Não há outro amor para mim.
25 Encomendo risoto e ganho "pratos limpos" temporariamente.
Notas iniciais
Podem ter se passado umas três ou quatro horas, mas para mim pareceu ter se passado nossos sete completos anos de casadas.
O que me ocorreu naqueles minutos parada ali no meio da sala não foi a forma como Emma falou comigo, ou como a mesma discussão que tivemos há um ano atrás aconteceu, mas sim o receio de ver Emma me trocado por outra pessoa porque não consigo satisfazê-la na cama. Essa fala de minha mulher era nova na discussão e de tudo o que fui obrigada a ouvir de longe foi a pior coisa. Não tiro a razão de Emma de querer me dizer, querer desabafar o que sente, mas após aquela conversa acabar e ela subir, foi como se uma bomba nuclear tivesse atingido minha cabeça em cheio. O pior era que eu não sabia o que fazer, nem um grão de ideia eu tinha naquele momento.
Passar a noite na mesma posição me fez ganhar duas enormes bolhas nos pés, um baita castigo para alguém que não valorizava a esposa. Bem feito, Regina. Ainda acho pouco. Porém sou teimosa, e isso me deu forças para aguentar a dorzinha chata que se instalou na sola do meu pé por todo restante do dia.
Do que adiantava reclamar quando sentia que Emma tinha a razão naquela história toda? Eu me sentia a maior montanha de lixo do mundo. O que eu deveria fazer? Se eu quisesse salvar meu casamento eu devia tomar uma atitude. Mas qual atitude Emma gostaria que eu tomasse afinal? Cheguei a difícil conclusão de que eu teria de descobrir, e até então a hipótese de ser mãe com ela era a última da lista.
Está aí uma coisa que me ocorreu na tempestade em que minha cabeça se encontrava, o sacrifício de Emma por abandonar seu desejo de se tornar mãe por mim. Swan havia se calado sobre o assunto desde aquela noite em que voltou de Oklahoma. Eu jamais voltei a falar do assunto com ela, só que minha impressão é que toda nossa crise começou por conta disso. Certamente foi. Emma tem medo de se abrir comigo, medo de dizer seus receios mais profundos, é algo dela que nunca em oito anos de relacionamento(incluindo o namoro) eu consegui. Já eu tenho receio de comentar com ela sobre justamente esse problema que ela tem. Deve ser um sinal, está na hora de conversarmos sobre o que ela sente e deseja mais do que ser uma boa atriz.
Ruby me disse que temos medo de magoarmos uma a outra. Contudo, omitir achando que vamos ferir os sentimentos de ambas é o que de fato nos machuca. Sei que é complicado de compreender, acho que até eu mesma não entendo em partes, então vou tentar agir antes que seja tarde.
Fiquei na sala, sozinha, até o amanhecer. Não fui para a cama me deitar ao lado de Emma, eu não tinha coragem de fazer isso. Acabei adormecendo no sofá maior que tínhamos no cômodo, eu tinha ligado a TV para me fazer companhia até a hora em que eu tivesse que ir me arrumar. Cheguei a sonhar que estava tomando banho na ducha, Emma aparecia atrás de mim, me abraçando e ensaboando meu corpo. Chegávamos a rir com a brincadeira, mas como eu disse, era um sonho.
— Regina... Regina... — sussurrou ela. Sua voz estava tão distante e ao mesmo tempo tão perto.
— Sim, meu amor? Isso, mais embaixo... Gosto quando passa a mão aqui do lado. — falei, de olhos fechados, sonhando alegremente e no susto despertei dando de cara com Emma de verdade segurando um copo de leite em uma das mãos. — Quanto tempo eu dormi? — perguntei.
— Quando desci você já estava aqui.
— Que horas são agora?
— Nove e quinze.
— Acho que dá tempo de eu tomar um banho e ir me arrumar. — eu disse me levantando toda amarrotada, ainda com as roupas do dia anterior e extremamente sem graça de saber que ela havia me pegado ali naquele estado.
Emma me viu ficar de pé e estendeu o copo com leite a minha frente. Ela tinha uma pose, com a outra mão enfiada no bolso da calça de pijama.
— Tome um gole primeiro. Vai fazer bem. — sugeriu ela. Óbvio que estranhei, mas não ao ponto de achar que ela havia colocado veneno no copo. Depois que aceitei o copo de leite, dei um gole sem tirar os olhos de minha mulher. Emma colocou a mão livre no outro bolso e também me olhava, queria me dizer algo. — Você dormiu no sofá, não foi?
— Eu não dormi na verdade. — respondi depois que bebi metade do copo. Lambi o bigode branco que ficou sobre meu beiço e voltei a falar: — Passei a noite de pé, perambulando por aqui e só agora de manhã me sentei. Acabei cochilando.
