Não há outro amor para mim.
26 Nossa crise vira prato cheio para os fofoqueiros.
Notas iniciais
Não durou a noite inteira, durou tempo suficiente para nosso desentendimento na noite anterior ser resolvido. Acordei com Emma deitada sobre meu corpo, segura e tranquila.
Sorri quando olhei para seus cabelos espalhados sobre meus seios e imaginei que dali para frente eles não seriam mais loiros, eu teria de me acostumar a ver mechas castanho escuras. Não me sentia incomodada com isso, acho que a curiosidade do novo papel de Emma com certeza não era sua nova cor de cabelo e sim o filho que ela teria na ficção.
Enquanto namorávamos, de uma forma até tranquila naquela madrugada, me deixei esquecer que um dia o maior desejo de Emma foi ser mãe. Agora, de manhã, olhando-a, eu não sei exatamente se ela ainda tem alguma partícula do seu sonho escondido em algum lugar. Não sei dizer se estou com medo, ou se estou me sentindo normal, realmente essa questão não me pega tanto quanto resolver a crise pela qual passamos.
Tenho medo de acordá-la, tenho receio de fazer coisas que naturalmente fazíamos antigamente como enchê-la de beijos ou ela me encher de carícias até que eu despertasse. Algumas coisas ficaram estranhas entre nós, e é tão ruim perceber isso. Acho que não custa tentar enchê-la de beijos. Meu coração está batendo tão forte. Eu preciso reconquistar aquela confiança de antes.
Então comecei a acariciar seus cabelos, seus ombros cheios de pintinhas, seu rosto adormecido, aquelas bochechas tão bem desenhadas e sua boca. Emma gemeu baixinho acordando aos poucos como se respondesse aos meus toques, era uma visão dos Deuses, e eu me perguntava que bem havia feito na minha última encarnação para ter uma mulher como ela? Seja lá o que eu tenha feito, eu a amo muito e ainda consigo sentir aquele frio na barriga quando vejo ela abrir os olhos. Emma sorriu antes de fazê-lo e mordeu levemente meu polegar que massageava sua boca.
Em poucos segundos senti o corpo dela se agitar sobre o meu e subir até minha boca. Há meses que eu pedia por um beijo desses ao acordar. Foi uma troca muito boa, carinhosa e até um pouco indecente. Acho que Emma havia recuperado sua fome de mim. Mesmo assim, já me bastava aquele beijo que trocamos e a carícia no rosto que ela me fez depois.
— Eu não durmo tão bem assim há dias. — gemeu minha mulher.
— Se lembra? Quando eu te acordava e você resmungava pedindo para dormir mais cinco minutos? — recordei bagunçando os cabelos dela. Emma sorriu.
— Lembro. Mas se você não me acordasse eu não levantaria por conta própria.
— Assim como quando era o contrário, eu tinha de acordar cedo e você me chamava porque se dependesse do despertador eu não acordaria.
Rimos juntas nos lembrando desses detalhes. Por um momento não acreditei que estávamos tão bem humoradas de manhã, daquele jeito na cama, acho que eu ter assumido a culpa ontem funcionou.
— Me belisca, meu amor. — eu disse de olhos fechados.
— Por quê?
— Porque preciso acreditar que não estou sonhando.
Permaneci com os olhos fechados esperando a dorzinha do beliscão acontecer em qualquer parte do meu corpo, e Emma escolheu um dos meus pontos fracos, os bicos dos meus seios. Senti seus dentes roçando neles e quase urrei.
— Está sonhando agora? — perguntou ela.
— De jeito nenhum. — respondi, voltando a beijá-la na boca.
Fui parando aos poucos pois se continuássemos eu perderia a hora de ir trabalhar, mas ainda tínhamos um tempo para conversarmos.
Emma pareceu ter parado para pensar em algo também.
— O que foi, meu amor? — eu perguntei, me ajeitando para ficar sentada na cama.
— Nada, eu só estava pensando sobre a série. — o tom de voz dela estava ameno.
— Você está com medo de pintar o cabelo? — eu brinquei.
— Não. Não por isso, mas por outra coisa. — Emma se ajeitou ao meu lado. — Não me sinto segura, entende?
— Segura sobre o papel? Mas você não queria tanto essa chance em um seriado?
— Não sobre a chance, é sobre a personagem, ela precisar ser mãe.
Me surpreendi com Emma dizendo aquilo.
— O que há? Acha que não vai conseguir interpretar uma boa mãe?
— É. Eu nunca fui uma para saber. Talvez eu deva consultar alguém, ver como é cuidar de uma criança.
Não levei a fala de Swan como ameaça, mas sim como uma observação. O que eu poderia dizer a ela? Que daria tudo certo? Sim, eu poderia dizer isso, porém não seria de uma forma tão direta.
— Quantos anos acha que a criança vai ter na história? Se for uma criança mais crescida o texto vai ajudar você a interagir com ela. Se for um bebê você vai ter a ajuda de alguém na hora de gravar, você não deve se preocupar.
Emma franziu suas sobrancelhas, me fitou e assentiu, colocando uma mão sobre a minha.
