Não Te Esquecerei Jamais

25 Quatro meses de relacionamento


A manhã de segunda-feira deveria ser exatamente como qualquer outra que já vivi na vida, mas, ao contrário de um dia comum da rotina, meus olhos se abriram antes mesmo de o despertador tocar. Foi como se a cama estivesse subitamente cheia de espinhos, pois não consegui voltar a pregar os olhos de jeito nenhum, embora os ponteiros do relógio indicassem que eu ainda pudesse dormir por mais quase duas horas.

Não consegui parar de imaginar e de tentar prever como seria a sucessão de eventos que culminaria no momento exato em que todos na escola descobririam o novo casal. Minha mente criava vários e vários tipos de cenários diferentes, desde o instante em que o Guilherme passaria para me buscar até o milésimo de segundo em que nós cruzaríamos os portões do colégio.

Será que as pessoas perceberiam de cara que estávamos apaixonados apenas por olhar para nós andando juntos, ou nós precisaríamos demonstrar algum tipo de carinho público? Eles ficariam em choque e surpresos, ou seria tudo exatamente como o Guilherme havia previsto no telefone? E a Cristina? Será que a Cristina me mataria por não ter contado nada a ela desde o início da história? Suspirei pesado enquanto movia o corpo na cama pela milésima vez, inquieta. Agora, virada de frente para a janela, a luz do sol, que já havia nascido, atingiu direto os meus olhos; então, decidi me levantar de uma vez por todas, mesmo que o alarme ainda não tivesse disparado.

Por sorte, eu não precisaria me preocupar com o barulho da circulação pelo quarto: a Mirela já estava de pé e exibiu uma feição de pura surpresa quando me viu acordada àquela hora. Ela já estava vestida com o uniforme do trabalho, porém o rosto continuava completamente limpo de maquiagem.

— O que você está fazendo acordada tão cedo, Ariana? — ela perguntou com a voz rouca, ajeitando a gola da camisa. — Você sempre está em um sono profundo quando eu saio para trabalhar.

— É que eu estou muito ansiosa, Mirela. Não consigo dormir de jeito nenhum.

— Ansiosa para ver de novo o seu namorado, é? — ela falou com uma voz melódica e provocativa.

— Também por isso, claro... Mas é que eu estou aqui imaginando como vai ser a reação das pessoas na escola.

— Ora, mas desde quando você se importa com o que as pessoas vão pensar da sua vida? — ela perguntou, focando no espelho para colocar o segundo brinco na orelha.

— Não é isso, não mesmo. Eu não ligo para a opinião deles. Eu só quero ver se eles vão ficar genuinamente surpresos com o nosso status.

— Hum... — ela suspirou pensativa, virando-se para mim. — Então, no fundo, é apenas uma questão de satisfação pessoal sua.

Demorei alguns segundos para responder, analisando a definição dela.

— Sim — respondi por fim, embora a afirmação dela não tivesse sido uma pergunta direta.

— Então, está tudo bem — ela disse, piscando para mim antes de retomar o caminho para a penteadeira.

Eu, entretanto, segui direto para o banheiro da casa. Naquele dia específico, tive bastante tempo de sobra para cumprir todas as minhas tarefas de higiene com calma, vestir a combinação de roupa que havia escolhido com cuidado na noite anterior e tomar o meu café da manhã em perfeita paz. Eu ainda não tinha terminado de esvaziar a minha caneca quando recebi uma nova notificação de mensagem do Guilherme no celular, dando-me bom-dia e avisando que já estava saindo de casa.

Apressei-me para terminar o lanche e fui esperar o meu namorado bem do portão de ferro, mesmo sabendo que demoraria alguns minutos para que ele de fato vencesse o trajeto até a minha rua. Os dias na ilha já não estavam mais frios e rigorosos como antes. O sol agora dava o ar da sua graça bem mais cedo no horizonte, um fato extraordinariamente agradável para a rotina, porque significava que o tempo quente estava finalmente se consolidando na região.

Não demorou muito até eu avistar a silhueta alta dele surgir de longe na esquina. Visualmente, a cena aconteceu exatamente como ocorria todas as vezes no passado; no entanto, ao contrário daqueles dias cotidianos de amizade, as batidas do meu coração operavam agora em um ritmo completamente diferente dentro do peito. Minha mente parecia trabalhar em um ritmo letárgico, lento, e ainda não tinha associado ou digerido bem os acontecimentos intensos dos últimos dois dias; mas o meu próprio corpo já o tinha feito e era por isso que as minhas pernas tremiam e o meu coração pulava a cada passo que ele dava na minha direção.

