Não apenas um bromânce
16 Vergonha pouca é bobagem
Bem, parece que é tempo de a festa começar.
Hank Moody
Você está cordialmente convidado para a Festa à Fantasia de Natal de Tony Stark, que irá acontecer no dia 24 de Dezembro, às 10:00 P.M.
O evento ocorrera na Torre dos Vingadores, o endereço exato segue anexado no cartão.
A sua presença é indispensável!
Venha fantasiado.
Franzo a testa diante do papel em minhas mãos.
Festa à Fantasia de Natal? Daqui quatro dias?
Sim, Tony Stark seria louco o suficiente para fazer algo desse tipo, mas pelo menos poderia ter avisado antes. Uma fantasia não era muito fácil de ser achada, ainda mais para um adolescente sem dinheiro.
Dou um longo suspiro e deixo a carta em cima da mesa, me recostando melhor na cadeira depois. Mas foi apenas o tempo de me ajeitar e ouço o som do meu celular tocando, sinto também a vibração já que o mesmo estava em minha calça. O pego e leio o nome Tony Stark na tela.
— Alô? – atendo estranhando e agradecendo por ele estar me ligando.
— Oi, Peter! Você já recebeu o meu convite?
— Recebi ele agora mesmo, na verdade – digo pegando o cartão na minha mão de novo e o analisando.
— Foi mal por isso, é que eu tinha esquecido de colocar o seu nome na lista — Olho para o meu celular pelo canto do olho enquanto uno minhas sobrancelhas.
— Que gentil da sua parte, e muito obrigada pela parte que me toca! – retruco e largo o cartão na mesa novamente.
— De nada. E não esqueça, é uma festa à fantasia, se chegar aqui vestido de Peter Parker eu te chuta para fora!— Tony frisa a palavra fantasia e depois de terminar a sua frase ouço o barulho de algo sendo martelado.
— E que tal se eu chegar ai vestido de Homem-Aranha?
— Vai ser chutado mesmo assim.
— Você nem vai saber que sou eu.
— Com esse corpinho magrelo e com jeito de virgem eu com certeza vou saber que é você. – Reviro os olhos com suas palavras e dou um pequeno suspiro.
— Você avisa um garoto pobretão que tem uma festa à fantasia daqui a quatro dias e ainda quer que ele arranje uma fantasia de sua preferência? Algum conselho?
— Seja criativo. Agora eu vou desligar e você vai dar um jeito nisso. Vai ter comida e bebida, sei que gente pobre adora isso. Pode levar o seu namorado se quiser, mas diga para ele se comportar – Tony fala calmamente, mas mesmo assim levo um pequeno susto.
— Quê? C-como assim meu namorado?
— Não seja tímido, todo mundo sabe.
— Todo mundo sabe o quê? Quem é o meu namorado? – questiono e fecho os meus olhos. Por favor, que ele não diga quem eu acho que ele com certeza vai dizer!
— Deadpool é claro! — Parece que a minha linha com Deus foi desligada. – Ele é meio louco e eu ainda estou meio irritado por ele ter roubado um dos meus jatinhos, mas se te faz feliz...
— Deadpool não é o meu namorado! – elevo minha voz e depois respiro fundo.
— Tá okay, então leve o Deadpool, que é seja-lá-o-que de você, se quiser. Fale para ele ir fantasiado. Não com a fantasia que ele usa todo dia, pede para ele arranjar outra, sei que ele tem bastante dinheiro. Pede para ele um pouco!
— Mas o quê? Ele... – paro de falar quando noto que a ligação foi encerrada. Nesse momento eu sentia um pouco de raiva e muita vergonha. Queria muito saber quem era o “todo mundo” que achava que eu estava namorando o Deadpool e porquê achavam isso.
— Quem era? – Deadpool pergunta saindo do me quarto, dou um pequeno pulo na cadeira de susto.
— Porra! – Respiro fundo e largo o celular em cima da mesa. – Entrar pela porta não quer né?!
— Portas são chatas, quem era no celular? – Deadpool insiste e se aproxima da mesa, pronto para pegar o meu celular. Sou mais rápido e o pego, colocando o objeto na minha calça.
