Não apenas um bromânce
17 The Game is On
Pensar é fácil. Agir é difícil. Agir conforme o que pensamos, é de todas a maior dificuldade.
(Johann Goethe)
Peço para o homem se apressar e minutos depois chegamos em frente ao meu prédio, pago o homem e desço, puxando com toda a força Wade, que cai fora do táxi e desperta do seu sono.
— Peter... – sua voz sai rouca e com um tom de confusão e cansaço.
— Tenho que ir resolver algumas coisas, pode ficar no meu apartamento, só não mexe em nada! – declaro e depois subo correndo, tiro a fantasia e a atiro em qualquer lugar, correndo para procurar meu uniforme e os meus lançadores. Quando já estou quase pronto, respiro fundo e ponho a máscara, tudo isso ao som da frequência da polícia, que estava frenética tentando solucionar a confusão que estava havendo. Quando estou totalmente pronto, saio do meu prédio pela janela. Não tenho tempo de ver se Wade levantou do chão ou qualquer outra coisa, já tinha perdido tempo demais e com toda certeza os bandidos é que não iam ficar me esperando.
Vou com o auxilio das teias e dos prédios até onde se encontrava o pandemônio, meus sentidos não estavam os melhores, a mistura do álcool, música alta e interação social me deixaram mole e cansado. Tento ignorar meu lado humano e me concentrar na minha missão, porém, os vestígios de uma dor de cabeça já estavam se fazendo presentes. Muito presentes, na verdade, já que um latejar em minha cabeça incomodava minha linha de raciocínio.
Quando chego à rua onde estava ocorrendo o tumulto, vejo vários policiais e viaturas formando um círculo ao redor da entrada de um banco, onde três homens faziam dez pessoas de vítimas enquanto roubavam o conteúdo do cofre.
Desço e vou em direção aos policias para falar com eles, mas nesse meio tempo, dois dos homens saem do edifício, ambos com um refém em mãos e alguns sacos de dinheiro.
— Se tentarem alguma coisa, esses reféns morrem! E acionaremos uma bomba que deixamos lá dentro, que vai matar o resto! – grita um deles. Os dois usavam máscaras pretas e luvas, típico de ladrões de banco. Mas como tudo ocorria, pareciam bem amadores.
Como parecia que eles não tinham notado minha presença, ou a ignoravam, fui rápido e puxei suas armas para junto de mim, jogando elas para os policias. Depois disso, membros da SWAT se aproximaram dos homens e os dominaram. A ameaça de bomba parecia um blefe, mas mesmo assim, o esquadrão antibombas entrou no prédio, junto com alguns policias.
— O terceiro homem está desaparecido! Repito, o terceiro componente do trio segue agora desaparecido! – exclama um dos policias. Vários homens são destinados a locais diferentes, e isso era a minha deixa.
Corri e pulei no prédio ao lado do banco, seguindo enquanto não via o outro homem. Algumas ruas depois, quando eu já começara a aceitar a ideia de que ele havia sumido, ouço um barulho alto vindo da escada de incêndio em um beco. Não perco tempo e vou para lá, mas quando chego, encontro o fugitivo no chão e um homem parado ao seu lado.
Ele era de altura média e vestia uma roupa vermelha, não pude reparar em mais nenhum detalhe, já que o homem estava no breu.
— Leve este homem para o hospital e entregue o dinheiro para a polícia! – ordenou autoritário, sua voz era rouca e baixa, mas seu tom era de causar um frio na espinha.
— Quem é você? E por que acha que pode me dar ordens? – questionei me aproximando.
— Não sou daqui e já fiz muito do seu trabalho, a única coisa que precisa saber é que eu não sou um vilão – respondeu de forma rude, o que fez sua imagem decair ainda mais aos meus olhos.
— E como eu posso ter certeza disso?
— Eu sou o Demolidor, essa é a sua certeza. – O homem então correu para o fim do beco, subiu pelas escadas de incêndio e desapareceu na noite.
— Estranho... – murmurei ainda refletindo sobre aquilo. Eu já havia ouvido falar do Demolidor. Seu caso fora publicado no jornal algumas vezes, mas essa não era a área onde ele atua normalmente.
Absorvi suas palavras e ignorei o ocorrido. Peguei o homem e o levei até uma ambulância que estava no local do tumulto. Depois de deixar o homem com os paramédicos, entreguei o dinheiro que o ladrão pegara para a um policial, e então finalmente me afastei de todo aquele barulho.