Os últimos metros do caminho foram percorridos por ele com uma corridinha descontraída. Nós tínhamos decidido de antemão não ir para a aula de bicicleta naquele dia, porque achamos que seria mil vezes melhor conversar com calma enquanto caminhávamos. A brisa fresca da manhã soprou suave sobre o meu rosto aquecido pelo sangue no exato momento em que ele parou bem na minha frente, dando-me a nítida impressão de que ele tinha trazido o vento consigo. Uma feliz e poética coincidência.

O que se seguiu no segundo seguinte me fez perceber, na prática, que um longo e despretensioso abraço apertado de amigos não seria mais o nosso gesto oficial de cumprimento diário. Antes mesmo de eu ter o meu corpo envolvido pelos braços dele, tive a minha boca tocada com suavidade pelos seus lábios em um selinho demorado

— Bom dia — ele disse, com a voz calma, assim que o abraço se desfez de leve.

— Bom dia, querido.

O garoto aprimorou o leve sorriso que já estava esculpido na sua boca, abrindo-a em um semblante radiante. Os dedos das mãos dele fizeram um carinho suave no meu rosto enquanto tiravam os fios fujões de cabelo que teimavam em cair nos meus olhos. Fazia alguns meses que, já completamente sem paciência por tentar finalizar o penteado, acabei quebrando um monte de fios na escova; por esse motivo de força maior, agora eu ostentava um monte de cabelos novos e muito curtos nascendo, que eram pequenos demais para ficarem presos no rabo de cavalo.

— Acredito que você esteja extremamente emocionada por me ver hoje — ele provocou, arqueando as sobrancelhas.

Fixei o meu olhar nele com ainda mais firmeza ao ouvir aquela declaração convencida.

— E por que exatamente você acha que eu estou tão emocionada assim com a sua augusta presença, Guilherme Martins?

Meu Deus, será que o meu coração está batendo tão alto assim a ponto de ele conseguir ouvir?, me perguntei, em pânico por dentro.

— O seu rosto entrega tudo — ele riu baixo.

Minhas duas mãos foram em direção às minhas próprias bochechas no mesmo instante, instalando as palmas nelas para conferir. De fato, a minha pele estava pegando fogo de calor.

— E você por acaso não achou que elas poderiam estar vermelhas assim por causa do vento frio da manhã? — argumentei, tentando me defender de qualquer jeito.

Guilherme negou com a cabeça na hora, fazendo o movimento praticamente em câmera lenta enquanto apertava os lábios para segurar a graça.

— Não, não colou. Nós já passamos da fase crítica do inverno, Ariana. — ele disse, com um tom assumidamente presunçoso.

— Hum... Entendi a sua lógica — mudei o peso de apoio do meu corpo de uma perna para a outra e o encarei com um sorrisinho de canto. — Então deve ter sido uma tarefa terrivelmente difícil para você no passado, quando nós estávamos naquele frio de rachar os dentes e o meu rosto ficava naturalmente parecendo um pimentão. Devia ser a maior confusão mental na sua cabeça tentar adivinhar se a causa era o clima ou outra coisa.

Observei o sorriso nos lábios dele crescer de tamanho em resposta à minha provocação e, em contrapartida, a sensação gostosa de surpresa no meu próprio peito expandiu-se no mesmo ritmo: rápido, inesperadamente rápido.

— Você quer dizer quando eu fazia exatamente isso aqui? — Guilherme deu um passo curto à frente e o pequeno espaço físico que restava entre nós simplesmente deixou de existir. — Ou quando eu agia dessa maneira? — Mais uma vez, recebi um carinho lento no meu rosto quando os dedos dele afastaram os fios soltos da minha testa. — Se você quiser, eu posso continuar o teste agora mesmo. Eu ainda nem te abracei direito hoje.

Eu precisava ter a maturidade de admitir quando era completamente derrotada em um jogo como esse, e todos os sinais da minha rendição estavam impressos na maneira intensa como o meu corpo reagia aos estímulos dele. Portanto, a única coisa prática que pude fazer para salvar o meu orgulho foi instalar as palmas das minhas mãos contra o peito dele, empurrando-o de leve, e dizer:

— Nós temos que começar a andar agora mesmo, se ainda quisermos chegar na escola antes do sinal tocar.

