Não Sou Quem Você Imagina!
48 Capítulo 48
Notas iniciais
[RECAPÍTULANDO]
E também viu algo mais. Compreendeu o que levara uma jovem expulsa de casa a embarcar em um trem cujo destino era a catástrofe. Entendeu por que ela se agarrara à bondade de Fitzwilliam como se ali residisse sua última esperança. Para alguém que havia recebido tanta crueldade do próprio pai, a benevolência de um estranho devia ter assumido a aparência de uma bênção.
E talvez houvesse sido.
— Tem razão — disse, contendo o tom de voz e lutando para manter a calma.
— Não tem mesmo uma filha. Um homem como você não merece essa alegria. Especialmente se essa filha for alguém como Jane.
— Leve o cadáver que veio buscar. Mas seja rápido.
— Cuidarei disso antes de deixar a cidade. E também tomarei providências para que todos os pertences de Jane sejam removidos de sua casa.
— Não há mais nada dela aqui.
— Está enganado, sr. Bennet. O espírito dela está aqui. As recordações. E vai ter de aprender a viver com elas.
***
Algumas noites mais tarde, Fitzwilliam foi encontrar Charles no escritório depois do jantar.
— Falei com Morris Bennet — ele contou depois de acender um cigarro.
— E o que descobriu?
— Agora sei por que Jane partiu. Aquele homem tem os olhos mais frios que já vi. Ele não é humano.
— E agora vai sentir pena dela como sua mãe?
— Apenas há entendo um pouco melhor.
— Entende o quê?
— Ela se sentia culpada. Por isso contratou a Pinkerton para localizar o corpo de Anne.
— Trouxe o corpo para cá?
Charles assentiu.
— Durante todos esses meses, o homem acreditou que a filha havia morrido em um acidente de trem. Fui procurá-lo, revelei que ela estava viva, e... foi como se a verdade não o convencesse. Ele preferia continuar acreditando na morte de Jane.
— Mas Jane encontrou a verdadeira Anne para você e sua mãe.
— E para Fitzwilliam.
— Ela não é a mulher que queria acreditar que fosse, é?
— O que quer dizer?
— Era mais fácil aceitar a fuga de Jane enquanto acreditava que ela só queria seu dinheiro. Agora que sabe que estava enganado, tudo se tornou mais difícil.
— Mas ela nos roubou.
— Ela disse que devolveria tudo que pegou, não?
— As jóias não faziam parte da lista de coisas que ela disse pretender devolver.
— É verdade. Jane mencionou a conta do hospital, as roupas, até as fraldas do bebê, prometendo devolver cada item, mas não disse nada sobre uma fortuna em jóias. Não acha isso estranho?
Achava. Jane não era a pessoa que havia acreditado. Cuidara da família Crane sem que ninguém houvesse pedido sua ajuda, sem esperar nada em troca, sem sequer deixar que ele soubesse. E transformara as roupas de Anne em objetos de utilidade para dezenas de pessoas.
Não pedira um único vestido para si mesma. Mary insistira para que ela aceitasse todas as roupas que considerava adequadas a uma mulher em sua posição.
— E é ainda mais estranho que tenha vendido primeiro o bracelete que foi da mãe dela — Charles respondeu. — A peça era importante para ela, mas vendeu-a antes de negociar as outras jóias.
— Não parece lógico. Tem certeza de que Caroline não foi a autora do roubo?
— Tenho. Além do mais, a esposa do joalheiro descreveu Jane.
— Como ela a descreveu?
Charles repetiu o que ouvira.
— Quando a viu usando um véu, exceto no dia do serviço em memória de Fitzwilliam?
— Nunca.
Os dois fumaram. E pensaram.
— E o carrinho? Sentiu falta de algo parecido?
Charles balançou a cabeça.
— Ela nunca teve um carrinho de bebê. Mas pode tê-lo comprado com o dinheiro da venda do bracelete.
— Não acha que seria estranho comprar um objeto tão grande antes de embarcar em uma viagem de trem?
— Tem razão. Mas pode ter sido um disfarce.
— É verdade. Alguém pegou as jóias e quis dar a impressão de que Jane as roubou.
— Quem? — De repente Charles inclinou o corpo para a frente.
— O que foi?
— Catherine! — E levantou-se de um salto. — Aquela...
— A atriz? Quando ela teria tido uma oportunidade para roubar as jóias?
— No dia em que esteve em casa esperando por Jane. Uma das criadas deve ter servido chá, e depois disso ela teve tempo para visitar os quartos antes que alguém voltasse à sala.
— Isso significa que não acredita que Jane tenha roubado as peças.
— Significa que não quero acreditar nisso.
— O que vai fazer?
— Vou encontrá-la. E a Helena. Por minha mãe.
— É claro. — Fitzwilliam sorriu. — Por sua mãe.
***
— Alguém procurou por mim enquanto estive fora?
O recepcionista do Hotel Silver encarou-o.
— Não, senhor.
— Se houver algum telegrama para mim, acorde-me, seja quando for.
— Sim, senhor.
Charles atravessou o saguão e subiu a escada sem notar a decoração elegante.
Passara o dia andando pelas ruas de Fort Wayde, procurando por uma mulher com um bebê, impaciente demais para esperar no quarto, e ansioso por descobrir o paradeiro de Jane.
Seu contato na Pinkerton seguira as pistas até ali, e prometera que, caso ela não houvesse seguido viagem, conseguiriam localizá-la em no máximo dois dias.