Algumas sirenes ainda eram escutadas, de viaturas que faziam ronda pelos arredores para checar se tudo estava em seu devido lugar. Aquele som era extremamente irritante aos meus ouvidos, principalmente agora. A mistura dele com o as luzes que piscavam insistentes por todo o meu lado estava fazendo com que, além de a minha dor de cabeça piorar, minha visão ficasse desorientada – fazendo com que eu próprio perdesse a clareza do mundo ao meu redor.
Respirei fundo, tentando alcançar o máximo de oxigênio que me era permitido, entretanto, o tecido em meu rosto impossibilitava que essa ação transcorresse perfeitamente. Estralei meus dedos já me preparando para voltar para a casa, uma irritação e queimação em meu estômago me avisavam que eu já começava a ficar enjoado. O que eu mais queria agora era inúmeros goles de água e uma noite prolongada de sono.
. . .
Não tinha muita certeza como, mas de algum modo eu estava de volta ao meu apartamento, sentado na janela. Claro, eu tinha minhas teorias de que eu havia chegado aqui exatamente como havia ido, mas não podia afirmar com veemência.
O fato era que eu estava agora com uma dor de cabeça infernal. Meu cérebro latejava dentro do meu crânio, minha vista já estava muito comprometida, minha audição também, meu corpo já pedia arrego e meus pensamentos já não possuíam coerência total. Entretanto, eu ainda estava são o suficiente para questionar meu estado.
Eu não havia bebido tanto ao ponto de estar de porre. Eu acho.
Havia bebido desde o começo da festa? Sim. Mas não exageradamente. Eu saíra da festa um pouco entorpecido pelo álcool, todavia, minha mente estava vagando para outras coisas além deste fato. E depois havia toda a confusão, que lançara uma dose relativamente grande de adrenalina em minha corrente sanguínea.
— Okay... nada disso importa... Eu acho...— murmurei quase fechando os olhos. O que importava agora era que eu estava com dor de cabeça e com sono.
Na verdade eu estava cansado. A dor de cabeça poderia sumir com remédios e sono, se eu fosse uma pessoa normal. Alguém que toma um porre e depois se atira na cama, acordando no outro dia com de ressaca, dia que passa deitado e a base de refrigerante e drogas legais.
Mas, não, eu não poderia passar o dia na cama. E não poderia me entupir de remédios que pudessem me deixar grogue. Eu tinha o Clarim Diário para me preocupar, o Homem-Aranha, Harry Osborn, Zolton, Abutre, Deadpool... Eddie Brock.
Eu queria frear esses pensamentos, mas era impossível, eles estavam impregnados na minha cabeça, fazendo com que eu me sentisse doente. A única coisa que martelava na minha mente era: eu tenho que resolver.
— Baby boy? – Ouvi uma voz da escuridão do meu quarto e virei a cabeça, devagar e incerto. Apertei meus olhos para tentar enxergar melhor, mas a única coisa que eu consegui foi fechar totalmente a minha visão. O resultado desse movimento foi o barulho alto do meu corpo caindo no chão do meu apartamento. Eu havia posto peso demais para frente.
Gemi e resmunguei palavras inaudíveis e desconexas, rolando no chão para ficar com minha cabeça para cima.
— Pete! – Wade exclamou assustado, levantando da cama, com dificuldade, e seguindo em minha direção.
Arranquei a máscara do meu rosto com uma mão e com a outra eu apertei a minha cabeça.
Talvez eu não esteja bêbado por causa do álcool, talvez seja essa porra de dor de cabeça!
Latejar, latejar e latejar. Era isso que eu sentia minha cabeça fazer. Doía como se alguém estivesse apertando a minha cabeça com uma força descomunal. Eu estava enjoado e sentia que se me atrevesse a abrir meus olhos, colocaria toda a bebida e comida que havia ingerido na casa de Tony para fora.
Não sabia o que havia acontecido com Wade até sentir meu corpo ser levantado. Mesmo assim, não abri os olhos, só rezai para que a viagem até não-sei-onde fosse sem turbulências. Eu sabia que era Wade me carregando, a menos que houvesse um espírito em meu apartamento que tivesse como hobby carregar humanos por ai.
Só quando ouvi o chuveiro sendo ligado que despertei do meu torpor. Sacudi minha cabeça o melhor que pude e senti diretamente o tecido da fantasia de Wade contra meu rosto. Queria fazer um sinal de negação, mas só Odin sabe o que havia saído dos meus movimentos.
