Não Te Esquecerei Jamais

26 Incompatibilidade de tempo


Capítulo 25

O curso intensivo de natação começou oficialmente em meados de junho, já quase às portas do verão, quando finalmente ficou confortável passar tanto tempo dentro da água. Com o início da minha estação do ano preferida, tudo ficou ainda melhor, e o fato de eu já saber boiar na superfície, segundo os critérios do Guilherme, seria uma excelente vantagem técnica.

Eu gostava particularmente de quando as nossas aulas ocorriam na piscina da escola, logo após o término do treino oficial da equipe dele. O ambiente ali era muito mais convidativo, pois havia um sistema de aquecimento na água que não me deixava desconfortável ou tremendo depois de ficar totalmente molhada. Quando os treinos ocorriam direto na cachoeira, por outro lado, o vento cortante em conjunto com a minha roupa de banho molhada faziam a minha pele arrepiar de puro frio nas pedras.

Aos finais de semana, contudo, não havia outra hipótese que a nossa aula, obrigatoriamente, precisava acontecer na cachoeira. Portanto, naquela tarde ensolarada de sábado, o nosso tapete inflável flutuava tranquilamente sobre a superfície da água cristalina do poço. O impacto da queda-d'água fazia com que o objeto flutuante balançasse levemente para os lados, mas o movimento era estranhamente relaxante. Parecia muito o ninar terno de uma mãe.

— Vamos, vamos, Ariana! É hora de treinar de verdade — Guilherme chamou da borda.

Senti um dos cantos do tapete emborrachado se afundar de leve na água; deduzi, então, que o Guilherme tinha se esgueirado para cima da estrutura ou estava puxando o plástico para perto de si. Abri um dos olhos devagar e ergui a cabeça de lado em resposta ao chamado. Ele mantinha os braços cruzados sobre a borda do objeto, e essa postura o deixava com o tronco levemente inclinado na minha direção.

Comecei a me mover preguiçosamente para a beirada, passando as pernas por cima da borda alta do inflável. Já com os pés tocando o líquido — que estava um tanto mais gelado do que a temperatura do ambiente exterior —, percebi a movimentação rápida do garoto se aproximando para me segurar. Todavia, eu não quis esperá-lo. Pulei para dentro da água de uma vez, afundando direto feito uma pedra para o fundo. O meu plano inicial era me agarrar com firmeza à borda do tapete assim que voltasse, mas eu não levei em consideração a profundidade real do poço, mesmo já estando cansada de saber que ali era fundo demais. Como consequência do erro de cálculo, o meu braço esticado não alcançou o seu objetivo no plástico.

Pela primeira vez na vida em uma situação aquática, meu cérebro não entrou em pânico completo. Minha mente foi rápida em encontrar uma solução lógica de sobrevivência: eu só precisava manter a calma e boiar. Entretanto, antes mesmo que eu pudesse colocar o meu plano em prática embaixo d'água, Guilherme surgiu abrindo caminho com os braços. Suas pernas batiam com força no fundo, deixando para trás um rastro de bolhas brancas dentro da água. Sem a menor hesitação ou pudor, ele me agarrou firme pela cintura e me puxou com força direto para a superfície e, em questão de meros segundos, meus pulmões puderam finalmente respirar o ar puro de fora.

— Você está bem, Ariana? Por que diabos você não me esperou dar o comando para pular? — ele perguntou com uma urgência nítida na voz, usando uma das mãos para afastar o cabelo encharcado que tinha ficado grudado no meu rosto, enquanto o seu outro braço permanecia travado ao redor do meu corpo, mantendo-me suspensa fora da água. O garoto estava tão desesperado com o meu mergulho que nem ao menos percebeu a total ausência de tosse ou engasgo, que seriam os principais sinais de um afogamento real.

— Eu estou perfeitamente bem, Guilherme — respondi com calma, recuperando o fôlego. — Eu não estava me afogando ali embaixo.

Se eu estivesse minimamente distraída naquele instante, com certeza teria deixado de assistir à transição drástica na expressão facial dele. Foi um fenômeno ridiculamente rápido de se ver: em questão de milésimos de segundo, os traços pesados de pânico cederam espaço para um alívio puro que preencheu o seu rosto.

— Eu só estava prendendo a respiração de propósito e já me preparava para boiar, exatamente como você me ensinou — completei, segurando-me nos ombros dele.

— Meu Deus do céu, Ariana! Você ainda vai acabar me matando de susto um dia desse jeito.

O cabelo preto dele havia mudado de nuance com a água, adotando um tom bem mais escuro e caindo desalinhado sobre os seus olhos verdes. Como os fios estavam completamente molhados pelo mergulho, perderam aquelas ondas naturais e pareceram aumentar de comprimento na testa. O visual parecia incomodar a visão dele. A ponta de uma das mechas estava apoiada direto em seu cílio direito. Outra mecha estava ainda maior e dava a volta na lateral do olho; quando o Guilherme piscava, o fio parecia espetar sutilmente a sua pálpebra inferior.

— Eu apenas segui à risca as suas próprias instruções de segurança — retruquei, com um sorrisinho de canto. — Prender o ar nos pulmões e boiar.

