Notas iniciais
Olá meninas, como vão? Desculpa pela demora, mas aqui estou eu. Muito obrigada por todos os comentários deixados para a minha pessoa, lembrando que quem quiser fazer parte do grupo do whats, é spo deixar o tel com ddd, att

[RECAPITULANDO]

A lembrança dos beijos ardentes e das carícias excitantes estariam sempre com ela. Jamais esque­ceria o rosto sorridente e relaxado que conhecera no dia do piquenique. Se já não o amasse, teria se apaixonado naquele dia. Charles era incomparável.

Sabia que o mundo estava repleto de homens bonitos e atraentes. Alguns eram bondosos e tal­vez até encontrasse um capaz de amá-la e prote­gê-la. Mas não haveria outro Charles. E por isso não poderia se casar. Não poderia passar o resto de seus dias vivendo com outro homem, dormindo em sua cama e tendo seus filhos, enquanto o coração sangrava por Charles. Era ele que amava. Era ele que desejava. E era ele que jamais poderia ter.

Se fosse preciso, voltaria ao trem e iria procurar trabalho ainda mais longe, a oeste dali.

Jane mergulhou num sono pesado. Sonhou com um homem de cabelos e olhos claros. E acor­dou uma hora mais tarde com o som dos gritos estridentes e o cheiro sufocante de fumaça.

****

Jane estava do lado de fora com os outros hóspedes, o corpo envolto por um cobertor a bem da modéstia. A noite de verão era quente, e a camisola de algodão aderia à pele úmida. Apoiada em seu ombro, a cabeça de Helena estava molhada de suor.

Segurava-a com um misto de temor e proteção, observando enquanto voluntários encontravam a origem do fogo atrás de uma fileira de prédios. Tremia de cansaço e pavor.

— Esta vai ser uma noite curta — uma das mulheres comentou.

A dona da pousada apareceu vestindo um robe de tecido muito fino, uma peça estranhamente ina­dequada para uma mulher tão simples e discreta.

— Muito bem, garotas, voltem para cima. O incêndio aconteceu nos apartamentos sobre a loja de sapatos vizinha. A situação está sob controle.

Jane seguiu as outras hóspedes pela escada externa e voltou ao quarto abafado no segundo andar. O lugar apertado e sem ventilação cheirava a fumaça.

O fogo podia ter atingido a hospedaria. Ou a fumaça podia tê-las sufocado. Ela e Helena po­diam ter morrido ali. Sozinhas. Sem que ninguém soubesse quem eram ou de onde vinham.

Criando um travesseiro com o cobertor, acomo­dou-se na cama estreita e tentou dar mais espaço ao bebê. Não pensaria em Mahoning Valley, na casa dos Bingley e no conforto e na segurança que conhecera lá. Por pior que fosse, essa era sua vida agora.

Se houvesse morrido, seu corpo seria enterrado ao lado de estranhos. O pai jamais seria informado sobre sua morte. Ou ele já acreditava que a filha estivesse morta? Teria chorado sua ausência? Pen­sando nisso, imaginou se o detetive que contratara havia conseguido descobrir o paradeiro do corpo de Anne. Lamentara não poder dar essa infor­mação aos Bingley. Pensando bem, talvez não merecesse condições melhores do que aquelas em que estava vivendo.

A solidão e a culpa seriam suas companheiras até o fim de seus dias. Era melhor se acostumar com elas.

***

O secretário de Charles bateu na porta do es­critório antes de entrar.

— A srta. De Bourge está aqui novamente, sr. Bingley. Ela deseja vê-lo.

— Disse a ela que estou ocupado?

— Sim, senhor, mas a mulher é persistente.

— Como se eu não soubesse! Esta é a terceira visita em um mês. Diga a ela que...

— Por que não diz pessoalmente? — Catherine per­guntou da porta.

O rapaz olhou para o chefe com expressão apavorada.

— Tudo bem, eu cuido disso — Charles tranqüilizou-o.

Assim que o jovem saiu, Catherine entrou na sala e, sem esperar por um convite, sentou-se em uma das cadeiras diante da mesa.

— Se não fosse tão segura, pensaria que está me evitando.

— Tenho uma fundição para administrar, srta. de Bourge.

— Mas deve parar para o almoço.

— Não realmente.