— Eu não estou de porre... – consegui resmungar, não tinha certeza da exatidão e clareza que havia saído minhas palavras, mas para mim pareciam entendíveis.
— Não é o que parece... – Wade respondeu em voz baixa, com um tom irônico, mas ainda sim parecia haver um certo carinho no meio.
— Eu estou... Com dor de cabeça... Muita... Dor de cabeça – tentei explicar e decidi depois que manteria minha boca fechada o resto da noite. O enjoo piorava a cada sílaba pronunciada.
— Tudo bem – respondeu e fechou o chuveiro, fazendo o barulho de água batendo no chão desaparecer.
Ajeitei-me melhor no colo de Wade, fazendo minha cabeça se aconchegar contra seu corpo. Era confortável, apesar do cheiro de álcool que impregnava em sua roupa ser um tanto incómodo para o meu olfato e estômago.
— O que você quer Pete? – perguntou com sua voz baixa, mas próxima do meu ouvido.
— Remédio... E água – sussurrei em resposta. E silêncio, acrescentei em pensamentos. Não queria ser rude com Wade, que estava sendo gentil em me ajudar.
Wade deu alguns passos e depois eu senti o colchão afundar contra o peso do meu corpo. Era confortável e macio. Ajeitei da melhor forma possível minha cabeça no travesseiro, mas a cada movimento eu sentia uma pontada na minha cabeça e no meu estômago.
Quando Wade voltou, ele me virou e me deu o remédio e a água, tomei os dois e me dentei novamente. A água aliviara o incômodo da minha garganta e boca seca e, eu esperava, o remédio aliviaria a dor em minha cabeça.
Depois de alguns minutos, Wade deitou ao meu lado. Ele colocou sua cabeça nas minhas costas e deixou seus braços envolta da minha cintura. Aquilo era tão reconfortante que eu achava que nem se eu estivesse em perfeito estado iria recusar.
. . .
Eu sentia que estava acordado, mas meu corpo estava tão indisposto que parecia ainda adormecido. Deixei que meus olhos continuassem fechados e persisti na mesma posição. Apenas o barulho da rua existia, dos carros, das pessoas... Meu apartamento estava em um silêncio profundo.
Agradeci profundamente o fato da enxaqueca ter se dissipado após a noite de sono.
Com toda a calmaria, meu cérebro, diferente do meu corpo, começou a trabalhar. As engrenagens iam se aquecendo e, como de costume, focaram seus pensamentos em meus problemas – que haviam há muito tempo deixado de serem poucos e simples.
O primeiro nome registrado foi Edward Brock.
Flashes de um sonho que eu tivera a noite foram tomando conta dos meus pensamentos, a sensação ruim com eles foi o suficiente para que eu quisesse esquecer o que eu havia sonhado.
Mas ele vai pagar sim, para aprender a não querer dar uma de herói de novo!
Essa frase ressoava muito na minha cabeça, era só uma ameaça de uma pessoa descontente, eu sei, mas algo me dizia para não transformar suas palavras em uma mera ameaça ridícula. Tinha algo mais, e eu já lamentava internamente.
Já não basta o Harry?
E lembrando dele, eu precisava fazer algo. Não podia deixar as coisas como estavam e esperar pelo pior. Eu precisava agir e sabia muito bem disso, porém, não sabia direito como começar. É como um formigueiro no pátio da sua casa, você sabe que tem que tirar, mas o receio da reação das incontáveis formigas faz com que você fraqueje, e deixe sempre para um próximo dia.
Mas Harry Osborn era um problema bem mais preocupante que formigas. Ele estava em um estado crítico, e se eu ainda pensava em ajuda-lo, precisava bolar algo e executar agora!
A pergunta que eu evitava frequentemente era: eu queria salvá-lo?
Depois de tudo o que ele havia feito para mim, eu ainda sim queria ajuda-lo?
Minha linha de raciocínio foi cortada quando ouvi o barulho da porta do apartamento abrindo e se fechando. Atrevi-me a abrir os olhos e praguejei quando senti a claridade ofuscar a minha visão. Fechei minhas pálpebras com força e respirei fundo.
— E ai, baby boy, já acordou? – Wade questionou entrando no quarto e sentando na cama. Podia sentir seu corpo perto do meu e seu olhar me fitando.