— Não ouse pegar o meu celular de novo! – brigo relembrando da outra vez que ele o havia pegado.
— Não ache que a sua calça pode me impedir – comenta e se senta na cadeira à minha frente. –, na verdade, torna tudo mais interessante.
— Olha... Nem sei mais o que dizer.
— Eu sei, eu sei, ficou sem palavras ao me ver. É saudade.
— Eu vi você ontem – retruco entediado, Deadpool apenas ri.
— E já está com saudade, que carente, Peter... Mas agora, quem era no telefone?
— Por que quer tanto saber?
— Acho que ouvi meu nome... Então fiquei curioso. – Estufo um pouco meus olhos e dou uma leve corada ao relembrar da conversa no telefone.
— Era o Tony, ele vai dar uma festa à fantasia e disse que você pode ir também se quiser. – Após minhas palavras saírem, o pensamento de que talvez eu devesse ter ficado quieto me assolou. Não era muito seguro levar Deadpool para uma festa, ainda mais que eu provavelmente iria ficar cercado de gente que acha que nós namoramos.
— Uau, que legal da parte dele. Achei que ele fosse ficar chateado por causa do jatinho...
— Ele ainda está, na verdade. Mas afinal, como você conseguiu roubar ele? – questiono curioso.
— Do que você vai fantasiado? – Wade ignora a minha pergunta, mas seu tom de voz denuncia sua animação.
— Eu não sei... Talvez de Homem Invisível. Estou pensando em não ir.
— O quê? Por quê? É a chance de mostrar que somos um casal para as pessoas! – Olho abismado para Wade, que apenas continua me fitando, como se tudo estivesse okay. Não, nada estava okay.
— Nós não somos um casal! – Só de imaginar todas as pessoas nos encarando e comentando já faz meu estômago se revirar. De qualquer jeito, eu já podia prever que mesmo que eu não aparecesse, elas ainda sim falariam disso. Eu era o Homem-Aranha, ou o garoto nerd que salvava as pessoas às vezes, para quem conhecia a minha identidade. Eu namorando com Deadpool não deve ser algo fácil de se imaginar.
— Somos sim, agora voltando às fantasias, eu também não sei, mas... – Wade para sua frase no meio e fica estático encarando possivelmente o nada, seu corpo não mexia nem um milímetro sequer. Olhei estranho para ele.
— Mas...
— EU JÁ SEI! – Deadpool exclama exalando animação, tenho certeza de que o seu grito fora ouvido pelo resto do prédio.
— Wade, fala baixo! Já sabe o quê?
— Minha fantasia, é genial! E eu acho que vai combinar com a sua, sei que nós pensamos parecido...
— Pensamos nada! Que fantasia é?
— Ah, você vai ver no dia como todo mundo, Pete! Eu encontro você lá! – Deadpool levanta e sai correndo em direção ao meu quarto, reviro meus olhos e o sigo.
— É na Torre dos Vingadores, dia 24, às 10, a propósito! – informo vendo o sujeito de vermelho dar apenas uma parada quando seu corpo já está metade dentro e metade fora do prédio.
— Okay, até lá, amor! – Wade manda um beijo com a mão e depois desaparece.
— Acho que isso talvez signifique paz por alguns dias... – comento deitando na minha cama e suspiro alto.
Do que eu iria? A ideia de gastar o meu dinheiro alugando uma fantasia que provavelmente metade da festa iria não me agradava muito. Mas devido ao fato de Stark me amar tanto que me esquecera, impossibilitava que eu pudesse fazer uma fantasia eu mesmo. Teria que comprar tecidos, bolar ideias e ter bastante tempo.
Mesmo que não me fizesse feliz, eu ainda tinha meu emprego e, mesmo que eu não quisesse, ainda tinha que me preocupar com Harry e todo esse problema que ele me colocou.
Era estranho pensar que eu iria para uma festa e deixaria isso completamente de lado. Entretanto, eu havia saído de casa e da minha faculdade por causa dessa história toda, então era meu direito ainda ter pelo menos um pouco de vida fora disso.
Olho ao redor tentando mudar meus pensamentos, queria focar em qualquer outra coisa que não tivesse a ver com Harry. Até que meus olhos se focam na minha mochila, mais precisamente, um tecido que saia dela.
