Não Sou Quem Você Imagina!
47 Capítulo 47
Notas iniciais

[RECAPITULANDO]
Principalmente depois que fraturou a perna naquele acidente. Para onde poderia ter ido? Como teria cuidado da... da... — Lágrimas encheram seus olhos. — Acha que ela vai continuar chamando a menina de Helena?
— Não interessa. Se está com tanta pena dela, pense em como Jane estaria pobre sem seus anéis, o colar e o bracelete, sem meu relógio e prendedor de gravata.
Caroline encarou-o com expressão chocada.
— O quê?
— É isso mesmo. A coitadinha roubou nossas joias antes de fugir.
— Tem certeza de que foi ela?
— Foi você?
— Charles! — Mary o censurou.
— Pode revistar meu quarto, se quiser.
— Talvez o faça.
— Se alguém houvesse me contado, eu não acreditaria — Mary comentou enquanto dobrava a carta. — Mas a mensagem é clara. — Ela se levantou e olhou para Charles com ar triste. — Sabe de uma coisa? Mesmo que pudesse voltar no tempo sabendo quem ela é, não teria agido diferente.
Mas Charles sabia que seu comportamento teria sido outro. Não se importaria com honra e consciência, por exemplo.
— Vou descansar — Mary avisou.
— Nunca imaginei que ela fosse capaz de roubá-los — Caroline disse com um movimento de cabeça.
Charles não respondeu. Estava furioso por não ter percebido, apesar de todos os sinais, por ter se deixado enganar com tanta facilidade. A tristeza da mãe, a amargura que vira em seus olhos, não ficaria impune. Encontraria Helena para que ela tivesse certeza de que a menina estava bem.
Encontraria Jane Bennet.
***
Na manhã seguinte, Charles voltou à joalheira de Howard Gramb. Interrogou-o sobre a jovem que havia ido vender o bracelete, mas não descobriu nada de novo.
Esteve na estação ferroviária e não encontrou nenhum registro de Jane Bennet ou Anne Bingley. O funcionário dizia lembrar-se vagamente de uma mulher como a que ele descrevera carregando um bebê, mas vendia muitas passagens todos os dias, e não conseguiria dizer para onde uma pessoa em especial viajara. Talvez para o oeste.
Determinado, Charles repetiu as visitas às joalherias. Dessa vez encontrou uma mulher em uma delas com quem não havia falado antes.
— Sou Charles Bingley — apresentou-se.
— Como vai? Em que posso ajudá-lo, senhor?
— Estive aqui antes e conversei com um homem...
— Meu marido. Eu cuido da loja quando ele tem de sair para resolver algum negócio.
— Entendo. Deixei meu cartão com seu marido e pedi para ser notificado caso alguém aparecesse tentando vender algumas peças. — E mostrou a lista que havia elaborado.
— Não sabia sobre sua solicitação. As peças que descreve foram trazidas à loja há dois dias.
Finalmente uma pista!
— E vocês as compraram?
— Sim.
— Quem as vendeu?
— Uma mulher.
— Pode descrevê-la, por favor?
— Bem, ela estava de luto. Não pude ver seu rosto por causa do véu.
— Mais alguma coisa?
— Ela carregava um bebê num carrinho. A criança estava dormindo.
— Entendo. — A última esperança caíra por terra. Ela roubara as jóias e fugira. — Gostaria de comprar as peças, por favor.
— Todas?
— A menos que queira simplesmente devolvê-las, já que me pertencem.
As palavras a surpreenderam.
— Oh... não. Vou buscar as jóias no cofre.
Charles efetuou a compra. A única peça que faltava no lote era um anel.
— Já vendeu alguma jóia? Um anel?
— Não. Tudo que compramos está aí.
Ele fechou a bolsa de cetim e guardou-a no bolso da casaca.
***
Mary aceitou as jóias sem nenhuma demonstração de emoção. A falta de ânimo assustava Charles. A mãe havia lidado com a morte do marido e de um filho, e de repente se comportava como se não pudesse mais suportar a dor e o sofrimento.
Jane vendera as peças dois dias antes. Isso significava que só saíra de Hampshire depois disso. Charles investigou todos os hotéis sem sucesso. Talvez ela houvesse voltado para a casa do pai.
Era impossível concentrar-se no trabalho. Estava sentado atrás da mesa, o queixo apoiado sobre as mãos e o olhar perdido, quando Fitzwilliam bateu na porta e entrou.
— Algum problema? — o amigo perguntou ao vê-lo tão abatido.
— Não.
— Sente-se bem?
— Sim. — Fingiu estudar os papéis espalhados sobre a mesa, mas soube que não obtinha muito sucesso.
Fitzwilliam jogou um envelope sobre a mesa.
— Achei que devia dar uma olhada nisso.
— De que se trata?