— Sabe, já que você já sabe o meu nome, poderia começar a usá-lo! – resmungo me espreguiçando e sentando na cama. Abri meus olhos e me deparei com a roupa vermelha e preta característica de Deadpool.
— Não é que eu não goste do seu nome, é que baby boy é mais fofo, e você é muito fofo! Tinha que ver você se espreguiçando agora, parecia um gatinho! – exclamou e depois se aproximou mais. Aquele comentário era degradante, mas eu já começava a me acostumar, então a única coisa que fiz foi ignorar.
— Depois de ter bebido tanto achei que você fosse ficar de ressaca! – comento analisando o homem a minha frente, que parecia até em melhor estado que eu.
— Eu nunca fico de ressaca! Só nos dias que eu fico de ressaca... – Franzi o cenho e deixei meus olhos vagarem pelo teto enquanto eu procurava um sentido para suas palavras. – Mas então, dormiu bem? Passou sua dorzinha de cabeça?
— Dorzinha não é bem o que ela era... – Faço uma careta ao lembrar do quão mal eu havia me sentido ontem.
— Você fica bem manhoso quando está doentinho, né? – Wade pergunta de forma debochada, chegando seu corpo e principalmente seu rosto para perto de mim. Coloco minhas mãos no rosto e suspiro.
— Para de falar no diminutivo, porra! E eu não fico manhoso! – brigo retirando minhas mãos da minha frente e me deparando com Wade bem próximo a mim, com sua máscara parcialmente levantada, como sempre.
— Fica sim! E ainda está... – Empurro o rosto de Wade para o lado quando ele chega perigosamente perto, me levantando logo depois.
— Vai matar alguém por ai, Wade!
— É mais gostoso ficar aqui com você – Wade dá uma risada e levanta, me seguindo enquanto vou ao banheiro. Paro na porta e viro para ele.
— Será que dá para parar de me seguir quando eu vou ao banheiro? Você não vai entrar aqui comigo nunca!
— Nunca é uma palavra muito forte, baby boy! E como já dizia o filósofo Justin Bieber, nunca diga nunca!
— Nunca, nunca, nunca, nunca e nunca!
— Que fofinho você é fazendo birra! Que vontade de te apertar! – Wade coloca suas mãos em minhas bochechas e as aperta, uma em direção a outra. Seguro seus pulsos com força e as puxa para baixo, ouvindo um ai do mesmo.
— Para! Não sou bolinha anti stress para você ficar me apertando! Nem seus ursinhos de pelúcia! – brigo recebendo uma risada em resposta.
— Na verdade, eu tenho um unicórnio de pelúcia, ele é que me acompanha nos meus momentos de prazer entre mim e a minha...
— EU NÃO QUERO SABER! – grito cortando a frase constrangedoramente estranha e nojenta de Wade. Expulso suas palavras de minha mente antes que eu possa imaginar alguma coisa. – Eu realmente não quero saber das suas peripécias solitárias, então me poupe.
— Tá legal, entendi, assunto para outra hora.
— Assunto para nenhuma hora!
— Vê se não demora, seu cappuccino está esfriando e suas rosquinhas vão ser comidas!
— Comprou o café da manhã? – questiono ao mesmo tempo surpreso e feliz com a possibilidade de comer.
— Não, eu abri um portal e peguei o café e as rosquinhas da cafeteria com os meus poderes de Doutor Estranho! — debocha e eu apenas faço uma cara confusa. Nada que sai da boca dele pode ter sentido? — Esquece, baby boy, muita informação para a sua cabecinha.
— Não me chama assim! – grito depois de bater a porta do banheiro.
— Você disse que eu podia te chamar como eu quisesse!
— Mudei de ideia!
— Não dá para voltar atrás, já está escrito na história da vida!
— Cala a boca!
— Cala a boca já morreu, quem manda na minha boca sou eu! – Dou um grito abafado e coloco as mãos em meu rosto, deixando que uma risada escapasse da minha boca depois.
Wade podia ser extremamente chato quando queria, e eu tinha a impressão que ele queria sempre. Mas não podia negar que era bem engraçado um homem como ele agir dessa maneira.
. . .
— Pela milésima vez, Wade, eu não transei com o Matt! – resmungo irritado, colocando mais um pedaço da rosquinha de chocolate em minha boca.