Sento na cama em um salto e dou um sorriso. Eu sabia exatamente do que ir.
. . .
Era o dia da festa e eu dava os últimos ajustes na minha fantasia, que já estava posicionada em meu corpo. Modéstia à parte, havia ficado bem legal. Eu já havia feito grande parte dela antes, para ir à Comic Con, mas no fim acabei não indo e minha fantasia foi deixada de lado. Agora eu finalmente havia a acabado, e era impossível não dar um sorriso de satisfação.
O espelho à minha frente refletia a exata imagem do Capitão América.
Tá, não a exata imagem do Capitão América, ele tinha um pouco mais de altura e músculos, mas isso é um mero detalhe. Dentre seus uniformes, eu havia feito o que ele usará na batalha em Nova York. Não era o meu favorito, mas era bem característico e reconhecível.
Peguei o escudo que havia feito também e me contemplei. Máscara, roupa colada, estrelas e listras, escudo, eu estava perfeito.
Tá, talvez não perfeito, afinal eu era bom com trabalhos manuais, mas não tinha aquilo chamado dinheiro. Mas estava muito bom sim.
Paro de me analisar e olho o horário. Era quase dez horas, o táxi que eu havia chamado provavelmente já estava vindo, por isso coloquei o celular em um bolso que eu havia anexado à roupa e me dirijo para a entrada do meu prédio.
Fico esperando alguns minutos, que haviam se tornado longos, devido ao constrangedor números de olhares, risadas e comentários dirigidos a mim. Ignoro o fato de eu estar talvez um pouco ridículo e me concentro em prestar atenção nos carros.
Quando meu táxi chega, entro dentro dele e digo o endereço. O motorista me joga um olhar estranho, mas não diz nada, apenas dirige.
Durante o percurso vou olhando para as ruas, e lembro do jantar que havia tido com tia May ontem a noite. Ela parecia estar entre o relaxamento e estresse, não muito diferente de como estava quando eu sai. Fiquei feliz por pelo menos ela não ter ficado mal.
Fora as milhares de perguntas que se tornaram um interrogatório de policia, havia sido bom. Foi divertido e a comida estava ótima, muito melhor do que o que eu venho comendo agora. Que muitas vezes é nada. É claro que tia May comentara que eu estava mais magro, mas ela achava que era por causa da faculdade, trabalho e começar vida nova. Não, eu não tive a coragem para dizer que eu havia desistido da minha faculdade. Se eu a tivesse trancado teria sido mais fácil, mesmo assim, preferi fingir que estava tudo bem.
Agradeço quando o carro para na frente da Torre e eu posso finalmente sair, meus pensamentos estavam ficando um tanto mórbidos, o que não combinava em nada com uma festa. Dou o dinheiro ao homem e já me dirijo ao prédio. Digo meu nome à uma mulher muito bem arrumada, que possuía a lista de convidados, e após ela checar, posso me dirigir até o andar onde ocorria a festa.
Quando as portas do elevador se abrem, é revelado um espaço grande e totalmente decorado para o Natal. As cores verde e vermelho chegavam a machucar os olhos. Vou adentrando no local e já posso ver várias pessoas conhecidas.
Contenho minha animação quando vejo que quase todos os Vingadores estão em meu campo de visão. Mas o meu coração deu uma fisgada quando vejo Capitão América. Ele estava vestido de soldado, o que era um tanto irônico, mas me faz me ficar mais fascinado. Ele conversava animadamente com Sam, que trajava uma fantasia de Caça-Fantasma.
Okay, respira fundo Peter, ele é só um cara... Um cara extremamente foda, que tem uniformes fodas, poderes fodas, personalidade foda...
— Peter! Vejo que decidiu homenagear os mais velhos hoje – Tony comenta cínico analisando minha roupa. Vejo um copo de bebida em sua mão, mas nenhuma fantasia.
— Cadê a sua fantasia?
— Ah, eu não estava com vontade de usar nenhuma, então vim assim mesmo. Mas eu tinha uma coroa... – Stark olha para os lados procurando o objeto. Eu apenas dou um suspiro, isso era bem a cara dele mesmo.
