Não Sou Quem Você Imagina!
29 Capítulo 29
Notas iniciais

[RECAPITULANDO]
— Pois de agora em diante, quero um relatório completo de cada lugar onde a sra. Bingley estiver.
— Qual sra. Bingley, senhor?
— A mais jovem.
— Sim, senhor.
Charles aproveitou a viagem para refletir.
Por que Anne possuía tantos vestidos ousados, quase grotescos? Se era apenas um caso de preferência pessoal, por que os doara?
O fato de ninguém tê-lo informado sobre suas visitas à casa dos Crane o incomodava. Essa atitude, combinada ao fato de tê-la encontrado em seu quarto naquela manhã, a tornava mais merecedora de sua desconfiança do que acreditara até então.
Anne estava tramando alguma coisa? Mas o quê?
***
Jane não sabia o que fazer. Enquanto esperava pelo retorno de Gruver, caminhava pelo pátio diante da casa sem dar importância à dor na perna, sem se dar conta das nuvens escuras que encobriam o céu.
Ter sido surpreendida por Charles em seu quarto havia sido como viver um pesadelo medonho. Cair em seus braços e beijá-lo fora a realização do mais doce sonho. Mas ainda não fazia sentido.
Oh, ele estivera zangado. Até o beijo havia sido furioso.
Por que não a repelira? E por que a demonstração de contrariedade não a detivera?
Por que ele a beijara?
Que dia!
A preocupação com a chegada da mãe de Anne a impedira de dormir nas duas noites anteriores. Depois de entrar e sair dos aposentos de Charles por duas vezes, sentira-se tão confiante que havia se descuidado da segurança.
Sentia um certo alívio. Fora descoberta. Charles nunca mais confiaria nela. E jamais teria outra oportunidade de fazer algo parecido.
Mas o beijo... Vira o desejo em seus olhos, e mesmo assim não tivera forças para resistir.
Não. Oferecera-se como um cordeiro ao sacrifício.
E apreciara cada minuto.
Jane parou e levou as mãos ao estômago.
Que tipo de mulher era ela para desejar um homem tão intensamente?
Já havia sofrido as conseqüências por ter deixado outro homem convencê-la a abrir mão do bom senso. Permitira vergonhosas liberdades com William.
Teria o episódio e o rancor do pai servido para transformá-la em uma espécie de libertina?
O rosto corou de vergonha.
Seria uma dessas mulheres tolas que acreditava amar todos os homens que conhecia?
Charles nem era digno de amor.
O coração acelerado contradizia o pensamento.
Era uma idiota por permitir-se pensar nele naquele momento. Estava indo à estação ferroviária para encontrar a mulher que selaria seu destino com os Bingley.
E se a mandassem para a prisão por ter se passado por um membro da família?
O som dos cascos dos cavalos e o ranger das rodas a alertaram para a aproximação da elegante carruagem negra puxada pelos belos animais da mesma cor. Gruver desceu e foi abrir a porta, baixando a escada.
— Desculpe o atraso, senhora. O sr. Bingley saiu mais tarde que de costume esta manhã.
Como se não soubesse!
— Não se preocupe, Gruver. Ainda temos tempo. A propósito... Minha perna está doendo muito esta manhã. Por favor, peça a um funcionário da estação para localizar a sra. Patrick. Quando encontrá-la, traga-a à carruagem, onde estarei esperando.
— Sim, senhora.
O trajeto até a estação foi breve, apesar de terem levado quase uma hora para concluir a viagem. Jane ensaiou as palavras que diria quando a sra. Patrick chegasse procurando pela filha.
Gruver deixou-a sozinha para ir procurar pela visitante. Temendo desmaiar, ela respirou fundo e tentou controlar-se.
O véu negro impediria a mulher de ver seu rosto até estar acomodada. Então Gruver já estaria em seu lugar, conduzindo a carruagem para longe da estação.
Ouviu a voz de um funcionário gritando o nome da sra. Patrick. O som ecoou acima de todos os outros ruídos da estação, penetrando em seu cérebro como um grito estridente.
Jane olhou para as pessoas reunidas na plataforma, ouviu o sibilar do vapor que escapava de um motor. O barulho de metais retorcidos e todo o horror daquela noite retornaram à memória em uma avalanche de cenas confusas, e ela teve de fechar os olhos para superar uma súbita vertigem.
Respirando fundo, não abriu os olhos enquanto não apagou da mente a visão aterrorizante. Dois homens vestidos de negro carregando uma forma estranhamente embrulhada destacaram-se da multidão, e ela ergueu os ombros. Os passos do lado de fora anunciaram que estavam bem perto. O estômago ameaçou rebelar-se.
A porta se abriu.
Ela manteve a cabeça baixa.
Alguém gemeu.
Uma voz masculina resmungou um impropério.
O farfalhar de tecidos tornou-se mais alto, a carruagem oscilou e as costas de Gruver surgiram em seu campo de visão.
Jane levantou a cabeça.
O motorista havia entrado no veículo e, com as duas mãos sob os braços da mulher, puxara-a para dentro com dificuldade. O suor ensopava seu rosto enquanto ele tentava ajeitar as pernas imóveis dentro da carruagem.
A mulher estava morta?
Jane olhou para a estranha passageira. O chapéu de Gruver caiu e um funcionário da estação pisou nele ao introduzir a metade superior do corpo no veículo. Depositaram a carga imóvel no banco à frente de Jane e a deixaram ali, as pernas estendidas sobre o banco e um braço caído, a mão quase tocando o chão.
O funcionário da estação desceu e Gruver o seguiu, recolhendo o chapéu e tentando desamassá-lo com os dedos.
O chapéu da desconhecida caíra para o lado, revelando cabelos ruivos com grandes mechas grisalhas. A boca permanecia aberta e ela roncava. O cheiro de álcool invadiu os sentidos de Jane, que olhou da passageira embriagada para o motorista.
Gruver parecia embaraçado... por ela!
E tinha todo o direito de estar. Pensava que a mulher fosse sua mãe!
O odor de bebida embrulhava seu estômago. Talvez a pobrezinha não suportasse o balanço do trem e bebesse para suportar a viagem. No entanto, ela não parecia ter ingerido apenas uma ou duas doses para acalmar-se. Mas podia ser pior. Pelo menos, ninguém além de Gruver testemunhara o estado lamentável em que chegara.
Depois de quase uma hora ouvindo o ronco irritante, chegaram em casa.
Gruver desceu e abriu a porta do veículo.
— Lá em cima, senhora?
— Receio que sim. Sinto muito. Pouparia suas costas se houvesse outra solução, mas não quero deixá-la aqui, ou na sala, até Charles chegar.
— Tem razão. Não se preocupe, sra. Bingley. Posso levá-la, e o sr. Bingley jamais saberá.
— Obrigada.
Jane subiu a escada para abrir a porta do quarto enquanto o motorista carregava a mulher embriagada com evidente esforço. Ele deixou a sra. Patrick sobre a cama e respirou fundo, como se precisasse repor as forças que perdera no caminho até ali.
— Creio que vou descansar um pouco antes de trazer a bagagem, senhora.
— Sim, é claro. Vou conversar com Penélope e a sra. Pratt para que elas providenciem um jantar especial esta noite. Ou melhor, seu jantar será especial durante o resto da semana.
Ele sorriu e saiu.
Jane olhou para a mãe de Anne com expressão horrorizada.
E agora?
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