— É, mas você simplesmente afundou direto feito uma pedra, e você ainda não aprendeu a sincronia mecânica das pernas para ganhar sustentação — ele reclamou.

— Nem a sincronia dos braços — acrescentei, rindo.

Inesperadamente, os cantos dos lábios do garoto se retorceram em um sorriso aberto e cúmplice.

— Sente aqui e veja como você deixou o compasso do meu coração de tanto nervoso — ele pediu.

Minha mão direita foi instalada direto sobre a pele nua do peito dele, sendo levada até lá pelo próprio Guilherme, através de um toque delicado e firme ao redor do meu pulso. Só então, ao sentir o calor do contato, foi que a minha mente registrou a nossa proximidade física: o braço dele continuava firmemente enlaçado ao redor do meu corpo praticamente nu, coberto apenas pelo tecido fino de um biquíni e de um short de tactel. Automaticamente, o meu próprio coração acelerou numa batida violenta. Ele bateu tão rápido e forte contra as minhas costelas que pude ouvir o eco do pulsar direto nos meus ouvidos, sobrepondo o estrondo constante da queda-d'água da cachoeira.

Mal consegui me concentrar nas batidas reais do coração dele por causa do meu próprio alvoroço, embora uma parte considerável da minha consciência estivesse completamente presa e hipnotizada naquela sensação tátil. Era uma tarefa difícil lidar com tantos detalhes físicos ao mesmo tempo. Evidentemente, as primeiras reações de que tomei conhecimento foram as minhas próprias, porque o caminho nervoso até o meu cérebro era mil vezes mais curto.

— O seu coração está batendo tão forte e rápido quanto o meu — sussurrei, olhando para o peito dele.

Ele se inclinou devagar na minha direção, buscando a minha boca, mas eu mudei o ângulo do pescoço e desviei o rosto no último segundo. O sorriso aberto nos meus lábios, porém, denunciou de imediato a total falsidade da minha rejeição. Eu não tinha certeza de como poderia nomear aquele sentimento de provocação, mas a verdade era que eu simplesmente amava a maneira como o Guilherme reagia àquelas pequenas situações de jogo. Ele era extremamente obstinado e assumia uma postura sedutora que me deixava sem defesas. O conjunto de tudo aquilo mexia profundamente comigo. O jeito como o meu corpo inteiro reagia às investidas dele sempre me deixava entusiasmada.

— Eu pensei que este sábado fosse exclusivamente uma hora de treino de natação, Guilherme — comentei, arqueando as sobrancelhas.

— E nós estamos treinando — ele se afastou um pouco, levando consigo os lábios para longe da minha bochecha. — Só que o treino agora é de língua — completou, piscando para mim com malícia.

Eu não sei qual foi a real intenção dele ao disparar aquele trocadilho, mas a minha única reação física foi soltar uma gargalhada alta na água. A piada tinha acabado por completo com o clima de sedução de antes.

— Pode pegar a prancha de natação para mim, por favor — pedi com a voz manhosa, apontando com o dedo na direção do tapete inflável flutuante.

Sem oferecer muita resistência ou reclamação, ele guiou o meu corpo na água até a borda do tapete, onde me segurei firme com as duas mãos enquanto o garoto se esticava todo para alcançar o objeto de isopor. Estiquei um dos meus braços para conseguir pegar o artefato, mas ele foi bruscamente tirado do meu alcance antes que meus dedos pudessem o tocar.

— Primeiro nós vamos cumprir uma hora inteira de treino de natação, Ariana. Depois disso, nós podemos começar o outro treino — ele decretou, desafiando-me.

— Meu Deus do céu, Guilherme! Me dê isso aqui! — reclamei, esticando o corpo o suficiente na água até conseguir arrancar o objeto das mãos dele com um puxão.

[...]

— Por sorte, eu estarei de volta na ilha alguns dias antes do meu aniversário de dezoito anos —, comentou a imagem pixelada do Guilherme na tela brilhante do meu celular. — Eu não queria de jeito nenhum passar essa data especial longe de casa —, ele fez uma pausa de alguns segundos antes de emendar: — Especialmente este ano, por causa de você.

Mudei a minha posição na cama, deitando-me de lado no colchão assim que os meus cotovelos começaram a doer com o peso. Eu nunca consegui entender o porquê de os meus braços doerem tanto naquela postura, visto que o meu colchão era extremamente macio e confortável.

— Hum... Entendo perfeitamente o seu lado — comentei de forma vaga, encarando o visor.

— O que foi que aconteceu, Ariana? Você está com uma energia meio estranha e calada já há alguns dias comigo nas chamadas —, ele notou de imediato, estreitando os olhos na câmera.

— É que eu estive pensando muito ultimamente, Guilherme — confessei, sem querer enrolar ou inventar desculpas para esconder o meu peito.

— Pensando em quê exatamente? —, o garoto perguntou. Ele mudou a postura, apoiando os braços e o celular em um canto qualquer da escrivaninha e sentando-se confortavelmente na sua cadeira gamer. — Pode falar, eu quero saber exatamente quais são as suas preocupações reais atuais.