No quarto, tirou a casaca e a gravata e abriu as janelas. A cama já fora preparada para a noite e havia toalhas limpas no lavatório.
Terminou de despir-se e lavou-se com a água morna deixada na bacia, sentindo-se imediatamente mais refrescado e confortável.
Depois retirou da carteira a carta que já havia decorado. A imagem de Jane o acompanhava aonde quer que fosse. Podia imaginá-la tão nitidamente quanto se estivessem juntos. Qualquer homem seria atraído por ela. E pelo menos um não fora capaz de resistir à atração.
Como ela conseguiria cuidar de si mesma e da filha?
Pensar que algo de ruim podia acontecer a uma delas era o suficiente para deixá-lo desesperado. Não fizera uma única refeição sem pensar nela, sem imaginar se havia comido naquele dia.
E não conseguia mais dormir sem tentar adivinhar onde ela passava as noites.
Seria forçada a fazer de tudo para sobreviver. E se havia algo que aprendera sobre Jane, era que ela era uma sobrevivente.
Dobrou a carta e deixou-a sobre o criado-mudo. Depois apagou a lamparina e deitou-se.
Onde ela estaria? Que pensamentos a afligiam? Arrependimento. Vergonha. Medo.
Na carta, ela dissera que tudo não passara de um mal-entendido, e que tivera a intenção de esclarecer a confusão.
Então, por que não contara a verdade? Por que ele não havia dado uma oportunidade?
Lembrava o dia em que fora buscá-la no hospital. Ela o esperava sentada na cadeira de rodas, tensa e apreensiva, e ele assegurara que teria um lugar para viver e contara que já havia pago a conta do hospital e do médico.
Jane perguntara o valor da dívida.
Acabara de conhecê-lo, e já se descobrira endividada por conta de uma cadeira, roupas e um tratamento médico. E ele se mostrara impaciente e frio, ansioso para partir e voltar aos negócios.
Não, não oferecera uma chance à verdade. E sabia que não era exatamente um homem aberto e compreensivo, alguém com quem se pudesse conversar de maneira relaxada e franca. Fora crítico e desconfiado ao tratar com a suposta Anne, e sem dúvida ela havia temido o que aconteceria quando descobrissem que não era Anne.
Então ela decidira contar tudo a Mary assim que chegassem. E o que a mãe fizera ao vê-los? Chorara e manifestara a necessidade de tê-los ali. Helena fora seu consolo, um bálsamo para o sofrimento e a angústia. E Jane reconhecera as circunstâncias. E fora incapaz de ferir uma mulher que já havia suportado todo o tipo de dor.
Quando pensava no tempo em que ela estivera hospedada em Mahoning Valley, entendia sua confusão e reticência. Não dizer a verdade também fora uma forma de demonstrar generosidade.
Não sabia o que teria feito se ela houvesse contado tudo naquele primeiro dia... ou na primeira semana... ou no primeiro mês. Cada novo dia que amanhecia envolvida com o segredo a afastava ainda mais da verdade, tornando mais difícil a tarefa de explicar os fatos. Não queria pensar que teria sido capaz de expulsar de sua casa uma jovem assustada com uma perna fraturada e uma recém-nascida nos braços. Odiava pensar que era do mesmo calibre que Morris Bennet.
Não era.
Mas opusera-se ao casamento de Fitzwilliam com alguém com o passado de Anne, não? Nunca aprovara as amizades do irmão ou seu envolvimento com o teatro. Interpretara as escolhas de Fitzwilliam como um desperdício de energia e passara anos tentando convencê-lo a voltar ao lugar a que pertencia.
Charles levantou-se, enrolou o lençol na cintura e foi até a janela, deixando a brisa úmida refrescar a pele. Fora duro demais com Fitzwilliam. Jamais o elogiara pelas conquistas que não aprovara, nem fora capaz de deixá-lo desfrutar dos períodos que passava em casa sem criticá-lo e fazê-lo partir novamente.
Se houvesse sido mais compreensivo, menos crítico, a rebeldia de Fitzwilliam não teria sido tão intensa.
Havia sido importante para o pai que a Fundição Bingley prosperasse, e que os filhos passassem os negócios para seus filhos. Charles sempre se esforçara para corresponder às expectativas, honrando a memória do pai e conquistando o orgulho da mãe, e por isso assumira as responsabilidades e o trabalho que teriam cabido a dois homens.
E ressentira-se contra Fitzwilliam.
Entendia o peso da culpa.
Lágrimas brotaram de seus olhos.
Várias mulheres usando os uniformes do hotel atravessaram o pátio sob a luz amarela de uma lamparina. Distraído, notou que eram quase dez horas, tarde demais para alguém estar deixando o trabalho, e voltou para a cama.
Esperava receber notícias no dia seguinte.
Por que encontrar Jane se tornara uma obsessão?
Porque estava preocupado com o bem-estar de uma jovem mãe e sua filha.
Porque não era como o pai dela.
Precisava esclarecer tudo entre eles e dizer que não a odiava, um temor que ela expressara na carta.
Por quê?
Porque a culpa e a vergonha pesavam em seu coração.
Precisava encontrá-la novamente. Tinha de mostrar a ela que seu lugar era ao lado dos Bingley... dele.
Por quê?
Porque...
Charles fechou os olhos e examinou o recanto mais secreto da alma.
Porque a amava.
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