Não Tenha Medo Deles, Tenha Medo De Mim.
5 Capítulo 5 - Olhos pretos.
Notas iniciais
Depois da conversa com Valentina subo para o quarto onde acordei. Valentina fez o favor de desamarrar minhas mãos, "Não tente fazer nada, pois já saber né? Eu te mato" ela disse enquanto desamarrava a corde que me prendia. No quarto, estou deitado e penso em tudo que ele me disse, penso nos avisos, nas pessoas desesperadas pelas ruas, nas crianças chorando pelas ruas. Penso até no que ela passou com esse Marcos, dou razão a ela por querer que eu vá embora. Penso no meu pesadelo, vejo aquela mulher que eu abusará, o que eu teria feito com ela se o homem não tivesse me acertado. Lembro de seus gritos pedindo para eu parar, da sua face aterrorizada. Será que ela ainda está viva? Ou Valentina também a matou? — penso — esses pensamentos ficam indo e vindo em minha mente, até que resolvo ir falar com Valentina.
Saio do quarto e desço a escada e vou até a cozinha, minhas costelas e cabeça ainda doem, mas não com antes, sinto pontadas quando ando. Chego a na cozinha e como já era de se imaginar ela não está aqui. Deve estar em seu quarto. Vou até a sala e me sento em um dos sofá por um tempo, observo as janelas bloqueadas e vejo que uma tem uma pequena brecha, a luz da lua passa por ela. Me levanto e vou até a janela, fico olhando para os bichos lá fora. Bichos ou zumbis? — penso — Zumbis, é mais legal de se falar. Há bem menos que antes, alguns dos poucos que vejo estão parados olhando para o nada, apenas esperando algo aparecer pra comer, os outros que se mexem andam muito devagar, deixando um rastro por ande passam. Paro de observa-los e volto para o andar de cima. Imagino qual dos quartos é o de Valentina. Resolvo bater em todos a partir do meu. As três primeiras são quartos vazios, com panos brancos sobre os moveis. Bato na porta do próximo quarto, mas assim como os outros ninguém abre. Empurro a porta e vejo Dylan dormindo, consigo velo graças a pouca luz que passa pelas madeiras na janela. Ele dorme profundamente, está abraçado com aparentemente um cachorro de pelúcia. Fecho a porta e parto para a próxima. Nessa resolvo bater com um pouco mais de força, por que tenho a leve impressão de que é o de Valentina. E estou certo. Depois que bato na porta poucos segundos depois ela se abre parcialmente, vejo seu rosto, seus cabelos ruivos cobrem um de seus olhos, em uma de sumas mãos a uma arma.
– Ah. É só você — sinto um leve tom de alivio em sua voz — O que você quer?
– Preciso fazer mais algumas perguntas — digo
– Entre — ela diz abrindo a porta por completo. Entro e fico de pé no meio do quarto. O quarto é como os outros, simples, e tem a janela bloqueada. Há um espaço entre as madeiras que deixa a luz passar e, ilumina parcialmente o quarto. Ela fecha a porta e puxa a cadeira da penteadeira para mim, me sento na cedeira e ela em sua cama.
– Então. O que você quer saber? — ela parece interessada em me ajudar
– Quando você me salvou da quele homem — paro um pouco e penso no corpo do homem caindo do meu lado — Tinha uma mulher também. O que aconteceu com ela?
– Ela viu o homem caindo e ficou parada gritando
– E depois? — pergunto
– Quando fui falar com ela, ela me chutou e saiu correndo para floresta. Depois de um tempo ouvi os gritos dela de novo, acho que os bichos a pegaram — ela diz com um tom frio em sua voz
– Quando você diz "Os bichos" você tá falando os zumbis?
– Bichos ou zumbis, tanto faz — ela diz com raiva — Todos eles querem minha carne do mesmo jeito.
– Então quer dizer que ela morreu?