O nosso novo status de casal do colégio só se concretizou de fato perante os outros alunos no momento exato do intervalo. E aconteceu dessa maneira porque o recreio era o único momento do dia em que absolutamente todos os estudantes de todos os anos ficavam reunidos fora das salas de aula, mas ainda dentro do perímetro físico do pátio escolar. Sim, é verdade que alguns dos nossos colegas de classe mais atentos já haviam notado algo de diferente na nossa energia logo no primeiro período, o que foi mais do que suficiente para que um pequeno burburinho de fofoca começasse a circular nos primeiros minutos após o fim das primeiras aulas.

Entretanto, nós colocamos verdadeiros alvos de tamanho gigante nas nossas costas no instante em que decidimos caminhar de mãos dadas, sem esconder de ninguém, cruzando o pátio em direção ao refeitório. Embora durante a nossa longa fase de amizade nós já tivéssemos algumas atitudes e liberdades incomuns para meros amigos, nós nunca, em hipótese alguma, tínhamos andado por aí de mãos dadas pelos corredores, e aquela mudança tátil denunciava que havia algo completamente diferente no ar. Havia mais abraços espontâneos entre nós, mais beijos rápidos na bochecha, mais gargalhadas cúmplices e muito mais toque físico na rotina.

Guilherme marcou o xeque-mate definitivo na mente dos curiosos que nos vigiavam quando se inclinou e me beijou rapidamente na boca no meio do fluxo. Tudo aconteceu durante uma conversa perfeitamente descontraída na fila; ele estava totalmente focado em tentar me fazer rir contando uma sequência de cantadas intencionalmente ruins e cafonas. Eram frases tão genuinamente horrorosas que chegavam a ser engraçadas por pura vergonha alheia. Acredito que essa era, afinal, a verdadeira finalidade delas: arrancar um sorriso meu de qualquer jeito no meio da tensão. Depois de despejar uma sequência vergonhosa de trocadilhos, ele finalizou olhando bem nos meus olhos e dizendo:

— Gata, por favor, não me chama de "meu anjo" por aí, porque senão eu vou ser obrigado a te levar correndo para conhecer o céu. — Ele fez uma pausa dramática. — O céu da minha boca — completou, piscando para mim.

— Meu Deus do céu, Guilherme... — foi a única coisa que consegui balbuciar no primeiro momento, a voz ficando presa bem no meio da minha risada alta. — Essa foi péssima, meu anjo.

A minha fala de brincadeira foi a deixa perfeita para o garoto. Ele travou os passos no chão de uma vez, mas não soltou a minha mão em nenhum momento; desse modo, fui obrigada a travar os meus próprios pés para impedir que eu desse mais um passo à frente sozinha. Então, já quase na soleira da porta dupla do refeitório, sob o olhar atento de todos, Guilherme inclinou o rosto e me beijou Bem ali, no meio do fluxo intenso de alunos curiosos que entravam e saíam.

Foi um momento breve na realidade dos relógios e, ao mesmo tempo, uma eternidade inteira para o meu peito. Era um fenômeno difícil de explicar em palavras exatas: ao mesmo tempo em que a minha mente lógica percebia que o toque havia sido rápido, o meu subconsciente registrava cada milímetro do contato em câmera lenta; então, a sensação sempre era a de que longos e prazerosos instantes haviam se passado dentro de um curto fragmento de tempo.

Outro fato curioso daquela nova rotina foi começar a notar as sutis nuances dos sorrisos e do desenho do olhar dele depois que esses momentos fofos terminavam — e eu não estou falando apenas de quando nós nos beijávamos na boca de verdade. Firmar um compromisso sério e oficial com alguém realmente mudava a engrenagem das coisas na prática, e isso era um fato óbvio do crescimento. No entanto, faço questão de descrever a situação com estas palavras exatas porque foi ridiculamente fácil perceber a mudança drástica na forma como nós passamos a nos olhar nos olhos a partir daquela segunda-feira; e afirmo isso analisando o meu próprio comportamento também.

Então, quando o surgimento de um sorriso cúmplice e o simples ato de darmos as mãos eram as únicas ações que restavam após o fim de um momento íntimo como um beijo, eu sentia no fundo da alma que aqueles gestos simples carregavam um significado muito maior e mais importante para as nossas vidas. Porque, naquelas ocasiões especiais, os sentimentos envolvidos ali eram completamente diferentes de tudo o que já tínhamos compartilhado na infância.

[...]

Quando foi que a minha amiga amadureceu tanto assim?

