Não Mais Que Um
1 Sem Culpa
Notas iniciais
Aliás, é a primeira história que eu posto, então estou bastante aberto a críticas. Eu não pensei muuuito no roteiro inicialmente, mas já tenho uma noção de como quero trabalhar em cima do mesmo.
Caso se sintam perdidos (o que acho difícil), no início se trata da voz narrativa do protagonista. Acho que é isso... o texto tá fácil de entender, simples como eu quis, e espero que gostem, até :D
Um quarto vazio, ou melhor, meio cheio, diga-se de passagem. ” Por que então meio cheio?”, talvez você se pergunte. E a resposta seria: Quase nem mesmo eu sei. Mas é sim esse meio cheio aos meus olhos. Deves conhecer aquela incômoda sensação de desajuste. Olhar o teto e ver nada além de lembranças inconvenientes, mas mesmo vivo continuar o ensejo de reviver tudo.
As caixas estão lá fora, a mobília já foi levada. Toca CkY – 96 Quite Bitter Beings no rádio, ao final do corredor paralelo ao quarto. E eu só quero passar mais alguns minutos aqui, deitado, olhando as paredes manchadas desse antro de angústia. Sei lá. Talvez eu esteja sendo um pouco pessimista, como de costume, mas é um momento só meu. Não tão raro, mas é bem nesses mergulhos que encontro meu rumo.
Agora, você deve estar cansado de tanto drama, imagino. Bem, de drama eu já sou cheio, então recomendaria que parasse de me ouvir a partir desse ponto se você realmente espera muito de mim. Se és tão teimoso quanto imagino, então, boa sorte, drama é o “de mais” aqui.
Normalmente se começa do começo, não é? Hm... O começo é o mais difícil de lembrar. Não costumo me ligar muito em pequenos detalhes, e o começo, creio que é o de menos. Mas acho que se for tomar como referência o começo dos meus problemas, seria no comecinho de 1991, há uns nove anos atrás, quando eu tinha uns 13 anos de idade. Eu, meus pais e meus irmãos acabávamos de nos mudar pra essa casa na Região Metropolitana de São Paulo. Era nada sutil a diferença da minha casa anterior. Gostávamos dela, mas meu pai teve que se mudar por conta do trabalho dele. Não lembro com o que ele trabalhava na época, mas tanto faz. Me senti meio deslocado nesse novo ambiente, havia deixado parentes e amigos de longa data no estado em que morava anteriormente, e precisei me adaptar ao novo ambiente, apesar de algumas dificuldades que surgiram ao longo do caminho. Enfim, é o bastante. Comecemos as gravações.
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“2 de Fevereiro de 1991,05:47, Casa do Oliver”
- Oooooooliiiverrrrrr! Vewgha cá agorba– Gritou o homem parrudo, visivelmente alterado pelo que havia bebido há uns minutos.
O que você quer, coroa? – Respondeu o garoto, esfregando os olhos, sonolento, enquanto se dirigia à sala para se encontrar com seu pai jogado no sofá com algumas garrafas de cerveja no chão.
— Vae la comprar maixx cerva. Meu ezztoque acabou. – Ordenou o coroa, aos arrotos, enquanto coçava a barba mal feita.
Oliver não tinha uma relação muito boa com o pai desde que o mesmo começou a ter problemas com bebidas. O garoto não tomava nenhum posicionamento quanto a isso pra não gerar mais problemas. Mas de fato, não era o suficiente.
- Tá espegrando o ghue, garoto?! Vai agwora! – Com autoridade falou o homem, por pouco não levantando para bater no filho.
Oliver seguiu para o portão da casa com as chaves, após colocar uma camisa e pegar umas notas de cruzeiros na mesa da cozinha.
- Filho, onde você vai? – Perguntou a mãe ao olhar o filho passar, com o canto do olho. Deu uma pausa após não ouvir resposta. – Não se esqueça de levar a Bia pra escola quando voltar. – O garoto assentiu com a cabeça, meio desconfiado, antes de pegar seu caminho para a rua.
Faltava algum tempo antes do ponteiro do relógio bater as seis, mas a avenida já se encontrava um tanto quanto movimentada. Umas poucas lojas preparavam-se para abrir, mas a maioria, mais especificamente os mercados e padarias, já se encontravam de portas abertas. Oliver andava em passos largos, se agasalhando com os braços, até esbarrar em um sujeito que acabara de cair de sua bicicleta.
