Não há outro amor para mim.
65 Henry faz um desenho intrigante.
Notas iniciais
Voltando para Los Angeles, eu tinha duas coisas importantes a fazer: Continuar cuidando de Henry e decidir se me colocaria no lugar de Emma na gravidez. A segunda tarefa era algo bem mais complexa, eu tinha de pensar com muito carinho, pois nos últimos meses, minha vida com Emma se transformou de um casamento,, comum para mães de primeira viagem com a chegada de Henry. Apesar de eu não ser a melhor versão de mãe que Henry espera, estou tentando compreender de uma vez por todas o que criar uma criança pode significar. As coisas poderiam ser mais fáceis com minha mulher presente, mas sua ausência me obriga encarar os fatos de uma forma verdadeira e crua. Não, eu não estou reclamando, nem me arrependendo do que fiz para adotar Henry, essa é só mais uma forma de refletir sobre minhas escolhas, sendo elas passadas ou futuras. Sinceramente, eu acho que as respostas sempre estiveram dentro de mim, mas nunca fui madura o bastante para aceita-las. A hora pode ter chegado.
Tudo isso passou pela minha cabeça durante a viagem de volta para L.A. enquanto Henry pegou no sono em meu colo e só acordou quando estávamos para pousar.
Fomos para casa, mas, antes no caminho, buscamos Pongo no hotel de animais. E por uns breves segundos, dirigindo de volta para Pacific Palisades, olhei no retrovisor e imaginei uma cena doce; Henry e mais outra criança brincando com Pongo, Emma estava do meu lado, dividindo a atenção entre mim e os meninos que davam risadas altas por causa do cachorro.
Pongo deu lambidas nas bochechas dos dois, então foi minha vez de rir, mas Emma o pegou pela coleira e aproximou o focinho dele para o meu lado. Eu odiava quando ela resolvia fazer isso, mas não dava para impedir, eu estava dirigindo. Voltei minha atenção para o caminho e tentei ignorá-lo, mas o banho de língua que ele me deu foi tão melado que acabei tendo que parar o carro para limpar o rosto e dar uma bronca nos engraçadinhos, que por sua vez não paravam de gargalhar. No final, eu também estava rindo porque era uma situação engraçada.
Me peguei sorrindo quando um raio de sol bateu nos meus olhos me obrigando a parar de imaginar minha família, se é que vai ser assim daqui para frente. Henry continuava no banco de trás, passando as mãos no pelo do cão sentado ao seu lado, mas não havia outra criança junto, nem Emma também. Senti meu coração murchar, pensando em como aqueles delírios que eu tinha de vez em quando eram reais. Se só imaginação me deixa feliz, pense em como será de verdade.
Tínhamos chegado em casa e eu queria contar sobre o sonho que tive acordada à Emma, porém se eu fizesse isso ela poderia achar que eu a estava pressionando. Ela não entenderia que meu plano era outro e duvido muito que Mary Margaret queira estragar a surpresa se sua filha lhe perguntar alguma coisa. Decidi esquecer, ficar quieta, esquecer a ansiedade que estava em mim há dois dias, desde a conversa com a minha sogra. Então, apenas liguei para Swan, avisando que Henry e eu chegamos bem, que ficaríamos bem e ela não devia se preocupar com mais nada além de sua perna quebrada. Se não conhecesse bem minha mulher, eu diria que ela estava tranquila quando pedi para não se preocupar com nada, era como se Emma e eu tivéssemos um sensor, um imã que descobria quando uma estava diferente. Ela me olhava pela câmera com aquela expressão de desconfiança, querendo entender o que eu dizia, e para piorar, me despedi dizendo a ela que na próxima vez que fosse vê-la, ela entenderia, eu ia fazer algo importante que ela não imaginava. Emma deve ter pensado um milhão de coisas e ter ficado mais encafifada ainda. Não era uma coisa que eu gostava de fazer, deixar Emma em dúvida, mas dessa vez eu acabei agindo por impulso.
No dia seguinte, com a vida de volta ao normal depois daquela viagem repentina, Levei Henry ao seu colégio para o primeiro dia de aula. Ele não frequentava a escola há muitos meses e então se sentia ansioso para começar de novo a estudar, mas eu acredito que ele estava com medo de não conseguir socializar novamente com novos colegas, afinal, tinha sido difícil no orfanato com tantas crianças novas e agora a escola era um outro ambiente.
Tentei encorajar o garoto contando a ele sobre a primeira vez em que fui para o colégio, eu me recordava como se tivesse acontecido ontem.