Esse foi o meu primeiro pensamento lógico diante do acontecimento de a Cristina ter descoberto sobre o meu lance com o Guilherme e estar agindo com total normalidade. E o detalhe crucial da história: ela tinha acabado de descobrir tudo por causa da fofoca de corredor que já havia se espalhado pelo colégio feito fogo em palha seca. Acontece que eu não a tinha encontrado em lugar nenhum assim que cheguei na escola pela manhã, e nós não estudávamos na mesma sala de aula. Já era tarde demais para que ela soubesse de algo antes de qualquer outra pessoa daquela instituição; por isso, apenas aceitei o destino e me preparei para o escândalo.

Entretanto, surpreendentemente, a única reação que ela teve ao nos avistar no refeitório foi exibir um sorriso enorme de orelha a orelha, abrir os braços e vir decidida na nossa direção. O gesto resultou em uma tentativa totalmente falha de um abraço triplo. Os braços dela eram curtos demais para conseguir envolver completamente a minha circunferência e a do Guilherme ao mesmo tempo.

— Ah, meu Deus do céu, finalmente! — ela exclamou assim que se afastou do nó, e agora dava pequenos pulinhos de alegria com as mãos coladas junto ao rosto. Era exatamente o que uma personagem fofa de um desenho de anime faria. — Os meus pais da ficção finalmente estão juntos de verdade!

— Eu tinha a mais absoluta certeza de que os seus pais da ficção fossem o Colin Bridgerton e a Penelope Featherington — comentei, rindo da encenação dela.

— Ah, eles são os meus favoritos também, claro, mas agora vocês dois ocupam o posto dos meus queridinhos da ficção — ela rebateu no mesmo instante, enquanto levava uma mecha de cabelo rosa para trás da orelha. — Vocês são os meus Bridgertons da vida real. Ariana, você sabe perfeitamente o quanto eu sou obcecada por histórias de amor no estilo friends to lovers.

— Cristina, você começou a falar grego de novo com esses termos da internet! — Guilherme reclamou, exibindo a testa franzida em pura confusão. — Traduz isso para o meu idioma, por favor.

A garota juntou os pés na hora e abaixou os braços com pressa, assumindo assim uma postura falsamente mais séria. Mas, antes de começar a ditar a explicação, ela fez questão de revirar os olhos com dramaticidade e soltar uma bufada.

— Você sabe muito bem do que eu estou falando, Guilherme. Eu com certeza não era a única pessoa esperta da escola que percebia o clima romântico que rolava entre vocês dois pelos corredores, e pode ter a mais absoluta certeza de que eu torcia muito para que esse dia chegasse logo, embora ele parecesse bem distante na minha cabeça. E respondendo à sua dúvida de leigo: friends to lovers quer dizer exatamente quando o casal da história começa como melhores amigos e termina como namorados apaixonados, assim como os meus queridos Colin Bridgerton e Penelope Featherington fazem nos livros

A Cristina tinha finalmente chegado à leitura do livro quatro da famosa série literária Os Bridgertons; portanto, enquanto não terminasse o volume e começasse uma nova leitura, aquela com certeza seria a sua nova e absoluta obsessão cultural.

— Ah... Entendi a lógica — as palavras do Guilherme saíram sem demonstrar muita credibilidade na teoria dela.

A minha amiga pigarreou alto e voltou a plantar os calcanhares com firmeza no chão. Ela nos encarou brevemente por alguns segundos em silêncio, enquanto mantinha os lábios pressionados um contra o outro, assumindo uma expressão nitidamente condescendente e vitoriosa.

— Bem, pelo menos agora que o namoro é oficial, nós poderemos finalmente fazer encontros de casais nos finais de semana.

— Que casais exatamente, Cristina? — perguntei, estreitando os olhos.

No final daquela sequência de palavras, minha mente deu um estalo e lembrei-me de que o Guilherme ainda não sabia de absolutamente nada sobre a recente aventura amorosa dela com o músico mais velho A garota, por sua vez, mirou os olhos na minha direção de forma rápida; foi um reflexo tão veloz que eu nem soube decifrar se o Guilherme tinha percebido a nossa troca cúmplice de olhares por cima da mesa.

— Ora, você e o Guilherme, e eu e o meu namorado, ué — ela respondeu, com naturalidade. — O nome dele é Arthur.

— Ele é o tecladista daquela banda que aceitou tocar na sua festa de aniversário — tratei de esclarecer o assunto de uma vez antes que o mistério piorasse.

