Notas iniciais
Olá meninas, aqui estou eu, espero que gostem. desculpem a demora, mas como estou com problemas no pc e sem net, tenho que postar quando posso, bem tenho que agradecer tbm pela recomendação da Lili Swan, gostei muito dela, e tbm obrigada pelos recados deixados, bjs

[RECAPÍTULANDO]

Não tinha coragem de dizer as palavras que destruiriam uma mulher que já perdera um filho. Todas as boas intenções desapareceram como fo­lhas secas levadas por um vento forte, e o segredo buscou abrigo em um canto escuro de seu coração.

Agora não. Depois...

Podia esperar. Pelo menos até Mary recuperar-se da dolorosa perda. Até lá sua perna estaria melhor, e poderia partir sem depender de nin­guém. Até lá...

Que mal poderia causar deixando-a acreditar que eram uma família?

Jane rezou para jamais descobrir a resposta.

*********

A sra. Gardiner cumpria suas obrigações com de­dicação e seriedade. Lavava as roupas do bebê, banhava-a e o mantinha sempre limpa e seca, mas jamais se mantinha no caminho quando Jane demonstrava a intenção de realizar as tarefas pes­soalmente. Na verdade, estava sempre disposta a compartilhar de seus conhecimentos, responder às perguntas da jovem mãe e assisti-la no apren­dizado da rotina diária.

Mary visitava Jane e a bebê diariamente, mas Charles passou alguns dias sem aparecer. O mé­dico também fora vê-la duas vezes e atestara o progresso de cura da fratura, mas ainda não a libertara da horrenda cadeira de rodas. Verificara o ferimento em sua cabeça, perguntara sobre os hábitos alimentares da bebê, examinara-a e par­tira desejando um bom dia.

Jane e a filha dormiam, comiam e se fortaleciam. Às vezes, sob o olhar preocupado de Mary, ela não se sentia tão sozinha... até lembrar que a pobre mu­lher acreditava estar hospedando outra pessoa. Sua identidade era um segredo que só ela conhecia. Um fardo que carregava dia e noite, um peso que aos poucos ia esmagando coração e consciência.

Em um determinado final de tarde Mary foi vi­sitá-la e poucos depois uma criada serviu o chá.

— Achei que poderíamos decidir hoje — a dona da casa comentou esperançosa.

— Decidir o quê, sra. Bingley?

— Mary, por favor. O nome da bebê, é claro.

— O Lh, sim... é claro.

— Você e Fitzwilliam tinham alguma ideia ou pre­ferência? O nome de sua mãe, talvez?

Jane não sabia qual era o nome da mãe de Anne, e por isso recusou a sugestão. O de sua própria mãe só serviria para fazê-la lembrar a do­lorosa perda da mãe.

— Gosto de Sara. Ou Gabrielle. Lydia também é bonito. Tem alguma preferência?

— Bem... O nome da minha mãe era Hortência. E a da mãe de Fitzwilliam era Teresa.

Jane esperava que ela tivesse parentes com nomes mais aceitáveis.

— O nome de minha avó era Helena — Leda recordou.

— Helena é muito bonito.

— Gostou?

— Sim, muito.

— A bebê vai precisar de um segundo nome.

— É verdade.

— Que tal Fitzwilliam? Apesar de estranho é uma maneira de lembrá-lo.

Jane pensou no homem generoso que a resgatara em uma noite chuvosa e cedera sua própria cama. Se houvesse estado em sua cabine, provavelmente estaria vivo. Dar a filha o nome desse homem não seria suficiente para saldar a dívida de gratidão, mas considerava a escolha apropriada.

— Fitzwilliam é uma excelente ideia.

Leda uniu as mãos numa expressão de conten­tamento quase infantil.

— Helena Fitzwilliam Bingley! Não é um nome grandioso?

A culpa a invadiu novamente. Mas a felicidade da sra. Bingley era tão comovente que não ousava perturbá-la.

— Sim, é um nome maravilhoso.