— Está certa. Acho que tem razão. Eu só estou me sentindo ansiosa para começar com isso, é algo totalmente novo na minha carreira.
Tive de concordar.
— Claro que é. E você vai fazer brilhantemente como a boa atriz que é. — me estiquei até seu nariz e beijei bem na ponta, me levantando da cama para ir tomar banho. Eu sabia que no fundo Emma estava ansiosa para começar a interpretar a mãe que seria no seriado. Havia uma curiosidade profunda em minha mulher que ela nunca soube esconder quando se envolvia com algum projeto. De certa forma, eu gosto de vê-la novamente empenhada e não considero um risco de seus desejos ocultos de maternidade aflorarem. Algo me diz que quanto mais eu me preocupar ou achar qualquer coisa, mais essa situação crescerá, e tudo do que menos preciso é de outra confusão no meu relacionamento com ela. — Você não vem? — parei na porta do banheiro a chamando. Ela ainda estava sentada, pensativa na nossa cama e logo decidiu esquecer as preocupações com o novo papel para tomar um bom banho comigo.
Naquele mesmo dia, mais tarde, logo após eu apresentar o U.S.A News, pedi a ajuda de meu amigo Câmeraman, Archie, para me recomendar um bom restaurador de veículos. Eu pretendia mandar consertar a motocicleta Indian de Emma até o final do outono para passearmos juntas nela, seria um presente de aniversário para minha esposa. Já conseguia até imaginar a alegria que daria a ela ver a moto que foi de seu pai com uma cara nova, fazia muito tempo mesmo que Swan não a usava e por isso ela ficou como ficou, atravancada no fundo da nossa garagem. Archie me recomendou um restaurador que trabalhava para celebridades em Santa Mônica, relativamente perto da minha casa, não seria problema levar a motocicleta até lá.
Depois do trabalho, acabei ficando presa no transito na volta para casa e aquele tempo sem nada para fazer, ouvindo Carly Simon no rádio me fez pensar se não seria interessante fazer algo diferente para Emma naquela noite. Eu havia ganhado dela uma lingerie no meu aniversário há dois anos e até hoje não havia tirado a peça íntima do pacote. Para falar a verdade, sempre fui acanhada para usar essas coisas, a não ser quando usei na nossa noite de núpcias um conjunto branco para seduzi-la. Por um tempo perdi minha vergonha de várias coisas na cama com Emma, e agora, no entanto, essa vergonha tinha voltado repentinamente. Era como se eu estivesse dormindo com uma estranha se basearmos no nosso último ano. A sensação não era nada boa e como eu havia prometido tomar uma atitude eu devia fazer o que achava melhor para reconquistar Emma pois estava com medo que aqueles momentos que tivemos hoje de manhã acabassem como acontecia. Alguma coisa sempre acontecia para acabar com o clima.
Cheguei em casa e logo que entrei Pongo fez festa para mim mesmo mordendo ao mesmo tempo um brinquedo que havíamos comprado para ele na última visita ao pet shop. Afaguei os pelos das costas dele, deixando-o por ali e subi indo direto ao closet atrás daquela lingerie que havia pensado. Encontrei a peça no fundo da gaveta, ainda embalada como quando a ganhei. Olhei para o tecido negro cheio de renda e pensei bem. Acho que iria agradar a Emma me ver diferente, novamente atraente e sensual, não custaria tentar.
Jantamos um macarrão que fiz em dois tempos e ficamos no sofá até tarde vendo TV enquanto terminávamos com um pote de sorvete de morango italiano. Pongo estava sentado bem no meio de nós e roía o petisco que ganhava de Emma toda noite antes de irmos dormir. Nós assistíamos ao noticiário enquanto esperávamos começar a serie favorita de Emma, mas esquecemos que aquele noticiário era um dos milhares de programas de fofoca que falavam sobre o mundo das celebridades (Eu acho que Emma de vez em quando se esquecia que era uma.) Foi nisso que nos deparamos com a repórter convidada contando ao seu colega que apresentava com ela na bancada sobre um certo casal de mulheres, muito queridas em Hollywood, que não andava bem das pernas no casamento.
— Os boatos sugerem que Emma Swan e Regina Mills estão vivendo dias de tormenta dentro de casa.
— Eu não posso acreditar. Essas duas são um casal muito querido. Mas o que estaria acontecendo para estarem em crise, Susan?
— Há quem diga que a vencedora do Oscar e a apresentadora do U.S.A News não se suportam mais. Estão vivendo juntas porque o casamento rende muito dinheiro com as campanhas publicitárias ,e vale lembrar que não são poucas.
— Que situação mais desagradável deve ser para ambas. Esperamos que isso não passe de boatos.
Emma olhou para mim e eu olhei para ela de forma incrédula no que havíamos acabado de ouvir.