Observei atentamente as pequenas expressões de choque que conseguiram romper as barreiras daquela dura luta de controle que o Guilherme sempre enfrentava por dentro. Ele sempre foi rigorosamente o tipo de pessoa que odiava se intrometer ou dar pitaco nas decisões pessoais de ninguém, mesmo que a pessoa em questão fosse um amigo muito próximo do seu círculo social. Se algum amigo pedisse um conselho sincero a ele, ele o daria sem o menor problema; mas ele jamais tomaria a iniciativa de apontar o dedo e ditar qual caminho seria o melhor ou o mais correto a seguir.

O grande problema daquela mesa era que nós três éramos amigos de infância há muitos anos e, embora o Guilherme se esforçasse ao máximo para camuflar a reação negativa que aquela informação tinha causado no seu peito, a Cristina notou de imediato as nuances do estresse que alcançaram a superfície do seu rosto. Ela o conhecia bem demais para ser enganada.

— Hum... aquele cara que é... — Guilherme pigarreou e coçou o pescoço de leve, visivelmente desconfortável com o assunto. — Bem mais velho que a gente?

— Sim, ele mesmo — ela respondeu de forma curta e seca, fechando a cara.

Eu conseguia quase enxergar a olho nu o clima pesado e tenso que tomou conta do ambiente do refeitório, que até então estava divertido e descontraído. Foi um imenso alívio perceber que a nossa refeição já estava finalizada e as bandejas estavam limpas na mesa.

— Certo. Você pode marcar o dia e o horário do passeio com o seu namorado, então, Cristina. Nós estaremos lá com certeza, não é verdade, meu amor? — Guilherme quebrou o gelo com presteza.

Um beijo suave foi depositado direto na minha bochecha por ele logo em seguida; aparentemente, aquele era apenas um gesto público carinhoso para sinalizar que estava tudo bem entre nós. Entretanto, assim que desviei os meus olhos da minha amiga — que parecia ter caído feito um patinho ingênuo no tom gentil e manso que o Guilherme adotara para encerrar a discussão —, pousei meu olhar direto no rapaz ao meu lado, que agora mantinha a cabeça baixa. A Cristina podia não ter a capacidade de enxergar a mandíbula dele travada de nervoso de onde estava sentada, mas eu conseguia ver o vinco perfeitamente dali.

— Sim — respondi de pronto, forçando um sorriso aberto para as aparências. — É só você marcar o rolê que a gente vai.

— Seus pais sabem que anda saindo com ele? — Guilherme perguntou com tom descontraído, disfarçando com maestria o sentimento de preocupação.

— Sim. — Ela respondeu como se fosse óbvio — Arthur fez tudo direitinho. Ele até já conversou com os meus pais.

A postura de Guilherme mudou. Pelo visto, tomar aquela atitude era um bom indicativo.

Um som de plim eletrônico ressoou alto pelo ambiente antes mesmo que qualquer um de nós três pudesse formular mais alguma frase para estender o papo. O som, que se fez ouvir nitidamente apesar do barulho intenso de conversas paralelas ao nosso redor no refeitório, era aquele ruído característico de notificações de mensagens recebidas. Não era o meu aparelho, porque eu não o senti vibrar em nenhum momento no bolso do casaco.

O toque tinha vindo direto do celular do Guilherme que, ao reconhecer o som específico, retirou o aparelho de dentro do bolso da calça jeans para conferir o visor.

— Ah, fala sério... — ele resmungou baixinho entre os dentes, enquanto estalava a língua na boca e apertava os olhos em uma expressão de puro descontentamento.

— O que foi que aconteceu? — perguntei, curiosa demais para conseguir esperar ele se recompor daquela aparente onda de raiva matinal.

— Eu tinha me esquecido completamente de que o treinador havia marcado um almoço obrigatório com todo o time para hoje — ele explicou, suspirando pesado. — Esta notificação que acabou de chegar foi o lembrete que ele programou para disparar no grupo de mensagens.

— Os últimos acontecimentos do final de semana foram tão bombásticos assim a ponto de fazer você esquecer o seu precioso treino, Guilherme? — a garota perguntou do outro lado da mesa, com um sorrisinho de canto.

— Tipo isso... — ele respondeu, balançando o dedo indicador na direção dela, mas mantendo um semblante muito pensativo e focado no visor. — Acho apenas que "bombástico" não é a palavra certa para definir o que eu senti.

