Não há outro amor para mim.
2 Chuva de novembro.
Notas iniciais
Não sei ao certo se acreditei na história que Emma me contou. Estava tudo acontecendo muito depressa. Porém, por mais que eu me reprimisse de ter esperanças por conta disso, eu não conseguia evitar de sentir o choque que percorria todo o meu corpo sempre que via aquela mulher. Era irrecusavelmente maravilhoso!
Não sei também quantas vezes nos encontramos no parque com o intuito de repetir o momento do primeiro beijo. Em outras palavras, fizemos com frequência.
Emma estava sempre à minha espera, no mesmo lugar, do mesmo jeito; sentada na relva, atrás da árvore, com os olhos vidrados no movimento do lago... Vez ou outra atirava uma pedrinha na água para conter sua ansiedade.
Arranjara desculpas no teatro para sair no horário da tarde dos ensaios de sua peça, só para estar no parque, como prometera a mim. Quando me contou isso, cheguei a ver estrelas.
Trocávamos carinhos, beijos e, às vezes, alguns segredos... Tudo o que não tivemos tempo da primeira vez.
Aquilo ia se intensificando a cada tarde, até que um dia, enquanto Emma acariciava meu rosto com as pétalas de uma florzinha amarela, pediu-me para visitá-la em seu apartamento naquela noite.
— ... Vamos! Nós podemos jantar e depois ver um filme. Eu deixo você escolher. — ela me disse.
— Você tem um apartamento? — perguntei um pouco espantada por ainda não saber daquela informação.
— Tenho. Na verdade não é um apartamento tão grande quanto o que eu tinha em Nova York. Se bem que o aluguel desse está mais em conta.
Uma dúvida me cutucou, precisei perguntar antes que esquecesse.
— Emma... Quando a turnê da peça terminar, você voltará à Nova York?
Ela levou algum tempo para responder.
— Sendo bem sincera com você, Regina, eu não sei.
Emma me observava com seus olhos de brilho esverdeado.
Algo me disse que ela não voltaria para Nova York se não quisesse. Não que eu fosse convencida, longe disso, mas sentia que nossos encontros afetariam sua decisão.
Enfim, aceitei o convite de ir visitá-la à noite. Mesmo receosa, eu fui.
Cheguei ao endereço que ela me deu, num bairro situado no oeste da cidade.
O edifício não foi difícil de achar, assim como o apartamento número 404.
Senti meu coração vir a boca ao tocar a campainha. Como no parque, minhas palmas suavam. Estava difícil e escorregadio segurar a garrafa de vinho que comprei para dar a Emma. Eu não podia simplesmente chegar sem nada nas mãos quando visitava alguém, especialmente sendo ela. Senti que devia levar algo, nada clichê como bombons, mas algo simbólico e o vinho cairia bem em determinada hora.
Não levou nem dez segundos para ela abrir a porta e me receber com seu sorriso doce. Não era fácil deixar de retribuir da mesma forma, também sorri e aquilo pareceu ter dado certo. Emma me segurou pela cintura sem pedir permissão, me puxou para dentro e com a outra mão bateu a porta. Céus... A forma como me pegava naquela parte do corpo sempre me afetou.
O apartamento de Emma era, de fato, menor do que eu imaginava, porém, muito organizado em termos de decoração. Passei rapidamente meus olhos pela sala, notando um sofá de couro branco, uma TV de trocentas polegadas na parede, – eu realmente não era boa em saber quanto de medida certos objetos tinham – o tapete Baltimore e uma sacada de onde conseguia-se ver de longe a Steel Bridge.
Para não ser indelicada, não quis olhar muito suas coisas, logo entreguei-lhe a garrafa de vinho.
— Bem, eu trouxe isso. Não seria bonito da minha parte vir de mãos abanando. — disse eu.
Emma me devolveu outro sorriso, agora, mais simples.
— Não precisava se incomodar. Eu me conformava apenas com você.
Para segurar o presente, ela largou da minha cintura e muito atenciosa pôs a garrafa num balde de gelo.
— Muito legal o seu apê! — comentei.
— Gosto dele também. Para esta época do ano foi quase impossível de conseguir um lugar desses. Eu dei sorte.
— Por quanto tempo vai ficar aqui? — fiz a pergunta ainda pensando se Emma um dia partiria de Portland. A ideia me fazia sentir náuseas.
— Ainda não está definido. Pode ser por meses, dias ou até um ano, quem sabe?
Minhas esperanças se acenderam de novo. Contive um riso tolo.
Toda vez que estava com Emma, sentia uma necessidade extrema de abraça-la. A culpa era inteiramente dela, por ter me acostumado mal nos encontros do parque. Daí vinham as perguntas, o que Emma viu em mim? Por que me escolheu?
Felizmente, antes que eu sofresse com meu pessimismo à respeito dela, suas mãos me envolveram novamente pela cintura, mas o melhor ainda foi o beijo que me foi roubado em seguida. Tão quente e evasivo. Teve uma pitada de erotismo também.
