Notas iniciais
Olá meninas, como vão? Espero que bem, e como foi a virada de ano? A minha foi muito boa, tanto é que eu consegui engordar pelo menos 1 quilo, rsrrsrs. Mas deixando de conversa gostaria de agradecer pelo comentários de todas e dizer que não falta muito para a fic chegar ao fim, estou pensando em postar mais uma fic, mas ainda não sei bem sobre o que, mas quando estiver quase terminando eu aviso, bem deixa de lero lero e vamos a fic.

[RECAPÍTULANDO]

E também viu algo mais. Compreendeu o que levara uma jovem expulsa de casa a embarcar em um trem cujo destino era a catástrofe. Enten­deu por que ela se agarrara à bondade de Fitzwilliam como se ali residisse sua última esperança. Para alguém que havia recebido tanta crueldade do pró­prio pai, a benevolência de um estranho devia ter assumido a aparência de uma bênção.

E talvez houvesse sido.

— Tem razão — disse, contendo o tom de voz e lutando para manter a calma.

— Não tem mesmo uma filha. Um homem como você não merece essa alegria. Especialmente se essa filha for alguém como Jane.

— Leve o cadáver que veio buscar. Mas seja rápido.

— Cuidarei disso antes de deixar a cidade. E também tomarei providências para que todos os pertences de Jane sejam removidos de sua casa.

— Não há mais nada dela aqui.

— Está enganado, sr. Bennet. O espírito dela está aqui. As recordações. E vai ter de aprender a viver com elas.

***

Algumas noites mais tarde, Fitzwilliam foi encontrar Charles no escritório depois do jantar.

— Falei com Morris Bennet — ele contou de­pois de acender um cigarro.

— E o que descobriu?

— Agora sei por que Jane partiu. Aquele ho­mem tem os olhos mais frios que já vi. Ele não é humano.

— E agora vai sentir pena dela como sua mãe?

— Apenas há entendo um pouco melhor.

— Entende o quê?

— Ela se sentia culpada. Por isso contratou a Pinkerton para localizar o corpo de Anne.

— Trouxe o corpo para cá?

Charles assentiu.

— Durante todos esses meses, o homem acreditou que a filha havia morrido em um acidente de trem. Fui procurá-lo, revelei que ela estava viva, e... foi como se a verdade não o convencesse. Ele preferia continuar acreditando na morte de Jane.

— Mas Jane encontrou a verdadeira Anne para você e sua mãe.

— E para Fitzwilliam.

— Ela não é a mulher que queria acreditar que fosse, é?

— O que quer dizer?

— Era mais fácil aceitar a fuga de Jane en­quanto acreditava que ela só queria seu dinheiro. Agora que sabe que estava enganado, tudo se tor­nou mais difícil.

— Mas ela nos roubou.

— Ela disse que devolveria tudo que pegou, não?

— As jóias não faziam parte da lista de coisas que ela disse pretender devolver.

— É verdade. Jane mencionou a conta do hos­pital, as roupas, até as fraldas do bebê, prometendo devolver cada item, mas não disse nada sobre uma fortuna em jóias. Não acha isso estranho?

Achava. Jane não era a pessoa que havia acre­ditado. Cuidara da família Crane sem que nin­guém houvesse pedido sua ajuda, sem esperar nada em troca, sem sequer deixar que ele sou­besse. E transformara as roupas de Anne em ob­jetos de utilidade para dezenas de pessoas.

Não pedira um único vestido para si mesma. Mary insistira para que ela aceitasse todas as rou­pas que considerava adequadas a uma mulher em sua posição.

— E é ainda mais estranho que tenha vendido primeiro o bracelete que foi da mãe dela — Charles respondeu. — A peça era importante para ela, mas vendeu-a antes de negociar as outras jóias.

— Não parece lógico. Tem certeza de que Caroline não foi a autora do roubo?

— Tenho. Além do mais, a esposa do joalheiro descreveu Jane.

— Como ela a descreveu?

Charles repetiu o que ouvira.

— Quando a viu usando um véu, exceto no dia do serviço em memória de Fitzwilliam?

— Nunca.

Os dois fumaram. E pensaram.

— E o carrinho? Sentiu falta de algo parecido?

Charles balançou a cabeça.

— Ela nunca teve um carrinho de bebê. Mas pode tê-lo comprado com o dinheiro da venda do bracelete.

— Não acha que seria estranho comprar um objeto tão grande antes de embarcar em uma via­gem de trem?

— Tem razão. Mas pode ter sido um disfarce.

— É verdade. Alguém pegou as jóias e quis dar a impressão de que Jane as roubou.

— Quem? — De repente Charles inclinou o corpo para a frente.

— O que foi?

— Catherine! — E levantou-se de um salto. — Aquela...

— A atriz? Quando ela teria tido uma oportu­nidade para roubar as jóias?

— No dia em que esteve em casa esperando por Jane. Uma das criadas deve ter servido chá, e depois disso ela teve tempo para visitar os quar­tos antes que alguém voltasse à sala.

— Isso significa que não acredita que Jane tenha roubado as peças.

— Significa que não quero acreditar nisso.

— O que vai fazer?

— Vou encontrá-la. E a Helena. Por minha mãe.

— É claro. — Fitzwilliam sorriu. — Por sua mãe.

***

— Alguém procurou por mim enquanto estive fora?

O recepcionista do Hotel Silver encarou-o.

— Não, senhor.

— Se houver algum telegrama para mim, acorde-me, seja quando for.

— Sim, senhor.

Charles atravessou o saguão e subiu a escada sem notar a decoração elegante.

Passara o dia andando pelas ruas de Fort Wayde, procurando por uma mulher com um bebê, impaciente demais para esperar no quarto, e an­sioso por descobrir o paradeiro de Jane.