– Sim. — ela diz. Sinto-me aliviado por que a únicas pessoas que me viram daquele jeito estão mortas. Isso é horrível, que pessoa pensaria isso — Por que? — ela pergunta
– Por nada. Eu só achei que ela poderia saber algo sobre mim, meu passado — digo, olhando em seus lindos olhos verdes cristalinos — Outra coisa. Porque você me trouxe para cá?
– Não sei. Acho que foi por que te achei bonitinho — ela diz contendo um sorriso — Apesar do estrago que aquele homem fizera em você, você tava bonitinho.
– Por isso? — digo e rio baixinho — Mas eu sou bonito mesmo? Digo, eu não me lembro de ter me visto no espelho alguma vez.
– Sim, você é — ela diz se levantando da cama e indo em direção a penteadeira. Ela pega algo que parece ser um espelho e volta para a cama, levanta o espelho na altura de meu rosto e consigo me ver. Lembro do meu sonho, de como sou diferente. Meus cabelos são pretos de tamanho médio, meus olhos são pretos, parecem duas bolinhas de tintas. Minhas sobrancelha são médias e pretas, tenho pintas pelo rosto, minha pele é bronzeada, minha boca é de tamanho médio. — Viu, você é bonito — ela diz
– É, agora entendo o por que de você ter me trazido para cá, eu sou lindo — digo e sorrio para ela
– A sim, claro. Você é lindo — ela diz contendo um riso
– Sou maravilhoso — digo e rio alto, ela não consegue mais conter o riso e também ri alto. Mas esse momento não dura muito, abaixo a cabeça e fico com uma expressão triste
– O que você tem? — ela pergunta
– É que é estranho não saber nada sobre mim, de onde eu vim, onde eu nasci, onde eu estudei, saber sobre meus pais, se eu tinha irmão — paro um pouco e respiro fundo — Eu nem mesmo sabia meu nome, se não fosse você ter me mostrado aquela carteira de motorista eu ficaria sem saber pra sempre. Meu pais, como eles eram? Como era abraçar minha mãe? — digo e volto a olhar para baixo, sinto lagrimas escorrendo pelo meu rosto, uma pinga sobre o espelho.
O que acontece a seguir me deixa sem reação. Valentina se estica até mim, leva sua mão até meu queixo e levanta minha cabeça, logo em seguida me beija. Fico sem saber o que fazer, estou surpreso com isso, estou tenso. Depois de alguns segundos relaxo e me deixo levar. Retribuo o beijo. Os lábios de Valentina são macios, não sei como mas sinto gosto de morango em quanto nos beijamos. Levo minhas mãos a sua cintura. Valentina volta para a cama e me puxa junto a ela, deito ao seu lado, continuamos a nos beijar. Até que ela começa a tirar minha cabeça, sinto seus dedos gelados em minha barriga, isso me arrepia, começo a tirar sua blusa também. Abro meus olhos e levo um susto, vejo a mulher que eu abusara, ela não é igual ao sonho, ela tem os olhos todos pretos, como os zumbis que vi lá fora. O susto é tão grande que caio da cama. Sinto uma dor intensa, minhas costela. Me levanto rapidamente, não vejo mais a mulher, vejo valentina, semi vestida com uma expressão confusa em seu rosto. Me visto rapidamente e vou em direção a porta
– O que foi? — Valentina diz, sinto a confusão em sua voz
– Não posso. Não posso continuar — digo e fecho a porta.
Penso na mulher, nos olhos mortos delas. Se Valentina não tivesse matado o homem ela ainda estaria viva? Mas se Valentina não matese eu estaria morto agora. Não sinto culpa por isso. Passo no quarto de Dylan para ver se ele está dormindo. Não sei por que, mas gosto desse moloque, simpatizo com ele. Vejo que ele está bem e vou para meu quarto. Quando estou entrando meu quarto escuto tiros, muitos tiros. Veem do lado de fora.
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