— Hum... que tal a palavra... extasiante? — Cristina sugeriu, arqueando as sobrancelhas.

Os estalos produzidos pelos dedos das mãos do garoto vieram segundos antes de ele disparar a afirmação entusiasmada, concordando com a definição dela:

— Isso! Perfeito! Os últimos acontecimentos foram tão extasiantes para o meu coração que eu simplesmente não me lembrei de mais nenhum compromisso do time — o rapaz moveu o corpo na minha direção e, por consequência do movimento brusco, os seus joelhos acabaram esbarrando com força nos meus por baixo da madeira da mesa. — Ariana, você vai ser obrigada a voltar sozinha para casa hoje, infelizmente. Eu não vou poder ser a sua companhia no trajeto da saída.

— Ai, ai, não precisa gastar um neurônio se preocupando com esse detalhe prático, Guilherme — os braços da Cristina surgiram na minha frente inesperadamente, gesticulando no ar com desdém. — Nós duas vamos voltar juntas hoje.

Estreitei os meus olhos na direção da minha melhor amiga no mesmo instante, desconfiada daquela generosidade repentina.

— Mas, Cristina, a sua casa fica em uma direção completamente oposta ao caminho da minha. Não faz o menor sentido.

— Bem, eu suponho que nós duas tenhamos muita coisa importante e íntima para conversar no trajeto de volta, Ariana, e vale muito a pena fazer esse pequeno desvio no caminho — ela disse, com um tom de voz pretensioso enquanto fingia admirar o desenho das suas unhas pintadas. — Você por acaso não vai se importar com a minha companhia, não é mesmo? — terminou a frase, cravando o olhar em mim.

— Não, não, claro que não. Nós podemos conversar um pouco no caminho, sim — confirmei, soltando um riso amarelo e tentando cobrir o meu rosto com as mechas do cabelo para esconder a vergonha.

Meu corpo inteiro deu um estremecimento no banco por causa do leve susto provocado pelo som repentino e estridente do sinal do colégio, indicando o fim do intervalo. Começamos a nos movimentar para recolher as coisas e usei os fios que estavam presos num rabo de cavalo alto, como uma espécie de barreira física para bloquear a minha visão lateral; fiz isso apenas para me deparar com a cena dos meus dois colegas de mesa trocando sorrisinhos cúmplices. A Cristina sorria toda alegrinha com a perspectiva de arrancar cada mínimo detalhe da fofoca no caminho, e o meu namorado sorria de volta, aparentemente porque sabia que ele seria o assunto principal da minha boca por um longo período daquela tarde.

[...]

A luz dourada do sol da tarde vazava de forma linda pelas pequenas brechas de madeira do teto da nossa velha casa da árvore. Embora eu estivesse sentada com as duas pernas balançando para o lado de fora da abertura, se eu jogasse a minha cabeça muito para trás, um daqueles feixes de luz atingia diretamente o meu olho esquerdo. Eu gostava particularmente de fechar os olhos e ter as pálpebras iluminadas por aquele calor fraco, porque sentia que conseguia absorver a energia do sol sem machucar a minha visão.

— Por favor, Ariana, eu peço que você só abra os olhos quando eu autorizar, está bem? — a voz dele pediu, vinda de algum ponto do cômodo.

Eu mantinha as minhas pálpebras firmemente fechadas, no entanto, fazia aquilo exclusivamente atendendo ao pedido misterioso do Guilherme, e não porque estivesse querendo desfrutar da sensação relaxante do sol sobre o meu rosto.

— Pode deixar, eu não vou abrir de jeito nenhum — garanti.

Vinda da caixinha de som compacta que ele tinha posicionado em um canto da estrutura de madeira, a melodia familiar do Coldplay era reproduzida em um volume baixo, funcionando como uma trilha sonora suave para não atrapalhar a intimidade daquele momento especial. Manter os meus olhos fechados às escuras estava se revelando uma tarefa mil vezes mais difícil do que eu tinha imaginado no começo; pois, mesmo sem a capacidade de conseguir enxergá-lo fisicamente, os meus ouvidos conseguiam captar cada mínimo movimento dele pelo espaço. Os passos dele eram extremamente cuidadosos no chão, porém a madeira velha e desgastada não colaborava com o segredo e rangia alto a cada pisada, como se estivesse prestes a partir ao meio sob o peso dele. Além disso, a curiosidade feminina estava me consumindo por dentro, e era uma agonia lidar com aquele sentimento sabendo que o mais sensato e maduro a se fazer seria manter a minha promessa de olhos fechados.