Um pouco mais afastado da lente da câmera do celular, pude visualizar melhor as roupas dele: ele vestia um moletom preto grosso com uma estampa gigante de leão no peito. O cabelo dele estava completamente bagunçado e desalinhado, o resultado claro daquela toalha que tinha sido freneticamente esfregada nos fios após o banho. Para a mim, aquele ato bruto era quase um crime de beleza, mas o Guilherme simplesmente não se importava nem um pouco com o excesso de frizz que se formava nas mechas escuras.

— Eu estava aqui pensando que estes próximos dias vão funcionar como uma verdadeira amostra, um teste de como vai ser a nossa vida no futuro, quando você morar longe de mim de vez. Agora que eu consegui este emprego de verão, o meu tempo livre diminuiu consideravelmente, e para piorar nós ainda teremos que lidar com o fuso horário chato. São quatro horas exatas de diferença entre a nossa ilha e a cidade de São Paulo.

Como a esmagadora maioria dos estudantes da região, eu tinha conseguido uma vaga em um emprego de verão; portanto, o meu contrato de trabalho era temporário, tendo a sua data de finalização prevista para meados de setembro, bem no fim da estação quente.

Guilherme assumiu uma expressão visivelmente aborrecida na tela do celular ao ouvir o meu argumento, provavelmente porque eu estava trazendo aquele assunto doloroso à tona mais uma vez na nossa conversa. Mesmo sabendo que o assunto o aborrecia profundamente por dentro, uma força maior no meu peito me dizia que eu precisava verbalizar minhas preocupações reais; eu simplesmente não conseguia compreender como o fantasma daquela distância futura não parecia tirar o sono dele nem por um segundo. Isto porque aqueles quinze míseros dias que ele passaria com o pai seriam, de fato, um teste real do que estaria por vir na nossa vida; pois as condições de fuso e rotina que enfrentaríamos agora não chegavam nem perto das barreiras extremas que seriam impostas pelas obrigações da vida adulta mais tarde.

— Não fique gastando os seus neurônios pensando em besteiras e paranoias demais, Cenourinha —, ele resmungou usando meu apelido, tentando quebrar o clima tenso. — Desse jeito, você vai acabar queimando os fusíveis da cabeça antes da hora.

Umedeci os meus lábios secos com a língua enquanto confirmava a fala dele com um movimento lento de cabeça, sentindo no fundo da alma que eu já tinha adiado demais uma conversa muito séria que precisava acontecer entre nós. Eu tinha tomado a decisão firme de analisar com calma, frieza e absoluto ceticismo todos os fatores práticos envolvendo o futuro de dois adolescentes apaixonados após a experiência daquele momento à distância.

Bem naquele instante de silêncio, meu celular vibrou forte entre os meus dedos. Era o alarme programado da meia-noite tocando, me avisando que eu já tinha atingido o meu limite de horário para conseguir ficar acordada. Se eu decidisse passar mais tempo conversando, só teria meras cinco horas de sono antes de precisar me levantar para o trabalho de manhã.

— O meu despertador de dormir acabou de tocar aqui, Guilherme. Eu preciso mesmo desligar e ir deitar agora.

— Está bem, você tem razão, vai descansar —, ele cedeu com um sorriso fraco. — Daqui a duas horas eu já vou para o aeroporto com a minha mãe.

— Certo. Vê se não esquece de me mandar uma mensagem assim que você desembarcar , tá?

— Com certeza, pode deixar. Eu vou te mandar mensagem até antes de entrar no portão de embarque do voo.

— Tenha uma excelente viagem, Guilherme — não pude evitar que um sorriso terno surgisse nos meus lábios ao encará-lo. — Eu vou sentir muitas saudades de você por aqui.

— Não mais do que eu vou sentir de você, princesa. Boa noite.

— Boa noite, meu amor.

Fui a primeira a apertar o botão de desligar a chamada de vídeo, sentindo o meu coração ficar tão pequeno e apertado quanto um grão de arroz no peito. Eu sentia aquela agonia porque, no fundo da minha alma, eu sabia perfeitamente que nós dois estávamos apenas nos enganando dia após dia; todo mundo sabia muito bem qual seria o desfecho real daquela nossa história de amor.

[...]

A circunstância de que os meus horários de trabalho eram rotativos definitivamente não facilitou as nossas vidas. Havia dias em que eu fazia o fechamento da loja, mas tinha que estar logada no caixa às oito horas da manhã; ou seja, saía muito tarde e precisava estar lá de pé muito cedo. Adicionando a esse cálculo o tempo de viagem de quase quarenta minutos, percorrido em cima do meio de transporte mais usual da minha rotina — a minha bicicleta —, eu invariavelmente chegava em casa muito tarde.

Nessas condições, eu voltava para o quarto extremamente cansada, o que exigia um esforço absurdo de mim para conseguir me manter acordada às vezes até a meia-noite. Por outro lado, eu reconhecia, sim, o esforço do Guilherme. Sempre havia uma mensagem de voz longa dele me esperando no aplicativo assim que eu acordava. De vez em quando, ele também me mandava uma foto ou um vídeo bobo, mas as nossas ligações de fato, na grande maioria das vezes, só conseguiam acontecer nos dias das minhas folgas.

— Hoje um cliente tentou roubar café na minha cara — respondi à pergunta que havia sido feita pelo meu namorado.