Notei que minha loira ficou envergonhada, talvez triste.
Terminei de tomar o leite, coloquei o copo em cima da mesa de centro atrás de nós e ousei olhar bem para minha esposa.
— Hoje eu vou à reunião dos produtores da nova série. Não sei que hora vai acabar, mas com certeza será um pouco tarde. Você pode fazer o nosso jantar? — perguntou Emma com a voz mais cautelosa, embargada eu diria.
— Achei que não quisesse que eu... — comecei a falar, mas de repente algo me conteve e pensei em não dizer o que queria. Ela estava me pedindo algo, então era melhor eu tentar agradá-la começando por ali. — Ah, tudo bem, eu faço alguma coisa.
Emma se esforçou para sorrir para mim, um sorriso tímido, acho até que um sorriso de pena. Enfim, saiu de perto com as mãos no bolso da calça de pijama. Foi arrumar a coleira de Pongo para leva-lo para passear e quando ele escutou o barulho da guia faltou cair seu rabo de tanta animação. Aquilo me fez sorrir involuntariamente. Os vi saindo pela porta dos fundos da casa. Quando não era ela a fazer isso eu fazia, normalmente revezávamos. Talvez se começássemos a fazer isso juntas fosse interessante. Eu iria sugerir isso na hora do jantar.
Por fim fui me arrumar para ir trabalhar. Tomei banho, escovei os dentes e coloquei uma roupa menos amassada que a do dia anterior. Emma não havia voltado quando fiquei pronta, não seria dessa vez que daria aquele beijo de despedida que comumente eu fazia todos os dias. Sinceramente, depois da nossa discussão, o clima não estava propício para isso ainda. Minha cabeça ainda estava quente com as coisas que dissemos ontem e eu tinha até a noite para decidir o que fazer para o jantar, pior que isso, eu tinha de arranjar uma forma de começar as conversas com Emma e um plano para recuperar o bom do nosso relacionamento.
Fui para o trabalho às dez e meia, terminei de conferir as matérias que iriam para o ar no jornal de hoje e logo em seguida apresentei o noticiário. Alguns colegas de profissão me disseram que para apresentar um jornal na TV o jornalista devia ser um pouco de ator também. Não sei se com a convivência, ajudando Emma a decorar alguns textos eu aprendi a atuar. Se foi isso, Emma foi uma boa professora, e novamente percebi um detalhe que devia comentar com ela.
Quando voltei para casa já anoitecia. Eu havia adiantado muita coisa para o jornal do dia seguinte mas não daria tempo de fazer o jantar. Subi e tomei outro banho rápido, me arrumei com uma roupa de ficar em casa, calça legging e uma camiseta do Guns ‘N’ Roses que era de estimação, eu a adorava, mas ao me olhar no espelho vi que aquela roupa não seria nem um pouco atraente para a hora do jantar. Me dei conta de que andava fazendo isso há muito tempo. Devia ser terrível para Emma chegar em casa e ver sua esposa vestida como uma roqueira quando ela esperava algo mais sexy para admirar. Pelo visto eu estava descobrindo costumes que a rotina havia deixado em mim e em nenhum momento Emma reclamou disso. Será que por conta desses detalhes andávamos tão irritadas uma com a outra? Não posso falar muito por mim apenas, minha loira também andava desleixada em seu visual já há alguns meses, desde suas férias longas, nós duas andávamos pecando juntas em pequenas coisas que se tornaram uma terrível rotina.
Eu havia perdido algum tempo na frente do espelho, pasma com a aparência apática que eu mesma me dera vestindo aquela roupa. Corri para o closet e troquei minhas vestes por um vestido cor de vinho. Não era um longo de festa, mas era bastante bonito para alguém que ficaria a noite toda em casa com a esposa. Achei que agradaria Emma e o escolhi simplesmente. Coloquei um pouco de maquiagem na cara e desci.
A essa altura já eram quase sete da noite, eu tinha de correr antes que Emma chegasse. Minha única alternativa foi pegar a lista telefônica e ligar para um restaurante que fizesse serviço de entrega. Pedi o melhor prato do restaurante, risoto de camarão, com urgência. Enquanto esperava o jantar chegar, arrumei a mesa da sala de jantar com os talheres e pratos e o um vinho branco que nosso amigo expert em vinhos, Killian, havia trazido para nós. Foi o tempo certo de receber o entregador e pagá-lo exatos cento e vinte dólares, bastante dinheiro para um jantar, mas esse era o preço quando se pedia comidas com urgência e ainda mais para se entregar em Pacific Palisades.