Não era uma tarefa fácil presumir o que de fato estava acontecendo ao meu redor enquanto eu mantinha a escuridão forçada, entretanto, pude compreender facilmente que o Guilherme havia se aproximado bastante do meu corpo e agora estava posicionado a escassos centímetros da minha pele. A respiração compassada e pesada que emanava dos pulmões dele bateu direto contra o meu rosto aquecido; um ar quente, terno e incrivelmente convidativo. Senti um frio na barriga ao me dar conta de que, se eu virasse o meu rosto para o lado por reles meio centímetro, a minha boca encontraria a dele.

— Eu peço que você não se mova nem um milímetro agora, Ariana. Eu prometo para você que já estou quase acabando o mistério aqui — a voz rouca dele envolveu o meu ouvido como se fosse um pedaço de veludo suave, macio e quente.

Soltei uma risadinha baixa, sem conseguir me conter.

— E como foi que você soube que eu estava terrivelmente tentada a me mexer e quebrar a promessa, hein?

— O seu sorriso — houve um instante de silêncio antes de ele continuar. — Não é daqueles inocentes ou tímidos. É um daqueles travessos — ele riu baixo, bem perto.

Ri outra vez, dessa vez genuinamente surpresa e maravilhada com a capacidade absurda que ele tinha desenvolvido de conseguir prever e ler as minhas reações s baseado apenas em detalhes anatômicos minúsculos do meu rosto.

Aquele foi o primeiro domingo na vida em que faltamos a um encontro marcado com a nossa turma de amigos. E, por um breve momento, senti-me até um pouco culpada por, em alguma ocasião do passado, ter julgado os meus colegas que fizeram exatamente o mesmo quando começaram a namorar. Todavia, o motivo por trás daquela nossa decisão de sumir não era nada leviano; na verdade, era por algo extremamente importante. Em uma tarde com o sol radiante e um céu sem nuvens, comemorávamos os nossos primeiros quatro meses de relacionamento

Algo leve tocou o meu colo ao mesmo tempo em que os dedos ágeis dele se embaralhavam com o fecho do que, com certeza absoluta, era um colar. Terminada aquela tarefa que parecia árdua para as mãos grandes dele, suas palmas deslizaram com suavidade pelo meu pescoço e, então, não senti mais o toque delas na pele.

— Pronto. Já pode abrir os olhos — ele anunciou.

Antes de fazer exatamente o que ele me pediu, movi minha perna direita para trás. Levei-a para dentro do espaço da casinha da árvore, virando o meu quadril na direção dele para que ficássemos de frente. A primeira coisa que meus olhos avistaram ao se abrirem foram os olhos dele. Eles brilhavam intensamente como duas esmeraldas, estreitos por causa do sorriso largo e orgulhoso que cobria a sua boca. Será que era anatomicamente possível uma pessoa absorver a luz do sol e brilhar por conta própria? Porque o Guilherme brilhava de verdade ali dentro. Tal qual a estrela principal do nosso sistema solar.

— Tão lindo... — sussurrei, sem conseguir conter o pensamento.

— Está falando de...

— De você — interrompi-o de pronto, sentindo o rosto esquentar. — Estou elogiando você, seu bobo.

De alguma maneira mágica, o sorriso estampado no rosto dele aumentou ainda mais de tamanho. Ele moveu o quadril sobre a madeira e o movimento o trouxe para bem mais perto da minha estrutura. Nossos joelhos se tocaram com um impacto leve, o que fez com que uma corrente elétrica percorresse o meu corpo inteiro, deixando-me instantaneamente agitada. Antes que eu pudesse me dar conta do que estava prestes a acontecer, meu rosto foi sendo carinhosamente acariciado por seus lábios e, no instante seguinte, o carinho tinha descido direto para o lóbulo da minha orelha. Eu havia subestimado erroneamente o fato de eu ser a primeira namorada da vida do Guilherme; em um curtíssimo período de tempo, ele tinha descoberto e mapeado um dos meus pontos fracos mais sensíveis.

Por decorrência daquele carinho íntimo, senti toda a minha pele arrepiar num sobressalto e a minha barriga gelar por completo. A sensação gelada, no entanto, não estava relacionada de forma alguma ao congelamento típico da timidez ou do medo. Levei minhas mãos até os ombros dele, que estavam cobertos por uma fina camisa de algodão, e os empurrei levemente para trás, mas fiz questão de deixar um beijo estalado na bochecha dele enquanto ele se afastava de lado.