Como um programa de fofocas sabia da nossa crise? Era algo tão visível assim que Los Angeles inteira já se dava conta? Bem, os boatos não ocorreriam se não déssemos brecha para eles. Não havia como não desconfiar já que não íamos mais a eventos juntas, nem às festas dos nossos amigos, sem contar que provavelmente nossas frustrações estavam evidentes no rosto e quem convivia conosco nos nossos trabalhos devia perceber e deu com a língua nos dentes para os fofoqueiros de plantão. Mas eu e Emma assistíamos muito pouco àquele tipo de programa, nem eu assistia o jornal que eu apresentava. Acabou sendo um choque me ver noticiada de forma negativa e muito mais para minha esposa, claro.
Estávamos mal acostumadas com o lado bom da fama, os prêmios de Emma, a boa impressão que passávamos juntas e as campanhas publicitárias. Imagine se decidíssemos nos separar, o impacto seria maior, porque querendo ou não, éramos uma espécie de boa influência para muitos casais hétero e homossexuais no país. Um “exemplo” como nossos amigos costumavam dizer.
Emma acabou perdendo a vontade de ver seu seriado e subiu para o quarto visivelmente chateada. Assim que terminei de limpar a louça e o restante da bagunça que estava, subi para o quarto sorrateiramente, entrando em silêncio para não invocar minha esposa mais ainda. Infelizmente aquele jornalzinho de quinta categoria havia adiado meus planos de vestir a lingerie que planejava esta noite. Mas tudo bem, eu pretendo usá-la no aniversário de Emma, e dessa forma completo os presentes que quero dar a ela.
Ela estava deitada na cama, enrolada até a barriga por um lençol e virada para o lado oposto da porta. Jurei que já estava dormindo, e se havia uma coisa que Emma sabia fazer bem era fingir que estava dormindo ou cochilando, por isso, me dei a liberdade de deitar ao lado dela e tocá-la, apertá-la pelas costas.
— Hey, meu amor. Não fica assim, não foi nada. Foi só uma notícia de jornal de fofocas. Nós já estamos superando isso, não estamos? — disse eu, suavemente, bem perto do ouvido dela.
Emma respondeu, resmungando:
— Eu só não sabia que nossos problemas andavam na boca das pessoas.
— Nem eu esperava por isso. Sinto até vergonha.
Minha loira se virou para mim na cama, repousando a cabeça no travesseiro junto de uma das mãos, foi aí que percebi que ela havia sentido muita raiva. O rosto tinha ficado levemente corado.
— Como é que eu vou trabalhar assim? Droga, Regina. Assinei o contrato hoje e semana que vem começam as gravações. As pessoas vão me olhar e me fazer perguntas sobre nós duas.
— Meu amor — eu disse, passando os dedos nas bochechas dela. — É só um boato. Ninguém pode confirmar nada. Ninguém vai perguntar nada a você. Por que está tão preocupada?
Antes que pudesse responder, ela pensou e riu sem jeito, escondendo a cara no travesseiro.
— Estou sensível, desculpa. Acho que qualquer coisa anda me afetando muito, como nunca antes. — ela falou, abafadamente.
Eu me agarrei a ela e beijei seu rosto em cada parte para vê-la melhor. Não sei até onde aquele sensível de Emma fazia parte da nossa crise. Então óbvio que eu me sentia culpada.
— Não vou deixar ninguém falar mal de nós, nunca mais.
— É só um boato, você tem razão. Besteira achar que tudo está perdido.
Aquele comentário me fez sentir um aperto estranho no peito.
— Do que está falando?
— Eu e você. — sussurrou.
— Nada está perdido, Emma. Ninguém pode dizer isso porque não é verdade.
— Foi um mal presságio. — ela me olhou e senti o medo estampado nos olhos dela, mas por que sentia medo? — Desde quando comecei a ser notícia por ser atriz, tive medo disso nos atrapalhar. Não quero que as pessoas nos destruam.
Entendi o que Emma quis dizer como uma forma de não querer que nosso relacionamento fosse ainda mais prejudicado com o que poderiam falar de nós. Na verdade, nunca parei para pensar no poder que aqueles fofoqueiros tinham em Hollywood, e de fato Emma podia estar certa. Frágil do jeito que estávamos, era melhor ter cuidado.
— Não vou deixar que nada nos atrapalhe. — peguei a mão de Emma e beijei com todo o carinho. Ela se aninhou nos meus braços e consegui fazê-la dormir enquanto a acariciava. Mas como toda coisa que pensamos demais, o boato já havia crescido muito.
Agora pela manhã, me levantei antes das sete e meia e peguei o jornal que me entregavam todos os dias na porta de casa. O abri esperando ler alguma manchete da NFL, quando me deparei com uma foto minha e de Emma juntas na première de um filme. A notícia dizia: “As queridinhas de Hollywood, prestes a romperem.”
Aquilo me deu um ódio tão grande que finalmente entendi o que Emma havia sentido na noite de ontem. Não mostrei o jornal a ela. O escondi e depois joguei fora antes dela dar falta.
Se a imprensa pensa que poderá se aproveitar do meu casamento, está muito enganada. Felizmente eu tenho um plano; Falar ao país todo que amo Emma, mas não vou usar a cerimônia do Oscar como ela fez há quatro anos atrás, farei diferente e talvez melhor.
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