— Minha mãe me levava pela mão quando chegamos numa escola de Portland. Eu estava assustada e a puxava, mas desse tamanhozinho eu era praticamente arrastada. — ri levemente, enquanto ele me olhava sentado no banco do carona da Mercedes. — Até que uma hora minha mãe me pegou no colo e parou, dizendo que eu não devia ter medo, que seria um lugar muito bom. Nós entramos e minha mãe me colocou na sala de aula, me deixando ali no meio daquelas crianças, todas do meu tamanho, mas muito diferentes, eu não conhecia ninguém. Eu a vi indo embora, acenando para mim e sabe o que eu fiz?
Ele fez que não.
— Eu dei um grito. Um grito bem alto que a escola inteira escutou. — eu disse o olhando também.
— E o que sua mãe fez?
— Bem, ela teve uma ideia muito boa. — respondi. — Ela entrou na sala e me pegou novamente no colo. Ela sempre usava um colar de ouro com um pingente de corações pequenos que papai deu a ela quando namoravam, então tirou ele do pescoço e colocou em mim, dizendo que enquanto eu guardasse o colar para ela, ela sempre voltaria para busca-lo e me buscar também.
Henry arregalou os olhos.
— E você então acreditou nela?
— Finalmente. Depois disso, todos os dias ela deixava o colar comigo e no final do dia estava sempre lá para me buscar. Foi assim até eu terminar o colegial, quando eu devolvi o colar para ela de uma vez por todas.
Henry deu um sorriso.
— Você deve sentir muita falta dela, não é?
Assenti, segurando uma lágrima intrusa que surgiu no canto do olho.
— Sim, Henry, muita, e você agora vai entrar e ter uma boa aula. — voltei a olhar o garoto. — Não se preocupe tanto com seus outros colegas de turma, com o tempo você se aproxima deles e faz amizade, se preocupe em estudar e ser um bom aluno.
— Tá, mãe, mas e se eu não gostar?
Dei um riso e pensei, me esticando no banco.
— Lembre que no final do dia eu venho te buscar.
Ele abriu um sorriso e beijei seus cabelos antes dele descer.
— Ah, não se esqueça do lanche que fiz pra você.
Henry pegou a lancheira e me mostrou.
— Não vou esquecer, até porque pelo cheiro, você fez sanduiche de pasta de atum. — ele acenou e deixou o carro, indo na direção do colégio. Já era grande e queria ir sozinho, então fiquei apenas observando meu menino indo até entrar na escola. Ele se daria bem, eu sabia, tudo daria certo.
Fui para a MBC tranquila, pensando no quanto de trabalho dos últimos dias eu havia acumulado. Mas para a minha surpresa, meu substituto adiantou bem as matérias, deixando mais fácil pra mim a apresentação.
Maleficent me chamou em sua sala assim que eu terminasse de apresentar o noticiário. Fui até lá achando que ela me diria algo sobre a programação da emissora, mas não era nada disso, ela só estava preocupada comigo e com Emma. Minha amiga queria saber como haviam sido meus dias de ausência, por isso passei uma hora inteira contando para ela o que houve com Emma e tudo o que se passou em Vancouver, embora nem tenham ocorrido tantas situações.
Malefi me ouvia, fazendo uma pose com as mãos fechadas encostadas no queixo e sorrindo especialmente quando eu falava de Henry e os avós.
— Pensei que você fosse tirar alguns dias de licença para cuidar do Henry. Seria mais cômodo e você teria mais tempo para se acostumar com ele, Regina. — ela disse.
— Eu pensei em tirar uma licença sim, Malefi, porém, como ele ia voltar a estudar e preferi adiar. Foi melhor assim, acumulo mais alguns dias de licença para usar no futuro. — comentei sem pensar muito.
Minha amiga me olhou curiosa.
— Você pretende tirar licença antes das suas férias?
— Bem, não sei ainda, eu estou pensando se vou mesmo precisar quando Emma voltar.
— Oh, sim, por conta do trabalho dela?
Me dei conta de que estava pensando em acumular mais dias folga para usar quando precisasse me ausentar por muito tempo, no caso alguns meses, minha amiga não entendia meu raciocínio. Lembrei que ela sabia um pouco daquela história de ter outro filho, então achei que podia compartilhar com ela.
— Não, Malefi, eu acho que vou precisar dos dias de licença daqui a algum tempo, estou pensando ainda no que vou fazer. Andei conversando com minha sogra e ela me sugeriu engravidar.
A Toda Poderosa abriu a boca de surpresa e me devolveu um sorriso.
— Você vai mesmo fazer isso?
Passei a mão pela nuca, sorri sem jeito e respondi.
— Não tenho certeza.
— Você sabe o que eu penso sobre esse assunto, não sabe? Acho que é valido, mas antes você perguntou se Emma não tentaria de novo. Não vai esperar?
Tomei ar, olhei minha amiga e suspirei.