— Deixa eu ver direito o que foi que eu ganhei de presente — pedi, animada.

Puxei a corrente fina de prata entre os dedos até chegar ao pingente, que tinha o formato exato de meio coração com a letra G entalhada no centro.

— Eu tenho um exatamente igual a esse — Guilherme comentou, com um sorriso gentil.

Ele puxou a corrente que estava escondida por dentro do tecido da camisa e pude visualizar a outra metade perfeita do coração de prata, exibindo a minha inicial, A, entalhada no metal.

— Meu Deus do céu, Guilherme... Que coisa mais fofa! — Prendi o meu olhar por mais alguns segundos naquele pingente antes de erguê-lo na altura dos olhos. — Muito obrigada, meu amor

— Como nós conversamos semanas atrás e chegamos ao acordo mútuo de que uma aliança de compromisso tradicional não seria adequada para o momento atual do nosso relacionamento, eu pensei que poderia te dar algo simbólico, que ficasse sempre com você.

— Eu simplesmente adorei. É tão fofo, especial e único para nós dois — um suspiro profundo e carregado de emoções genuínas saiu dos meus pulmões. — Obrigada de verdade.

Nenhuma palavra nova foi pronunciada por um longo momento, porque era difícil demais conseguir encontrar os termos certos na gramática para expressar a imensidão dos nossos sentimentos. Em pouco tempo de namoro, não tinha sido uma tarefa difícil perceber que o Guilherme era o tipo de pessoa que gostava muito de contato e toques físicos. Ele amava acariciar os meus cabelos quando eu descansava a cabeça em suas pernas, gostava de andar de mãos dadas e fazia questão de dar abraços apertados mesmo quando estava fazendo um calor de matar. Ele nunca ia embora sem uma carícia lenta na minha bochecha e mantinha o hábito doce de beijar o dorso das minhas mãos na despedida. Portanto, não foi surpresa nenhuma para mim quando foi ele o primeiro a quebrar o silêncio do cômodo e a distância física entre nós.

— Eu estou tão feliz, Ariana — ele confessou, baixinho, e depois beijou as minhas mãos, que já estavam devidamente aconchegadas entre as dele.

— Eu também estou muito feliz.

Os cantos da minha boca se ergueram em um sorriso contido, mantendo os lábios unidos. O meu celular tocou de forma estridente no exato segundo em que os nossos lábios se tocariam, fazendo-me desviar a atenção por reflexo, o que teve como consequência imediata um resmungo audível de protesto do meu namorado.

— Espera aí, Guilherme. Deixa eu ver quem é, pode ser alguma coisa importante da minha mãe — pedi, rindo do bico dele, enquanto ele ignorava o aviso e continuava a distribuir beijos lentos pelo meu maxilar, em vez de focar na minha boca.

— Você está totalmente livre para falar no telefone, Ariana — as palavras saíram abafadas entre os beijos carinhosos que ele continuava depositando na minha pele.

— Mas eu preciso me concentrar para conseguir falar com a pessoa, seu chato!

Empurrei o peito dele de leve com as palmas das mãos para ganhar espaço, mesmo que uma parte de mim preferisse mil vezes continuar ali recebendo os beijos dele.

— Está bem, está bem, você venceu — ele cedeu, afastando o rosto com um sorriso de canto.

Peguei o aparelho entre os dedos apenas para constatar na tela brilhante uma sequência de números desconhecidos que eu nunca tinha visto na vida. Logo abaixo dos dígitos, estava escrito o aviso de Spam em letras garrafais, e a interface da tela estava inteiramente colorida de um tom de vermelho vibrante de alerta.

— Ah, que raiva, é só um número de Spam — comentei, revirando os olhos. — A Mirela andou dando o meu número de telefone nessas empresas de telecomunicações para fazer cadastro de desconto, só pode.

— Então, não é absolutamente nada importante para interromper o meu momento — ele concluiu, o sorriso malicioso voltando às feições.

— Não, não é — confirmei, bloqueando a tela de novo.

— Perfeito.

Eu ainda estava sorrindo da piada quando o primeiro selinho rápido foi depositado com doçura sobre os meus lábios. Outros quatro deles foram instalados exatamente no mesmo lugar em sequência, como carimbos de afeto, antes que o contato finalmente se tornasse mais profundo, lento e intensamente apaixonado entre nós dois na casa da árvore.