- Droga! – Berrou o jovem, que aparentemente tinha lá seus dezoito ou dezenove anos – Droga, velho, droga, foi mal mesmo. Me perdoa aí! – Após levantar da queda, o ruivo seguiu seu caminho, tirando um olhar confuso de Oliver, que percebera então que já se encontrava há duas quadras do mercado.
O garoto não era de muitas palavras. Calmo, acima de tudo, costumava só trocar uma ou duas palavras com a maioria das pessoas com que tinha contato. Com exceção daquele velho repugnante, claro. E seus amigos de infância, embora de fato não conversasse com tanta frequência com eles, ainda mais após ter se mudado. Hoje seria seu primeiro dia de aula em um lugar totalmente novo, com pessoas diferentes. Espantosamente, não se sentia receoso quanto a isso. Fosse o que tivesse de ser.
- Hm... finally. – Oliver entrou no mercado, logo perscrutando cada fileira para avistar a ala das bebidas. Caminhou até lá, em passos lentos, e parou em frente às garrafas de cerveja. Ao lado dele, há uns quatro ou cinco metros se encontrava um grupo de punks, uns cinco deles, rindo e conversando em alto e bom tom.
- Aí, Leandro, conta daquela vez que você deixou aquela putinha do colegial se engasgando no vômito no meio da festa – O punk risonho se dirigia a um jovem com cara de sono, cabelo bagunçado, que segurava um cigarro de maconha entre os dedos. Oliver sondou o mesmo dos pés à cabeça, e de alguma forma se sentiu mal.
- EI! Vocês aí! Não é permitido fumar dentro do estabelecimento – Advertiu um velho, provavelmente o zelador. O jovem sonolento jogou o cigarro no chão. Oliver saiu de seus devaneios após sentir a mão de alguém em seu ombro. Virou-se, e deu de cara com o mesmo ruivo que encontrara no meio do caminho.
- E aí, velho. – Cumprimentou o ruivo, com um sorriso estampado no rosto. Oliver deu um sorriso, por educação, de volta. – Você tá precisando de algo? Acho que posso comprar pra compensar a porrada que te dei. – Oliver olhou pros lados, e apontou para as cervejas. Era claro que seria barrado se tentasse comprar alguma bebida de teor alcoólico. O favor do rapaz lhe seria conveniente. – Ah, tudo bem. Mais alguma coisa? – Oliver negou, e os dois prosseguiram para o caixa.
- Você não parece ser daqui. Sei lá, tem um ar diferente. Tem nome? – Perguntou o ruivo. – Oliver. Sou de PE. – Ah. Sim. Que diferente. Meu nome é Lucas. Prazer.
Era visível um pouco de nervosismo por parte de Lucas. Oliver tentou decifrar a razão. Saíram do mercado com a compra em mãos.
- Você é de menor? – Interrogou Oliver, olhando para o ruivo, que assentiu com um sorriso amarelo. – Anram. Fiquei com um cagaço tremendo comprando a cerva. Aliás, foi mal por agir tão estranho assim. Eu vi você chegando lá na vizinhança e não tive coragem de falar contigo, então, bem, agora tive a oportunidade, né. – Ficaram em silêncio por uns segundos. – Cê conhece o Luís de Neves, não é? Não tem muitas escolas estaduais nas redondezas. Imaginei que cê também fosse estudar lá. – Sim – respondeu o garoto. – Ah, legal, te vejo lá então, Oliver!
O cabeça de fogo partiu, enérgico, com a bicicleta. Oliver levantou uma sobrancelha, em dúvida. Certamente não esperava passar por um momento estranho como aquele. Voltando ao foco, procurou voltar para casa.
“2 de Fevereiro de 1991, 11:40, Casa do Oliver”
Oliver passou algum tempo revirando as caixas da mudança. Desempacotou os livros, que por sinal eram muitos. Sempre fora apaixonado pela leitura, e talvez, pensou, gostaria de seguir o rumo do jornalismo, ou mesmo ser um escritor independente. Seu livro favorito era O Pequeno Príncipe, apesar de o exemplar estar inteiramente em inglês, conseguia ler alguma coisa graças ao tio inglês James, que fazia visitas mensais. Inclusive fora o mesmo que presenteou o livro a Oliver, talvez esta a razão pela qual o garoto tinha tanto zelo pelo livro. Gostava bastante do tio, um rapaz enérgico e que sempre que possível lhe trazia alguma novidade. Daqui a cinco dias seria aniversário da sua mãe, então o tio James viria novamente.
