Notas iniciais
Ameaças de morte e ofensas não trarão ninguém de volta, só avisando u-u

“É melhor sofrer uma injustiça que praticá-la, assim como às vezes é melhor ser enganado do que não confiar.”

Samuel Johnson

Meu corpo foi escorregando pelo batente da porta até o chão, bem devagar. Eu não sabia como reagir, nem meu corpo, toda a energia dele parecia ter sido sugada. Minha garganta se fechou de uma forma que agora eu começava a sentir o ar faltar em meus pulmões.

A cena era macabra, por mero detalhe eu não havia desmaiado, mas agora estava em estado de choque.

Tia May.

Essas duas palavras se repetiam e se repetiam na minha cabeça.

Mesmo a cena sendo horrível, eu não conseguia desviar o olhar. O corpo balançava suavemente pendurado na corda. E havia sangue, muito sangue. Sangue no corpo, na cama, no chão. O confete que caia ia se grudando naquele monte de sangue.

Obriguei o meu corpo a se levantar, a minha visão já não estava tão turva quanto antes, mas o enjoo permanecia, e muito. Forcei minhas pernas a caminharem lentamente até onde estava o corpo. Passo por passo, minha respiração ficava mais pesada.

Tirei a mochila dos meus ombros e a deixei no chão enquanto caminhava até a cama, o quarto antes parecia pequeno, mas agora era um longo corredor para a escuridão.

Eu não queria acreditar, e nem conseguia. Era demais para o meu cérebro processar que o corpo ali pendurado era de tia May. Não tinha sentido. Não podia ser verdade.

Quando cheguei perto o suficiente para poder tocar o corpo, minha respiração parou, abri minha boca e tentei manter a calma, o que parecia impossível. Engoli o seco e encarei bem o corpo, e então pude ver.

Não era tia May.

Era um boneco.

Senti uma lágrima escorrer sozinha pelo meu rosto, minha respiração voltou, agora muito mais acelerada. Olhei para o boneco e ele realmente parecia tia May, o cabelo, a pele, o rosto... Mas não era...

O sangue todo parecia real, mas tinha quase certeza que não era. Mesmo assim, me causava um enjoo insuportável.

Balancei minha cabeça para os lados, não era tia May, isso era bom, não era?

Passei uma das minhas mãos pelo meu rosto. Eu não me sentia bem. Todo o meu corpo estava tenso, meu estômago embrulhado, minha garganta fechada e meu cérebro destruído.

Esfreguei minhas duas mãos em meu rosto e dei um grito.

Não era tia May. Mas podia ter sido. Por alguns minutos, foi real, sua morte, seu corpo frio, seu sangue...

Mas não era.

Olhei para cama, ela estava perfeitamente arrumada, porém, agora esbanjava sangue e confete por tudo. Bem no meio de tudo, repousava um papel, o que parecia ser um pequeno cartão branco.

Peguei-o e olhei, escrito em letras prateadas estava:

Direta.

Esquerda.

Franzi o cenho e virei o cartão, do outro lado, com as mesmas letras, havia um nome, como uma assinatura:

Mystério.

Virei o cartão mais algumas vezes, nada parecia fazer sentido, olhei para frente e tudo parecia intacto. Li o cartão novamente.

Direta.

Esquerda.

Respirei fundo e olhei para minha direta, e para minha surpresa, com tinta vermelha, havia duas palavras escritas na parede.

Olhe para

Senti meu corpo se tornar mais tenso. Virei para a esquerda, e escrito da mesma forma, estava:

Todos os lados.

Fechei com força os meus olhos.

Olhe para todos os lados.

Eu não sabia muito bem o que sentir, dentro do meu corpo estava um coquetel de sentimentos. Medo, raiva, tensão, tristeza, cansaço...

Eu só queria ver tia May, mas parecia que nem na casa dela isso seria possível, nem aqui eu teria paz.

A raiva que cresceu no meu corpo foi insuportável, eu sentia minhas mãos tremerem, minha respiração ficar pesada. Eu não queria abrir meus olhos, não queria ver de novo a cena macabra que eu havia visto antes.

Mas no meio disso, me veio um nome.

May.

Poderia ser um boneco ali, entretanto, tia May ainda poderia estar com problemas. Sem hesitar, peguei o meu celular dentro da mochila e cliquei no contato desejado. Depois de tocar por alguns segundos, sou atendido.