— Sério? E como foi que o esquema foi descoberto?

— É que o meu gerente é um cara muito esperto. Bem no momento em que eu ia atender o cliente, ele apareceu do nada e pediu para trocar de caixa comigo, assumindo o meu lugar. — Soltei um suspiro profundo de desabafo. — Mas e quanto a você? O que fez de bom hoje?

— Ah, hoje não fiz muita coisa de extraordinário. Nós tivemos a visita de alguns familiares aqui no apartamento, mas amanhã o meu pai quer ir para o Rio de Janeiro.

— Ai, meu Deus! — disse em um sobressalto na cama, os olhos brilhando. — Você vai visitar o Cristo Redentor?

— Acho que sim. O meu pai é quem montou todo o itinerário de passeios.

— Você não me parece nem um pouco animado com a perspectiva — expus a minha impressão no exato momento em que movi o meu tronco para cima na cama. Apoiei as minhas costas inteiras contra a cabeceira e segurei a alça de cetim do meu baby-doll, prendendo-a melhor ao meu ombro para não escorregar.

— Não tem nada a ver com falta de animação. É só que... todas as vezes em que alguma programação por aqui parece que vai ser muito divertida, eu lembro de você de imediato. E automaticamente me pego pensando no quanto aquilo tudo poderia estar sendo mil vezes melhor se você estivesse aqui dividindo o momento.

Meus lábios se esticaram em uma curva boba logo depois que parei de morder o meu próprio lábio inferior para conter a emoção.

— Oh, que fofo... — comentei, sentindo o peito aquecer. Se ele estivesse do meu lado no quarto naquele instante, eu com certeza teria passado meus braços ao redor da cintura dele e descansado o meu rosto direto no seu peito. — Não precisa se preocupar com isso. Um dia, nós dois vamos viajar juntos e visitar todos esses lugares lindos do mundo.

– O quê? —, rapidamente, o olhar até então distraído do garoto voltou-se com força total na direção da câmera do celular. — Espera aí... repete isso que você acabou de falar, por favor —, ele pediu, com uma expressão de puro espanto.

— Eu disse que nós vamos visitar juntos esses lugares no futuro, ué.

Uma gargalhada estrondosamente alegre e limpa voou direto dos pulmões dele e, então, o garoto aproximou o rosto ainda mais da lente da câmera. Exibindo um sorriso completamente diferente daqueles que costumava mostrar, ele exprimiu:

— Dona Ariana Mârques… você fazendo planos concretos para um futuro juntos? Isso com certeza não é do seu feitio normal de agir. Geralmente, você vive me dizendo frases exatamente opostas a essa.

— Hum... Que chato. Eu achei que você fosse ficar imensamente feliz com a minha declaração — rebati. O meu tom zombeteiro, contudo, não foi capaz de afetar a alegria dele na tela.

— E eu estou muito feliz, você não tem noção.

— Pois não é o que está parecendo daqui, porque você continua aí cutucando a onça com vara curta — ameacei de brincadeira, apontando o dedo.

— Eu só estou... terrivelmente decepcionado —, ele explicou, inclinando o corpo para a frente na cadeira, fazendo com que o seu rosto crescesse de tamanho no visor do meu celular.

O Guilherme assumiu de imediato aquele mesmo tom de voz específico de quando estava firmemente determinado a me desconcentrar ou me deixar sem graça. Eu já havia percebido há muito tempo na nossa rotina que eu me derretia por inteira por dentro quando ele começava a murmurar as frases baixinho, como se estivesse querendo me contar o maior segredo do universo. Ele mantinha o hábito de alinhar o seu olhar diretamente com o meu, despejando as palavras tão próximas que parecia que, se elas fossem objetos palpáveis, esbarrariam primeiro no meu rosto antes de escorregarem macias para dentro dos meus ouvidos.

— Você nem se deu conta de que eu estou muito mais esperançoso pelo nosso futuro do que meramente feliz, Ariana —, ele completou o sussurro.

[...]

O céu já começava a se colorir em tons de um laranja vibrante quando me peguei perguntando em silêncio se o avião de volta do Guilherme já teria de fato aterrissado ou se o voo teria sofrido algum tipo de atraso. Ao fim daquela primeira quinzena inteira imersa dentro de uma experiência real de namoro à distância, os resultados não foram tão diferentes daqueles que eu já havia imaginado de antemão.

Na verdade, quando parei para analisar friamente a situação, o cenário definitivo que nos aguardava no futuro seria infinitamente mais complicado; pois, neste curto experimento de duas semanas, o Guilherme estava de férias. Na vida real que nos cobraria mais tarde, as obrigações seriam muito maiores e mais desgastantes para nós dois.

Entretanto, pareceu-me uma atitude muito cruel e egoísta da minha parte trazer à tona um assunto tão delicado e pesado em um momento tão próximo da comemoração do aniversário dele. Eu não sou esse tipo de pessoa insensível. Não sou daquelas que estragam o clima festivo em momentos tão importantes e alegres. Eu podia muito bem me dar ao luxo de esperar mais alguns dias em silêncio antes de falar. Mas a minha mente estava firmemente decidida: eu e o Guilherme precisaríamos ter uma conversa definitiva sobre o rumo das coisas.