— Posso estar errada, mas eu acho que Emma não fará isso. Seria melhor se ela não se sentisse na obrigação de fazer outra inseminação, foi difícil demais. Estou pensando seriamente em fazer o procedimento e depois contar.
— Quer fazer uma surpresa para ela?
— Sim.
Minha amiga assentiu, compreendendo, em partes.
— Olha, Regina, eu conheço pouco vocês duas, apesar de saber que se amam loucamente. No lugar de Emma, eu também estaria triste e desmotivada a engravidar e adoraria que fizesse isso por mim, mesmo assim, eu iria preferir tomar essa decisão junto de você. Eu sei que tiveram crises porque viviam escondendo os sentimentos uma da outra e pensavam diferente sobre terem filhos. Você mudou, até aí tudo ótimo. — ela fez um gesto com as mãos. — Contudo, se prometeu à Emma que iria sempre contar o que sentia e o que queria, não seria justo privá-la de tomar essa decisão com você.
— Emma não me contou quando era a Admiradora Secreta. — repliquei.
— Ela não contou porque a Admiradora Secreta foi uma brincadeira, uma pequena forma de não te deixar sozinha enquanto ela ficou fora. Fazer o que você está pensando é algo que terá uma grande consequência. É quase óbvio que ela aceite? Sabemos que sim, mas não prive ela de ter o gosto da decisão. Se chegar com a novidade de surpresa, não vai parecer que você quer de verdade ser mãe, vai parecer mais uma obrigação em dar um “presente” a sua mulher. Vai ser muito mais emocionante se ela souber antes, pode apostar.
Fiquei quieta por alguns segundos. Realmente Maleficent tinha razão, eu estaria privando Emma por um lado. Às vezes fazer uma surpresa pode não ser a melhor alternativa, e era isso que minha amiga me alertava naquele momento. Eu devia ser prudente, honesta e sincera com Emma como prometi depois da última briga séria que tivemos. Ao que respondi que ela podia estar certa, Maleficent me convidou para tomarmos um café e, mudando de assunto, descemos para a cantina e uma coisa que percebi, foi que Malefi estava mais eloquente e à vontade, até corada, mais bonita. Perguntei o que tinha acontecido com ela nos últimos dias e ela foi categórica: Algo bom. Fiquei feliz por ela. Eu estava quase apostando que ela conheceu alguém e estava se interessando, esperava mesmo que fosse isso.
Um mês mais tarde, sosseguei minha ansiedade enquanto cuidava do meu filho, Henry. O garoto tinha ido bem no primeiro dia de aula, fez amigos e agora adorava ir ao colégio. Tinha parado de aprontar também quando íamos a qualquer outro lugar e adorava quando falava com Emma, coisa que acontecia toda noite. Eu os deixava falando por horas e no finalzinho da noite tínhamos um tempo para conversar ela e eu somente. Falando nela, Swan estava ficando curada da perna rápido, em duas semanas conseguiria pôr o pé no chão, mas com ajuda de uma muleta e segundo palavras dela, as filmagens voltariam se ela topasse gravar as cenas finais do filme com uma dublê de corpo de modo que ela não precisasse passar tanto tempo nas externas. Logo estaria de volta, o que era melhor ainda saber. Seu tempo ausente estava acabando, e para mim isso era um imenso alívio.
Numa dessas noites, depois de conversarmos com Emma, Henry e eu dividíamos a mesa do jantar e ele me contava sobre o que tinha feito na escola. Ele me contou que a professora tinha mandado os alunos fazerem um trabalho sobre o que mais gostavam de fazer fora da escola, então Henry deixou a mesa e trouxe correndo da mochila três folhas com desenhos e coisas avulsas escritas, parecia uma história em quadrinhos: havia um desenho de Henry na primeira folha, era ele, dava para saber pelo jeito do cabelo e as roupas, uma casa, que se parecia com a que ele morava antes de ficar órfão, depois na folha de trás um desenho de uma mulher o levando (acho que pelo jeito que ele a desenhou era a senhorita Blue do orfanato), e então na folha seguinte um novo desenho, duas mulheres e duas crianças — detalhe que uma das crianças era pequena. Não conseguia parar de olhar para aquele desenho em especial.
Numa primeira impressão, parecia que Henry tinha contado nos desenhos como era feliz quando seus pais estavam vivos, depois mostrado como sua vida havia mudado quando conheceu Emma e eu. Mas o que achei realmente intrigante foi a outra criança que ele desenhou por último: quanto mais eu olhava para os rabiscos, mais familiar me parecia. A família que Henry desenhou era claramente a nossa, Emma, ele e eu, mas e aquela criança ali entre nós? Quem era?