— Legal você ameaçar seus convidados para que venham fantasiados e você nem se dá o trabalho.
— É mesmo, mas e ai, da onde surgiu a ideia de se vestir de Picolé?
— Mais respeito com ele! Ele é simplesmente o melhor herói! Talvez fica atrás apenas do Batman... – Stark revira seus olhos e toma um gole de sua bebida.
— O Capicolé tem mais fãs do que eu achava, minha nossa!
— Mas então, vai nos apresentar? – pergunto ansioso com o pensamento de falar realmente com Steve. E ainda mostrar minha fantasia a ele.
— Por que eu? Vai lá você e dá uma de tiete para cima dele sozinho. Eu vou lá no bar olhar de camarote – retruca irônico, dando um último gole em sua bebida e depois se afastando em direção ao pequeno bar que havia lá.
Reviro meus olhos e balanço levemente minha cabeça, mas não podia negar que estava meio chateado com o fato de Tony estar nem ai com os meus sentimentos em relação a Steve. Nossa, essa frase com certeza havia soado muito estranha, graças a Odin ninguém podia ler minha mente. Eu acho, na verdade. Não conhecia todo mundo aqui, vai que alguém tem esse poder.
Ignorei meus pensamentos e respirei fundo, eu estava fitando Steve há alguns minutos. Vários tipos de comentários e saudações surgiram na minha mente, mas nenhum bom o suficiente para que eu me deslocasse em sua direção e tentasse o primeiro contato.
Calma Peter, respire fundo, não dê uma de fã maluco, isso só vai assustá-lo.
Meu medo de ir falar com Steve aumentava quando meus pensamentos cruzavam certa parte do meu cérebro, parte essa que era encarregada de guardar todas as lembranças vergonhosas do meu fanatismo. Todos os posters que eu tinha, todas as figurinhas do Capitão América que eu colecionava, o fato de ter ficado um dia inteiro na fila de um loja de quadrinhos apenas para conseguir uma HQ autografada, eu consegui ela, mas quando foi minha vez, Steve já não estava mais lá. Eu não podia sequer sonhar em deixar escapar qualquer coisa, principalmente o fato de que havia quase chorando vendo um dos seus filmes antigos.
Foco, Peter!
Tudo bem, estava decidido, eu iria até lá, diria algo como Capitão! Ou Soldado e bateria uma pequena continência de forma leve. Sim, isso, iria passar o meu recado muito bem.
Estava prestes a dar o meu primeiro passo quando sinto um braço passar pelo meu ombro e me puxar em direção a um corpo humanoide. Viro meu olhar e me deparo com Johnny.
— E ai, Capitão, não vejo você sem músculos desde um pouco antes de tomar aquele soro! – cometa irônico recebendo um revirar de olhos meu.
— E eu não vejo um Draco tão patético desde que virou uma doninha – retruco analisando sua roupa de Draco Malfoy. – Mas devo admitir que gostei da produção. – Seus cabelos loiros estavam repuxados com gel e sua roupa era o uniforme de Hogwarts com direito a um brasão da Sonserina e uma gravata com as cores da casa.
— Eu sei, eu sei, eu estou incrível. Só não vai ficar babando em cima de mim, seu namorado é bem ciumento – ironiza e me encara, esperando minha reação. Eu queria ter socado sua cara e gritado um ELE NÃO É O MEU NAMORADO. Entretanto, a etiqueta pede que você apenas lance um olhar mortal e insira um comentário com o tom de raiva controlado. Foi o que eu fiz.
— Eu não tenho nenhum namorado, mas isso não aumenta as chances para você, então dá o fora – tiro seu braço dos meus ombros e me afasto um pouco -, tenho assuntos sérios a resolver!
— Assuntos como tentar falar sem gaguejar com o Steve? – questiona levantando sua sobrancelha. – Notei que você não parava de secar ele, estou começando a pensar que talvez caras mais velhos sejam o seu fetiche.
— Johnny, por que você não vai dar um volta e tenta achar outra pessoa para incomodar?
— Porque chatear você é o meu hobby preferido, Pete! – Johnny tenta tocar na minha bochecha, mas eu desvio. – Não seja tão rude, você sabe que eu sou o seu salvador em festa.