Por alguns segundos, uma grande quantidade de ar invadiu meus pulmões em um suspiro profundo. O fôlego ficou preso neles por mais algum tempo antes de fugir do meu corpo, completamente contaminado por aqueles meus pensamentos melancólicos. Eu nunca me considerei uma pessoa covarde; todavia, lidar com as situações práticas ligadas ao meu relacionamento atual me colocava em uma encruzilhada complicada.

Porque agora, ao contrário de antes, havia os sentimentos reais de outra pessoa envolvidos na engrenagem. E magoar os sentimentos de alguém tão incrivelmente especial e dedicado quanto o Guilherme seria exatamente a mesma coisa que dilacerar o meu próprio coração por dentro. Suspirei pesado, encarando o horizonte. Sentia, no fundo da alma, que tentar fazer aquele relacionamento funcionar no futuro seria o equivalente a correr sem parar para tentar alcançar algo que simplesmente não podia ser alcançado pelas mãos humanas.

Não existia nada mais tolo, ingênuo e idiota no mundo do que desejar com tanta força algo que estava claramente fora do nosso alcance. Era como olhar para a imensidão do céu e querer reescrever o desenho das estrelas.

Puf.

Escutei o ruído surdo bater contra o vidro da janela duas vezes seguidas. Travei os movimentos e esperei atentamente no quarto. Eu podia muito bem estar redondamente enganada, e aqueles sons curtos terem sido apenas frutos dos ruídos cotidianos do final de tarde. Por meio minuto inteiro, absolutamente tudo ao redor permaneceu no mais completo e profundo silêncio. Até mesmo as engrenagens barulhentas do meu cérebro se silenciaram na expectativa.

No segundo seguinte, ouvi novamente o ruído estalar contra o vidro, provando de uma vez por todas que o som não era fruto da minha imaginação.

Levantei primeiro o meu torso da cama para, logo em seguida, arrastar as minhas pernas para fora das cobertas de uma vez. Enquanto eu executava esse movimento apressado, vi o exato momento em que uma pedrinha pequena atingiu o vidro da janela por fora. Eu não consegui encontrar os meus chinelos de jeito nenhum na pressa; eles provavelmente tinham sido chutados para debaixo da estrutura da cama durante o meu descanso. Completamente alvoroçada pela surpresa, deixei os calçados para trás e pisei descalça direto na madeira morna do assoalho, sendo imediatamente atingida pelos raios alaranjados do sol que inundavam o quarto.

— Calma, calma... Eu já vou — sussurrei para o nada, mesmo sabendo perfeitamente que o som da minha voz não seria capaz de atravessar aquele vidro maciço da janela trancada.

Espreitei através do vidro límpido e, no mesmo instante, uma onda avassaladora de surpresa tomou conta de todo o meu ser. Meus dedos correram trêmulos para o fecho de metal da janela e, assim que a empurrei para abrir, a quentura gostosa do ambiente externo atingiu o meu rosto de uma vez.

— Você chegou! — abri um sorriso gigante de orelha a orelha, embora estivesse mergulhada em pensamentos profundamente tristes há menos de cinco minutos.

A alguns metros de distância, abaixo da minha janela, o Guilherme estava parado , acenando para mim com um sorriso radiante. Reconheci de imediato as roupas que ele vestia: eram exatamente as mesmas que ele usava quando havíamos feito a chamada de vídeo de madrugada, logo antes de ele ir para o aeroporto.

— Você veio direto do aeroporto para cá? Por que não me ligou antes para avisar? — perguntei, inclinando o corpo para fora da abertura.

— O meu celular ficou completamente sem bateria no meio do caminho — ele explicou em voz alta, batendo com a palma da mão no bolso da calça jeans para provar o ponto. — As minhas malas de viagem ficaram com a minha mãe no carro, ela foi deixar tudo em casa primeiro.

— Entendi. Eu também cheguei há pouquíssimo tempo do meu turno de trabalho, Guilherme. Eu ainda estou vestindo a farda, inclusive — estiquei o meu braço para fora do limite da janela para evidenciar o tecido da camisa branca com as mangas dobradas em dois quartos do antebraço.

— Quer dar uma volta comigo aqui fora? — ele perguntou, apontando com o polegar na direção do caminho de pedras em frente à calçada, que levava direto a uma pracinha do bairro.

— Claro que eu quero! Mas eu preciso mesmo tomar um banho rápido primeiro. Cinco minutinhos eu desço, juro!

— Ok, vai lá. Estou te esperando aqui embaixo.

Girei nos calcanhares com pressa e os dedos do meu pé esquerdo acabaram tropeçando com força no tapete que ficava bem no caminho entre a minha cama e o guarda-roupa. Aquela tapeçaria era um item incrivelmente útil e confortável nos dias frios de inverno para aquecer os pés e evitar ao máximo pisar no chão gelado da manhã, mas nos dias quentes de verão como aquele, ela servia apenas como um item de decoração e para atrapalhar a minha corrida.