No que terminei de organizar a comida nos pratos, Emma chegou. O barulho do Audi dela atraiu Pongo para a porta da sala e foi ele quem a recebeu. Corri para a sala colocando o primeiro CD que encontrei na prateleira, uma coletânea romântica de vários artistas dos anos 80 que havia dado para Emma no natal do ano passado, eu adorava aquele disco a propósito.
De volta a sala de jantar mais rápida que o The Flash, eu acho, Emma cruzou o portal me vendo ao lado da mesa toda decorada.
Minha esposa ficou boquiaberta com tudo o que eu havia feito para ela. Largou as chaves sobre o móvel mais próximo e se aproximou olhando para tudo, inclusive as velas que pus estrategicamente em cada canto da mesa.
— Você fez tudo isso? — Emma perguntou, se permitindo suspirar.
— Tudo menos a comida. — fui sincera, esperando levar um olhar de reprovação, mas Emma pelo contrário sorriu contente e tocou em minha mão para alisá-la, me dando um beijo demorado na bochecha esquerda.
— Não devia ter tanto trabalho. Fez isso só para me agradar? Imagino que tenha chegado tarde do jornal. — ela disse enquanto a guiei até seu lugar puxando uma das cadeiras para ela se sentar.
— Cheguei tarde porque adiantei muita coisa dos próximos dias na edição, então só tive tempo de arrumar isso e pedir a comida pelo telefone. Pelo menos deu tempo até você chegar. — em seguida me sentei na cadeira a frente de Emma.
Ela assentiu entendendo e me esperou até servi-la de vinho.
— Bem, isso está com uma cara ótima. Mesmo que você não tenha feito eu adorei a intenção. — e ergueu a taça tintilando com a minha. Tomamos um gole do vinho nos olhando e logo começamos a saborear o risoto.
Perguntei para Emma como havia sido sua reunião com os produtores do seriado, e pelo o que parecia, ela tinha uma coisa para me contar.
— Eles conversaram comigo, está tudo praticamente pronto para começarmos as gravações. Mas há um detalhe, não sei se você vai achar bom.
— O que seria? — perguntei para depois limpar meus lábios em um guardanapo.
— Bem, eles querem que essa personagem seja um pouco diferente. Preciso mudar a aparência.
— Vai cortar o cabelo?
— Mais que isso. Vou ter de pintá-lo.
Não sei qual foi minha cara naquele momento mas certamente Emma achou graça.
— Pintá-lo? Mas de qual cor?
— Castanho escuro. — ela falou rápido e voltou a tomar vinho por conta própria.
Se eu tivesse algo na minha boca teria engasgado. Por Deus, eu jamais imaginei Emma morena. Ok, não vamos exagerar porque já a vi com peruca em um filme que ela fez ano retrasado, mas morena para valer era uma novidade.
— Uau! Quer dizer que daqui para frente terei uma esposa morena?
— Não gosta da ideia? Eu posso pedir para eles me deixarem usar uma peruca.
— Não, imagina. Claro que me agrada a ideia, e é seu trabalho. Você vai ficar bem com o cabelo castanho. Parecida com aquela sua personagem que usava peruca escura no filme do Spilberg.
— É. Eu já havia me esquecido que já usei cabelo escuro em outro trabalho. — ela riu de leve.
Já há algum tempo naquele jantar eu via como Emma não estava totalmente à vontade. Mesmo tento comido todo o risoto de seu prato e tomado metade da garrafa de vinho, ela ainda parecia tensa.
Ficamos em silêncio, nos observando quando ouvi do som da sala começar a tocar One in a Million You na voz de Larry Graham, minha música favorita daquele álbum.
— Desculpa, Regina. Por favor, me desculpa ter feito você passar por isso. — Emma disse de repente, me olhando fixamente.
— Desculpa pelo o quê?
— Por ter feito você dormir na sala hoje.
Baixei meu rosto, demorando para começar a falar. Havia um pavor instalado dentro de mim, mas não podia negar o assunto, eu devia dar continuidade.
— Eu só não estava com cara para subir, ir atrás de você e implorar para termos outra conversa.
— Desculpa por ter falado aquelas coisas para você. Eu estava com a cabeça tão cheia. — Emma gesticulou.
— Não foram mais que verdades muito bem ditas. — eu suspirei a observando também.
— Eu só quero que saiba que me sinto mal, me sinto envergonhada. Por isso pedi para você fazer o jantar hoje. Seria um momento para conversarmos sobre aquilo. — Swan puxou minha mão direita. Só pude olhar para ela com surpresa, um quê de aflição também. Ela já havia feito isso ano passado na segunda vez que brigamos.
— Quanto mais vezes brigamos e discutimos sobre o nosso casamento, pior fica, meu amor. Eu também não quero perder você. Eu não sei se consigo te dizer isso agora... — baixei meus olhos pela segunda vez.