Continuou a revirar as caixas, e achou em meio delas uma mixtape (fita com compilação de músicas). Botou-a no tocador ao lado da escrivaninha com sua televisão e seu Master System que também ganhou do tio. No mix tinha algumas músicas do Nirvana, Queen e uma ou duas do The Cure. Jogou-se na cama, e olhando para o teto de madeira, emergiu em seus pensamentos. Lembrou-se dos amigos, primos, avós e tios que deixou para trás, e como iria recomeçar tudo na nova cidade. Decidiu que não pensaria muito sobre isso. Provavelmente já fizera um amigo, isso era uma prova de que daria tudo certo. Passou cerca de dez minutos ali, até que subitamente levantou num pulo.
- A escola! – Exclamou, passando a mão entre as lisas madeixas negras. Correu para se aprontar, chegaria atrasado ao primeiro dia de aula. A escola ficava há um quarteirão, mas ainda precisava se arrumar.
“Mesmo dia, 12:13, Escola Estadual Luís de Neves”
O garoto passara da entrada, e pela quantidade de alunos no saguão, deduziu que a cerimônia de boas vindas ainda não havia acabado. Sentiu-se aliviado. Em meio à multidão, foi parado por um senhor com seus cinquenta anos, calvo e de olhos fundos.
- Chegou atrasado, rapaz. Veja se não comete o mesmo erro nos próximos dias. A tolerância é de 3 minutos, depois disso o portão fecha. – Disse o homem com voz de autoridade. Um frio percorreu a espinha de Oliver, e desejou não ter mais problemas com ele. Deveria ser o diretor ou algo parecido.
Ao contrário do que Oliver pensara, se ajustar no meio de tantas pessoas seria bem trabalhoso, não sabia aonde ir ou com quem falar. Já era um começo péssimo, pelo menos para ele. Decidiu seguir o caminho ao qual alguns alunos mais velhos voltavam. Andou em passos curtos, tremendo e suando, até chegar a um pátio enorme, onde se concentrava a maioria dos estudantes. Em frente à multidão estava uma coroa alta e magra com um nariz engraçado e do seu lado um homem baixinho e bronzeado, com um aspecto dócil, ambos bem vestidos.
- Então, concluído o pronunciamento do coordenador Júnior a respeito dos horários, venho me apresentar. Meu nome é Clotilde de Neves, neta do fundador da escola e atual vice-diretora. Serei gentil com vocês, mas apenas se vocês cooperarem. E é o que espero, já que terão um ano bastante insuportável caso não sigam as normas corretamente. Ah, por falar nelas, aí vai a lista. – Oliver ouvia atentamente a senhora rabugenta, até avistar Lucas com um grupo de amigos. Aproximou-se silenciosamente, até o jovem notar a presença do mesmo, esboçando um sorriso no rosto.
- Olha só quem chegou! Gente, esse cabeludo aí com pinta de rockstar é o Oliver. O conheci quando trombei de bicicleta hoje de manhã. – Os garotos que acompanhavam o ruivo aparentavam ter a mesma faixa etária de Oliver, o que o levou a crer que Lucas também era um novato, apesar da aparência.
Um garoto era tão baixinho e branquelo quanto Oliver, tinha cabelos loiro médio com formato de tigela na altura dos ombros e óculos de fundo de garrafa. O segundo também era loiro, mais alto que o outro, com um cabelo bagunçado curto e o que parecia ser o pedaço de uma faixa colada na sua cabeça. Este parecia tão quanto, ou mais enérgico que o ruivo.
- Oliver, esses são Bruno e Estevão. Vão entrar pra oitava assim como a gente. — Oliver cumprimentou os dois com certa timidez, e o segundo garoto se aprontou a falar. – Prazer, Mick Jagger, eu sou o Estevão! Curtindo a cerimônia de abertura? Provavelmente não, né, a coordenação vai dar uma dor de cabeça terrível esse ano.
Todos passaram algum tempo ouvindo as normas, exceto o Estevão, que permanecia impaciente e vez ou outra saía pra cumprimentar outros novatos ou alunos antigos. A partir desse momento Oliver já sentiu certa expectativa quanto ao ano letivo. Talvez não fosse tão ruim.
- E aí, já avistou alguma garota bonita? — Perguntou Bruno a Oliver com um sorriso de canto, mostrando o aparelho. Oliver rondou a multidão com um olhar, e parou em uma garota quieta de cabelos encaracolados em meio a uns rapazes que provavelmente seriam do segundo grau. Neste círculo estava o mesmo punk com cara de sono que avistara no mercado. Um frio novamente percorreu sua espinha.