Graciosa, ela se levantou e apoiou o quadril num canto da mesa, inclinando-se sobre o móvel para chegar mais perto de Charles.

Ele permaneceu onde estava. O perfume floral e adocicado invadia suas narinas, provocando uma desagradável reação.

— Você parece ser o tipo de homem capaz de apreciar um pouco de diversão durante o dia. — Deslizou um dedo pela lapela da casaca e pres­sionou os seios contra o peito musculoso. — Não precisamos almoçar de verdade.

Charles recuou, e ela teve de se esforçar para não cair. Um rubor intenso tingiu seu rosto.

— Se o problema é a dívida contraída pela sra. Bingley, por que não me deixa saldá-la de uma vez?

Ofendida com a rejeição, ergueu o queixo para encará-lo.

— Você é um homem denso. Sabe disso?

— Não tanto quanto acredita. Desde sua pri­meira visita percebi que estava disposta a sedu­zir-me. Não sei mais como lidar com essa desa­gradável situação sem ser grosseiro, e por isso continuo recusando suas ofertas. Não estou inte­ressado em um relacionamento, srta. De Bourge.

O rosto e o pescoço da atriz queimavam de ver­gonha. Ou seria humilhação? Raiva, Charles de­duziu ao vê-la levantar-se de um salto.

— Canalha arrogante! Está pensando que é bom demais para alguém como eu? Só porque sou uma atriz, não me considera digna de suas atenções? Pois saiba que a esposa de Fitzwilliam também pertencia ao mesmo grupo. Ela não era melhor que eu!

— Não era?

— Olhe só para você! O desprezo está estam­pado em seu rosto!

— O sentimento não é provocado por sua for­mação ou ocupação.

Ela se adiantou e ergueu a mão para esbofeteá-lo, mas Charles segurou seu pulso.

— Sentiu orgulho quando levou sua preciosa Anne para jantar e assistir à produção teatral? — Foi com desdém que pronunciou o nome. — Acredita que ela é melhor que eu? Pensa que tem mais classe do que a verdadeira Anne?

— Verdadeira Anne? O que está querendo dizer?

— Sua querida loura não passa de uma farsa! — Riu. — Conheci Anne Patrick em Londres. E a mulher que hospedou em sua casa não era ela.

— Do que está falando?

— Anne tinha cabelos vermelhos e sardas no rosto, pernas longas e corpo exuberante. Aquela garota delicada e esguia não é ela. Vê como estava certa ao dizer que é um homem denso, sr. Bingley? — E virou-se para partir. Charles segurou-a pelo braço mais uma vez.

— Espere um minuto. Não pode dizer todas es­sas coisas e ir embora.

— Quer que eu seja mais clara? Pois bem. A mulher por quem ardia na noite em que os en­contrei no restaurante não é Anne Patrick. Não sei quem ela é, mas conheci Anne. E conheci Fitzwilliam também. Ele não era arrogante como você. Sabia como apreciar as coisas boas da vida.

Charles encarou-a e notou as linhas em torno dos olhos e da boca, marcas do tempo que ela tentava encobrir com maquiagem.

— Por que acreditaria em você?

— Não precisa acreditar em mim. Não faz di­ferença. — Soltou-se e deu alguns passos antes de parar. — Por outro lado, de quantas provas precisa para enxergar a verdade?

— Que tipo de provas?

— Provas concretas. Positivas.

Era evidente que ela não diria mais nada.

— Estou disposto a saldar a dívida de Anne.

— Realmente? Ela me devia mil dólares.

Charles abriu a gaveta da escrivaninha, pegou uma caneta e assinou um cheque.

Catherine estendeu a mão para o pedaço de papel, mas ele tirou o documento de seu alcance. Encarando-a, esperou que a tinta secasse, sentindo pra­zer em provocá-la.

— Primeiro a prova. Depois do dinheiro.

Catherine abriu a bolsa, pegou um envelope e jo­gou-o do outro lado da sala. O volume bateu contra a parede e caiu no chão.

— O que é isso?

— Uma carta de despedida.

Charles caminhou até o local onde o envelope havia caído e pegou-o. Seu nome e o de Mary es­tavam escritos sobre o papel pardo. O lacre fora removido. Sem pressa, removeu a folha contida dentro dele e desdobrou-a.