Peter? — sua voz tirou um pouco de tensão dos meus ombros. Ela parecia bem.

— Tia May... Está tudo bem com você? Onde você está? – perguntei tentando manter minha voz o mais normal possível.

Está sim, estou no hospital, como sempre... Querido? Tem algum problema?— minha garganta se fechou nessa hora, uma grande vontade de chorar me atingiu. Havia tantos problemas, eu queria poder aliviar algumas coisas, contar outras, mas não podia, e isso me matava por dentro.

— N-não, tia, é só que... – respirei fundo e fechei meus olhos, podia sentir algumas lágrimas brotando dos meus olhos. – É só que eu senti a sua falta.

Eu sentia falta de tia May, de tio Ben, de Gwen, e até de Harry. Queria poder voltar para o tempo em que estávamos todos bem, o tempo em que minha preocupação era o dinheiro e a escola, o tempo em que eu recebia lições de tio Ben, deixava a foto de Gwen como minha tela de fundo do computador, o tempo em que eu ainda podia ouvir Harry dizer algumas bobagens engraçadas.

Eu sentia falta desse tempo.

Ah, querido, eu também sinto a sua falta. Você deveria vir jantar comigo essa noite, que tal? – apertei meus lábios e senti algumas lágrimas escorrerem pelo meu rosto.

— Essa noite eu vou estar ocupado, mas talvez alguma outra noite dessa semana.

— Tudo bem então, eu vou ter que desligar. Eu te amo, Peter.

— Eu te amo, tia...

Desligo o celular, mas não abro os olhos. Eu não sentia nenhuma vontade de fazer qualquer coisa nesse momento. Todavia, eu não podia fazer com que tia May desconfiasse de qualquer coisa, precisava apagar tudo o que estava ali, fingir que nunca aconteceu.

Despois de puxar muito ar para dentro dos meus pulmões, permito-me abrir os olhos, e ver, com desgosto, tudo. Sem hesitar, guardo o cartão em meu bolso, jogo o celular em minha mochila e começo a ajeitar as coisas.

Mas não era uma tarefa fácil, o boneco pendurado pela corda parecia muito com tia May, o que me deixava mais enjoado. Ignorando qualquer sentimento, despendurei o boneco, que estava preso pela corda no ventilador, e o coloquei no chão. Peguei todas as cobertas ali e as levei para o andar de baixo.

E isso se seguiu por mais de hora, coloquei os cobertores em um saco preto, o boneco em um saco preto. Limpei com dificuldade as paredes, tendo máxima certeza de estar tudo limpo, depois coloquei os panos que usei no saco também. Varri e tirei todos os confetes, montei a cama com novos lençóis, tirei algumas cordas e outras coisas que haviam sido postas ali.

Depois de tudo feito, verifiquei cada canto do quarto e da casa, tudo parecia limpo. Peguei minha mochila e o grande saco preto com as coisas e sai da casa de tia May, trancando ela com a chave reserva.

Enquanto caminhava para longe, eu sentia um peso em cima de mim. Eu não queria deixar tia May à mercê da pessoa que estava fazendo tudo isso, mas não tinha escolha.

Eu não estava conseguindo pensar claramente, eu precisava me afastar, eu precisava respirar.

Caminhei por muito tempo, até estar em um lugar deserto, um estacionamento de caminhões abandonado que havia na cidade. Coloquei o saco de lixo em uma caçamba grande e velha que havia lá, que agora era casa de alguns animas e sujeira. Peguei minha mochila e procurei em todos os bolsos até achar o que queria.

Com a mochila de volta em minhas costas, acendi o isqueiro e o joguei dentro da caçamba de lixo. Fiquei parado lá por alguns minutos, vendo o fogo consumir o saco preto e tudo o que estava lá. Um cheiro de queimado e fumaça começou a subir para o ar. Dei as costas e caminhei para longe.

Naquele momento eu não estava nem um pouco preocupado se aquilo acabasse explodindo e causasse um incêndio muito maior.

Aquilo lá dentro, por alguns minutos, havia sido o meu pesadelo, havia sido tia May morta.

Peguei o cartão no meu bolso e olhei a palavra Mystério lá escrita. Aquela era claramente uma assinatura, a assinatura de algum maníaco que precisava deixar claro quem havia feito aquela obra de arte.