Em poucos instantes, as peças da farda já estavam jogadas de qualquer jeito no chão do quarto, e eu puxei um short de alfaiataria bege e uma blusa básica de cor preta de dentro de uma pilha qualquer de roupas limpas no guarda-roupa. Com o maior cuidado e delicadeza que a pressa do momento me permitia, dobrei o meu uniforme de trabalho para que ele estivesse em condições de ser usado novamente no dia seguinte.

Com a toalha de banho nas mãos, corri pelo corredor em direção ao banheiro que ficava bem de frente para a porta do meu quarto, e soltei um suspiro aliviado de gratidão quando me deparei com a porta aberta; aquilo significava que o cômodo estava totalmente livre para o meu uso. Em exatos cinco minutos cronometrados, o meu banho de chuveiro tinha chegado ao fim. Sem a necessidade de lavar e secar os meus cabelos compridos, os banhos de rotina sempre se revelavam muito mais curtos e práticos de se resolver.

Depois de cumprir todo o meu ritual pós-banho com hidratante, por fim, enfiei os meus pés para dentro de uma sandália de dedos com fecho de fivela no tornozelo. Eu já tinha uma leve impressão incômoda de que aquele fecho de metal me irritaria, e mesmo assim esse aviso mental não me preparou psicologicamente para a dificuldade absurda que foi conseguir encaixar o pino na tira com os dedos trêmulos de pressa.

Finalizei a arrumação borrifando um pouco de perfume em alguns pontos estratégicos do meu corpo, ficando totalmente satisfeita ao consultar o relógio de pulso e constatar que todo o processo tinha durado um pouco mais do que dez minutos na realidade. Eu estava pronta para encontrá-lo.

— Mamãe, mamãe! — chamei agitada no momento em que saí do quarto e corri em direção à sala. — O Guilherme me chamou para dar uma volta. Posso ir?

Ela demorou um pouco para entender o que eu estava dizendo, porque provavelmente teve que deduzir alguma parte da minha fala por meio do contexto.

— E preferiu se arrumar toda para depois vir pedir permissão? — as mãos fincadas na cintura denunciaram uma certa indignação de mãe.

— É que foi bem de repente. Ele chegou de viagem agora mesmo e me chamou da janela. Eu nem estava esperando vê-lo hoje — sussurrei a última parte. E era a mais pura verdade. As pessoas costumam dizer por aí que, depois de uma viagem tão longa de avião, só mesmo um bom período de sono na cama é capaz de reparar o cansaço do corpo.

— Ele está lá fora te esperando?

— Sim, está.

— E por que foi que ele não entrou? — Antes que meu coração desse um vacilo de puro pânico achando que levaria uma bronca, minha mãe abriu um sorriso terno e soube na hora que ela estava apenas brincando comigo. — Ele já veio aqui dentro falar comigo enquanto você estava se arrumando trancada no quarto, Ariana. Veio me pedir para deixar você ir a um passeio rápido com ele — ela me encarou com uma expressão de pura incredulidade antes de completar: — Meu Deus do céu... até parece que você não conhece o namorado que tem.

— O que foi isso agora? Uma lição de moral gratuita? — brinquei, aliviada.

— Vai logo encontrar o rapaz. Você sabe muito bem que é feio deixar as pessoas esperando.

— Certo. Até mais tarde, mamãe! Até mais tarde, vovó!

Minha mãe ainda continuou me observando caminhar até a porta, mas minha avó apenas balançou a cabeça de leve e apertou os olhos no estofado do sofá, voltando rápido para o seu habitual cochilo da tarde.

Uma pequena brecha do portão de ferro já tinha sido aberta por mim e logo pude avistar a silhueta do Guilherme . Ele estava com o antebraço direito apoiado contra a parede de tijolos e o corpo alto levemente inclinado para a frente. O polegar dele coçava a sobrancelha com distração, e os seus olhos verdes carregavam um ar visivelmente cansado do voo, mas não ao ponto de uma exaustão completa. Assim que o portão se fechou atrás de mim, ecoando um suave clique, virei-me de frente para encará-lo. O rapaz já tinha se recomposto da postura distraída.

— Oi, gatinha — ele disse, com a voz terna.

— Olá, Guilherme — meus lábios se ergueram de imediato em um genuíno e aberto sorriso de pura felicidade ao vê-lo. — Muito cansado da viagem?

— Só um pouco, para falar a verdade. Eu tentei dormir o máximo de horas que consegui dentro do avião para ter energia de vir direto aqui te ver.

Dei dois passos rápidos na direção dele, já com os braços erguidos no ar para enlaçá-lo, ao mesmo tempo em que ele esticava o braço dele para tocar o meu ombro.

— Você fica incrivelmente bonito quando está bronzeado de sol — comentei. Já com os meus braços firmemente cruzados ao redor do pescoço dele, precisei erguer consideravelmente o meu queixo para conseguir encará-lo de frente devido à diferença de altura.

Guilherme sorriu de canto e começou a acariciar a parte nua das minhas costas com o dedo indicador, fazendo movimentos circulares suaves bem no meio da minha espinha, ali onde o tecido da blusa preta deixava a pele exposta. Senti uma enorme e avassaladora onda de conforto me inundar por completo com aquele toque e soube, com um aperto dolorido no peito naquele exato instante, que eu precisaria de uma quantidade monumental de coragem se quisesse seguir em frente com a minha decisão de término mais tarde.