— Você pensou a noite toda. Eu sei. Por isso não conseguiu dormir. — ela parecia-se com Pongo quando fazia alguma besteira no jardim e vinha pedir desculpas, só que diferente do que ele sabia fazer, ela apertou meus dedos nos dela.
Fechei meus olhos e procurei ar enquanto controlava minhas emoções. Me sentia desesperada por um abraço, um carinho e no entanto não queria adiantar a parte final da conversa porque queria assumir aquela culpa pela primeira vez.
— Sete anos, meu amor. Sete anos que não podemos jogar fora. Eu não posso permitir isso.
— Nem eu posso permitir.
Olhei bem dentro dos olhos de Swan.
— Eu sinto que estraguei muita coisa entre nós. O romantismo que tínhamos, a paciência e a vontade de ficarmos juntas, tudo isso foi afetado. Hoje foi um dia para parar e pensar nessas coisas. Nos meus intervalos lá no jornal eu podia pensar um pouco. Com certeza há mais que isso e eu quero consertar porque se chegamos ao ponto de nos magoarmos tanto é porque essa relação não é a mesma. — vi Emma olhar para cima para evitar o choro eminente. — Tudo o que desejo é voltar àqueles dias em que éramos tão felizes no namoro, quando me levou de moto até aquela praia e no começo do casamento, no dia em que você ganhou o Oscar. Eu só quero que saiba que vou lutar por isso. Para fazer dias como aqueles acontecerem novamente.
— Você não me disse isso daquela vez. — Emma se lembrou de quando brigamos ano passado.
— Nem da primeira vez que discutimos assim. Acho que já passou da hora de resolvermos, meu amor. Mas nesse momento, eu não falo da boca para fora, e eu vou precisar de você. Se não queremos outra discussão como a que houve ontem e das outras vezes, preciso que me ajude. Não faça nada que não queira só para me agradar, não deixe de me dizer como se sente. Sem mentiras, Emma. Sem esconder nada, sem ter medo de me magoar. Eu quero que você fale, meu amor. Eu preciso que seja sincera comigo.
Emma ficou calada por cinco segundos até conseguir dizer:
— Só se você fizer o mesmo por mim. Sejamos honestas uma com a outra. Isso é uma coisa que não combinamos das outras duas vezes em que ficamos assim.
— Pois é. E para evitarmos cair nessa rotina maldita nós temos que nos abrir. Não podemos apenas focar nas coisas boas, você me entende?
Ela parou um pouco e se lembrou de algo.
— Na saúde na doença, na riqueza e na pobreza, na alegria e na tristeza...
Me levantei e andei até ela, me sentando em seu colo.
— Até que a morte nos separe. — eu falei, colocando as mãos em seu rosto, tocando meus lábios nos dela devagar enquanto outra música começava. Meu coração disparava como da primeira vez que fui carregada por ela nos braços.
O beijo foi delicioso, assim como o carinho que compartilhávamos ali com as mãos, lábios e pele.
Não sei se isso foi o bastante para reacender o desejo de Emma por mim na cama, mas pelo menos ela me deixou conduzi-la e fizemos amor no chuveiro. Acho que ela gostou pois já fazia algum tempo que não era eu a devorá-la.
Levei Emma para se deitar comigo, nuas na nossa cama, ficamos aos beijos por bastante tempo, eu por cima dela, deixando-a cheia de marcas de dentes, mas ela não precisava se preocupar com isso pois em dois dias sumiriam. Houve um momento que parei para comtemplar o corpo dela, passar a mão por seus seios, barriga, ameaçando descer mais quando ela abriu os olhos e tomou ar. Senti que me contaria algo.
— Há algo que não disse sobre o novo personagem. — ela falou.
— O que há com o novo personagem? — me voltei totalmente ao rosto dela.
— Os produtores querem que a personagem além de ser morena, seja mãe.
Do jeito como Emma disse isso, pareceu que eu ficaria muito brava. Ela sentia receio do que eu fosse dizer, eu estava sentindo junto, mas o que eu poderia dizer? Será que ela sendo mãe no seriado vai trazer à tona sua vontade de ser mãe na vida real outra vez?
Meu rosto pegava fogo por dentro, mas só com a luz dos abajures Emma não podia ver aquilo.
— Poxa. Que interessante. — tentei ser espontânea.
— É. O que você acha? O que você me diz?
— Sobre você ter um filho no seriado?
— Sim.
— Bem, você nunca foi mãe em filme algum. Não me entenda mal, mas para a idade que você tem, é uma ideia boa, vai ser interessante. — eu juro que estou sendo sincera dizendo isso a Emma. Nesse momento estou a olhando e já faz um minuto que ela olha para a minha cara como se tivesse gostado do que eu disse. Neutra.
— Tem razão. Será interessante. — ela falou finalmente.
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