— Charles virá buscá-la para o jantar esta noi­te — ela disse enquanto se levantava. — Diremos a ele durante a refeição. — E saiu do quarto.

Jane moveu a cadeira pela alcova até bem per­to do berço de ferro forjado que Leda havia com­prado. Tocou os cabelos da filha e sentiu-se inva­dida por uma imensa ternura.

— Helena. Minha doce Helena.

Mas... o que havia feito?

As dúvidas e a vergonha encontraram o caminho até a superfície, e ela foi forçada a admitir que acabara de criar outra men­tira, essa ainda mais sórdida. Não contara a verdade a Charles. Também não revelara o segredo à mãe dele. Tanto tempo se passou que eles jamais seriam capazes de compreendê-la e perdoá-la.

E acabara de permitir que a sra. Bingley desse a bebê o nome de salvador. Um Bingley!

Acabara de ultrapassar o ponto de onde não haveria retorno.

Escolher o vestido para o jantar foi um proble­ma. Os baús de Anne haviam sido deixados em seu quarto, e a criada de Leda aparecera para informar que passara todos os vestidos e os pen­durara no armário.

Jane abriu as portas de madeira entalhada e olhou para a coleção de roupas. Cetins e sedas, cores vivas com decotes amplos e saiotes atrevidos visíveis sob as bainhas bordadas. Que gosto gro­tesco tivera a esposa de Fitzwilliam! Não havia nada adequado para alguém em período de luto. Nada que pudesse vestir. Finalmente encontrou um ves­tido de seda preta com aplicações de renda no corpete e no decote, e pediu à sra. Gardiner para ajudá-la a vesti-lo.

Era uma suposta viúva, e negro era uma escolha propícia. Mas a cor a empalidecia, e por isso ela beliscou as faces e aplicou um toque de corante para lábios que encontrou em uma gaveta da cô­moda. Anne possuía uma coleção espantosa de pinturas faciais e frascos com as mais variadas essências. Jane cheirou um deles e tampou-o de­pressa. Era forte demais para o seu gosto sóbrio. Além do mais, sentia-se estranha por estar usando as coisas que pertenceram a Anne.

Charles apareceu no horário combinado. A sra. Gardinert ficou com Helena enquanto ele a carregava para o andar de baixo.

— Minha cadeira — Jane lembrou, olhando por cima de seu ombro.

— Não vai precisar dela. Não terá de ir a ne­nhum lugar aonde eu não possa carregá-la.

As palavras e o tom de voz provocaram um ar­repio na espinha, e a reação à proximidade física a surpreendeu e assustou.

Concentrou-se na casa. A decoração e a mobília era tão belas... não, eram ainda mais adoráveis que as da casa do pai em Londres, mais caras, porém mais simples e discretas. A sala de jantar era revestida em nogueira, com dois armários e uma cristaleira repleta de porcelana chinesa. Qua­dros retratando cenas de caça e rios caudalosos cobriam as paredes.

Leda os esperava impaciente.

— Boa noite, queridos!

Charles colocou Jane na cadeira em um dos cantos da mesa, de frente para a mãe, e foi acomodar-se na ponta. A dona da casa parecia hip­notizada pelo vestido que ela escolhera.

— Não tenho nada apropriado para o luto — Jane explicou constrangida.

— E claro que não. E nós nem pensamos nisso, não é, Charles?

Ele balançou a cabeça e tocou a garrafa de vinho.

— Anne?

— Não, obrigada.

A taça de fino cristal foi deixada diante do prato de sua mãe.

— Mandarei chamar a costureira amanhã mes­mo — Leda decidiu.

— Oh, não se incomode — Jane protestou.

— Não é incômodo algum. Além do mais, você é uma viúva. E uma Bingley. Não deve ser vista em público se não em trajes adequados.

Era verdade. Não poderia usar os vestidos que foram de Anne.

O que a levara a comprá-los? Que tipo de mulher havia sido aquela, afinal?