Minha raiva começava a crescer novamente, como eu não estava conseguindo sentir nada além de um vazio antes, ela preenchia todo esse vácuo, cada célula do meu corpo.

Aquele poderia ser a única pista que eu teria de quem estava fazendo isso comigo, mas eu não conseguia pensar coerentemente, amacei o cartão com toda a força que eu consegui.

Eu queria gritar, queria sair e matar a primeira pessoa que eu visse, apenas para ver se isso me relaxava. Queria pegar um megafone e gritar com toda força para quem quer que fosse que estivesse fazendo isso, que acabasse logo com tudo, que viesse na minha frente e terminasse com esse jogo doentio.

Mordi meu lábio inferior com força, canalizando toda a raiva que eu sentia para aquele ato. Não tardou muito para o gosto metálico chegar à minha boca, mas eu continuei apertando.

No escuro, fiz o caminho de volta para minha casa. Sem olhar para nada, mesmo que as palavras “Olhe para todos os lados” estivessem martelando na minha cabeça.

Quando cheguei ao meu apartamento, não verifiquei se haviam me seguido ou se haviam me visto, apenas subi. Dentro de casa, joguei a mochila em qualquer canto e tirei minha roupa, colocando a roupa de Homem-Aranha.

Eu não conseguia pensar direito, mas o fato era: eu não queria mais ser Peter Parker. Não queria mais o problema de estar sendo perseguindo, de estar enlouquecendo, eu apenas queria respirar.

Sai do apartamento pela janela e rapidamente escolhi um prédio alto para ficar, como de costume, fiquei em cima do parapeito. Coloquei parte da minha máscara para cima e respirei fundo.

Deixei que o ar um pouco gélido de Nova York entrasse em meu corpo e preenchesse meus pulmões, um pequeno desconforto na garganta avisava que aquilo não era coerente, mas era agradável. A ardência no meu lábio inferior também deixava claro que eu apenas estava me machucando naquele dia.

Depois de alguns minutos apenas respirando fundo, eu comecei a voltar um pouco ao normal, as informações começavam a ser processadas, ainda que fosse lentamente.

Tudo havia sido uma piada, uma ilusão, um cenário criado por alguém que se denominava Mystério. Tia May estava bem. Eu estava bem. Eu sou o Homem-Aranha.

Tia May estava bem. Eu estava bem. Eu sou o Homem-Aranha.

Eu ainda estava vivo.

E talvez esse fosse o problema, tudo aquilo era um jogo, e eu começava a perceber isso agora, quem colocou o meu nome na lista de pessoas para se assassinar não me queria simplesmente morto, me queria louco.

Meu nome, assassinos, acidente, tia May, tudo estava interligado, eu tinha certeza.

E eu aceitei tudo, larguei minha vida, fugi e agora estava aqui, rodeado de cenários falos e mentiras.

— Aranha!

Deadpool. Ele seria também uma mentira?

— Nossa, que coincidência, você nesse prédio, eu nesse prédio, você sozinho, eu com comida mexicana para duas pessoas... Se isso não é o destino, eu não sei mais o que essa palavra significa.

Deadpool parou ao meu lado e eu olhei para ele. Como de costume, estava trajando o seu uniforme vermelho e preto, em suas mãos estava uma sacola, onde deveria estar a comida mexicana que ele havia falado.

Ele parecia sorridente e amigável, como sempre. Assim como poderia ser apenas uma encenação, uma mentira, como todo o resto.

— Aranha? – permaneci calado, apenas observando o homem à minha frente deixar seus ombros caírem devagar.

Ele me caçava e era meu amigo, por que isso seria verdade?

Ele me seguia tanto, e nunca descobriu que eu era o seu alvo? Que eu era Peter Parker?

Eu realmente não queria essas ideias infectando os últimos resquícios de mente sã que eu tinha, mas era impossível eu agir normalmente, era impossível não suspeitar. Todavia, eu tinha que admitir para mim mesmo, na minha vida agora, uma das únicas coisas boas era Deadpool.

Por mais louco, inconveniente e estranho que ele pudesse ser, ele me fazia esquecer meus problemas, pelo menos por alguns minutos. Será que seria um maluco que iria impedir que eu ficasse maluco?