Eu e Wade estávamos tomando café da manhã no sofá, até que o mesmo decidira que não queria comer no silêncio, e desatou a falar. Conversas depois, ele começou a insistir que eu havia saído do apartamento e ido até a casa do advogado para transarmos!
E não, não importava que eu já tivesse negado pela bilionésima vez, ele ainda continuava perguntando, insinuando, afirmando e brigando!
— Aham, tá bom, então, até parece que o cego sou eu e não ele! Ai!— dou um tapa no braço direito de Wade e o repreendo com o olhar.
— Eu nem sequer beijei ele, então vê se fica quieto!
— “Nem sequer beijou”? Como assim? Por que falou em beijo? Você quis beijar ele? Vocês se beijaram?
— Nossa Senhora Protetora dos Idiotas perdoai os tapas e socos que eu estou prestes a dar no indivíduo aqui presente! – murmuro ignorando as palavras do ser ao meu lado.
— Não achei que você fosse do tipo que trai... – comenta Wade de forma meio ácida, eu apenas suspiro.
— Vamos por partes: eu e você não temos nada que faça com que eu beijar ou transar com alguém se torne uma traição – começo minha explicação fazendo uma contagem com os meus dedos. Levanto o segundo e continuo. – Depois, mesmo que tivéssemos algo, eu não fiz nada com o Matt que possa ser considerado traição. E para terminar, se está insistindo tanto nele quer dizer que se sente ameaçado, e se sente ameaçado quer dizer que ele tem motivos para ser uma ameaça, e se ele tem motivos para ser uma ameaça... Cuidado.
Termino meu monólogo e recebo apenas o silêncio como resposta. Olho para o lado e Wade parece perdido em seus pensamentos. Sua boca estava fechada e sua mão com a rosquinha parada. Levanto uma sobrancelha e depois de alguns segundos eu ouço um suspiro.
— Matt isso, Matt aquilo, só sabe falar dele! E para você é Senhor Advogado Cego! – seu tom de voz denunciava uma birra, o que era uma vitória, dou um sorriso e tomo o resto do meu café. – Você está se saindo um namorado aranha muito difícil! – Termino meu café calmamente e colo o copo de papel no chão, voltando depois ao meu lugar.
— Nós não somos namorados – declaro de forma bem clara e calma.
— Somos sim! Amigos é que não somos... – retruca.
— Para ser o meu namorado, eu teria que ter visto pelo menos o rosto toda da pessoa – comento analisando a minha rosquinha e logo depois focando minha visão em Wade.
— Pegou pesado, baby boy... – murmura terminando de comer sua rosquinha.
— Contra fatos não há argumentos, não é mesmo?
— Concordo plenamente! Eu gosto de você, você gosta de mim, a gente se beija... Lide com esses fatos em sua mesa. – Wade, que já havia terminado sua parte, vira para mim e começa a engatinhar em minha direção.
— Minha mesa já está cheia de outros problemas mais urgentes – falo virando de frente para Wade, mas chegando mais para trás, encostando minhas costas no braço do sofá.
— Nada é mais urgente do que. – Wade chega perto o suficiente para tapar meu corpo com o seu. O rosto a poucos centímetros de distância, que eu deveria me concentrar para descobrir o número exato e distrair a minha mente dos lábios que estavam tão próximos dos meus.
— Há muitas coisas mais urgentes do que alguém que não quer tirar a máscara na minha frente, mas fica implorando por sexo!
— Não preciso tirar a máscara para transar, preciso é tirar outra coisa... – comenta sacana, aproximando-se mais ainda de mim.
— Eu preciso é tirar essa intimidade que eu não te dei desse corpo! – minha voz sai como um sussurro, mas é alto o suficiente para que Wade escute e dê mais um de seus sorrisos.
— Pode tirar sem problema, mas o único modo é me beijando.
— Acho que vale a pena... – mal termino de falar e Wade encosta seus lábios nos meus, impedindo que qualquer outra palavra pudesse ser dita. Ele não perde tempo e invade minha boca com sua língua. Faço o mesmo e me deparo com uma mistura de rosquinhas, meu cappuccino e o seu frappuccino de cookie. O gosto era realmente bom, eu não poderia negar.
Coloco minhas mãos em seu pescoço e ele aperta a minha cintura, chegando cada vez mais perto. Logo suas mãos decidem passear pelo meu corpo e chegar em um local impróprio.
— Tira a mão da minha bunda! – corto o beijo e aviso. Wade dá um suspiro e volta suas mãos para a minha cintura.