E por mais que me doesse admitir isso, ele estava certo. Foram incontáveis festas que ele me animou ou me salvou de um momento horrível, mas para balancear as coisas, muitas das festas fora ele mesmo que havia me arrastado.
— Eu agradeço por isso, Santo Salvador de Festas Perdidas, mas agora você está atrapalhando minha produtividade, então será que dá para, sei lá, dar um volta ou me ajudar aqui? – pergunto o encarando. Quando vejo seu sorrisinho, me arrependo do que eu disse. – Na verdade, pode dar um volta, eu não preci...
— CAPITÃO? CAPITÃO! AQUI, Ó, SOU EU, JOHNNY! — O falso Draco chama a atenção de toda a festa, e principalmente de Steve. Minha vontade era decepar sua cabeça e enfiar a minha em um buraco. Ele vai em direção a Steve e me puxa junto. – E ai, Capitão?! Lembra de mim, temos um passado, se é que me entendem... – Johnny dá um sorrisinho para mim, Sam e Steve, mas apenas o olhamos com um ponto de interrogação na cara. – Da loja de quadrinhos, não lembra?
— Ah, claro que sim, você foi o cara de me ajudou a sair daquela loja de quadrinhos! Valeu mesmo, eu estava surtando com todos aquelas pessoas fanáticas e meio descontroladas! – Steve olha com agradecimento para Johnny, que apenas dá um sorrisinho. Quando ela fala isso, lembro-me que eu estava esperando ver o Capitão em uma loja de quadrinhos, mas ele não estava mais lá quando eu entrei... Então eu devia agradecer mais isso ao tochinha humana ao meu lado?
— Você nem sabe, o Peter aqui ao melado era uma dessas pessoas fanáticas e descontroladas. Não é mesmo, Peter? – Johnny olha para mim e eu para ele, ele me encara com humor, e eu encaro ele com ódio. Ele continua me fitando, e eu faço mesmo, e então sua cabeça explode, lançando milhares de pessoas de seu crânio e cérebro para todo lado. Meu rosto se macha de sangue, mas eu sorrio. Entretanto, isso havia acontecido apenas nos meus sonhos, porque na vida real, três pares de olhos continuavam a me encarar.
— Eu não quis ofender, apenas... – Steve começa a falar, mas eu o corto.
— Não foi nada não, eu sou um fá um pouco fanático mesmo, isso você pode notar pelos meus trajes, eu não preciso da ajuda de nenhum ex amigo babaca e idiota que vai congelar no inferno! — falo a última parte entredentes, ignorando o fato de Sam e Steve ainda estarem ali.
— Encantador... — comenta ironicamente a doninha albina ao meu lado, dando o melhor sorriso de encantado para os dois homens a nossa frente. – Agora se não se importam, eu e o meu amigo Capitão Falsonático aqui vamos tomar um suquinho de abóbora ali ao lado. Senhor Caça-Fantasma, Capitão. – Johnny faz uma pequena mesura e se vira, me carregando para o bar.
— Eu. Te. Odeio. Você é muito babaca! – brigo irritado, tirando novamente seu braço dos meus ombros, mas não mudo meu percurso, continuo indo com ele em direção ao bar. – Está parecendo demais o Deadpool, deveria ter se vestido dele...
— Alguém disse Deadpool? Ou será que foi – Ouço a voz de Wade e eu e Johnny nos viramos, nos deparando com o mercenário vestido de... –, Homem-Aranha?
Eu permaneço estático por alguns segundos, ainda absorvendo a visão de um homem alto e musculoso, e assassino, vestido em uma fantasia de Homem-Aranha. Semicerro meus olhos em sua direção, a contraposto, a doninha ao meu lado agora se dobrava de rir.
— Demais... Cara... Simplesmente demais... – Johnny ainda rindo levanta sua mão em direção a Deadpool e eles fazem um high-five. – Depois de mim, você tem a melhor fantasia!
— Ei! – resmungo e dou um peteleco no braço de Johnny, que apenas diz um ai ao meio de seu ataque de risos.
— Nossa, baby boy, que decepção! Era para você vir vestido de Deadpool, ai formaríamos o casal mais lindo da festa! – Wade fala com um tom tristonho.