Henry voltou a se sentar em sua cadeira e continuou comendo o belo filé de frango que estava pela metade em seu prato. Virei a folha e o mostrei, perguntando o que aquele desenho queria dizer.
— Henry, quem são essas pessoas do desenho?
Ele esperou para mastigar o filé e depois respondeu.
— Você não leu o que está em baixo? Somos nós, Emma, você, eu e o filho que vocês vão ter.
Senti como um frio na barriga, um choque por ouvir aquela frase dele. Eu estava de olhos bem abertos o olhando incrédula.
— De onde tirou que vamos ter outro filho? Você está sabendo de alguma coisa, Henry? É melhor me dizer, porque isso é muito sério.
Ele sacodiu a cabeça.
— Não estou sabendo de nada, eu deveria? Desculpa se ficou braba comigo, é que na hora eu quis desenhar outra criança. E também, Emma me disse que vocês tentaram ter um bebê antes de me adotarem.
Voltei a ver o desenho e suspirei, um bocado desconfiada.
— Não estou braba, estou surpreendida porque... Ah, deixe, não sei se vou fazer isso ainda.
— Fazer o quê? Engravidar? — ele perguntou e foi tão direto que parecia que acabara de me dar um soco no estômago.
— Hum... Si... Sim, é, mas não conte nada a sua mãe. Pelo o amor que você tem a mim, não conte nada para Emma ainda. — me sentia nervosa, e quando fui largar os desenhos em cima da mesa quase derrubei a jarra com o suco que estávamos bebendo.
Henry ficou me olhando por um bom tempo. Eu não estava certa do que ele pensava, mas então ele achou as palavras certas e me fez outra pergunta.
— E por que não quer que eu conte a Emma? Você sabia que é tudo o que ela mais quer?
— Ser mãe? Sim, ela queria muito e agora ela é, ela tem você.
— Não, mãe, ela quer ser mãe de novo.
Meu queixo caiu.
— Sabe lá no hospital? — ele continuou. — Então, ela me perguntou o que eu achava de ter um irmão ou irmã se ela engravidasse. Foi você que pediu para ela tentar de novo, não foi?
Balancei a cabeça como se dissesse que sim, mesmo não querendo responde-lo.
— Sim. Eu estava me sentindo confortável há alguns meses, quando soube que você viria para cá, então pensei que se Emma seria capaz de fazer aquela inseminação de novo. O que mais ela disse a você?
— Nada, ela só disse que andava pensando muito nisso, daí me lembrei que é bem capaz de eu ter mesmo um irmão ou irmã em pouco tempo e desenhei. Viu a nota? Cinco mais cinco, tenho um dez. — ele disse, com grande orgulho.
Senti um sorriso bobo se espalhar por meu rosto.
Ele voltou a comer como se aquela conversa fosse o diálogo mais natural de sua vida.
Depois de saber que Emma estava de fato pensando no meu pedido de refazer a inseminação, decidi que era hora de definir o que eu queria para nós duas, mas acima de tudo, para mim. Afinal, ter Henry ali comigo tem sido uma experiência incrível, eu estou aprendendo muito com o garoto, mas a coisa fica bem mais séria quando passo a pensar num novo bebê. Não quero confundir as circunstâncias, mesmo que “brincar de casinha” pareça muito legal, e definitivamente, ser mãe pra valer não é uma brincadeira.
Se eu estava com algum receio sobre engravidar, o doutor da clínica de fertilização que atendeu Emma, poderia me ajudar. Sendo assim, marquei uma hora com o médico para tirar algumas dúvidas sobre o procedimento. O doutor Flynn estava acostumado a receber casais, mas naquele caso, era a primeira vez que ele via apenas uma das esposas em seu consultório.
— Soube do que aconteceu com sua esposa, Regina. — ele se sentou de frente para mim na mesa de consultório. — Gosto sempre de alertar meus pacientes sobre as possibilidades, as chances de dar certo e ao mesmo tempo a de não funcionar. Espero que Emma tenha compreendido e tente novamente, sei que é muito triste.
— Foi uma grande frustração, doutor. Só eu sei como ela se sentiu no dia em que fez o teste. Bem, eu na verdade vim aqui para perguntar o que é preciso para fazer o procedimento?
Ele me olhou, estranhando.
— Você quer dizer, fazer o procedimento em você?
— Sim. — assenti. — Estou disposta a engravidar no lugar de Emma, só que antes preciso ter certeza de que estou no caminho certo.
O doutor se ajeitou na poltrona.
— Você quer fazer os exames e depois confirmar se vai ou não ser inseminada?
— Exatamente. — respondi.
Ele concordou e me recomendou uma bateria de exames para sabermos se eu estava apta a engravidar por inseminação. Sabendo dos resultados, eu iria atrás de Emma e lhe contaria tudo.
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