— Okay, está começando a me assustar, Baby boy. – sua voz exalava um pouco de preocupação. Eu me forcei a colocar meu cérebro a trabalhar, como eu poderia saber se ele estava dizendo a verdade ou não?

Eu não poderia simplesmente falar tudo e o acusá-lo, se ele estivesse sendo sincero, iria descobrir tudo e seriam mais problemas. Mas eu não podia continuar agindo como se tudo estivesse bem.

Ou poderia?

Fechei meus olhos e suspirei, ele era minha válvula de escape, não deveria ser mais um problema, eu não queria mais problemas. Eu queria um abraço, queria esquecer tudo isso.

Desci do parapeito e me afastei, minha respiração começava a ficar mais acelerada, meu peito doía, minha garganta começava a fechar, eu sabia o que estava acontecendo, eu estava tendo uma recaída, eu estava prestes a chorar.

O desejo de estar em um campo aberto e distante de todos nunca havia sido tão forte, as palavras felicidade, sorriso, vida, começavam a perder o significado.

Eu realmente não queria chorar ali, em cima de um prédio, provavelmente sendo vigiado, e do lado de Deadpool, mas não é como se fosse uma coisa que eu pudesse controlar.

Senti meus olhos começarem a arder, deixei minha boca aberta e comecei a puxar o máximo de ar que eu podia.

— Você está bem? – ouvi sua voz atrás de mim, novamente com o tom preocupado. Ele não parecia estar fingindo, ele não podia estar.

— Você por acaso é sincero comigo? – perguntei com a voz um pouco embargada.

— O quê?

— Você é sincero comigo? – questiono mais alto dessa vez, virando de frente para Deadpool. – Ou você está mentindo para mim? Você alguma vez já disse alguma coisa que fosse verdade?

Deadpool ficou calado por alguns segundo. Eu realmente estava sendo bem sutil. Mas como as lágrimas, a raiva não podia ser evitada.

— Do que você está fa...

— É SIMPLES, VOCÊ É VOCÊ OU VOCÊ ESTÁ FAZENDO ALGUM TIPO DE ENCENAÇÃO MALUCA COMIGO? – deixo que o meu grito saia na noite. Minha garganta reclama mais uma vez.

— Eu sou Wade Wilson, mas gosto de me fantasiar e andar por ai dizendo que me chamo Deadpool, eu sou a pessoa mais aberta e sincera que você vai conhecer, Baby boy.

Nome e sobrenome, ele confiava em mim, isso era real. Mesmo que não fosse, agora iria ser, era o melhor que eu tinha agora, a única coisa que eu poderia me agarrar agora.

Com grandes poderes vem grandes responsabilidades.

Por algum motivo, essa frase ecoou pela minha cabeça, era como se tio Ben tivesse repetido isso.

Com um grande foda-se para tudo, cai de joelhos no chão e chorei. É, eu estava chorando no chão na frente de Deadpool, mas isso realmente não importava.

Eu queria ser o Homem-Aranha para salvar as pessoas, usar o dom que eu ganhei para o bem, mas fazer o bem com outras pessoas acabava machucando quem estava próximo de mim, essa seria a responsabilidade que viria com o poder? Eu ter que aguentar todo mundo ao meu redor ir embora, por minha causa?

Eu sabia que estava metido nisso por causa do Homem-Aranha, minha fusão de aracnídeo com adolescente havia resultado em uma explosão de problemas.

— Você está bem? – ouvi a voz de Wade e olhei para cima. Ele havia se ajoelhado na minha frente e me encarava com a cabeça pendida levemente para o lado.

Eu sei que deveria estar parecendo patético como estava.

Repassando tudo o que eu estava passando e pensando, neguei com a cabeça, eu não estava bem.

— O que aconteceu? – perguntou.

— O que sempre acontece... A vida¹ — respondi logo depois mordendo meu lábio inferior.

Meu rosto estava molhado pelas lágrimas, eu queria muito poder tirar a minha máscara, sentir o ar em todo o meu rosto. Eu queria confiar que mostrar meu rosto para Deadpool era o certo, porém, naquele instante, nem respirar parecia o certo.

— Às vezes, o que as pessoas precisam é apenas um abraço... – comentou com a voz sugestiva.

Dei uma pequena risada.

— Às vezes, talvez.

