que houve no texto e percebi que havia alguém me observando da janela que dava para o pátio do convento. Era Emma, ela estava li a bastante tempo, me observando com as crianças. Senti meu coração disparar, e não mais de medo dos meninos e meninas. O que eu havia planejado havia dado certo.
Fale com o autor