— Primeiramente, não me chame assim! Em segundo lugar, você que deveria ter vindo de Homem de Ferro, ai sim poderíamos ser um casal!
— Ei – ouço Tony resmungar a alguns passos de distância da gente.
— Não adianta negar, vocês já tem até um nome de casal! – retruco alto, Johnny e Wade apenas assentem.
— E você e o vermelhinho ai também! Mas creio que o relacionamento de vocês já está bem avançado, só tentem não transar pela minha casa!
— Não, isso você já vai estar fazendo com o Steve.
— Não mais que você e o Wade.
— Com certeza muito mais!
— Acho que não!
— Tenho certeza que sim!
— Tenho certeza...
— Tá legal! – A frase de Tony é cortada por Johnny. Quando olho em volta vejo que quase toda a festa nos observava, inclusive Steve. Sinto meu rosto pegar fogo, tanto por vergonha quanto por raiva. – Se os machinhos aqui não se importam, temos uma festa cheia de bebidas aqui para aproveitar!
— Isso mesmo, vamos, Pete! – Wade levanta sua máscara e dá um beijo na minha bochecha, fazendo que o meu corpo se afaste de imediato.
— Ei, não sou caneca para você ficar colocando a boca! – Sinto sua mão passear pelas minhas costas, descendo mais do que devia, e também me afasto. – E nem maçaneta para ficar passando a mão! Agora se afasta.
— Que isso, arainha, hoje é para aproveitar! Vamos lá, toma essa bebida rosinha, é a sua cara! – Olho para Wade e para o drink em sua mão, e por fim aceito ele, tomando o líquido. Fico impressionado, a bebida era realmente boa, bem docinha, mas também ácida.
— Que coisa boa, o que é isso? – pergunto analisando o copo em minhas mãos.
— Meu amor em sua forma líquida! – Wade responde, reviro os olhos, mas continuo bebendo. Algumas batidas de bateria se tornaram altas e logo o homem ao meu lado agarrou o meu braço. – Minha música!
— Que música é essa? – questiono, mas sou ignorado por Wade, que havia me soltado e estava agora subindo na mesa. – Ai minha Nossa Senhora dos Momentos Constrangedores, por que decidiste me importunar tanto hoje? – resmungo fechando os olhos.
— É isso ai, meus amigos, vamos começar a mexer o esqueleto! – Logo o ser vestido de Homem-Aranha começa a dançar e depois de alguns segundos, vejo o falso Sonserino subir no balcão e acompanhar ele. No refrão, Wade afina sua voz e canta alto – Hello, daddy. Hello, mom. I'm your ch-ch-ch-cherry bomb!
Passo as mãos pelo rosto e dou uma gargalhada. Aquilo era extremamente constrangedor, mas também muito engraçado. Enquanto Wade bancava o cara mais ridículo do mundo, Johnny também não ficava atrás, fazendo movimentos tentando dar uma de sexy. Eles dançavam e entre um refrão e outro, viravam mais um copo. As pessoas ao redor se animaram também, e gritavam para os dois homens ali.
E isso durou horas. Isso mesmo, já fazia três horas que eles estavam nesse estado e não tinham dado sinais de que iam parar tão cedo. Já era a sexta vez que faziam o DJ repetir a música Cherry Bomb, e sempre pareciam que iam entrar em combustão, de tanto que se animavam.
Enquanto eu permanecia sentado em um sofá, do outro lado do bar onde rolava o showzinho, eu ficava pensando o porquê de ser amigo desses dois seres. É claro que eu dançara um pouco, mas mesmo sendo arrastado várias vezes para cima daquele balcão, eu não ousara passar esse vexame. Ainda mais com o Capitão olhando. Já tinha me queimado muito com ele.
Pensei também em levantar e ir cumprimentar Hank Pym, mas ele logo foi falar com Tony e Reed, e eles não pareciam muito em clima de festa, então deixei essa ideia de lado. Mas minha curiosidade se aguçou quando eles sumiram no mar de gente e não deram mais as caras.
— Seus amigos são bem animados – uma voz comenta ao meu lado, e eu levo um pequeno susto. Olho para o lado e vejo um homem de óculos escuros e uma roupa comum, uma camisa social branca e calças também sociais. Mas nenhuma gravata era visível, e uma tiara de diabinho enfeitava sua cabeça.