- A Laura? Esquece, cara. Ela é do segundo grau, apesar do tamanho. E já tem namorado. – Bruno apontou para o rapaz do mercado — Aquele punkzinho ali sonolento, o Leandro, é o meu vizinho. Ela sempre vai à casa dele nos finais de semana. Deve ser tão podre quanto o cara.
- Meus pais conhecem a mãe dele. Ouvi deles que o miserável até causou um pequeno incêndio aqui na escola quando chegou. Não foi punido porque o pai é militar. – Falou Lucas, com um sorriso aberto no rosto.
Oliver até certo ponto parou de dar ouvidos aos dois. Estava imerso em sua imaginação, e de olhos fixados na garota. Era pálida, parecia tão frágil quanto uma boneca porcelana. Oliver decidiu que queria conhecê-la. Lucas olhou-o com atenção, e seu sorriso se abriu mais ainda.
- Depois nós iremos resolver isso, brother. – Concluiu o ruivo, deixando Oliver com um leve mau pressentimento.
O toque para a aula tocou, e os alunos foram acompanhados dos professores para as respectivas salas. Apenas os alunos do segundo grau permaneceram embaixo. Oliver subiu junto de Bruno, Lucas e Estevão, que conversavam sem cessar. Se sentiu um pouco deslocado, era no mínimo enfadonho estar perto de gente tão extrovertida.
- Bruno, cê que tem contatos aqui dentro, vai ter algo de importante agora? – Perguntou o ruivo.
- Nada de mais, acho. Meu irmão entrou ano retrasado, e disse que a primeira aula é algo mais tranquilo. Tipo, dinâmica de grupo, conhecer os alunos, fazer algumas brincadeiras e coisas assim. – Respondeu o garoto franzino.
- Entendi — Disse Lucas, coçando a sobrancelha direita.
- Bruno, Estevão, podem ir subindo que tenho algo a tratar com Oliver. – O cabeça de fogo deu uma piscadela para os dois garotos, que assentiram e acompanharam o resto da classe. Lucas desviou-se do caminho para a sala puxando Oliver pela mão. O garoto começou a desconfiar.
- Er... O que cê tá fazendo, Lucas? O professor vai dar a apresentação, precisamos estar lá – Lucas ignorou Oliver, o levando para dentro do banheiro masculino, que se encontrava à direita do saguão da escola. Lá retirou a bolsa das costas e pareceu procurar algo de lá de dentro.
- Cara, é sério, é melhor... – Lucas interrompeu Oliver, puxando de dentro da bolsa um conteúdo enrolado em um papel. – Olha bem pra isso, Oliver. – Disse Lucas com um ar de expectativa. – Isso é a sua passagem só de ida pro mundo da fama!
- Eu realmente quero entender o que você quer dizer, mas – Lucas cortou-o novamente – Não pergunte, não fale. Só faça. Você quer faturar aquela garota, não é? Vai precisar muito mais do quê um pequeno incêndio de punkzinho frango. Eu tenho três bombas rojão aqui. Plante em um dos boxes do banheiro.
Oliver abriu a boca em desespero para tentar corrigir Lucas, embora em vão. Lucas acendeu impaciente as bombas com um fósforo que tirou do bolso após ver a reação do garoto.O ruivo saiu às pressas de volta para a sala, deixando as bombas rojão prontas perto de um dos boxes. Oliver não teve nenhuma alternativa a não ser sair do banheiro para evitar se ferir.
- Mau dia, mau dia! – Falou o garoto para si mesmo enquanto tentava se esconder no saguão, até o momento que se ouviu o barulho estrondoso. “POU!”
Os alunos do segundo grau voltaram o olhar para o garoto, após perceberem que a explosão viera do banheiro masculino. As falhas no plano de Lucas eram inúmeras ao ver de Oliver. Seria um mau começo tentar se safar dessa sendo ele alguém tão inseguro e desprovido de astúcia. Seu pai não era militar, seria só ele sozinho tentando driblar o problema. Estava com o corpo inteiro suando, e com os olhares voltados para o mesmo, inclusive os dos punkzinhos e da garota. Nossa, eram bastantes testemunhas para depor contra ele! Seu primeiro dia estava arruinado. Tão arruinado quanto provavelmente o boxe do banheiro.
- O QUE É ISSO?! – O diretor chegou com a fúria de mil sóis, perscrutando o local em busca do responsável pela tragédia. Oliver percebeu como imensurável era o problema ao ver o estado do diretor: molhado, sujo e com o terno queimado.
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