[...]

O meu mural de fotografias no quarto tinha crescido consideravelmente ao longo dos últimos meses. E o fato de já haver imagens presas até nas bordas de madeira do quadro me fazia acreditar que, em breve, eu seria obrigada a fazer uma "limpeza" dolorosa nas recordações. As fotos adicionadas há mais ou menos vinte dias haviam registrado a comemoração oficial do aniversário de dezessete anos do Guilherme.

Tinha sido um dia tão incrivelmente divertido que eu ainda sentia uma vontade enorme de gargalhar alto sozinha no quarto só de lembrar das minhas quedas desengonçadas na cama elástica do parque de trampolins, e de como era uma tarefa quase impossível conseguir voltar a ficar de pé depois que os meus amigos decidiram inventar de fazer suas acrobacias pesadas perto de mim. A lona elástica tremia demais com o impacto deles e exigia muito equilíbrio das minhas pernas. O mais engraçado de tudo foi que, em vez de ficar chateada ou irritada por não conseguir fazer uma coisa simples como ficar de pé, eu simplesmente caía na gargalhada estendida no chão.

Eu tinha me sentido em uma verdadeira cena de filme de ação ao ter algumas cordas e elásticos de segurança presos ao cinto envolto na minha cintura, o que me permitia dar saltos gigantescos entre as diversas camas elásticas do complexo. Em um determinado momento da tarde, uma competição acirrada se iniciou entre a turma para ver quem conseguia pular mais alto e tocar no ponto mais alto ganhava o desafio. No começo da brincadeira, parecia que a competitividade feroz do grupo não ia aflorar; mas eu estava redondamente enganada sobre os meus amigos. Quando o Ricardo, que havia esticado vários centímetros de altura nos últimos meses, alcançou o ponto mais alto da parede, o João ficou completamente inconformado com a derrota e tentou três vezes quebrar o recorde do mais jovem da turma. Todas as suas tentativas desesperadas acabaram sem sucesso nenhum no propósito, para a nossa diversão.

Nós também brincamos na tirolesa alta e em um brinquedo tecnológico chamado Reaction, onde nós precisávamos pular em uma frequência constante, ágil e muito rápida para, dessa maneira, conseguir alcançar com as mãos as luzes coloridas que acendiam no painel. O grande problema do jogo era que uma dessas lâmpadas ficava posicionada em um ponto muito alto da estrutura. Ganhava a rodada quem conseguisse completar a sequência no menor tempo do cronômetro.

— Mas isso não é nem um pouco justo! — reclamei alto, ofegante, parando no meio do trampolim. — Eu preciso de muito mais esforço físico para conseguir alcançar essa luz de cima por ser mais baixa. — Pulei o mais alto que minhas pernas permitiram, com o braço direito totalmente esticado no ar, apenas para provar o meu argumento técnico para eles. — Cansa demais, sério. Eu já morri por hoje, passo a vez.

— Deixa que eu te ajudo nessa missão então — Guilherme disse, aproximando-se com os braços estendidos, e meu cérebro entendeu de imediato o que ele quis dizer com aquele gesto.

— Você me promete que não vai me deixar cair de cara no chão, né? — brinquei, olhando para ele.

Ele soltou um suspiro falsamente aborrecido com a minha falta de fé antes de responder um sonoro e firme "não" com a boca.

Aproximei-me do corpo dele assim que o sinal sonoro indicando o início da próxima rodada ecoou, e nós dois paramos de frente para o painel de luzes. Guilherme foi o primeiro a começar o movimento de impulsão, porque senti a lona elástica tremer sob os meus pés e tirar um pouco do meu equilíbrio; que foi prontamente estabelecido pelo toque firme das mãos do garoto segurando os meus dois cotovelos. Seguindo o ritmo cadenciado dos pulos dele, comecei a pular também no mesmo compasso.

Pressionar os botões luminosos de baixo com velocidade era uma tarefa fácil para mim, porque eles eram de curto alcance para os meus braços. Então, quando chegou o momento crítico de acender a luz mais alta do topo do painel, nós paramos de pular exatamente ao mesmo tempo e, com as duas mãos do Guilherme perfeitamente encaixadas ao redor da minha cintura, fui erguida no ar sem esforço.

— Vitória! — gritei a plenos pulmões assim que meus pés tocaram o chão de novo. Tinha sido uma grande vitória pessoal contra a minha altura.

Voltei a colocar no mural de madeira a foto que havia retirado segundos atrás, apenas para conseguir escrever com cuidado na parte branca do papel a data exata em que o registro tinha sido feito. Era uma fotografia tão incrivelmente bonita do nosso grupo de amigos reunido e sorrindo. Depois de me certificar de que ela estava bem presa e firme no quadro, as pontas dos meus dedos deslizaram com lentidão para a fotografia posicionada logo ao lado.

Naquela imagem eternizada pela lente, Guilherme estava sentado confortavelmente no banco de madeira de uma praça, com os pés de ferro firmemente chumbados no solo. E eu estava sentada direto no colo dele; minhas pernas apareciam cruzadas, e a mão esquerda dele repousava com total naturalidade sobre a minha coxa. Meus lábios apareciam estampando um beijo carinhoso na bochecha dele, enquanto uma das minhas mãos puxava o seu queixo de leve para perto e o meu braço livre envolvia o seu pescoço em um abraço.