Encarei Deadpool, apesar de meu constante mau-humor, minha recente explosão, ele ainda estava aqui, ele ainda era ele. Ele ainda era minha válvula de escape.

Sem pensar muito, abracei Deadpool. Coloquei meus braços em torno do seu pescoço e me aproximei mais de seu corpo, encaixado minha cabeça no vão de seu pescoço. Foi repentino, impensado, espontâneo, foi a coisa menos eu, e a melhor coisa que eu já havia feito.

Depois de alguns segundos, eu senti os braços de Wade rondarem minha cintura e me puxarem para perto, muito perto. Eu estava praticamente no colo dele, mas isso era um mero detalhe.

Naquele momento, não pensei em nada, me concentrei em apenas sentir a fragrância que exalava de Wade. Seu uniforme, por incrível que pareça, tinha um cheiro bom. Era tão Wade, e realmente muito bom e relaxante.

Também impedi minha cabeça de pensar que isso era uma cena estranha. Era bom ter os braços de Wade em volta de mim, eu me sentia protegido, eu não sentia que deveria carregar todo um peso sozinho.

Wade me apertou mais ainda, e como eu, encaixou sua cabeça em meu pescoço. Naquele momento, quis não estar com luvas, queria poder sentir a textura do uniforme de Deadpool, ela parecia interessante, macia.

Respirei fundo, meu corpo ia relaxando cada vez mais, e a vontade de chorar ia passando. Aos poucos, senti a mão de Wade ir descendo da minha cintura.

Por favor, Odin, me diga que ele não vai fazer o que eu estou pensando que ele vai fazer.

Para o meu desagrado, ele fez exatamente o que eu queria que ele não fizesse. Deadpool desceu sua mão até a minha bunda, dando uma leve apertada nela.

— Intimidade! – falei alto me afastando e levantando. – Nós não temos essa intimidade, você não tem esse direito, então, por favor, não faça mais isso.

— Mas nós ficamos abraçados bastante tempo. – argumentou levantando.

— E você acha que pode passar a mão em mim por causa disso?

— Eu deixaria você passar a mão em mim se quisesse.

Dou uma risada, uma risada verdadeiramente verdadeira. Apenas Deadpool conseguiria me fazer rir em uma situação como essa.

— Eu acho que eu vou ter que recusar essa.

— É você que está perdendo, mas falando de comida boa, já comeu Chimichangas?— pergunta sorridente, pegando a sacola que carregava antes.

— Acho que não.

— Não? Nossa. Você tem certeza de que está vivendo direito? Não me admiro você estar todo mal hoje, nunca provou a melhor comida do planeta.

— Okay, nem um pouco dramático você.

— Como eu disse antes, eu sou a pessoa mais sincera que você vai conhecer nessa vida. – diz e senta no chão, apoiando suas costas no parapeito. – Agora senta aqui e depois pode me agradecer.

Sento ao lado de Wade e o vejo tirar do saco duas coisas que parecem panquecas.

— Essa é para a minha arainha preferida. – Wade me dá uma das Chimichangas sorrindo. – E essa é para mim. Agora, aproveite a melhor comida que você irá comer em toda a sua vida.

Revirei meus olhos sorrindo, depois olhei a comida a minha frente, ela estava morna e parecia realmente muito boa, seu cheiro já dava água na boca. Levei até a boca e dei uma grande mordida, e realmente, aquilo era muito bom.

— Se não sou eu para te fazer comer essas maravilhas, como você seria feliz?

— É realmente um mistério.

Depois de algumas risadas, continuamos comendo e conversando, não conversando de verdade, apenas falando uma lista das melhores comidas que já havíamos provado. A lista de Deadpool era extensa e a maioria das comidas era mexicana. Taco, Burrito, Chimichanga, Guacamole, Chili... E mais uma infinidade de outros pratos.

Chimichanga é muito bom, não é mesmo? – Wade pergunta encarando o céu. Já havíamos acabado de comer e agora estávamos apenas olhando ao redor.

— É sim.

— Sabe outra coisa que é muito boa?

— Não faço nem ideia. – respondi sem prestar muita atenção.

— Beijar.

Franzo o cenho e olho para o lado.

— O quê?

— Beijar, sabe, meter a língua na boca de outra pessoa e tal. – Deadpool fala gesticulando com as mãos. – Eu tenho certeza de que você já fez isso.