Uma coisa que Emma não tinha em nossos momentos, era timidez. Meu vestido azul já estava remexido àquela altura, de tanto que suas mãos gostavam de me apertar. Houve um momento em que pedi mentalmente que parasse, até porque aquilo não acabaria ali na sala se continuássemos com aquele apetite todo.
A minha sorte foi o forno apitar. Ela precisou correr até a cozinha, e aí que reparei na mesa para duas pessoas, num canto. Tinha uma toalha vermelha sobre o tampo de vidro, duas velas acesas sobre suportes dourados e os pratos posicionados caprichosamente, um de frente para outro.
Quando Emma voltou, trazendo nosso jantar, consegui perceber melhor seu corpo desenhado no vestido perolado que trajava. Estava tão bonita!
Pediu que me sentasse, e fez o mesmo em seguida.
Nosso jantar resumiu-se em truta, vinho e música boa. Emma gostava das românticas, especialmente as dos anos 90 – aquele tipo de música que soa como declaração de amor do começo ao fim.
O vinho subiu as nossas cabeças depois de duas ou três taças bem generosas. Estávamos no sofá, à meia luz, quando ela cansou de falar apenas dela.
— Você devia falar mais de você. Eu estou sempre tagarelando e você nunca me fala nada ao seu respeito.
— Como não? — protestei. — Já te contei muitas coisas sobre mim. Ontem mesmo, comentamos do meu primeiro beijo.
— Eu ainda acho pouco. Algo me diz que você tem muito mais coisa para me dizer.
Larguei minha taça de vinho pela metade, em cima de uma mesinha ali ao lado. De frente para ela, olhei bem em seus olhos e sorri.
— Há coisas que você não pode simplesmente saber. Você vai precisar descobrir. — soei sensual.
Vi Emma tomar ar por um longo segundo e tocar meu rosto no lugar que mais gostava, meu queixo.
Se não fosse por uma retumbante trovoada, nos beijaríamos.
Ambas olhamos para a sacada, assustadas com o barulho. Não havíamos percebido que lá fora se armava um temporal.
— Chuva? — Emma perguntou meio descrente.
— Sim. E daquelas. — aproveitei a distração para fitar meu relógio de pulso, já estava ficando tarde. — Eu preciso ir para casa. — eu não queria, mas não sabia se devia ficar com Emma por mais tempo. O medo de acabar me iludindo era muito. Estava tentando fazer aquilo tudo com calma, só era complicado demais.
— Vai cair uma chuva forte, você pode esperar até que passe. — ela me disse, e as primeiras gotas grossas tocaram a sacada.
— Não Emma, eu tenho que ir. Me desculpe, eu não posso ficar, meus pais estão me esperando. O jantar estava ótimo, eu nem sei como te agradecer. — reuni coragem e levantei. Vi o desapontamento em seu olhar, ela se ergueu e não teve outra escolha a não ser passar a minha frente para abrir a porta.
Ajeitei meu vestido antes de sair. Visivelmente chateada me olhou.
— Te vejo amanhã?
Me doeu pensar em dizer um não. Mordi meu lábio inferior antes de dar uma resposta.
— Hã, talvez. Eu não sei. Não vou poder sair no horário de sempre do jornal a partir de amanhã.
Pela forma como me olhava, eu percebi que a mentira que contei não havia a convencido. Emma assentiu e agradeceu, me vendo sair.
— Obrigada por ter vindo. Eu vou te ligar qualquer hora dessas. — ela avisou.
Abri mais uma vez meu sorriso, só que sem a graça de antes. Passei em direção ao elevador. Emma esperou pacientemente até que eu entrasse pela porta de aço. Trocamos um último olhar e a vi batendo a porta de seu apartamento com força. Não entendi se aquilo fora proposital ou sem querer.
Não me intimidei em encarar as gotas da fria chuva de novembro, que caiu de vez quando cheguei ao térreo. Andando para fora do edifício, na calçada, levando aquele banho caído dos céus, meu pensamento estava todo em Emma.
Senti meu vestido encharcar, grudando na minha pele a me fazer sentir a gélida temperatura. Meus dentes batiam. Por que eu simplesmente não fiquei e esperei a chuva passar? Acho que a questão não era bem essa e sim, por que não fiquei e esperei a chuva passar com Emma?
Parei, fechei meus olhos. Não dava mais para negar que estava afetada.
Então, voltei o caminho todo na calçada. Corri como podia, entrando de novo no edifício de Emma, torcendo para que ela me perdoasse.
Cheguei em seu andar, esbaforida, ensopada. Não precisei tocar a campainha... Como mágica, ela soube que eu estava ali. Ficou o tempo todo atrás da porta desde que saí.
Quando ela me viu, disse-lhe:
— Eu não quero ir embora para casa hoje.
Imediatamente, fui puxada para seus braços, caindo em um beijo inebriante, mais que o vinho. As mãos de Emma que bateram a porta, em seguida subiram até o zíper do meu vestido e o desgrudou da minha pele.
O corpo frio da chuva seria aquecido pelo dela dali em diante.
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