Eu me lembrava perfeitamente daquele dia de sol. Eu me lembrava, com um aperto no peito, de absolutamente todos os dias que passei ao lado dele.

Senti meus olhos começarem a arder com as lágrimas que ameaçaram brotar. Já tinha passado da hora de eu sentar de frente com ele e ter aquela conversa séria e definitiva que eu vinha planejando há tanto tempo na minha mente. Aquele era o momento ideal. O verão estava oficialmente se encaminhando para o seu fim, assim como as nossas férias escolares. Se nós não seríamos mais um casal no futuro devido à distância, o melhor e mais sensato a se fazer seria voltar às aulas do colégio já separados, para acostumar o coração.

Eu combinara de encontrar o Guilherme no horário habitual de sempre. Dessa vez, contudo, fui eu quem pediu para que nós fôssemos caminhar até a praça que ficava mais próxima da minha casa; na minha cabeça, aquele seria um lugar consideravelmente reservado e silencioso, embora fosse um espaço ao ar livre. Se eu já morasse sozinha e fosse uma mulher adulta independente, teria simplesmente o chamado para visitar a minha casa e nós conversaríamos sobre o término sentados em um sofá confortável na sala.

Soltei uma risadinha baixa e amarga com o meu próprio pensamento.

A grande verdade era que nenhum lugar do mundo seria confortável, por causa do teor do assunto pesado que estava prestes a ser tratado ali.

O Guilherme soube que havia algo de muito errado acontecendo no exato milésimo de segundo em que me viu atravessar o portão de ferro da minha casa. Mas, demonstrando o seu habitual respeito, ele preferiu não perguntar o que estava acontecendo na minha cabeça e eu também optei por permanecer em um completo silêncio durante a caminhada. E, mesmo diante daquela atmosfera pesada e silenciosa que se instalou entre nós, o garoto esticou o braço com doçura e agarrou uma das minhas mãos, entrelaçando firmemente os nossos dedos no meio do caminho.

A praça do bairro não ficava longe de casa; eram necessários apenas poucos minutos de caminhada lenta para alcançar o local. E era bem provável que não houvesse tantas pessoas circulando por ali naquele dia, por causa do céu completamente nublado, cinzento e frio. As árvores ao redor já começavam a perder suas primeiras folhas secas, devido à chegada iminente do outono.

As palmas das minhas mãos suavam frio de nervoso. Aquele suor de estresse, somado ao mau tempo do clima, deixou os meus dedos completamente congelados na caminhada, embora eu mesma não estivesse sentindo um pingo de frio no corpo. O meu próprio coração acelerado era o único responsável por bombear o sangue e aquecer o meu corpo por dentro. Ele estava fazendo um belíssimo trabalho de sobrevivência, visto que até a região das minhas axilas estava úmida de suor.

— É uma pena enorme que o verão já esteja indo embora, né? — Guilherme lamentou em voz alta, quebrando o silêncio na tentativa clara de manter uma conversa normal comigo.

— É mesmo — respondi, a voz saindo rala. Ele falhou miseravelmente.

Eu simplesmente não conseguiria manter uma conversa normal sobre o clima nem se a minha própria vida dependesse disso naquele minuto. O meu cérebro estava ocupado demais, trabalhando a mil por hora e martelando de forma obsessiva todos os argumentos lógicos que eu usaria na nossa eventual discussão de término. E, mesmo sendo eu a pessoa convicta que traria aquele assunto doloroso à tona, a minha garganta fechava de nervoso e as minhas entranhas pareciam congelar por causa do pânico. Eu sabia exatamente quais seriam as consequências dolorosas das minhas atitudes ali; e, mesmo assim, estava firmemente convencida de que a melhor alternativa para nós dois era acabar com tudo antes que os meus sentimentos se tornassem uma bola de neve letal, ao ponto de esmagar tudo o que estivesse em seu caminho mais tarde.

Fui a primeira a deslizar o corpo para dentro do espaço entre os blocos de concreto que serviam como banco e mesa de jogos da praça. Pousei os meus dois braços trêmulos sobre a superfície de pedra e recusei-me a olhar para ele; em vez disso, fixei os meus olhos nos quadrados pretos e brancos pintados na mesa, usados em partidas de xadrez.

— Precisamos conversar — disse, desviando o meu olhar dos quadrados pintados na pedra para fixá-lo no garoto, que continuava de pé bem na minha frente.

Ele não dava sinal algum de que iria reagir, mantendo-se perfeitamente estático, como se de fato acreditasse que seria capaz de congelar o tempo se não mexesse um único músculo do corpo.

Em um silêncio sepulcral, Guilherme finalmente se moveu. Ele recusou-se a me encarar enquanto se afastava do ponto de partida para se acomodar no banco de concreto oposto, mas, quando finalmente ergueu a cabeça e fixou os olhos verdes nos meus, soube no mesmo milésimo de segundo que ele já sabia exatamente o que eu ia dizer.

— Vamos terminar.


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.