— Okay. – viro meu rosto para frente de novo, dando uma pequena risada.

— Sabe o que seria muito bom? – pergunta. Dou um longo suspiro.

— Tenho certeza de que você sabe. – comento.

— A gente se beijar agora.

Arregalo meus olhos e viro meu rosto para Wade.

— O quê? – quando viro para o lado, noto que Deadpool havia se aproximado mais de mim, vou um pouco para o lado.

— Você quer, eu quero... Acho que é uma boa ideia. – fala sorrindo e se aproximando mais de mim.

Fico sem reação, não falo nada, e nem me mexo. Wade vai chegando cada vez mais perto. Seus lábios estavam entreabertos e repuxados em um pequeno sorriso. Novamente sinto aquela sensação. Desejo. Minha respiração e meu coração aceleram.

Parecia que o frio havia desaparecido, eu podia sentir o meu corpo quente. Quando os lábios de Wade se aproximam o suficiente para tocar os meus, me levanto.

— O-obrigado pela companhia e... E p-por tudo. – gaguejo me afastando e puxando minha máscara para baixo. – Tchau.

Sem esperar pela resposta de Wade, pulo do prédio e vou com o auxílio das teias até o apartamento. Quando entro em meu quarto, arranco a máscara do meu rosto e a jogo longe, respirando fundo.

Todo o uniforme parecia desconfortavelmente apertado naquele momento. Meu corpo fervia, parecia que eu estava com febre.

— Filho. Da. Pu... – não termino minha fala, apenas suspiro e tiro meu uniforme, indo para o banheiro e depois entrando em baixo do chuveiro, que para minha sorte, não estava com a água muito quente.

Depois do banho, já de pijama e deitado em minha cama, a quentura do meu corpo ainda não havia passado. Era uma mistura de vergonha e desejo, eu apenas não sabia dizer qual desses sentimentos era maior.

Toquei meus lábios com o dedo, quando passei por cima do machucado, senti uma pequena ardência, eu realmente havia mordido com força. Mas o foco não era isso, o foco é que eu podia imaginar direitinho toda cena, podia quase sentir os lábios de Wade colados aos meus.

Eu realmente não podia esconder, eu queria beijá-lo.

Era uma grande parte por desejo, a outra parte eu já não sabia dizer, talvez fosse carinho. A imagem de Deadpool estava agora associada apenas a sensações boas, juntar isso a carência é golpe baixo.

Com tudo o que vinha acontecendo, algo que martelava em minha cabeça era o fato de Wade sentir certo — não acredito que vou usar essa palavra de novo se tratando de Deadpool — carinho por mim.

Uma parte de mim acreditava que se eu contasse tudo para ele, desde a parte das minhas suspeitas até tudo o que vinha acontecendo, ele não me mataria.

Não sei se isso era realmente pensado, ou apenas desejos e esperanças, mas do jeito que as coisas estavam, perseguições, quase mortes e mentiras, tentar manter essa relação de amigo e alvo, era muito ariscado, e já não era mais uma opção boa.

Deadpool era legal comigo, ele confiava um pouco em mim, eu estava aprendendo a confiar e gostar dele, isso nós torna... Amigos?

Se isso era uma amizade, era uma amizade realmente estranha. Mas eu gostava.

E mesmo tendo vergonha de admitir, era óbvio que rolava uma tensão sexual desconfortável entre a gente. Boa parte disso vinha de Deadpool, ele era o pervertido da relação.

Nesse momento era para eu estar triste, possivelmente chorando ou dando uma de maluco, mas não, em vez de pensar nos meus problemas, eu estava pensando em Deadpool.

Isso era bom ou ruim?

A sensação de imaginar que depois de eu contar toda a verdade, ele aceitaria e me ajudaria, era boa, muito boa. Ele era meu único amigo no momento.

Mas será que seria exatamente isso que aconteceria?

Eu deveria contar tudo a ele?

Notas finais
1 – Frase do maravilhoso filme (500) Dias Com Ela Nossa, vocês estavam mesmo crucificando o Deadpool, ein. Isso não foi minha culpa, suas mentes que pensaram logo nele u-u Dei uma aliviada para Peter no final, acho que ele merece pensar em outras coisas nessa vida. Quero saber o que acharam de tudo isso gente, vamos comentar. Até o próximo capítulo, amores! Beijos s2