Não Sou Quem Você Imagina!
6 Capítulo 5
Notas iniciais

[RECAPITULANDO]
Várias vezes, enquanto tentava alimentar-se, enquanto amamentava o bebê e a acomodava em seu cesto, examinou as sofríveis opções. E em cada vez, chegava à conclusão de que não tinha escolha. Ofereceria todas as explicações à mãe de Fitzwilliam Bingley e rezaria pelo melhor.
O que poderia acontecer de pior?
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— Netherfield, Meryton
Mary Bingley, vestida de negro e com os olhos inchados, recebeu Jane com os braços abertos. Ao levantar-se e apoiar o peso do corpo sobre a perna saudável para se deixar abraçar, Jane soube que aquilo era o pior que podia ter acontecido.
A mulher baixa e delicada cheirava a violetas e cânfora. Os seios fartos tremiam contra o peito de Jane enquanto ela soluçava sem pudor. Para sua surpresa, lágrimas brotaram de seus olhos e ela aceitou o lenço perfumado oferecido por uma criada.
Mary afastou-se, limpou os olhos e deixou-a sentar-se novamente, mas reteve sua mão.
— Você é tão bela quanto Fitzwilliam descreveu em suas cartas — disse com voz embargada. O rosto redondo contorceu-se numa careta de dor e Charles tomou-a nos braços. Quando ergueu o rosto dos cabelos grisalhos da mãe, havia lágrimas em seus olhos escuros.
Jane sentiu-se triste pelos dois. A culpa era como uma espada cravada em seu peito. Não conseguia encarar Charles. Como diria as palavras? Se ao menos ele as deixasse sozinhas.
Finalmente Jane afastou-se do filho e olhou para a porta. O motorista esperava em silêncio, segurando o cesto com a bebê.
— Traga-a aqui, Gruver — ela disse, chamando-o com um aceno.
A expressão traía curiosidade e antecipação. Ao ver a criança, Mary cobriu os lábios trêmulos com as mãos e guardou silêncio por alguns instantes. Jane sabia como ela gostaria de ver o filho naquele rosto adormecido e sereno, e mais uma vez foi tomada pela culpa e pela tristeza.
— Linda... — A sra. Bingley sussurrou depois de algum tempo com tom emocionado. — Como ela se chama?
Embaraçada, Jane fez questão de manter os olhos bem longe dos de Charles, concentrando-se apenas em Leda.
— Ainda não escolhi um nome — disse, certa de que sua atitude pareceria estranha.
Mas a sra. Bingley sorriu como se houvesse recebido uma bênção.
— Podemos escolher juntas.
Charles estreitou os olhos, atento, mas Jane não o encarou.
— Seus aposentos já estão prontos — anunciou a dona da casa. — Creio que encontrará tudo de que necessita, mas se precisar de alguma coisa, não hesite em pedir.
Depois de olhar para a escada de mármore que levava ao segundo andar, Jane foi forçada a buscar os olhos de Charles.
— Todos os quartos ficam lá em cima — Leda anunciou pesarosa. — Não havia me dado conta de que...
— Não se preocupe, mamãe. Anne e eu temos uma solução para o problema de transporte. Gruver, por favor, leve o bebê para cima. Depois tire o resto do dia de folga. E amanhã também. Deve estar com saudade de sua família.
— Obrigado, senhor.
Charles inclinou-se e esperou que Jane passasse um braço em torno de seu pescoço. Depois tomou-a nos braços e virou-se para a mãe.
— Está vendo? Todas aquelas cenouras e ervilhas acabaram surtindo efeito.
— Eu disse que seria um homem forte. — Ela riu e os acompanhou pela escada, segurando a saia longa com as duas mãos. O riso fácil amenizou parte do desconforto de Jane, que sentiu uma profunda gratidão por Charles ter sido capaz de arrancar um sorriso da mãe.
Dessa vez não lutou contra as sensações provocadas pela proximidade. O relacionamento com a mãe a maneira cortês com que tratara o motorista eram mais eloqüentes que um milhão de palavras. Era um bom homem. Um indivíduo sincero. Um homem respeitado e decente.
E ainda estava tirando vantagem de todas essas qualidades.
Descansou na segurança daqueles braços por alguns poucos minutos. Desfrutou de sua força, do aroma másculo dos cabelos e da pele, do cheiro fresco das roupas. E imaginou quanto tempo teria antes de alcançar o ponto de onde não poderia mais recuar.
Mary contratara uma enfermeira para cuidar da bebê. A mulher, uma viúva muito alta de cabelos grisalhos e expressão serena que dizia chamar-se sra. Gardiner, segurou-a enquanto Charles e Mary a ajudavam a se acomodar. Jane suspirou aliviada quando Charles finalmente desculpou-se e deixou o quarto.
— Sra. Bingley... — começou.
— Mary, querida. Por favor. — Ajeitou a coberta sobre a perna saudável da hóspede e certificou-se de que a outra repousava sobre um travesseiro.
— Mary. Estava esperando por uma chance para lhe falar.
— Eu sei, meu bem. Teremos muito tempo juntas. Você será a filha que eu nunca tive. E quanto a esta garotinha... — Tomou a bebê dos braços da sra.Gradiner e segurou-o junto ao seio. — Esta menina vai me impedir de morrer de tristeza.
Ao testemunhar a angústia daquela pobre mãe desolada, Jane sentiu-se tomada pelo peso da culpa.
— Não sou quem está pensando... — disparou.
— Não quero saber quem você é — Mary respondeu, lutando contra um soluço. — Se não estivesse esperando por você e pelo bebê nos últimos dias, não teria suportado a dor. Nenhuma mulher devia ter de enterrar o próprio filho. Nunca! Vocês são tudo de que preciso para continuar vivendo. Você e ela. — Afagou a cabeça da bebê, e Jane engoliu a confissão que pretendia fazer.
Não tinha coragem de dizer as palavras que destruiriam uma mulher que já perdera um filho. Todas as boas intenções desapareceram como folhas secas levadas por um vento forte, e o segredo buscou abrigo em um canto escuro de seu coração.
Agora não. Depois...
Podia esperar. Pelo menos até Mary recuperar-se da dolorosa perda. Até lá sua perna estaria melhor, e poderia partir sem depender de ninguém. Até lá...
Que mal poderia causar deixando-a acreditar que eram uma família?
Jane rezou para jamais descobrir a resposta.
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