— Vamos ficar na marca zero mesmo? Não dá para avançar um pouquinho?
— Não, tenho mais coisas para me preocupar, não quero um tarado achando que pode ficar passando a mão por mim.
— Mas nós já estamos juntos mesmo!
— Sabe uma coisa estranha? – Ignoro Wade e ele suspira, deitando no meu peito, fazendo com que eu deite no braço do sofá. – Vi o Demolidor ontem. Conhece ele?
— Já ouvi falar...
— Pois é, ele ajudou a pegar um fugitivo ontem, foi bem curioso... Nunca tinha visto ele pessoalmente, que eu saiba sua área é o Hell's Kitchen... Bom, é o que diz os jornais.
— Não vai ficar caidinho por ele, vai? Já me basta o cegueta! Ai, Pete!— dou um peteleco na sua cabeça e ignoro seu protesto.
— Pode ficar tranquilo, já tenho problemas demais, ele não parece um vilão, então vou ignorar.
— Problemas tipo o Abutre? – questiona parecendo realmente interessado. E eu também ficaria se fosse ele. Ele havia presenciado toda a minha ceninha com ele, e também muitos dos meus momentos desagradáveis, mas eu nunca havia lhe dado informações sólidas sobre o que estava acontecendo.
Eu sentia que devia isso a ele, devia a explicação inteira, desde o começo onde eu e Harry éramos amigos, até quando eu vi o mesmo com cara de louco com aquele doutor, e depois meu surto contra aquele velhaco. Todavia, ainda havia uma barreira, não só com Wade, mas sim uma barreira com essa história. Ninguém sabia a história toda, apenas eu. Nem tia May, nem Johnny, nem Deadpool... Ninguém. E eu não sabia se queria que alguém ficasse sabendo da história toda, isso ainda era muito confuso para mim.
— Pete? – Wade chama a minha atenção e eu noto que eu estou há tempo de mais em silêncio, pensando. Eu precisava dar uma resposta, mas eu não queria contar, não ainda, pelo menos.
— É, problemas tipo o Abutre... – comento e depois respiro fundo, pronto para pelo menos revelar um pouco do que estava acontecendo. – Wade, sabe que colocaram a minha cabeça a prêmio, né?
— Sei sim, se eu quisesse eu teria agora muita grana, mas você é muito fofo para eu matar.
— É, tá, então, eu meio que sei quem está fazendo isso. Não me pergunte detalhes, mas é alguém do meu passado. Eu preciso realmente deter essa pessoa, ela não está muito bem e eu não quero ser culpado de mais mortes. Só que eu não sei muito bem o que fazer... – desabafo fechando meus olhos. Wade fica em silêncio enquanto absorve minhas palavras, fico ansioso para saber o que se passa naquela fábrica de asneiras, vulgo seu cérebro.
— Bom, a gente pode investigar. Eu não sou um detetive como o Batman dos quadrinhos, mas sou quase como um dos filmes! – Dou uma risada e sinto Wade rindo também.
— Realmente, a parte investigadora do Batman ficou só nas páginas das HQs.
— Mas então, o que me diz? Eu sou o Sherlock e você o Watson que não admite nosso amor e fica falando “eu não sou gay” e “nós não somos um casal” a cada cinco minutos. – Dou outra risada e dessa vez reviro os olhos.
— Não sei não, eu sou o mais inteligente, deveria ser o Sherlock!
— Não dá! Você é passivo, tem que ser o Watson! – Dou mais um peteleco em Wade e depois o empurro para o chão. – Quanta delicadeza, meu amor.
— Toda com você, meu querido— retruco cínico, pegando os copos de café e levando para o lixo. Depois das coisas arrumadas, me apoio na mesa e respiro fundo. – Eu realmente estou levando isso a sério e vou investigar melhor, agora fica com você a decisão: vai me ajuda ou não? – questiono sério.
— É óbvio que eu vou ajudar! Não vou deixar o meu baby boy sair por ai sozinho. – Wade vem até mim e me dá um beijo na bochecha. – Agora, vamos lá, Watson! The game is on!— Wade diz a frase de efeito de Sherlock e depois começa a cantarolar a música tema da série, indo em direção ao quarto.
— Wade é um animal, e animais são amigos, não entendem as coisas, mas são nossos amigos...— murmuro para mim mesmo enquanto o seguia.
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