— Até demais... – murmuro encarando o bar. Johnny agora havia tirado seu uniforme e revelado uma camisa social branca, que estava sendo desabotoada. Já Wade permanecia com a roupa, e agora ficava fazendo sinais encenando jogar teias para todos os lados. Uma careta se forma em meu rosto.
— Pelo que eu ouvi, você é fã do Capitão América... – comenta me olhando com um sorrisinho de canto. Sinto meu rosto corar de leve, e eu agradeço por ele não poder ver.
Perai, eu agradeço por ele ser cego? Balanço minha cabeça e ignoro meus pensamentos.
— Sou sim, mas não fique pensando que eu sou um fã louco que coleciona tudo da pessoa, grita com alguém por amaçar uma figurinha, passa horas em uma fila por um autógrafo e sai fantasiado por ai em eventos... – Repenso o que eu disse, e realmente eu fazia tudo aquilo. – Bom... talvez eu faça algumas dessas coisas, mas não sou um descontrolado!
— Eu acredito em você. Trabalha ou estuda? – pergunta de forma casual, puxando assunto, e eu agradeço por isso. Eu estava no tédio e a pessoa ao meu lado havia atiçado um pouco da minha curiosidade.
— Eu... – penso em dizer que estudo, mas isso não é mais verdade, e com aperto no coração, continuo. – trabalho no Clarim Diário, sou fotógrafo. E você?
— Sou advogado. – Quase abro minha boco em surpresa. Ele era cego e era um advogado! E por todos os seus trejeitos, diria que era bom.
— Então é advogado de dia e um demônio a noite? – pergunto irônico me referindo à tiara em sua cabeça, que eu tinha certeza que alguém o convencera a colocar só para não ficar sem nada. Ele dá uma risada e me encara.
— É exatamente isso. – Olho para ele e por alguns segundos me perco um pouco no seu sorriso. Era de certa forma tão espontâneo, mas ao mesmo tempo controlado. Seria mentira dizer que eu não achei fofinho.
— Se você mudar de ideia, eu sou o primeiro da fila, querido eu ainda estou livre, me dê uma chance! — levo um susto com Johnny, que se aproxima do sofá onde estamos e começa a cantar alto e desesperado. E bem bêbado também — Se você precisa de mim, me deixe saber, estarei por perto, se você não tem nenhum lugar para ir, se você está se sentindo triste... — Sinto ele pegar a minha mão e me encarar.
Johnny termina sua cantoria e logo Wade aparece também, empurrando ele e pegando as minhas mãos.
— Me deixe lhe falar agora. Meu amor é forte o bastante, para aguentar quando as coisas estiverem ruins. É máaaagico — canta quase no ritmo que deveria ser, afinando e prolongando a última palavra. — Você diz que eu desperdiço meu tempo, mas eu não posso tirar você da minha mente. Não, não posso desistir. Porque eu te amo taaaanto...
Encaro aquela cena com as bochechas coradas, mas não resisto de dar uma longa risada. O estado totalmente alterado dos dois era ridículo. Vejo que o homem ao meu lado também não resiste e se junta mim, rindo também.
— Okay, okay, eu quase me senti no filme Mamma Mia com esse showzinho de Take A Chance On Me, mas agora eu acho que está na hora de ir! – digo já levantando, tentando puxar Wade para cima para que se colocasse em pé. – Levanta, homem!
— Quer ajuda? – pergunta o advogado, e sem esperar por resposta já levanta e me ajuda a levantar Wade, que quando levanta se afasta do homem e se pendura em mim.
— Não toque... Em mim! Ou no Peter aqui! – exclama Wade, me fazendo revirar os olhos e ficar mais constrangido.
— Não liga para ele, é louco! – avisei. – Vai com a gente, Johnny?
— Não... já tem gente demais ai... Não estou afim de uma suruba – ironiza dando uma gargalhada no final e depois se joga no sofá. Daqui dois segundos eu apostava que estaria dormindo.