Seu contato na Pinkerton seguira as pistas até ali, e prometera que, caso ela não houvesse se­guido viagem, conseguiriam localizá-la em no má­ximo dois dias.

No quarto, tirou a casaca e a gravata e abriu as janelas. A cama já fora preparada para a noite e havia toalhas limpas no lavatório.

Terminou de despir-se e lavou-se com a água morna deixada na bacia, sentindo-se imediata­mente mais refrescado e confortável.

Depois retirou da carteira a carta que já havia decorado. A imagem de Jane o acompanhava aonde quer que fosse. Podia imaginá-la tão niti­damente quanto se estivessem juntos. Qualquer homem seria atraído por ela. E pelo menos um não fora capaz de resistir à atração.

Como ela conseguiria cuidar de si mesma e da filha?

Pensar que algo de ruim podia acontecer a uma delas era o suficiente para deixá-lo desespe­rado. Não fizera uma única refeição sem pensar nela, sem imaginar se havia comido naquele dia.

E não conseguia mais dormir sem tentar adi­vinhar onde ela passava as noites.

Seria forçada a fazer de tudo para sobreviver. E se havia algo que aprendera sobre Jane, era que ela era uma sobrevivente.

Dobrou a carta e deixou-a sobre o criado-mudo. Depois apagou a lamparina e deitou-se.

Onde ela estaria? Que pensamentos a afligiam? Arrependimento. Vergonha. Medo.

Na carta, ela dissera que tudo não passara de um mal-entendido, e que tivera a intenção de es­clarecer a confusão.

Então, por que não contara a verdade? Por que ele não havia dado uma oportunidade?

Lembrava o dia em que fora buscá-la no hos­pital. Ela o esperava sentada na cadeira de rodas, tensa e apreensiva, e ele assegurara que teria um lugar para viver e contara que já havia pago a conta do hospital e do médico.

Jane perguntara o valor da dívida.

Acabara de conhecê-lo, e já se descobrira endividada por conta de uma cadeira, roupas e um tratamento médico. E ele se mostrara impaciente e frio, ansioso para partir e voltar aos negócios.

Não, não oferecera uma chance à verdade. E sabia que não era exatamente um homem aberto e compreensivo, alguém com quem se pudesse con­versar de maneira relaxada e franca. Fora crítico e desconfiado ao tratar com a suposta Anne, e sem dúvida ela havia temido o que aconteceria quando descobrissem que não era Anne.

Então ela decidira contar tudo a Mary assim que chegassem. E o que a mãe fizera ao vê-los? Chorara e manifestara a necessidade de tê-los ali. Helena fora seu consolo, um bálsamo para o so­frimento e a angústia. E Jane reconhecera as circunstâncias. E fora incapaz de ferir uma mu­lher que já havia suportado todo o tipo de dor.

Quando pensava no tempo em que ela estivera hospedada em Mahoning Valley, entendia sua confusão e reticência. Não dizer a verdade tam­bém fora uma forma de demonstrar generosidade.

Não sabia o que teria feito se ela houvesse con­tado tudo naquele primeiro dia... ou na primeira semana... ou no primeiro mês. Cada novo dia que amanhecia envolvida com o segredo a afastava ainda mais da verdade, tornando mais difícil a tarefa de explicar os fatos. Não queria pensar que teria sido capaz de expulsar de sua casa uma jo­vem assustada com uma perna fraturada e uma recém-nascida nos braços. Odiava pensar que era do mesmo calibre que Morris Bennet.

Não era.

Mas opusera-se ao casamento de Fitzwilliam com alguém com o passado de Anne, não? Nunca apro­vara as amizades do irmão ou seu envolvimento com o teatro. Interpretara as escolhas de Fitzwilliam como um desperdício de energia e passara anos ten­tando convencê-lo a voltar ao lugar a que pertencia.

Charles levantou-se, enrolou o lençol na cin­tura e foi até a janela, deixando a brisa úmida refrescar a pele. Fora duro demais com Fitzwilliam. Jamais o elogiara pelas conquistas que não apro­vara, nem fora capaz de deixá-lo desfrutar dos períodos que passava em casa sem criticá-lo e fazê-lo partir novamente.

Se houvesse sido mais compreensivo, menos crí­tico, a rebeldia de Fitzwilliam não teria sido tão intensa.

Havia sido importante para o pai que a Fundição Bingley prosperasse, e que os filhos passassem os negócios para seus filhos. Charles sempre se esfor­çara para corresponder às expectativas, honrando a memória do pai e conquistando o orgulho da mãe, e por isso assumira as responsabilidades e o trabalho que teriam cabido a dois homens.

E ressentira-se contra Fitzwilliam.

Entendia o peso da culpa.

Lágrimas brotaram de seus olhos.

Várias mu­lheres usando os uniformes do hotel atravessaram o pátio sob a luz amarela de uma lamparina. Dis­traído, notou que eram quase dez horas, tarde demais para alguém estar deixando o trabalho, e voltou para a cama.

Esperava receber notícias no dia seguinte.

Por que encontrar Jane se tornara uma obsessão?

Porque estava preocupado com o bem-estar de uma jovem mãe e sua filha.

Porque não era como o pai dela.

Precisava esclarecer tudo entre eles e dizer que não a odiava, um temor que ela expressara na carta.

Por quê?

Porque a culpa e a vergonha pesavam em seu coração.

Precisava encontrá-la novamente. Tinha de mostrar a ela que seu lugar era ao lado dos Bingley... dele.

Por quê?

Porque...

Charles fechou os olhos e examinou o recanto mais secreto da alma.

Porque a amava.