— Acabei de passar pelo telégrafo. Sam Pierce estava guardando essa correspondência para... para Anne. Ou Jane. Ela o instruiu para não entregar a mensagem a mais ninguém, mas quando revelei que ela havia deixado a cidade, Sam decidiu me fazer assinar o recibo.
Charles abriu o envelope e leu o telegrama.
— É da Agência Pinkerton. Contratei os serviços de um detetive de lá para investigar a vida de Anne. Eles localizaram um corpo que acreditam ser de Anne Bingley. A jovem está enterrada em um cemitério em Londres. Como... Jane Bennet!
****
— Londres
Charles parou diante do edifício de três andares e bateu com a argola de bronze pendurada na porta dupla de madeira laqueada. Um criado o atendeu.
— Sr. Bingley?
— Sim.
— O sr. Bennet o espera. Por aqui.
Charles seguiu o empregado pelo hall até uma biblioteca mobiliada com sobriedade. Um homem corpulento e de cabelos grisalhos levantou-se para apertar sua mão. Os olhos eram azuis como os de Jane, porém frios.
— Não anunciou o assunto que o traria até aqui em sua mensagem — ele comentou sem preâmbulos.
— Não. Trata-se de uma questão delicada, e pensei que seria melhor falar pessoalmente.
— E veio de Hertfordshire para falar comigo?
— Sim.
— Deve ser importante. Algo relacionado a sua fundição?
Charles não se surpreendeu ao descobrir que havia sido investigado. Teria feito o mesmo.
— Não. O assunto refere-se a sua filha.
— Não tenho nenhuma filha.
— Eu sei que tem.
A expressão de Morris Bennet se tornou ainda mais dura.
— Se não veio falar sobre investimentos, não tenho mais nada a dizer.
— Estou aqui para falar sobre Jane.
— Se veio assumir a responsabilidade por sua indiscrição, receio que seja tarde demais.
As palavras o pegaram de surpresa. Estava sendo acusado de seduzir e abandonar uma mulher?
— Vim trazer notícias chocantes — respondeu exasperado.
— Que notícias? Não foi o primeiro?
— Jane ainda está viva.
O homem sentou-se e acendeu um cigarro.
— Jane e seu bastardo estão mortos.
A crueldade de Bennet era revoltante.
— Está enganado. Enterrou minha cunhada e o filho dela naquele túmulo. Não reconheceu o corpo, não é?
— Não.
— Alguém identificou o cadáver?
— Tudo aconteceu semanas depois do acidente. Fui notificado, e depois recebi o corpo e a bagagem. Sabia que era aquela menina estúpida. Enterrei-a ao lado da mãe dela.
— Entendo que não tenha sido capaz de reconhecê-la. E sei que os baús serviram para assegurar que o corpo era de sua filha. Mas aquela jovem não era Jane.
Charles explicou a situação com todos os detalhes, sem mencionar o que sentia por ela.
— Como vê, sua filha ainda está viva.
— Está enganado, sr. Bingley. — Ele se levantou. — Minha filha morreu. Morta, não poderá destruir minha reputação nesta comunidade financeira. Tenho clientes importantes, gente que investe comigo desde que comecei no ramo, há mais de trinta anos, e não permitirei que as opções infelizes de uma menina inconseqüente destrua tudo que construí com muito trabalho e esforço. Minha filha morreu no dia em que me desafiou e desonrou o bom nome da família.
— Quer dizer que dá mais importância às aparências e ao dinheiro do que a sua filha?
— Não tenho filha. Pelo que sei, aos olhos desta cidade, Jane Bennet está morta.
Naquele momento, Charles viu no rosto de Morris Bennet toda a ambição, a frieza e a obstinação que guiavam a vida de um homem cuja única preocupação era o sucesso financeiro e profissional. E reconheceu nele o ser em que quase se transformara.
E também viu algo mais. Compreendeu o que levara uma jovem expulsa de casa a embarcar em um trem cujo destino era a catástrofe. Entendeu por que ela se agarrara à bondade de Fitzwilliam como se ali residisse sua última esperança. Para alguém que havia recebido tanta crueldade do próprio pai, a benevolência de um estranho devia ter assumido a aparência de uma bênção.
E talvez houvesse sido.
— Tem razão — disse, contendo o tom de voz e lutando para manter a calma.
— Não tem mesmo uma filha. Um homem como você não merece essa alegria. Especialmente se essa filha for alguém como Jane.
— Leve o cadáver que veio buscar. Mas seja rápido.
— Cuidarei disso antes de deixar a cidade. E também tomarei providências para que todos os pertences de Jane sejam removidos de sua casa.
— Não há mais nada dela aqui.
— Está enganado, sr. Bennet. O espírito dela está aqui. As recordações. E vai ter de aprender a viver com elas.
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