Tento me ajeitar com Wade se apoiando em mim enquanto segurava meu escudo, mas era extremamente difícil. Quase caímos, mas o homem advogado foi rápido e segurou o outro braço de Wade, me ajudando a recuperar o equilíbrio.
— Obrigado de novo! Mas pode me dizer seu nome? Estou cansado de denominar você como advogado na minha cabeça. – O homem dá uma pequena risada.
— Meu nome é Matt, Matt Murdock. Você é o Peter, né?
— Isso mesmo, Peter Parker! Caso queira fotos, sou um ótimo fotógrafo! – comento e dou um sorriso de canto.
— Pare de... Flertar com o homem... Na minha frente, Pete! – Wade resmunga e posso sentir o cheiro de álcool exalar dele. A máscara de Homem-Aranha estava levantada até o nariz, o que facilitava isso.
— Wade, por favor, apenas cale a boca! É melhor a gente ir logo antes que você faça mais alguma coisa idiota. – Pego o celular da minha roupa e peço um táxi para nós, quando desligo olho para Matt e Wade. – Então, Matt, você poderia, por obséquio, me ajudar a levar esse quase ser humano lá para baixo?
— Claro, preciso ir para casa também!
— Muito obrigado.
Você pode achar que do andar onde estávamos até a frente do prédio seria um caminho fácil e curto, mas não foi. O trajeto de elevador pareceu durar séculos. Com Matt segurando um lado de Wade e eu segurando o outro, tivemos que descer vários andares ouvindo as asneiras que saiam de sua boca.
Sabia que eu e o Peter estamos juntos? Dormimos até na mesma cama.
Era para ele estar vestido de Deadpool. Você sabia que eu sou o Deadpool? Eu não sou o Homem-Aranha não, ele é muito magrinho e parece uma mulher...
Ai, Peter! Para de me agredir.
Conta ai, eu aposto que não esperava ver o Homem-Aranha e o Capitão América juntos!
Nem tente pôr os seus olhos cegos nele, ele já tem dono!
Para de me bater com esse escudo, porra! Eu sou imortal, mas ainda sinto dor!
Quando chegamos ao térreo, agradeci a Odin por ter vencido mais uma batalha. Estava morrendo de vergonha e também de raiva, Wade bêbado poderia ser mais chato que ele sóbrio. Mas a diferença nem era muita, na verdade.
Quando chegamos o táxi também chegou, e estacionou na calçada, esperando por nós.
Cheguei perto do carro e abri a porta de trás, colocando, com a ajuda de Matt, Wade no banco. Ele entrou e ficou atirando lá dentro. A cena de um homem como ele em um uniforme ainda mais apertado que o dele era no mínimo bizarra. Encarei Matt, que parecia achar graça da situação. Pelo menos alguém, né.
— Muito obrigado, Matt, e me desculpe por isso.
— Tudo bem, seu namorado é até que engraçado – comentou, e eu senti seu tom irônico. Corei e suspirei.
— Ele não é o meu namorado! Só para deixar claro – deixo transparecer um pouco o meu tom desconfortável e irritado.
— Eu sei, só estava brincando. Mas acho que ele gosta mesmo de você...
Fui salvo de responder aquele comentário quando notei que Matt focou sua atenção em algo, só não sei o que. Ele parecia concentrado tentando ouvir algo. Fiquei quieto e deixei que ele fizesse o que estava fazendo, mesmo curioso.
— Desculpe, é que achei ter ouvido alguém conhecido... – informou com sua voz em tom mais sério agora. – Preciso ir, Peter. Até mais, e foi um prazer conhecer você! – despediu-se e deu um pequeno sorriso.
— O prazer foi meu, boa noite! — Dei um sorriso também e ele então começou a caminhar com sua bengala para longe. Observei por mais alguns segundos os seus movimentos, mas o homem no táxi estava com pressa e me tirou do torpor com uma buzinada alta.
Entrei no táxi e sentei no banco da frente, informei o meu endereço, já que não tinha ideia da onde Wade morava. Já começava a pensar como iria levar ele para cima quando ouço sirenes e depois vejo inúmeras viaturas passando a toda velocidade por nós. Dou um suspiro, mas não consigo me imaginar indo dormir quando algo estava acontecendo.
— Pode, por favor, ir pouco mais rápido, moço?
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